6ª Etapa – OURO FINO/MG à BORDA DA MATA/MG – 29 quilômetros

6ª Etapa – OURO FINO/MG à BORDA DA MATA/MG – 29 quilômetros

Porque tu, ó SENHOR, és o meu refúgio. No Altíssimo fizeste a tua habitação. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda.” (Salmo 91, Versículos 9 e 10, da Bíblia Sagrada).

 

Era domingo, dia de missa, fato que sempre me estimula a almoçar mais cedo.

Assim, levantei no horário de costume, me prepararei para mais uma jornada, e deixei o local de pernoite exatamente, às 5 h 30 min.

Um bom pedaço do caminho já havia sido vencido, fui pensando, enquanto uma intensa energia fluía em meu interior.

Eu ainda estava relativamente longe da metade, mas continuava com a mesma animação do início, talvez até mais, considerando o que havia vivido e testemunhado até aquele local.



Assim, segui por ruas desertas e frias em direção à igreja matriz da cidade e, quando ali cheguei, dobrei à esquerda e, logo acima, acessei uma estrada de terra correspondente à antiga “Estrada Velha”, e que recentemente foi denominada de “Estrada dos Santos Negros” por decreto municipal.

Com o dia principiando a clarear, pude dispensar o uso de minha lanterna, enquanto segui por um caminho bastante úmido e levemente ascendente.



Uma hora depois, cinco quilômetros percorridos, eu ultrapassei a divisa dos municípios, adentrando no de Inconfidentes.



A partir desse marco teve início um trecho descendente e depois plano, que venci com tranquilidade e admiração, pois belas paisagens, quase sempre verdes, se descortinavam pelo meu lado direito.

E, às 7 horas, passei pelo bar do Maurão que, como no ano anterior, ainda se encontrava fechado, possivelmente por conta do horário extemporâneo e do dia da semana.

Assim, novamente deixei de abraçar meu querido amigo, uma das figuras mais queridas e estimadas do Caminho da Fé.

De minha parte, rezo para que Nossa Senhora o conserve sempre alegre e saudável, e quiçá eu possa reencontrá-lo numa próxima oportunidade, para um afetuoso abraço.

Por sinal, de se lembrar que esta cidade nasceu em 1909, quando o Governo do Estado doou à União 810 hectares de terras para a criação de uma colônia agrícola para estrangeiros, o Núcleo Colonial Ouro Fino, onde colonos procedentes de países europeus viriam ser a grande maioria.

O cultivo do solo constituía a base econômica do povoado de Mogi-Acima, antiga denominação de Inconfidentes, que tomou a forma atual na primeira década do século XX, em homenagem aos heróis da Inconfidência Mineira, com destaque para Alvarenga Peixoto, antigo proprietário de uma fazenda na região.


Igreja de São Geraldo, em Inconfidentes/MG

Na sequência, transitei defronte à igreja matriz da cidade, dedicada a São Geraldo, prossegui ascendendo e, seguindo as flechas amarelas, mais acima, dobrei à esquerda e segui pelo acostamento da rodovia MG-295, em direção à Pouso Alegre.

E depois de 11 quilômetros vencidos, deixei o asfalto e adentrei à esquerda, caminhando, a partir desse ponto, sempre por estradas de terra.

O dia se apresentava fresco, ventoso, mas com sol intenso brilhando num céu azul e sem nuvens.



E, pelo sexto dia consecutivo, caminhava na prazerosa e exclusiva companhia de Deus, visto que até aquela etapa não encontrara ou ultrapassara outro peregrino.

Certamente, por essa razão, me percebia mais reflexivo e contemplativo e, nesse pique, me sentia forte espiritualmente, embora, com certa frequência, mais emotivo, isto quando me lembrava de meus familiares.



Fui vencendo com tranquilidade as distâncias e, às 9 horas, 18 quilômetros caminhados, fiz uma pausa num local arborizado, onde existe uma bica d’água com uma torneira jorrando, e uma placa indicativa, ao lado, explicando: “Água potável, gentileza do Sr. Joaquim”.

De volta à estrada, bastante animado, mas integralmente solitário no trecho, percebi que o ruído gerado pelo meu cajado casava-se admiravelmente com o canto dos pássaros e o murmúrio produzido pelo vento ao tocar as folhas das árvores.

Vivenciei aquele momento presente como nunca, conseguindo evitar que a mente, sempre fugidia, abandonasse o caminho.

Lembrei-me que Picasso já dissera: “não se pode fazer nada sem a solidão”.

Assim, a cada jornada estava apreciando a arte de viver comigo só e, confesso, estava gostando da companhia.



Nesse pique, depois de mais dois quilômetros vencidos, prossegui em forte aclive, ultrapassei a divisa dos municípios e, depois de 23 quilômetros percorridos, cheguei ao ponto de maior altimetria dessa etapa, a 1130 metros de altitude.



Dali eu tinha uma vista magnífica de todo o vale à minha frente, inclusive, podia avistar ao longe, a uns 6 quilômetros de distância, a cidade de Borda da Mata, minha meta naquele dia.

Então, principiei a descender violentamente, sobrepujei mais duas pequenas elevações e, às 11 horas, adentrava em zona urbana.

Segui, sem pressa a sinalização e acabei por me hospedar no Hotel Village, outro estabelecimento que se beneficia dos peregrinos no seu ramo comércio, porém não o trata com o devido respeito.

Novamente, se repetiu a cena vivenciada no dia anterior em Ouro Fino, pois o atendente me cobrou valor acima do estipulado na tabela publicada no site do Caminho da Fé, bem como me confirmou o horário do café da manhã, se recusando a fazer qualquer concessão fora daquele interregno.

Posteriormente, em conversa com outros caminhantes, soube que no Hotel San Diego, localizado próximo dali, é dispensado um tratamento bem melhor àqueles que ali se hospedam.

Com certeza, não recomento o Hotel Village aos meus amigos, nem pretendo pernoitar mais nesse estabelecimento.

Bem, por sorte, ainda consegui encontrar um supermercado aberto, e que cerraria suas portas às 12 horas.

Assim, pude me prover de água e mantimentos para meu café da manhã, porque o do hotel, mesmo tendo sido pago, não seria possível ingerir, em face do horário em que seria liberado aos hóspedes.

Mais tarde, fui almoçar no Restaurante Trem Bão onde, por inacreditáveis R$12,00, pude comer à vontade alimentos de ótima qualidade e sabor, um estabelecimento que recomendo com efusão.

 


Na metade do caminho entre São Francisco de Paula de Ouro Fino (atual Ouro Fino) e Registro do Mandu (atual Pouso Alegre), Borda da Mata nasceu no tempo da mineração em Minas Gerais, no caminho pelo vale do Rio Mandu que levava ao povoado de Santana do Sapucaí (atual Silvianópolis) onde existiam ricas minas de ouro a serem exploradas.

Assim, desde 1754, ano de sua fundação, ela começou como um ponto de referência para os viajantes descansarem.

Os primeiros exploradores se aproveitaram desse local, por sua posição estratégica: de um lado havia muito campo que servia de pastagem para o gado e, do outro, extensa mata, fornecendo madeira para diversos usos.

Estavam ali sediados bem na “borda da mata”, na região do rio Mandu.

Os trilhos da Estrada de Ferro Sapucaí, em 1898, chegaram à localidade, interligando aos da Mogiana, facilitando o escoamento das produções de café, madeiras e outros, seguindo-se um surto de progresso e grandes melhoramentos.



Atualmente com 18.000 habitantes, é também conhecida como a “Capital Nacional do Pijama”.

Além disso, como típica cidade mineira, possui clima ameno, belas paisagens, povo hospitaleiro e boa culinária.

E, como curiosidade, transcrevo estrepitoso caso ocorrido nesse simpático município em abril de 1953.

Portanto a, exatos, 60 anos.

 

Um caso de exorcismo em Borda da Mata

Com autorização de Monsenhor Pedro Cintra, autor do presente artigo, e com o consentimento do Vigário da Paróquia Pe. Édson Oriolo, diretor responsável pela publicação da “Folha Paroquial”, reproduzimos o artigo referente ao título acima, publicado na Folha Paroquial número 6, junho de 1999, Ano III.

“Antes de encerrarmos o ano de 1953, convém descrever o rumoroso caso que chamou atenção de todo o país, devido ao sensacionalismo da imprensa, aqui chamada por determinadas pessoas”.

“Eis o que vimos, ouvimos e observamos”:

“Em meados de fevereiro de 1953, o Sr. Alberto Simões de Carvalho, português, residente no bairro denominado Ponte de Pedra, pediu-me para levar a benção da Igreja à sua residência, pois certos barulhos estranhos, ouvidos à noite, traziam a família preocupada. Benzi a casa e fiz o exorcismo breve do “Ritual Romano”, “Exorcismus Sabtanam Et Angelos Apostaticos”.

Notei na família um certo afastamento dos deveres religiosos. O casal havia tempo não fazia a páscoa. Os filhos, alguns já moços, ainda não haviam feito a primeira comunhão.

Dei á família os conselhos religiosos necessários e orientei a todos para a confissão e comunhão.

Fui informado depois que, naquela noite o barulho aumentou. E o fenômeno continuou a repetir-se quase diariamente.

O Sr. Alberto, mal aconselhado, como sempre acontece nessas ocasiões, levou um espírita de Pouso Alegre a seu sítio. Fez este os seus passes e o barulho cessou por 15 dias, continuando depois, como antes.

Por ocasião da Semana Santa, quando a família se movimentou para cumprir o dever da comunhão pascal como eu havia aconselhado, o caso tomou outro caráter. Surgiu também uma voz estranha na casa do Sr. Alberto, juntamente com os estrondos ouvidos à distância.

A voz falava o nome de pessoas da casa e do bairro como se estivesse comandando animado baile, ao mesmo tempo que se ouvia o tropel de gente a dançar.



Falava palavrões e dizia chamar-se Chiquinho. A voz era muitas vezes ouvida, também durante o dia nas cercanias da casa por pessoas da família e por camaradas em trabalho. A jovem Natalina de 14 anos, filha do Sr. Alberto, achando-se só, certo dia, na cozinha da casa, a preparar o almoço, viu um pretinho, que, saindo de um dos quartos, passou por ela, cumprimentando-a com um cínico “bom dia”, desaparecendo em seguida. Assustada, alarmou, chamando pelos pais que se achavam em afazeres perto da residência, mas nada puderam ver.

Novamente procurado pelo Sr. Alberto e por ele informado dos novos fenômenos, comecei a acreditar haver de fato algo de extraordinário. Pedi ao mesmo que fosse à Ouro Fino relatar o fato a Frei Belchior, sacerdote capuchinho experimentado que já havia realizado um exorcismo na Itália. Frei Belchior me escreveu, afirmando tratar-se realmente de um caso de exorcismo.

Comuniquei a opinião de Frei Belchior ao Sr. Bispo Diocesano, Dom Otávio Chagas de Miranda que mandou jurisdição a mim e a Frei Belchior, para que aplicássemos o exorcismo, caso fosse necessário e prudente.

Tendo a viajar e permanecer ausente por mais de uma semana, pedi a Frei Belchior que assumisse a responsabilidade do caso.

No dia 16 de abril, acompanhado do Revmo. Padre José Oriolo, Vigário Cooperador da Paróquia e do Sacristão Manuel Cardoso, Frei Belchior pernoitou na residência do Sr. Alberto para observar os fenômenos.

Às 20h30, a um sinal característico dos cães, foi ouvida a voz estranha e cavernosa: “Boa noite” – Frei Belchior respondeu: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”.

A voz retrucou: “Vai mal, tem padre hoje aqui” …e começou a pronunciar palavrões. Frei Belchior começou o exorcismo solene.

Em um momento interrogou em dialeto Italiano, de quem era aquela voz, “Eu sou o diabo, o capeta”, respondeu. O Capuchinho, tomando uma relíquia de Santa Terezinha na mão, sem que ninguém soubesse, perguntou o que era.

A voz foi logo afirmando: “isso não vale nada, é de uma menina”.

Tomou então a medalha de Nossa Senhora, e imediatamente a voz: “isso não presta”.

O exorcismo durou duas horas e durante todo esse tempo a voz resmungava, dizia palavrões e fazia ameaças.

Antes e durante o exorcismo, Padre José Oriolo e o Sr. Manuel Cardoso, com lanternas, fizeram a mais rigorosa investigação ao redor da casa e no porão da mesma. A casa ao tinha forro em nenhum cômodo.



A entrevista do Padre Capuchinho foi encerrada com estas palavras da voz: “Vamos para o inferno comigo…”

A notícia se difundiu com a ida do Padre Capuchinho e o Padre Oriolo ao sítio do Sr. Alberto.

E agora era a multidão que lá comparecia levada pela curiosidade.

Cheguei de viagem no dia 21 de abril e encontrei a paróquia alarmada. Os repórteres do Rio e São Paulo começam a chegar.

Neste mesmo dia, depois de ouvir a opinião de Frei Belchior e Padre Oriolo, que me afirmaram tratar-se realmente do demônio, rumei à noite, apenas acompanhado do confrade Vicentino Benedito Matos dos Santos, para o sítio do Sr. Alberto de Carvalho.

Chegando, rezei o terço com a família e alguns curiosos de Pouso Alegre que lá encontrei.

Às 22h, quando, depois do latido característico dos cães, uma voz rouquenha e masculina nos saudou: “Boa noite”. Era de impressionar!

Perguntei imediatamente: “In nomine Sanctissimae Trinitatis, Patris, Fillii et Spiritu Sancti, praecipio ibi ut dicas, quis sis tu”, a tradução é: “Em nome da Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu te ordeno que digas que és tu?” A resposta veio fulminante e irritada depois do latido característico dos cães: “ Eu sou o diabo. E eu não gosto desse padre e por isso, não fico aqui”.

Formulei outras perguntas em latim, adrede preparadas. Não obtive respostas.

A voz pronunciou ainda alguns palavrões. Repetiu que não gostava “deste padre”. Fez ameaças de matar a todos e desapareceu.

Fiz então o exorcismo breve do ritual romano.

No dia seguinte 22 de abril lá estive novamente. Fui acompanhado por algumas pessoas de responsabilidade. Nada de anormal.

Rezei o terço com a família e apliquei mais uma vez o exorcismo breve.

Dia 23 voltei acompanhado de Dr. Luiz Apocalipse, Juiz de Direito, Dr. Paulo Guimarães e Dr. Luiz Miranda, advogados. Essas pessoas tiveram a máxima preocupação em realizar a mais rigorosa investigação quanto a um possível embuste.

Apliquei o exorcismo solene do Ritual Romano, que todas acompanharam com grande respeito.

A voz foi ouvida às 21h.


Monsenhor Pedro Cintra, o Exorcista, falecido em 2003

Terminara o exorcismo, estávamos conversando. O Sr. Alberto acabara de dizer: “ele mudou a hora, costumava vir mais cedo”. A resposta, antecedida pelo latido característicos dos cães foi imediata: “Boa noite, meu horário agora é das 21h em diante”.

Formulei a mesma pergunta do dia anterior, em latim. Respondeu: “Já disse que sou o diabo”, “Não fico mais aqui, porque tem padre aqui, e ao gosto deste padre”, “Não volto mais nesta casa”.

Fiz outras perguntas em latim preparadas com antecedência. Não obtive resposta. Acrescentou tolices e ameaças e desapareceu a voz para sempre.

No dia 24 informei o Sr. Bispo, que mandou cessar os exorcismos. Mas, tornei a visitar a residência do Sr. Alberto para evitar a invasão de pessoas indesejáveis. Rezei o terço com a família, o fenômeno não se repetiu.

Dia 25, Padre José Oriolo fez a entronização do Sagrado Coração de Jesus, no lar do Sr. Alberto Simões de Carvalho que se mostrava então, tranqüilo. Tudo continuou em paz.

Era realmente o demônio? Na minha humilde opinião, trata-se de uma obsessão diabólica real. Não se explica de outra maneira. Estudei todas as possibilidades de um embuste. Procurei me esclarecer em livros sobre parapsicologia. Todas as hipóteses aventadas caem ante as investigações rigorosas realizadas por todos que lá estiveram comigo. Esta é também a opinião dos dois colegas que presenciaram o fato: Padre José Oriolo e Frei Belchior.”

(a)    Côn. Pedro Cintra (a)

(Constante no Livro de Tombo nº 2 pág. 89, 1953) .

(Texto retirado do livro Borda da Mata e sua História de autoria de João Betolaccini)

(extraído do site: www.tribunabm.com.br)


 

À tarde dei um giro pelo centro da cidade, depois fiz demorada visita à belíssima igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora do Carmo.

Mais tarde, o clima mudou e nuvens pesadas encobriram o céu vespertino, contudo, ainda assim, pude assistir à missa das 19 horas, celebração que muito me emocionou, pois nesse dia a igreja comemorava a Assunção de Nossa Senhora.

E logo depois me recolhi, porque o clima se apresentava frio e ventoso, bem como a jornada sequente seria bastante longa e complicada.


7ª Etapa – BORDA DA MATA/MG à ESTIVA/MG – 39 quilômetros