1ª Etapa – MOCOCA/SP à SÃO JOSÉ DO RIO PARDO/SP – 24 quilômetros

1ª Etapa – MOCOCA/SP à SÃO JOSÉ DO RIO PARDO/SP – 24 quilômetros

“Porque ele te livrará do laço do passarinheiro, e da peste perniciosa.” (Salmo 91, Versículo 3, da Bíblia Sagrada).


Seria uma etapa relativamente curta, mas o clima estava seco e quente, com baixa umidade na atmosfera, prevista para depois das 10 horas.

Assim, calmamente levantei às 5 h, me preparei para a jornada do dia e, às 5 h 45 min, tomei uma xícara de café, que o porteiro noturno havia preparado.

Antes de partir, fiz uma prece, depois, reflexivo ante o porvir, concluí que meu Caminho dependeria das bênçãos divinas.

Mas, também e, preponderantemente, de meu esforço e dedicação, de decisões minhas e não de terceiros, e me sentia forte fisicamente e suficientemente capaz de solucionar os problemas que porventura surgissem.

Então, bem disposto e animado, deixei o local de pernoite, exatamente, às 6 horas, sob uma temperatura de aproximadamente 10 ºC, quando o dia ainda não havia clareado.

Por precaução, portava minha potente lanterna de “led”, mas, nos primeiros metros fui auxiliado pela feérica iluminação urbana, e não precisei utilizar meu equipamento.



Logo acima, passei diante da igreja dedicada à Nossa Senhora Aparecida, que está edificada em praça homônima, acessei a Estrada Municipal Dr. Gentil Ferreira da Silva e, numa bifurcação, prossegui à direita.

Integralmente sozinho na estrada, respirei em profundidade o ar gelado, para que meu corpo exorcizasse o calor, o conforto, a insegurança, e se adequasse aos rigores de minha peregrinação.

Muitos sinais se espalharam por minhas terminações nervosas, expandindo e contraindo os vasos sanguíneos e os capilares – tudo em busca de um novo equilíbrio.

Quase em seguida, fui tomado por um estado de alerta familiar, alegre e vibrante.

Ademais, me sentia integralmente livre de amarras, e como se a cada passo, estivesse deixando para trás as cadeias colocadas à minha volta pela sociedade.

Depois de uns trezentos metros percorridos, para minha surpresa e inquietação, um carro que vinha ao meu encontro, buzinou forte e alto, depois prosseguiu em direção à cidade.

Uns dez minutos depois, o automóvel retornou, seu condutor se apresentou como Sr. José Irani, reduziu a velocidade do veículo, disse que já havia feito o Caminho da Fé algumas vezes, e seguimos juntos conversando.

Ele afirmou que levara sua esposa ao trabalho e na volta não resistira à vontade de palestrar com os peregrinos que partem de Mococa, como faz amiúde.

Depois, fez um resenha sobre suas experiências peregrinas, inclusive me relatou que já havia percorrido o Caminho de Santiago em 2008, um marco especial em sua vida.

Posteriormente, discursou sobre seus sonhos, trabalho, filhos e netos.

Foi uma conversa extremamente proveitosa e agradável, e muito me alegrou, afinal eu estava iniciando mais uma “viagem” à Aparecida, assim, nada como dialogar com alguém que já passou pelas mesmas circunstâncias e que, graciosamente, vinha me desejar um “Bom Caminho!”

Dois quilômetros depois, quando o asfalto se findou, bem ao lado do sítio São Sebastião, nos despedimos emocionados.



Então, ele fez meia volta com seu veículo e eu prossegui adiante, agora em terra.

Bem, novamente solitário, voltei meus pensamentos para a aventura que estava encetando e, quase ao mesmo tempo, senti uma pontada de preocupação quanto ao resultado final.



Por mais que me lembrasse da sábia frase que diz: a melhor maneira de cumprir um longo percurso é dando um passo de cada vez.



É certo que, não deixava de ser intimidante pensar em todo o “trabalho” que teria pela frente.

No meu cérebro, instantaneamente, interruptores se ligaram e os temores quanto à viabilidade de minha “viagem” foram substituídos pela catarse purificadora do movimento.

O caminho estava muito bem sinalizado e prosseguiu, quase sempre, entre grandes pastagens destinadas a criação de gado leiteiro.



Contudo, em termos altimétricos, esse primeiro trecho seguiu sempre em lenta ascensão, entremeando pequenos patamares planos com novas aclividades.

Por ser meu primeiro dia no caminho, inevitavelmente, resíduos de imagens e pensamentos urbanos agitavam-se na minha mente, mas o crânio não era forte o suficiente para retê-los, e eles escapuliam entre a natureza e o céu infinito, como o ar que sai de uma bola furada.



Assim, depois de 7 quilômetros vencidos, eu transitei ao lado de uma grande plantação de cana-de-açúcar, algo inédito para mim, pois na outra vez que percorrera esse ramal, em 2006, se bem me lembro, tal tipo de cultura ainda não havia chegado a essa região.

E, no final de grande ascensão, passei ao lado de um grande cafezal, uma extensa plantação que eu também não me lembrava de ter avistado quando por ali passara.



A temperatura subia com rapidez à medida que o sol de agosto galgava o céu sem nuvens.

Finalmente, depois de 11 quilômetros percorridos, eu adentrei à direita, contornei um grande lago, principiei a ascender novamente e, então, encontrei grandes plantações de cebola sendo irrigada, mecanicamente, através do equipamento denominado “pivô central”.

Nesse sistema, uma área circular é projetada para receber uma estrutura suspensa que, em seu centro, recepciona uma tubulação e, por meio de um raio girante em toda área circular, a água é aspergida sobre a plantação.


Interessante ressaltar que o primeiro pivô central foi construído em 1948, e em 1949, seu inventor, Frank L. Zybach, submeteu o invento para ser testado e finalmente patenteado em 1952, no Estado do Colorado nos Estados Unidos

Este girava acionado por mecanismos de pistões movidos hidraulicamente pela água.



Modernamente, os pivôs funcionam da seguinte forma: a tubulação que recebe a água de um dispositivo central sob pressão, chamado de ponto do pivô, se apoia em torres metálicas triangulares, montadas sobre rodas, geralmente com pneus.

As torres movem-se continuamente acionadas por dispositivos elétricos ou hidráulicos, descrevendo movimentos concêntricos ao redor do ponto do pivô.

O movimento da última torre inicia uma reação de avanço em cadeia de forma progressiva para o centro.



Em geral, os pivôs são instalados para irrigar áreas de 50 a 130 ha, sendo o custo por área mais baixo à medida que o equipamento aumenta de tamanho.



Finalmente, depois de 13 quilômetros percorridos, encontrei uma frondosa árvore e ali pude fazer uma longa pausa para descanso, pois o sol já incidia com vigor.



Novamente refeito, prossegui ainda em ascensão, até que, acessei uma estrada plana, orlada por cercas vivas, que me ofereciam tímida sombra.

No tramo final, já em franco descenso, encontrei muito entulho e sujeira à beira da estrada, quase sempre fruto do descarte desordenado e irresponsável de apedeutas que se aproveitam do local ermo, onde não há fiscalização municipal.

Tal situação me fez tão mal, que acabei me lembrando dos versos e música de Francis Cabrel “Assis Sur Le Rebord Du Monde” (Sentado à Borda do Mundo): “Deus chorou ao ver o que os homens fizeram deste planeta.”

E o que vi no entorno me deixou assaz chocado e revoltado, pois se tratava de uma contundente agressão à natureza.

Afinal, onde estava o Poder Público, para coibir tal prática?

Eu estava propenso a fazer nova pausa para hidratação, mas devido ao mau cheiro exalado naquele trecho, preferi acelerar meus passos e deixar o descanso para mais tarde.

E segui meditando por alguns minutos sobre a imbecilidade de nossa espécie, neste acontecimento que bem poderia constituir um capítulo do livro de Pitkin (História da Estupidez Humana).



Logo à frente, por sorte, depois de 18 quilômetros caminhados, encontrei a rodovia asfaltada, que liga Mococa a São José do Rio Pardo.

Então, obedecendo às flechas amarelas, fleti à direita e prossegui em sentido contrário ao trânsito de veículos, que naquele horário, já estava bastante incipiente.

Mais dois quilômetros percorridos, sempre em desconfortável descenso, porque essa rodovia não possui acostamento, adentrei em zona urbana e, numa guarita situada num ponto de ônibus, fiz outra longa pausa para descanso e hidratação.

Depois prossegui ainda em descenso, e logo ultrapassei o rio Pardo, pela famosa ponte construída entre 1898 e 1901, sob a supervisão de Euclides da Cunha.



Aproveitei, então, para fotografar a famosa obra, e depois de mais alguns metros caminhados, desci à direita, por uma escadaria, para visitar a “residência” do famoso escritor.

Naquela humilde e rústica habitação, coberta por folhas de zinco, ficava o dedicado engenheiro de onde podia acompanhar de perto os trabalhos de reconstrução daquele elevado sobre o belo curso d’água que por ali discorre.

Após um dia inteiro no comando de centenas de homens, o engenheiro ainda tinha fôlego para escrever.

Talvez a vista do entardecer ao lado do rio Pardo tenha sido a grande inspiração para compor a sua obra mais conhecida: “Os Sertões”.

Após bater algumas fotos do belo monumento, hoje enclausurado sob uma redoma protetora, eu prossegui em frente e, depois de transitar por algumas ruas centrais, aportei ao Hotel Paulista, local onde havia feito reserva, quando meu relógio marcava 11 horas.

Após refrigerante banho e breve descanso, fui almoçar no Restaurante e Choperia Ranchão, de excelente qualidade.

 

Atualmente, com 53 mil habitantes, a cidade segue um ritmo intenso se levarmos em conta que estamos no interior do Estado, e parece que essa sua característica provém desde seu surgimento.

Porquanto, embora tenha sido fundada somente em 1865, em 11 de agosto de 1889, três meses antes da Proclamação da República, ressoou, projetando nacionalmente a Vila de São José do Rio Pardo.

O episódio teve seu prelúdio em junho quando membros da Sociedade Italiana XX de Setembro, infiltrada de republicanos, depois de uma festa de assentamento da pedra fundamental de sua sede, saíram às ruas, cantando e defrontando-se com monarquistas.

Houve agressão, confusão e envio de tropas.



Dois meses passados, depois de aparente paz, a contenda recomeçou, vez que na noite de 10 de agosto, o Hotel Brasil, do republicano Ananias Barbosa, foi atacado pela polícia, depois de uma reunião e homenagens ao pregador republicano e líder, Francisco Glicério.

Em represália, no dia seguinte, os cidadãos republicanos da cidade prenderam o subdelegado e apoderaram-se do edifício da Casa da Câmara e Cadeia, que representava a força e a lei, hasteando a bandeira revolucionária de Júlio Ribeiro, proclamando a República, sob o som da proibida Marselhesa.

E mantiveram-se no poder até a troca de regime, que ocorreu em 15 de novembro de 1889.

Por esta manifestação de apoio, a vila foi elevada à categoria de cidade, com o belo e sugestivo nome de “Cidade Livre do Rio Pardo”, cujo decreto foi assinado em 20 de maio de 1891, por Américo Brasiliense, o então governador do Estado de São Paulo.

Entretanto, a devoção ao santo fez voltar o seu antigo nome, São José do Rio Pardo.

 


À tarde, depois que o sol amainou, fui visitar a igreja matriz da urbe, cujo padroeiro é São José, uma construção do século XX, cuja inauguração ocorreu em 29 de maio de 1898.

Depois de me prover de víveres num supermercado e conferir o local por onde deixaria a cidade no dia seguinte, me recolhi um tanto preocupado.

Posto que em face da baixa umidade reinante e pela intensa poeira existente na atmosfera, sentia meus pulmões afetados, ocasionando tosse seca e muita sede.

E, com isso, estava com certa dificuldade para respirar, mormente quando, no seguinte, necessitava suplantar aclividades.

Dessa forma, optei por fazer um sóbrio lanche no quarto, ingeri uma dose de um medicamento broncodilatador, e logo fui dormir.


2ª Etapa – SÃO JOSÉ DO RIO PARDO/SP à SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA/SP – 25 quilômetros