4ª Etapa – ÁGUAS DA PRATA/SP à ANDRADAS/MG – 32 quilômetros

4ª Etapa – ÁGUAS DA PRATA/SP à ANDRADAS/MG – 32 quilômetros

“Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti.” (Salmo 91, Versículo 7, da Bíblia Sagrada).



A jornada não seria de dimensões extremas, no entanto, como eu já sabia, bastante exigente e técnica, pois delonga-se em aclive por 24 quilômetros, para depois decair bruscamente em seus derradeiros 8 quilômetros.

Com isso, a condição física do caminhante é exaurida ao extremo, pois todos os músculos do peregrino são acionados, ininterruptamente, mormente na declividade final, que exige esforço hercúleo dos membros inferiores na frenagem e equilíbrio do corpo.

Por isso, resolvi partir bastante cedo, como forma de aproveitar melhor o dia.

A noite fora mal dormida, pois ventou bastante, fazendo com que as janelas vibrassem e, com isso, atrapalhassem meu descanso.

Ademais, a Pousada está localizada defronte a uma grande avenida, onde o trânsito de caminhões durante a noite é intenso, e o barulho causado por freadas e bruscas acelerações acabaram por interferir de meu sono.

Assim, levante às 4 h, preparei um café na cozinha do estabelecimento e, às 5 h 15 min, depois de externar minhas preces matinais diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, alocada na sala da Pousada, deixei o local de pernoite.

Conforme combinara com a Cláudia, eu fechei todas as portas da colossal residência, depois deixei a chave na caixa do correio.



A cidade ainda dormia quando, calmamente, segui pelas calçadas desertas e, logo na esquina, parei para fazer minhas orações, diante da gruta de Nossa Senhora de Lourdes, num nicho ali construído.

Na sequência, atravessei as vias férreas, contornei o Restaurante Prata e, observando as flechas amarelas, fleti à esquerda, e adentrei numa rua asfaltada, que seguiu em perene aclive.

Um quilômetros depois, a iluminação urbana se findou, bem como o asfalto, assim, prossegui caminhando em terra, agora de lanterna em punho.



Uma hora mais tarde, cinco quilômetros percorridos em bom ritmo, passei diante da igrejinha dedicada a São Jorge, que pude fotografar ao natural, vez que a tênue luz do sol já se fazia presente.



O caminho prosseguiu bucólico e deserto, sempre em meio a pastagens ou bosques, onde a passarada assanhada fazia grande algazarra, saudando o novo dia que vinha nascendo.

O trajeto foi seguindo sempre em perene, mas lenta ascensão, contudo, depois de dez quilômetros percorridos, ele se encrespou e passei a enfrentar ríspidas aclividades.



Lentamente, fui rompendo as barreiras e, num local plano e arejado, parei para fotografar a cachoeira existente na “Ponte de Pedra” que, face à longa estiagem vivenciada, se encontrava reduzida a um pequeno fio de água.

Fiz ali uma necessária pausa para hidratação e retirada do casaco, pois transpirava abundantemente.

Notei que ali os pássaros gorjeavam com mais vigor, e o som das folhas caindo das árvores viajava na brisa, já que não havia trânsito ou qualquer som mecânico perturbando a natureza.

Na sequência, prossegui caminhando em meio a frondoso bosque, porém, mais adiante, acabei por sair num local amplo e arejado, e logo passei diante da entrada para o Pico do Gavião, situado na serra do Caracol.



Depois de 13.500 metros percorridos, após cruzar pequeno riacho através de uma pinguela, deixei o Estado de São Paulo, para adentrar no de Minas Gerais.

Até esse ponto, mais de três horas caminhando, eu não fui ultrapassado por nenhum veículo, e vi apenas um senhor que trabalhava num mangueiro, na ordenha de vacas, o que confirmava ser essa etapa, em sua primeira parte, erma e extremamente campestre.


Vista do Pico do Gavião, localizado na Serra do Caracol, próximo de Andradas/MG

Passei, então, a caminhar em meio a denso eucaliptal e, quando esse trecho se findou, pude admirar novamente, à direita, o famoso “Pico do Gavião”, um ponto deveras interessante nesse trecho.


Placa dos 300 quilômetros faltantes, próximo de Andradas/MG

Às 9 horas, 22 quilômetros percorridos, fiz uma pausa diante da placa que sinalizava os 300 quilômetros restantes e registrei uma foto.

Aproveitei para me hidratar e ingerir uma banana.



Na sequência, antes que o calor do dia tivesse a chance de engrenar – a previsão era de canícula – prossegui célere e bem disposto em direção meu objetivo.

O caminho seguiu ainda em lento aclive até que, meia hora depois, eu passei diante da Pousada Pico do Gavião, onde notei grande movimentação e barulho dos motores de motos em aquecimento.



Eu prossegui por mais 500 metros, então, obedecendo à sinalização, dobrei bruscamente à direita, e principiei a descender por uma estrada bastante pedregosa e empoeirada.

Alguns metros à frente, fui ultrapassado por um grupo de aproximadamente 40 motociclistas que, logo abaixo, fizeram um “stop” e se juntaram na trilha.

Então, quando ali cheguei, fui sabatinado por ser peregrino e, depois das apresentações, soube que se tratava de um pessoal pertencente ao grupo “Trilheiros de São Carlos”, que também demandavam à Aparecida, pelo Caminho da Fé.

Eles haviam saído no dia anterior de São Carlos, pernoitado na Pousada Pico do Gavião e esperavam chegar naquele dia na Basílica de Aparecida.

Alguns deles solicitaram meus préstimos, e eu bati várias fotos do animado grupo.

Abaixo, por ser interessante, reproduzo a reportagem feita com esse pessoal, pelo “Jornal Primeira Página de SC”, disponível na internet:

 

“Pelo sexto ano consecutivo o Clube dos Trilheiros de São Carlos, grupo de piloto de motos de trilha, percorrerá os 562 km do Caminho da Fé, que vai até Aparecida do Norte. “Faremos o percurso em três dias, saindo no próximo dia 15”, explica Eduardo Longhin, um dos membros do grupo de cerca de 40 trilheiros.

Ele explica que a primeira vez que fizeram a viagem foi mais com espírito de aventura, mas logo se tornou uma espécie de compromisso: “Mas no momento em que as pessoas entraram na Basílica, elas se emocionam, e muitas disseram que enquanto tivessem oportunidade para continuar fazendo o caminho, elas fariam”.

Longhin explica que por mais que o motoqueiro esteja com cinco ou seis pessoas a sua volta, no capacete ele está sozinho: “Particularmente, uso muito esse caminho para ir rezando, agradecendo o ano que eu tive. É um retiro espiritual que faço em cima da moto”.

O grupo vai tomar café da manhã em um restaurante, por volta das 6h30, vai se reunir em frente a Catedral para fazer uma oração e começa a viagem: “Daqui saímos todos juntos, mas chegando na Babilônia são divididos grupos de no máximo oito pessoas”.

Juntas, este ano irão duas caminhonetes de apoio, que vão encontrando os grupos em pontos combinados ao longo do caminho: “Que é de cerca 95% de terra”, explica Longhin.”  

 


Soube, ainda, pelo líder do grupo, que eles retornariam no dia seguinte a São Carlos, num trajeto árduo e longo, pois percorreriam 562 quilômetros, a partir de Aparecida.

Após as despedidas, sozinho novamente na trilha, prossegui em duro e ríspido descenso por uma estrada cascalhada onde, ao menor vacilo, iria me proporcionar um tremendo tombo e demais consequências.

Depois de uma série de curvas, a vista se abriu e pude ver, lá embaixo, no fundo de um vale, a cidade de Andradas, minha meta para aquele dia.

Alguns quilômetros depois, já no plano, adentrei em zona urbana e, às 12 horas, aportei ao Palace Hotel, local em que fiquei hospedado.

Após banho e lavagem das roupas, fui almoçar no Restaurante Styllus, onde a comida é farta e de qualidade, a preço convidativo.

 


O povoamento que gerou a cidade de Andradas começou a acontecer no início do século XIX, período de decadência da extração do ouro na região central do Estado e emergência da pecuária bovina e agricultura em outras regiões do Estado, embora desde 1792 "campos" da região já tivessem sido citados em inventários registrados por memorialistas como símbolos do início da ocupação local.

A partir da década de 30 do mesmo século, começam a ser registradas as hipotecas e escrituras de compra e venda de terras do emergente núcleo populacional.

Documentações do século XIX mostram que a ocupação se deu especialmente a partir da segunda quinzena do mesmo século, mas o crescimento populacional se concentrou, desde então, em sua maior parte, no final do século XIX e começo do século XX, em função da chegada de imigrantes estrangeiros, vindos das fazendas de café, sobretudo de São João da Boa Vista, uma das cidades vizinhas.

Os imigrantes italianos foram os mais numerosos, mas também vieram espanhóis, gregos, libaneses, alemães, suecos e portugueses, conforme destaca o livro Os Estrangeiros na Construção de Andradas, de Nilza Alves de Pontes Marques.

Até 1888, a localidade era um distrito chamado São Sebastião do Jaguari e esteve ligada à cidade de Caldas.

Desmembrou-se com o topônimo Caracol, nome de uma serra que emoldura a cidade.



Em 1928, o topônimo Caracol foi alterado para Andradas, em homenagem ao ex-presidente do Estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, natural de Barbacena, uma estratégia para bajular o político e trazê-lo à cidade e satisfazer ao interesse do presidente da Câmara da época, Orestes Gomes de Carvalho, cujo efeito não teve o propósito estabelecido.

A mudança foi, portanto, arbitrária e, ainda hoje, há quem chame a cidade de Caracol.

Um grupo queria a volta do nome São Sebastião do Jaguari, fato destacado como um plebiscito estampado em 1932 pelo jornal O Popular.

Em 1874, os moradores de São Sebastião do Jaguari endereçaram uma carta à Câmara de Mogi Mirim com o pedido para da transferência da freguesia para a Província de São Paulo.

Os motivos foram econômicos e infra-estruturais, mas a vila de Caldas, que havia perdido parte de seu território, viu-se ameaçada com uma possível queda na arrecadação de impostos e, em resposta, pediu a sua permanência para a Província de Minas Gerais.

Os impasses territoriais para a demarcação de fronteira exigiram um estudo detalhado, na década de 90 do século XIX, para a produção cartográfica da região, mas a fixação definitiva da fronteira regional seria realizada somente em 1937.

A cidade, na última década de 50, juntamente com outras cidades mineiras, tentou novamente se ligar, jurisdicionalmente, a São Paulo, haja vista que a cidade, historicamente, costuma ficar esquecida pelo governo estadual.



Em 1932, em meio a Revolução Constitucionalista, Andradas recebeu tropas para atacar o estado paulista.

Na ocasião, foram cavadas trincheiras na divisa com São João da Boa Vista antevendo um ataque, que nunca aconteceu.

Com a imigração italiana, houve a consolidação da vitivinicultura do município e a construção do epíteto "Terra do Vinho", mas o cultivo de videiras foi introduzido no município no século XIX pelo Coronel José Francisco de Oliveira.

Tradições orais também apontam que as vinhas podem ter sido iniciadas no município pelo Coronel Gabriel de Oliveira, Joaquim Teixeira de Andrade e Francisco Daniel Pontes.

Até meados da metade do século passado, cerca de 54 famílias produziam vinho em escala comercial.

Fala-se também que o número chegou a 72 unidades produtivas, mas atualmente, são 7 famílias, que produzem a bebida a partir de 11 variedades.

A cultura do café é atualmente a cultura agrícola predominante, empregando cerca de 9 mil pessoas no período de colheita, conforme dados da Cooperativa Agropecuária Regional de Andradas (Cara).

A cidade conta atualmente com 40 mil habitantes.

 


Depois de uma reparadora soneca, fui visitar a igreja matriz da cidade, dedicada a São Sebastião, e acabei por me emocionar.

Enquanto fazia minhas orações, observava a realização de um casamento e, contemplativo, resolvi acompanhar a cerimônia até o final.

Havia um afinado coral, de melífluas vozes, acompanhado por três músicos, que interpretava com grande maestria, músicas apropriadas à ocasião.

Primeiramente, foi empolgante ver a entrada dos padrinhos, sempre aos pares, e pude perceber que se tratava de pessoas simples e humildes, porém, paramentas em grande estilo especialmente para o evento.



No entanto, me tocou profundamente mesmo, foi quando o pai da noiva entrou com sua filha, momento de grande expectativa e curiosidade, mormente da ala feminina.

Então, me lembrei, que há quase 6 anos também percorrera o mesmo trajeto, levando minha filha ao altar, para a cerimônia de seu enlace matrimonial.

Após a celebração, possivelmente em face do arrebatamento ali demonstrado, fui convidado por um dos presentes a comparecer na festa que se realizaria num salão próximo dali, do qual prontamente declinei, pois não trajava vestes condizentes com o ensejo.

Em seguida, me dirigi a um supermercado, e logo depois me recolhi, pois a jornada seguinte seria bastante árdua, e pretendia sair bem cedo, como forma de evitar o sol abrasador que se manifestava diariamente, após as 12 horas.

5ª Etapa – ANDRADAS/MG à OURO FINO/MG – 43 quilômetros