11ª Etapa – CAMPOS DO JORDÃO/SP à APARECIDA/SP – 49 quilômetros

11ª Etapa – CAMPOS DO JORDÃO/SP à APARECIDA/SP – 49 quilômetros

“Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia; dela o retirarei, e o glorificarei.” (Salmo 91, Versículo 15, da Bíblia Sagrada).

 


A jornada seria longa e árdua, assim, às 4 h já estava em pé, me preparando para a derradeira etapa de minha peregrinação.

O pessoal de Vinhedo e São João da Boa Vista faria o mesmo trajeto naquele dia, porém iriam sair às 7 horas e seguiriam numa Van alugada até o Horto, com pernoite previsto na Pousada Monte Verde, localizada ao pé da serra, e próximo do distrito de Pedrinhas/SP.

Assim, não os veria mais, fato que também me entristeceu.

Porém, me lembrei de que o essencial é seguir em frente, e considerar minha “viagem” como uma peregrinação, para acreditar no ser humano e compreender os encontros e os aprendizados deles decorrentes, como uma grande escola.

Porque, com certeza, a maior riqueza da jornada é a rede de amigos que cativamos ao longo do percurso.

Eu havia combinado com um taxista para buscar-me no local de pernoite e, pontualmente, às 4 h 50 min, ele ali aportou.

Seguimos por ruas ventosas e vazias, onde os termômetros alocados em diversos trechos da cidade, estampavam temperaturas que oscilavam entre 5 ºC e 7 ºC.

Nada de assustar, pois estávamos em pleno inverno, e eu me encontrava muito bem agasalhado.

Finalmente, depois de 16 quilômetros, o veículo me deixou defronte ao portão principal do Horto Florestal, onde paguei o motorista, depois fiz uma pausa para orar pedindo proteção na trilha.



Pude, ainda, fotografar uma placa ali existente do Caminho de Aparecida, onde consta que restam 45 quilômetros até a Basílica de Aparecida, porém tal dado está um tanto incongruente, como se verá mais adiante.

Era, exatamente, 5 h 15 min, quando iniciei minha solitária caminhada, munido de minha inseparável lanterna que, ao lançar fachos circuncêntricos, parecia um farol a iluminar o ambiente à minha frente.

Sempre em perene ascenso, primeiramente passei diante de uma pequena vila composta por casas de tábuas, onde reside o pessoal que trabalha no Horto Florestal.

Esse trecho é todo cercado por mata nativa, composta por uma rica vegetação, formada por trechos remanescentes da Mata Atlântica (incluindo araucárias nativas com centenas de anos de idade), além de uma extensa área de reflorestamento constituída de pinheiros e eucaliptos.

Boa parte da mata original está hoje sob proteção governamental e constitui a Área de Proteção Ambiental (APA) Fernão Dias.

E, essa grande quantidade de vegetação favorece a existência de várias espécies animais, em especial pássaros, de diversos tipos e, principalmente, esquilos.



Cinquenta minutos depois, aproximadamente 4 quilômetros vencidos em ótimo ritmo, passei diante do Mirante do Pau Arcado, mas devido a escuridão, foi impossível fazer fotos no local.

Prosseguindo, passei por um trecho que fora vítima recentemente de um incêndio, pois além do solo calcinado, ainda o odor da madeira queimada era sentido intensamente.



Com o dia já claro, às 6 h 30 min, fotografei uma placa afixada num mourão, informando que restavam ainda 38 quilômetros até o aporte a Aparecida, um dado que se mostrava concorde com meu ritmo de deslocamento, algo entre 5/6 quilômetros por hora.

Na sequência, passei diante da entrada para o Mirante São José dos Alpes, ladeei por um bom tempo a divisa da Fazenda Lavrinhas, até, finalmente, sair num local denominado “Ponto de Encontro”, intersecção que une as duas variantes do Caminho de Aparecia.

Meu relógio marcava 7 h 30 min, mas a placa ali inserta, dizia que ainda restavam os mesmo 38 quilômetros até Aparecida, ou seja, o trecho que caminhei durante uma hora, estranhamente, não fora computado nessa extensão do Caminho.



Por isso mesmo, infiro ter esse trecho uma quilometragem bem maior do que aquela aposta na placa que encontrei diante da portaria do Horto Florestal de Campos do Jordão.


Vista do distrito de Gomeral desde o alto da serra, na Estrada de Pedrinhas, Guaratinguetá/SP

Prosseguindo, mais baixo, passei diante da portaria da Pousada Santa Maria da Serra, depois, principiei a descender, de forma brusca e perigosa, pois esse trecho contém muitas pedras e declives terríveis, que fui vencendo com muito cuidado e atenção.



Nesse patamar, fui ultrapassado por um grupo de cavaleiros, composto de 6 pessoas e alguns cavalos reservas, que também seguiam em direção ao Santuário de Aparecida, e me cumprimentaram com alegria e curiosidade.



Quando, por um momento, o caminho se nivelou, transitei pelo distrito de Gomeral, cuja sede é Guaratinguetá/SP.


Vista da serra oposta, foto batida desde o distrito de Gomeral

Trata-se de um local belo e muito procurado atualmente por turistas.

Prosseguindo, mais abaixo, adentrei em asfalto e, por ele, às 10 h 30 min, cheguei à Pousada do Sr. Agenor, onde fiz uma pausa para cumprimenta-lo e aproveitei para me hidratar.

Muito simpático, ele fez questão de me servir um café, depois disse que um grupo de cavaleiros também se dirigia à Aparecida, o mesmo com quem eu conversara no alto da serra.


O Senhor Agenor, defronte à sua Pousada, em Pedrinhas/Guaratinguetá/SP

Inclusive, já haviam lhe contado que um peregrino se aproximava, por isso ele estava a me aguardar.

Então, atendendo ao seu convite, parei alguns minutos em seu bar para ingerir café e conversar sobre o roteiro que eu estava percorrendo.

Evidentemente, meu corpo pedia para que eu pernoitasse naquele local simples, mas extremamente acolhedor, contudo, eu tinha compromissos que precisavam ser honrados.

Dessa forma, quando definira meu cronograma de viagem, apesar dos riscos inerentes à toda aventura, sabia que aquela seria minha derradeira jornada, pois, infelizmente, em face de compromissos anteriormente assumidos, viajava premido pelo açoite do tempo.

Assim, hidratado e bem disposto, me despedi de meu anfitrião, depois prossegui em frente.

E foi extremamente difícil vencer esses 22 quilômetros faltantes, porquanto, o sol estava abrasador, meus pés doíam, mas eu me sentia estimulado ao saber que iria me reencontrar com minha Mãe Maria.

No entanto, gosto de dizer que nessas horas amargas e aflitivas, eu conjugo o verbo “encaramujar”, ou seja, eu ligo o “piloto automático” para minhas pernas e me concentro em algum tipo de oração ou no sonho de chegar.


Igrejinha localizada no distrito de Pedrinhas/Guaratinguetá/SP

Com isso, embora as horas passem lentamente, não me desgasto em termos emocionais, simplesmente eu aceito minha missão, e prossigo adiante, sem queixumes ou desespero.

Foi também um bom momento para eu fazer uma retrospectiva sobre a minha peregrinação, como um todo, assim, analisei cada jornada e, aproveitando a ocasião, lembrei e orei intensamente pelas pessoas que me auxiliaram ou solicitaram bênçãos Marianas.

Nesse pique, demorei ainda 4 h e 30 min para o aporte final, e não foi nada fácil, pois quando restavam 9 quilômetros até a Casa da Mãe Maria, passei a caminhar sobre asfalto, onde o desgaste físico é bem maior.

Por conta disso, senti fortes dores no músculo adutor da perna esquerda, algo que muito me preocupou, pois principiei a mancar perigosamente, desestabilizando meu equilíbrio.

A tarde avançava rapidamente e, com ela, o cansaço físico e mental.

Na verdade, poucas experiências se comparam a uma caminhada dessas, que nos coloca em íntimo contato com nossas fronteiras.

Felizmente, quando as dores se intensificaram, eu já estava transpondo o rio Paraíba do Sul, por uma velha ponte, onde só transitam pedestres e ciclistas.

E, então, meu ânimo sombrio foi amenizado ao visualizar, a três quilômetros de distância, o complexo da Basílica de Aparecida.



Nesse trecho final, sonhava em avistar a imagem da Mãe Maior, mas também ansiava por um banho refrescante e uma refeição substanciosa, acompanhada por uma cerveja bem gelada.

Novamente, estava desafiando, não sei o porquê, o limite de minha resistência.

Há um provérbio que sempre me acompanhou: “Onde existe uma vontade, existe um caminho”, frase cunhada pelo célebre dramaturgo irlandês Bernard Shawn.

E eu estava ciente de que, um dos maiores recursos do homem é, exatamente, a força de vontade.

Nesse dia, tenho certeza, cheguei perigosamente a meu limite, vez que pés e joelhos quase não obedeciam aos meus comandos.

Sem uma refeição consistente desde que saíra pela manhã, sentia calafrios a percorrer meu corpo, câimbras nas pernas e muitas dores na altura das costelas.

Movia-me a perseverança, através de uma frase que me vinha à mente, sem cessar: "Somente aquele que tem coragem de caminhar, é que vive na certeza de chegar".



Finalmente, ainda que profundamente debilitado, às 15 h 30 min, eu me encontrava diante da imagem milagrosa de Nossa Senhora Aparecida, algo que ansiara durante todo o roteiro.

O Caminho da Fé havia sido vencido, e meu sonho de percorrê-lo integralmente, se cristalizava naquele instante.

Um sentimento estranho subiu à minha garganta, eu estava bastante extenuado e isso me enfraquecia, mas senti lágrimas em meus olhos.

Então, com o olhar perdido na figura de Maria, fiz minhas preces, depositei mentalmente meus pleitos e, profundamente emocionado, me senti jubiloso por conseguir superar mais esse desafio.

Concernente ao fato, diria que esse “reencontro” com a Mãe Maior foi um momento de intimidade simples, sem palavras, a comemoração muda de meu sucesso, porém mais memorável e emocionante do que uma manifestação ruidosa com aplausos.

Tinha “viajado” pelo caminho por 11 dias, o que é muito ou pouco, dependendo da perspectiva de cada um, e, apesar da improbabilidade de minha empreitada, conseguira encerrar minha peregrinação a bom termo, sem acidentes ou intercorrências graves.



Findos os louvores e agradecimentos, fui à Secretaria da Basílica buscar meu Diploma do Caminho da Fé, depois me hospedei num hotel próximo.

Após um revigorante banho, me dirigi ao Centro de Apoio aos Romeiros, com a finalidade de ingerir um lanche, em face do adiantado da hora.

No retorno, com as mãos nos bolsos, integralmente absorto, caminhei a esmo pelas enormes dependências do Santuário em busca do eixo original da minha vida, tão insignificante diante da extraordinária sensação de vitória que acabara por experimentar na chegada.



No dia seguinte, participei da vibrante missa das 9 horas e, em seguida, coração opresso e com a fé reavivada, retornei ao meu lar.


FINAL