2ª Etapa – SÃO JOSÉ DO RIO PARDO/SP à SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA/SP – 25 quilômetros

2ª Etapa – SÃO JOSÉ DO RIO PARDO/SP à SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA/SP – 25 quilômetros

Ele te cobrirá com as suas penas, e debaixo das suas asas te confiarás; a sua verdade será o teu escudo e broquel.” (Salmo 91, Versículo 4, da Bíblia Sagrada).


A jornada não seria de grande extensão, no entanto, a previsão metereológica indicava chuvas para o início da tarde, o que contribuiria imensamente para a mudança da qualidade do ar que eu vinha aspirando.

Assim, levantei às 5 h, depois de uma noite proveitosa, com sono profundo e reparador.

Como o café da manhã somente seria servido após às 6 h 30 min, ingeri algumas frutas e uma barra de chocolate, e deixei o local de pernoite às 6 h, quando os sinos da igreja matriz ainda badalavam anunciando o horário.


Depois de uma benéfica noite de sono, me sentia ativo, otimista e muito bem disposto.

Nesse sentido, é engraçado notar como o bem-estar não depende do conforto, da tranquilidade, mas simples e unicamente da sensação de ir em frente.

O percurso urbano estava muito bem sinalizado e não tive problemas para encontrar a saída da cidade.

Assim, mais acima, depois de contornar a Padaria Alvorada, acessei uma grande avenida e por ela segui uns 200 metros, quando principiou a cair uma forte pancada de chuva.

Pego de surpresa, pois não deixara minha capa protetora do lado externo da mochila, corri me esconder debaixo da laje de uma construção em andamento.



Dez minutos depois, assim que a tormenta passou, prossegui adiante e logo acessei uma estrada de terra, que me levou a caminhar entre grandes plantações de cana-de-açúcar.



Sete quilômetros percorridos em bom ritmo, eu ultrapassei uma porteira, e transitei diante de várias casas que pertencem à vasta Fazenda Vila Maria, onde o trabalho já era intenso naquele horário.



Pois, tratores, caminhões e imensas máquinas colheitadeiras se movimentavam pelo local, vez que estávamos em plena safra do café, a principal cultura que essa extensa propriedade alberga.



Eu prossegui em descenso, atravessei várias porteiras, depois transitei por um sítio, onde uma placa avisava que ali havia oferta de água potável para os peregrinos.

Efetivamente, uma torneira alocada em local estratégico oferecia tal dádiva, mas eu estava hidratado e bem fornido, de maneira que segui adiante.



Depois de acessar um pequeno caminho em descendência, num local ermo e silencioso, do qual eu detinha uma visão privilegiada de onde eu iria transitar em seguida, fiz uma pausa para descanso e ingestão de frutas.

Na sequência, já no plano, acessei uma larga estrada de terra, e prossegui à direita, ainda por 3 quilômetros.

No meio desse percurso, fui brindado com a beleza oferecida por vários pés de ipês amarelos que se encontravam em plena floração, o que me infundiu novo ânimo.



Vez que me senti agraciado com a felicidade de desfrutar da paisagem, rodeado por essas belíssimas flores silvestres.

Bem disse Rajneesh que “o botânico conhece sobre a flor, enquanto o poeta conhece a flor”.

Assim, absorvi naquele local, todo o encanto poético que o caminho me oferecia, envolto na pureza das flores que atingiram plenamente seu objetivo: serem apenas belas.



Prosseguindo em frente, depois de doze quilômetros percorridos, acabei por encontrar a rodovia que liga São Sebastião da Grama a Vargem Grande do Sul, que apresentava um expressivo fluxo de automóveis e caminhões.



Naquele local, obedecendo a sinalização, fleti à esquerda, e por um trajeto insosso e desconfortável, caminhei por mais 3 quilômetros, até encontrar uma flecha salvadora, me remetendo à esquerda.

Então, se iniciou a melhor parte do roteiro, pois acessei uma trilha situada entre espessa mata nativa, que me propiciou um feliz reencontro com a natureza selvagem.



Contrariando o que previra a meterologia para aquela data, visto que meu relógio marcava 9 h, o vento já soprava forte, balançando os galhos das árvores, e o céu coberto por densas nuvens, prenunciava borrasca iminente.



A senda foi empinando e, mais acima, prossegui ainda em forte ascendência, agora pelo meio de extenso cafezal, que pertence à Fazenda Boa Esperança.

Mais adiante, eu transitei diante de várias casas, onde residem os trabalhadores dessa propriedade, mas não ouvi nenhum som, sinal de que eles se encontravam na roça, empenhados na colheita do café, o principal produto plantado nesse sítio.



Prossegui ainda em forte ascendência, até atingir, finalmente o topo do morro, situado a 1.000 metros de altitude, depois passei a caminhar dentro de uma extensa plantação de cana.

O dia que se mantinha nublado escureceu rapidamente e, enquanto distraído eu fotografava o belíssimo entorno, fui surpreendido outra vez por forte pancada de chuva.

Por sorte, pude me esconder debaixo de frondosa árvore, onde rapidamente consegui envolver a mochila com sua capa, evitando molhar meus pertences.


Vista da Fazenda Império, desde o alto do morro, com a cidade de São Sebastião da Grama, ao fundo.

Cinco minutos depois, debaixo de tênue garoa, eu segui adiante e, logo no início de forte declive, pude fotografar abaixo, a espetacular Fazenda Império, tendo como pano do fundo, a uns 5 quilômetros de distância, a cidade de São Sebastião da Grama.



Eu prossegui em desabalado descenso, girei à esquerda no plano, passei diante da portaria da Fazenda Império e, depois de caminhar mais 2.500 metros, adentrei em zona urbana.

Próximo ao centro da cidade eu tomei informações com um transeunte, e logo aportava ao Hotel Lux, local onde fiquei hospedado.

Sua gerente, a Sandra, recebe os peregrinos com muita simpatia, e me disponibilizou um quarto amplo e confortável, onde fiquei bem acomodado.

Depois do banho e lavagem das roupas, fui almoçar no Restaurante Família Forti, o mesmo que utilizara em 2006, quando estivera nessa localidade, e que continua com a mesma excelente qualidade.

 

Pé de ipê amarelo florido, plantado na praça principal de São Sebastião da Grama/SP


São Sebastião da Grama é uma cidade pequena e tranquila, contando atualmente com aproximadamente 13 mil pessoas.

A agricultura é a base da economia do município, sendo sua cultura principal de café, hoje considerado um dos melhores do país devido aos prêmios recebidos nos últimos anos.

Muito bem cuidada e aprazível, 10% dos seus imóveis urbanos são utilizados para férias e veraneio, pela qualidade de vida que oferece aos seus habitantes.

Seu solo fértil e clima diferenciado acabaram por conquistar os primeiros mineiros que vieram residir na região.

Dessa forma, logo passou a ser também parada obrigatória dos tropeiros, afinal possuía excelente forragem natural, um lugar cheio de grama, daí seu nome.

Na minha modesta visão, a cidade me pareceu um presépio, de tão bonita e enfeitada, com suas ruas centrais assimétricas, limpas e organizadas, compostas de casas arejadas, floridas e com pintura recente.

 

Igreja matriz de São Sebastião da Grama/SP, dedicada a São Sebastião

Depois de uma bela sesta, saí para visitar a igreja matriz dedicada a São Sebastião, cujo término da construção ocorreu em 1908.


Interior da igreja matriz de São Sebastião da Grama/SP

Em seguida, fui até uma “lan house”, para dar notícias a meus familiares.

Na sequência, fiz um tranquilo giro pela praça principal da cidade, depois passei num supermercado, e logo me recolhi, pois a garoa voltou com intermitência, deixando as ruas úmidas, desertas, ventosas e frias.

Depois de um banho quente, percebi que meus pulmões ainda chiavam, e me senti um tanto preocupado quanto ao meu desempenho nas jornadas sequentes.

Desse modo, ao deitar, me veio à memória, sábio e trágico aforismo tibetano, que assim diz:

“A próxima vida ou o dia de amanhã: nunca se sabe qual virá primeiro!”


3ª Etapa – SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA/SP à ÁGUAS DA PRATA/SP – 44 quilômetros