10ª Etapa – LUMINOSA/MG à CAMPOS DO JORDÃO/SP – 36 quilômetros

10ª Etapa – LUMINOSA/MG à CAMPOS DO JORDÃO/SP – 36 quilômetros

“Porquanto tão encarecidamente me amou, também eu o livrarei; pô-lo-ei em retiro alto, porque conheceu o meu nome.” (Salmo 91, Versículo 14, da Bíblia Sagrada).

 

Dona Ditinha estava com os dois netos sob sua responsabilidade, porquanto sua filha e o genro trabalham, atualmente, em Pouso Alegre, distante 40 quilômetros, e só retornam ali para passar o final de semana.

Assim, sabendo da dificuldade de conciliar o sono das crianças com suas obrigações de hospitaleira, eu a isentei de levantar a tempo de me servir o café da manhã, posto que pretendia sair bem cedo.

No entanto, qual não foi a minha surpresa, quando ao descer para o primeiro andar, a fim de apanhar as bananas que havia solicitado para levar no trajeto, e encontrar o Sr. Nilton preparando um espesso e oloroso café, já com a mesa pronta para eu me servir.

Isto sim é hospitalidade, entender o peregrino como um ser especial, que necessita praticar horários diferenciados para conseguir cumprir com êxito sua jornada do dia.



Enquanto aguardava a água ferver, resolvi compulsar o Livro de Visitas que havia assinado no dia anterior e, para minha surpresa e alegria, verifiquei que passara por aquele local em 2012, no dia 23/09, quando gravei meu registro ali sob o número 8201.



E, no dia anterior, 21/08/2013, assinalara minha presença com o número 9786, ou seja, em 11 meses, 1.585 peregrinos haviam estado aquele local e anotado seu nome naquele cartapácio.

Ainda, como bem me explicara Dona Ditinha no dia anterior, não são poucos caminhantes que transitam por aquela vila, sem adentrar em sua Pousada, por desconhecimento ou pressa.

Então, é possível inferir que o número real de peregrinos que percorreram o Caminho da Fé nesse interstício, seja bem maior do que aquele ali exposto, mais uma prova de que esse roteiro abençoado está a cada ano que passa, mais divulgado e concorrido.



Bem, depois da lauta refeição matutina e efusivas despedidas, eu deixei o local de pernoite, quando meu relógio assinalava 5 h 10 min.

Na sequência, segui pela única rua da vila, deserta e silenciosa naquele horário.

Galos já cantavam, anunciando a aurora próxima, quando findou a iluminação urbana.

Em seguida, transpus pequeno riacho por uma ponte e acessei uma larga estrada de terra, com minha lanterna em punho, embora no céu, uma enorme e brilhante lua cheia deixasse tudo luzente ao meu redor.

O percurso inicial, bem sinalizado e sempre em ascendência, me levou depois de 45 minutos e 4 quilômetros percorridos, em bom ritmo, a passar pela Pousada de Dona Inês, que acabara de servir o café da manhã aos 3 peregrinos de Vinhedo, que já haviam partido.

Os demais seguiriam mais tarde, de carro, diretamente para Campos do Jordão, se poupando dessa dura etapa, que, literalmente, é necessário “escalar” a serra da Mantiqueira em seu ponto nevrálgico.


Sr. Pedro, Dona Inês e filha, na sua Pousada, localizada na Serra da Mantiqueira/MG

Parei alguns minutos para dialogar com Dona Inês, depois pude fotografá-la, juntamente com o Sr. Pedro, seu marido, bem como sua filha.

Trocamos saudações na partida, segui adiante e, depois de atravessar uma porteira, enfrentei ríspida encosta, que fui vencendo com esforço e alacridade, vez que o clima se encontrava fresco e úmido, excelente para caminhar.



Mais acima, transitei pelo bairro Quilombo, situado a 1.300 metros de altitude, onde pude refazer minha opressa respiração, pois, especificamente, nesse local existe um pequeno trecho plano.

Na sequência, voltei a ascender com violência e, às 7 h 15 min, 8 quilômetros percorridos, atingi o local da divisa dos Estados e, retornei definitivamente às terras paulistas.


Entre os peregrinos Jair e Donizete Lopes, de Vinhedo/SP

Uma agradável surpresa me aguardava nesse lugar, pois ali encontrei os Srs. Lole, Jair e Donizete, bravos peregrinos vinhedenses, que faziam uma pausa para descanso, aos quais também me juntei.


Placa dos 100 quilômetros restantes, próximo do distrito de Campista/SP

Depois, prosseguimos juntos, já em descenso, e logo nos detivemos junto a placa dos 100 quilômetros restantes, para mais uma histórica foto.

Esse encontro foi bastante agradável, pois durante os poucos minutos que caminhamos juntos, pudemos trocar informações sobre as experiências de cada um, planos e objetivos para o futuro.

Também para mim foi gratificante conversar enquanto caminhava, já que havia dias vinha progredindo numa jornada integralmente solitária.



Infelizmente, em razão da velocidade que eu vinha empreendendo, acompanhá-los representaria reduzir bastante essa dinâmica, assim preferi seguir à frente deles e me despedi, não sem antes garantir que nos encontraríamos à tarde no albergue de peregrinos.

Assim, cada um seguiu a seu ritmo e acabei por me distanciar do pessoal, prosseguindo escoteiro até atingir a rodovia que segue em direção a Campos do Jordão.



Eu girei à esquerda e depois de atingir o ponto culminante do Caminho da Fé, a 1.810 metros de altitude, passei a descender, e logo transitei diante da Pousada Barão Montês, localizada ainda em terras do Município de São Bento de Sapucaí.

Fiz ali uma pausa estratégica para fotos e hidratação, depois prossegui animado, pois dia se encontrava nublado e um vento frio varria o entorno, propiciando um clima ideal para caminhar.



Depois de grande declive, ultrapassei o limite de municípios, adentrei no de Campos do Jordão, e deixei o asfalto, segui à direita e, após ultrapassar algumas casas ali existentes, situadas no bairro Campista, voltei a adentrar numa larga estrada, situada em meio a mata nativa.



Por ela segui ascendendo por mais 5 quilômetros, até atingir a zona urbana.

Mas ainda precisei sobrelevar 10 quilômetros duríssimos, até atingir o centro da urbe, para depois prosseguir em direção ao Refúgio dos Peregrinos, onde cheguei quando meu relógio marcava 13 h 30 min.

Rapidamente, tomei banho, depois fui almoçar no Sergio’s Restaurante, onde realmente a qualidade da refeição é excelente.

Porém, diferentemente daquilo que vinha dispendendo nas cidades mineiras, o preço foi bastante salgado, afinal, eu estava na tão propalada “Suiça Brasileira”.

À tarde, estive no bairro Capivari matando saudades, depois fiz uma grande faxina no interior de minha mochila, visando reduzir seu peso ao máximo, pois a jornada sequente seria bastante longa.


Com a simpática Bianca, no Refúgio peregrino de Campos do Jordão/SP

À noite, a Bianca preparou um jantar comunitário onde todos participaram, pois estávamos em 11 pessoas nesse dia no “Refúgio dos Peregrinos”.


Jantar comunitário, no Refúgio Peregrino de Campos do Jordão/SP

E logo depois da lauta refeição fui dormir, pois iria sair muito cedo na manhã imediata.

Na verdade, ao me dirigir ao quarto, estava bastante apreensivo com a jornada seguinte, em face da grande extensão que pretendia percorrer, bem como porque ainda sentia dores agudas nos joelhos e pés, em face da dura etapa vivenciada no dia.

Contudo, quando deitei na cama naquela noite, perdi pouco tempo com preocupações, porque a fadiga baixou sobre mim, pesada e inescapável como o frio da madrugada, e caí rapidamente no sono.

Mas, nem tudo são flores na belíssima cidade de Campos do Jordão, assim, veja abaixo, uma crônica postada recentemente, cujo autor, um jornalista, lá reside:

 

SUÍÇA BRASILEIRA ?



Há 10 anos, entrevistado pela grande imprensa paulista, o professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, Eduardo Yazigi, autor do livro “Alma do Lugar”, fez uma apreciação crítica sobre a identidade de Campos do Jordão. Disse ele que o turismo só pode fazer sentido, como o encontro de diferenças, como por exemplo: “Se vem a Paris é porque é diferente de São Paulo”. A Capital francesa é exemplo de cidade feita para o cidadão e não para o turismo e que por isso mesmo se tornou atração turística. Campos do Jordão, na sua visão, é um caso oposto, porque a diretriz recente de prefeitos e vereadores tem compactuado com o professor considera “a mentira de Suíça Brasileira”. Alega o mestre que se trata de mentira dupla, por imitar traços culturais alheios e por escamotear disparidades sociais inexistentes na Suíça. Ele diz: “todo lugar tem sua alma. Essa alma é feita por todo o mundo físico e pelo que não parece no físico, mas que faz, por exemplo, que uma Catedral e um prédio da Bolsa de Valores, com o mesmo estilo neoclássico, despertem sentimentos diferentes. O que faz a alma do lugar é a paixão do homem por ele, de geração em geração. 



As periferias das grandes cidades são lugares sem alma. Não há condições para que seus moradores tenham vínculo afetivo com o lugar perverso em que vivem. Nós estamos nos modificando pelo lado perverso da globalização. Destruímos toda nossa herança cultural e arquitetônica. O que sobrou como identidade física? É a geografia física. Não globalizo a Serra do Mar; ela continuará diferente da Floresta Negra alemã.” A apreciação do professor é ácida: “Turismo é incompatível com miséria. Não adianta você ter um hotel cinco estrelas e o turista sair à rua e ser assaltado, assassinado ou dar com a cara com uma favela, que, no caso de Campos do Jordão, está virando as montanhas. Quando você sai do bairro Abernéssia em direção ao Palácio do Governo, vê um mar de favelas. Não acho que a arquitetura deva imitar o resto do mundo com uma subserviência cultural. O bairro de Capivari, por exemplo, é, escandalosamente, uma tentativa de imitar a Suíça. Isso é uma mentira. Os turistas europeus que vem aqui são muitos discretos em não debochar da nossa cara. A verdadeira identidade de Campos do Jordão está nos bairros de Abernéssia e Jaguaribe. Já em Capivari, as pessoas tem que botar madeirame nas fachadas para que estas pareçam suíças. Começaram a cultuar tanto a imagem de “lugar do frio” que, quando não tem frio, as pessoas não vão lá, ao contrário das montanhas da Europa. Então, começam a inventar festivais de tudo no resto do ano porque os hotéis fecham. Quisera Deus, Campos do Jordão tivesse os padrões suíços. Suíça Brasileira com favela, com lixo acumulado na rua, sem escolas, nem hospitais? 



Campos do Jordão ainda tem lugares de uma beleza excepcional, sobretudo, na área rural. Não que eu ache feio o que está em Capivari. Só que é uma mentira, até porque adota uma arquitetura do século 19. A Suíça de hoje não é essa. Bariloche (Argentina) que teve efetiva ocupação alemã, não cai nesse simulacro. Em toda Serra da Mantiqueira, inclusive em Campos do Jordão, ignorou-se solenemente toda inspiração que poderia vir da arquitetura colonial e até da caipira, que hoje é de uma beleza e simplicidade enormes.” Permitimo-nos fazer um reparo à análise do ilustre professor. A legenda “Suíça Brasileira” não é uma diretriz recente de prefeitos e vereadores. Como escrevemos em “História de Campos do Jordão”, livro esgotado, essa aureola foi criada no século 19, em 1841, pelo Dr. Domingos Jaguaribe quando escrevia no Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro, exaltando a natureza jordanense. Quem sabe, em 1891, Campos do Jordão era semelhante à Suíça? 

(crônica publicada no site: www.pedropaulofilho.com.br)


11ª Etapa – CAMPOS DO JORDÃO/SP à APARECIDA/SP – 49 quilômetros