3ª Etapa – SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA/SP à ÁGUAS DA PRATA/SP – 44 quilômetros

3ª Etapa – SÃO SEBASTIÃO DA GRAMA/SP à ÁGUAS DA PRATA/SP – 44 quilômetros

“Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.” (Salmo 91, Versículos 5 e 6, da Bíblia Sagrada).


Em princípio, eu pretendia pernoitar na cidade de São Roque da Fartura, que seria o final lógico desta etapa.

Contudo, como eu vinha caminhando solitário há dois dias, iria repensar tal projeto quando lá aportasse, pois tinha vontade de “descer” até Águas da Prata, para ver se encontrava novos companheiros.

Depois de uma noite fria e chuvosa, levantei às 4 h da manhã, muito bem disposto e animado, pois me deitara cedo no dia anterior, e fui aquinhoado com uma noite extremamente reparadora.



Assim, ingeri uma xícara de café às 5 h 15 min, que a prestativa Sandra solicitara ao porteiro da noite para que me deixasse pronto e, às 5 h 30 min, deixei o local de pernoite, seguindo em direção à praça central da cidade.

Ali, me reencontrei com as setas amarelas, acessei a Rua Francisco Vilella e prossegui subindo até que, 700 metros depois, iniciou-se uma estrada larga de terra batida.

Ainda estava escuro, de forma que segui com minha lanterna em punho, debaixo de muito frio e vento, porém eu estava bem agasalhado.



Lentamente o dia foi clareando e percebi que transitava por um roteiro levemente ascendente, situado entre grandes pastagens, onde o forte era o gado leiteiro.

Depois de 7 quilômetros percorridos, eu acabei por desaguar na rodovia que liga São Roque da Fartura à São Sebastião da Grama.



Então, seguindo a sinalização, eu girei à esquerda, caminhei por 500 metros à beira da pista, depois entrei à esquerda, numa larga estrada de terra, seguindo em direção ao sítio Boa Vista da Fartura.

A partir dali, eu prossegui por larga e movimentada via, onde a poeira e o tráfego de automóveis e caminhões era intenso em face do horário matutino, e por existir inúmeras propriedades colhendo a safra do café.



Mais à frente, passei pela Fazenda São Caetano e, após mais uma hora de caminhada, próximo da Fazenda São José, entrei à direita e, então, segui uma via vicinal muito arborizada e deserta.


Prossegui caminhando entre grandes plantações de cebola, cana-de-açúcar, milho e batata até que finalmente, às 8 h, passei dentro da fazenda São Bento, onde existe uma Pousada homônima.

Numa límpida fonte de água cristalina, situada junto ao muro da propriedade, fiz uma pausa para lanche, descanso e hidratação.

Segui por mais um quilômetro e logo encontrei novamente a rodovia que segue para São Roque da Fartura.


Um pé de ipê florido, próximo da Serra da Fartura/SP

Prossegui, então, caminhando pelo acostamento por uns 3 quilômetros, numa cadência insípida e desassossegada.

O sol já brilhava alto quando encontrei o caminho procedente de Vargem Grande do Sul, local exato em que os dois ramais do Caminho da Fé se unem.



E, 1.500 metros à frente, adentrei à direita, diante de uma altaneira árvore, acessando larga e ascendente estrada de terra.


"Escalando" a Serra da Fartura, próximo de São Roque da Fartura/SP

A partir daquele ponto já conhecia o roteiro de sobejo, pois havia passado por ele em 2005 e 2012, de forma que fui vencendo com calma os aclives e depois de sobrelevar o último morro, às 10 h, alcancei a rodovia que liga Águas a São Roque.

Fiz ali uma pausa reparadora para hidratação e ingestão de uma barra de cereal.

Prossegui, então, descendendo e, às 10 h 20 min, passei diante da Pousada Paina, que tem sido muito elogiada e recomendada pelos peregrinos que ali se alojaram.



Diante do portão da propriedade, o sítio Sobradinho, fiz uma breve pausa para bater uma foto e rever minha condição física.

Na verdade, apesar do sol, o dia permanecia extremamente fresco e ventoso, excepcionalmente agradável para caminhar, de forma que como ainda era muito cedo e não me sentia cansado, resolvi prosseguir em meu périplo.



Assim, mais abaixo, já em São Roque da Fartura, transitei diante da igreja de santo homônimo, onde observei intensa movimentação, em face dos preparativos para sua festividade, porquanto estávamos no dia 15 de agosto, e São Roque é comemorado no dia 16 do mesmo mês.

Na sequência, passei pela Pousada Cachoeira, onde minha credencial peregrina foi carimbada pela Dona Cida, de quem matei saudades, pois já me hospedara por 3 vezes naquele local, inclusive, em 2012.

Após a ingestão de um copo de água e calorosas despedidas, segui adiante, e logo acessei a rodovia que segue em direção a Poços de Caldas.

Mais quinhentos metros vencidos à beira do asfalto e adentrei à direita, seguindo em direção ao Mirante do Lajeado.



O percurso, já velho conhecido, me levou a transitar por locais extremamente belos e de exuberante vegetação, como vários pés de ipês floridos, que tive a alegria de admirar pelo Caminho.



Contudo, no trecho mais abaixo, infelizmente, encontrei as trilhas e estradas mal conservadas, grandes pastagens que viraram capoeira pela falta de ser roçadas, bem como muitas casas e ranchos de sítios se encontram vazios e abandonados.



Depois de um brusco descenso e da passagem pelo sítio Maravilhoso, ao acessar uma trilha campestre, pude ver, ao fundo e abaixo, a cidade de Águas da Prata, minha meta para aquele dia.

E, às 13 h 30 min, parei diante de um imponente Jequitibá-Rosa para fotografá-lo.

A árvore, de porte magnificente, faz parte de uma mata nativa a qual se atravessa após trilhar ao lado de duas grandes estufas utilizadas para cultivo de flores ornamentais, especialmente as orquídeas.

A partir desse patamar, já não tinha ânimo para observar as belezas naturais que o percurso oferecia, porquanto estava mais preocupado com minha sobrevivência, pois me sentia cansado, faminto e percebia que o sol forte, sugava minhas derradeiras energias.

Na verdade, 44 quilômetros de percurso é demasiado para um só dia, então, as pernas doem, a mochila incomoda, a tendinite se instala sorrateiramente, enquanto o corpo anseia por um banho e descanso.



Às 14 h, em franca descensão, caminhei bastante tempo por dentro de um vasto cafezal e, ao término deste, após um pequeno bosque, avistei a cidade de Águas da Prata, ao longe, fincada num bonito vale cercado de montanhas.

Mais alguns escorregões sofridos em um caminho pedregoso e erodido, sempre em áspero e duro descenso, acabei por sair em zona urbana.

E depois de mais 700 metros caminhados por ruas largas e movimentadas, me vi diante da Pousada do Peregrino, onde aportei às 14 h 30 min, extremamente estafado, em face da grande distância percorrida.

Ali fui muito bem recepcionado por Cláudia e Ariane, que de tudo fizeram para que minha estada naquele local fosse descontraída e repousante.

Depois de um rápido banho e lavagem de roupas, ainda consegui almoçar no Restaurante Prata, aonde aportei quase em seu fechamento, pois o estabelecimento cerraria suas portas às 15 horas.

 

Com as simpáticas "Secretárias" da Pousada Peregrina de Águas da Prata/SP: Ariane e Cláudia

Águas da Prata é uma cidade limpa, bem arrumada e ideal para veraneio, sendo também conhecida como um município hidromineral, pela quantidade de sais minerais existente em suas águas.

Sem nunca se esquecer, que foi nela que nasceu o Caminho da Fé, cuja inauguração ocorreu em 11/02/2003, dia de Nossa Senhora de Lourdes, padroeira da cidade.

Localizada em plena Serra da Mantiqueira, está incrustada entre as montanhas, o que favorece a qualidade do ar, bem como sua beleza cênica, oferecendo aos turistas uma série de opções para passeios.

No centro da urbe existe uma grande fonte na Praça Basílio Ceschin, que possui diversas combinações de jatos d’água e é um convite para o descanso, sendo que, no mesmo local, existem outras fontes alternativas.



Como, por exemplo, a Fonte Vilela, considerada a mais radioativa das Américas, ótima para tratamento do sistema renal.

Porém, nas margens da cidade, outras duas fontes prometem pequenos milagres.

A Paiol, no caminho para Poço de Caldas, sulfatada, seria de grande ajuda no combate à obesidade.

Já a Fonte do Padre, cujas propriedades não são conhecidas, é famosa por curar feridas abertas, ajudando na cicatrização, sendo que ambas são muito frequentadas.

Como atrativo, também, existe uma no velho prédio da estação ferroviária, do qual se originou Águas da Prata, contudo, atualmente os trilhos funcionam apenas para os trens de carga, pois o transporte de passageiros está desativado desde 1976.

 


Bem alimentado e depois de necessária soneca, fui visitar a igreja matriz da cidade, que é dedicada à Nossa Senhora de Lourdes.

Aproveitei a ocasião para agradecer meu aporte àquela cidade, sem lesões ou intercorrências.

Depois, fui até um supermercado e, no retorno, em conversa com a Érica, fiquei decepcionado ao saber que no dia anterior haviam pernoitado na pousada 7 pessoas, 4 homens e 3 mulheres, todos procedentes de Jacutinga/MG, mas que haviam partido naquela manhã rumo à Andradas/MG.

Para piorar, também, não chegou mais nenhum peregrino naquele dia, de forma que quando o relógio marcou 18 horas, elas se despediram e deixaram o imenso casarão ao meu inteiro dispor.

Então, fui até uma lanchonete próxima, onde fiz frugal refeição.



No retorno, para matar o tempo, li alguns livros que ali existem à disposição dos peregrinos, até que o sono venceu e fui dormir.


4ª Etapa – ÁGUAS DA PRATA/SP à ANDRADAS/MG – 32 quilômetros