7ª Etapa – BORDA DA MATA/MG à ESTIVA/MG – 39 quilômetros

7ª Etapa – BORDA DA MATA/MG à ESTIVA/MG – 39 quilômetros

Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.” (Salmo 91, Versículo 11, da Bíblia Sagrada).

 

Inicialmente, quando traçava meu cronograma de viagem, pensara em dividir essa jornada em duas, porquanto, em minha opinião, esse é a etapa mais difícil do Caminho da Fé.

Isto porque, devido às suas ásperas alterações altimétricas, o peregrino precisa de força para sobrelevar íngremes elevações, e utilizar com vigor toda musculatura posterior, a fim de frear nas ríspidas declividades existentes ao longo do percurso.

Assim, inicialmente, minha meta para aquele dia era aportar em Tócos de Mogi e, quando lá chegasse, reavaliaria as condições físicas e climáticas para decidir se continuaria até Estiva ou não.

Dessa forma, levantei às 4 horas, me concentrei nos preparativos para a longa jornada, ingeri frutas e chocolate, e às 5 horas deixei o local de pernoite.

Observando o chão molhado, inferi que forte pancada de chuva desabara sobre a cidade durante a noite, fato que não ouvira e nem dera conta até aquele momento, em virtude de estar num quarto localizado nos fundos do hotel.

Bem disposto, inicialmente, segui subindo a rua em direção à Praça Central da cidade.

Quando ali cheguei, dobrei à direita, passei ao lado da igreja matriz e, mais acima, contornei a entrada para o cemitério, seguindo à esquerda.

E logo acessei uma larga estrada de terra, bastante úmida e escorregadia, por onde segui guiado por minha potente lanterna.



Esse primeiro trecho é bastante arborizado e fresco, de forma que caminhei com bastante tranquilidade e, uma hora depois, cinco quilômetros vencidos, passei pelo bairro Palmas.


Água potável, oferecida pela família Xavier, localizada próximo da Serra do Jacu

Num determinado momento, naquela escuridão plena que antecede a alvorada, teve inicio uma forte aclividade e, quando cheguei a 1.100 metros, fiz uma pausa providencial na casa da família Xavier para me hidratar com a água potável ali disponibilizada, graciosamente, aos peregrinos.

Aproveitei a ocasião para bater fotos, ingerir uma banana e fazer alongamentos.


No topo da Serra do Jacu, deixando Borda da Mata e adentrando em Tócos do Moji/MG

Na sequência, prossegui em dura ascensão e, quando alcancei o cume do morro, a 1.200 metros de altura, também cruzei a divisa dos municípios, adentrando ao de Tócos de Mogi.



Então, iniciou-se vertiginosa declividade e, já quase no plano, desfrutei da água potável oferecida aos caminhantes pela família Rodrigues.

Prosseguindo, mais abaixo, num cruzamento, segui à esquerda, e novamente em franca ascensão, transitei em meio a inúmeras plantações de morango, inclusive, naquele horário matutino várias pessoas faziam sua colheita, pois estávamos em plena safra desse fruto.

O dia mantinha-se nublado, ventoso e frio, excelente para caminhar.



Prossegui em aclive e depois de atingir o ponto culminante dessa etapa, a 1250 metros de altitude, principiei a descender e, já no plano, passei ao lado da belíssima igrejinha dedicada a São Francisco de Assis, localizada no bairro Capinzal.


Placa dos 200 quilômetros restantes, próximo de Tócos do Moji/MG

Então, mais à frente, cruzei diante da placa dos 200 quilômetros faltantes até Aparecida, e fiz ali breve pausa para uma prece de agradecimento, porquanto ainda que simbolicamente, naquele local eu ultrapassava a metade de minha jornada até a Casa da Mãe Maior.

E, sem sobressaltos, às 8 h 30 min, depois de 17 quilômetros caminhados, adentrava em Tócos de Moji, me dirigindo à sua praça central.



Fiz ali uma pausa para repensar minha jornada e decidir se seguiria em frente.

Na verdade, ainda era muito cedo, eu estava em ótimas condições físicas e o dia permanecia nublado, ventoso, ideal para uma boa caminhada, de forma que decidi seguir adiante.



Isto posto, comprei água e chocolates numa padaria, depois prossegui em frente e logo passava diante da igreja matriz do povoado, dedicada à Nossa Senhora Aparecida, onde entrei para rezar e pedir proteção.

Em seguida, já do lado externo, reiniciei minha jornada que sabia de antemão ser bastante acidentada.

O percurso, velho conhecido, me levou a transitar próximo de um sítio, onde um senhor consertava uma cerca.

Ao me avistar, ele parou seu trabalho e indagou se eu estava indo à Aparecida.

Quando confirmei, ele me disse que pouco antes haviam passado por ali 8 peregrinos, 4 homens e 4 mulheres, que caminhavam animados, falando alto, e por certo eu os alcançaria em breve.



Ele, contudo, não soube precisar a quanto tempo o pessoal havia transitado por aquele local, se fazia uma ou duas horas, de forma que imaginei alcançá-los ainda no roteiro ou, o mais tardar, em Estiva, quando lá aportasse.

Entusiasmado, me despedi do bom homem, depois segui otimista e alegre, porque finalmente encontraria pessoas do mesmo naipe e fé que, com certeza, iriam enriquecer o meu círculo de amizades.

Logo se iniciou ríspida ascendência e, quando alcancei o topo, eu estava a 1350 metros de altitude, lembrando que Tócos de Moji, por onde eu passara 5 quilômetros atrás, está situada a 1050 metros de altura.

Sem dúvida, um repto difícil e cansativo, mas que venci a passos lentos, porém firmes e decididos.



Sob a cobertura de um ponto de ônibus ali existente, fiz uma longa pausa para hidratação, descanso e ingestão de uma barra de cereais.



Quando reiniciei a marcha, os músculos adutores de minha virilha principiaram a doer, e fiquei com receio de ser uma crise que me debilitasse.



Mais adiante, já no plano, passei em meio a inúmeras plantações de morango, e logo adentrei ao bairro Fazenda Velha, pertencente à Estiva, que possui uma rua pavimentada e, ao final dela pude fotografar uma bela igrejinha pintada de verde.

Prosseguindo, caminhei por locais bastante desertos, mas tendo ao alcance dos meus olhos a paisagem de morros, vales, e imensas plantações de morango.

Finalmente, depois de 27 quilômetros vencidos, me vi novamente no topo de outra elevação, de onde eu tinha uma visão privilegiada de todo o entorno, bem como da serra existente do outro lado do vale, por onde eu iria transitar na sequência.

Ali, fiz outra pausa para hidratação e como tinha visão ampla de todo o itinerário a seguir, detive meus olhos em uma busca minuciosa pelo caminho, visando localizar algum peregrino ao longo daquele trecho.

Infelizmente, nada se movia pelo roteiro, assim inferi que o bravo grupo de Jacutinga já havia vencido aquele patamar, de modo que eu não mais os alcançaria no percurso.


A incrível altimetria do "Pantâno do Teodoro", próximo de Estiva/MG

Convenientemente reidratado e bem disposto, reiniciei meu périplo, dessa vez, em fortíssima declividade que, em seu final, me levou a transitar pelo famoso Pantâno dos Teodoros, um dos locais mais emblemáticos dessa etapa.

Na verdade, o lugar nada mais é que uma pequena vila encravada num vale situado entre duas portentosas montanhas, onde a pecuária e a plantação de morangos são as atividades predominantes.

A ascensão pelo outro lado, como das outras vezes, foi duríssima, mormente porque o sol finalmente conseguira romper o colchão de nuvens e brilhava forte no céu, abrasando o ambiente.



Finalmente, no topo da elevação, fiz outra pausa para hidratação e descanso, pois efetivamente essa etapa é um grande desafio para as condições físicas dos caminhantes.



Novamente refeito, principiei a descender e logo avistei, ao longe, a cidade de Estiva, minha meta para aquele dia, o que me deu novo alento.

Após vencer outra imensa declividade, transitei pelo bairro Olaria, depois alcancei o último aclive que, por sinal, estava sendo pavimentado por bloquetes e, por isso mesmo, impedido para trânsito de veículos.

O sol já há muito atingira seu zênite e fazia muito calor.

No meio da ascendência, respiração entrecortada, passei diante 2 trabalhadores que faziam o assentamento das pedras, e ambos almoçavam sentados à beira da estrada.

Eu estava exausto e perguntei-lhes se a zona urbana ainda estava muito distante, pois como já a algum tempo não visualizava as benfazejas flechas amarelas, temia estar seguindo para rumo errado.

Prontamente, eles responderam que eu estava a, no máximo, 500 metros da cidade, o que muito me tranquilizou.

Ainda assim, confidenciei-lhes que não estava reconhecendo aquela derradeira elevação, pois me parecera mais inclinada que aquela por onde transitara no ano anterior, o que foi motivo de riso por parte deles.



E, efetivamente, dez minutos depois, eu passei a transitar sobre piso asfáltico e logo chegava à Pousada do Poka, quando meu relógio marcava 14 horas.

Ali fiquei muito bem alojado e depois de, rapidamente, tomar banho e lavar as roupas, fui almoçar no Restaurante Esquina de Minas onde, por R$12,00 pude comer muito bem e à vontade.

Eu estava bastante desgastado, assim, logo me deitei e por duas horas pude descansar e repor as energias dispendidas no percurso.

 

A cidade de Estiva é conhecida nacionalmente como a “Terra do Morango”, pois a maior parte de sua agricultura é destinada ao cultivo dessa fruta, plantada em mais de 250 hectares, com uma produtividade média de 30 mil quilos por hectare.

A trajetória de crescimento da cultura teve início em 1958, quando horticultores do Sul mineiro, que vendiam hortaliças em São Paulo, trouxeram mudas e plantaram na comunidade Vale do Rio do Peixe, em Estiva, introduzindo no Estado as primeiras variedades da fruta.

Minas Gerais responde hoje por quase 55% da produção nacional, gera aproximadamente 26 mil empregos e envolve 5.900 produtores na atividade, sendo que a região do sul de Minas é a grande responsável por estes números.

Demais, vale a pena saber como o cultivo do morango foi introduzido nesse progressista município:

Segundo versão do Sr. Sebastião Feliciano Ribeiro e do Sr. Mateus Morais, o primeiro produtor de morango de Estiva, foi o Sr. Osvaldo (conhecido por Osvaldinho Galinha).

O Sr. Osvaldinho era residente do bairro do canta galo e foi trabalhar na cidade de Atibaia, com uma família de japoneses, que iniciavam uma plantação de morango naquela região. Após algum tempo naquela cidade, e já conhecendo as técnicas de plantio do morango retorno à Estiva, onde iniciou sua própria produção.

O plantio se deu no ano de 1963, no bairro Ribeirão das Pedras, onde foram plantados cerca de 100 mil pés de “morango-13” (Azedinho).

Conta o Sr. Sr. Sebastião, que durante todo o tempo em que trabalhou para o Sr. Osvaldinho, ele nunca viu a lavoura ser irrigada. (Não soube informar se a irrigação era feita no período noturno ou se realmente não era irrigado).

A produção daquele ano foi feita em canteiros, sem qualquer tratamento especial e, após a colheita os morangos eram lavados e embalados em caixas e cumbucas de madeira e enviados para ser comercializados em São Paulo. Somente algum tempo depois é que passaram a ser comercializados em Belo Horizonte e Rio.

No ano de 1967, o Sr. Osvaldo diminui a plantação, para cerca de 80 mil pés, sendo plantado o “Morango Campineiro” e iniciou-se o uso de palha de arroz nos canteiros para manter a umidade, e a irrigação era feita com mangueiras e pulverizado como bombas manuais.

Com o preço do morango estável e vendido a bom preço, o Sr. Osvaldinho, queria manter o monopólio, impedindo que outros iniciassem o plantio do Morango.



Nesse mesmo ano, o Sr. Mateus Morais (2º produtor), iniciou a plantação no Bairro do Córrego dos Mulatos que, segundo ele, ocorreu da seguinte forma: Um produtor de Atibaia resolveu investir em Estiva, mandando para cá empregados seus, para darem assistência ao Sr. Mateus e, como ele, desenvolver a produção pelo sistema de meeiro.

O Sr. Mateus iniciou sua produção com grande dificuldade, pois não possuía maquinário adequado e havia uma escassez de mudas (vindas de Ibiúna/SP), a irrigação era feita por um pequeno motor com auxílio de mangueiras manejadas manualmente. Também não se usava a cobertura plástica e quando chovia toda produção era lavada antes de ser embalada. O maior inimigo da produção eram as constantes geadas, que praticamente destruíam as lavouras.

No ano de 1969, iniciou também sua plantação o Sr. Messias Marques Rezende, no bairro Córrego dos Mulatos. Suas mudas, inicialmente vinham de São Paulo e logo passaram a ser produzidas por ele mesmo. A cobertura de palha de arroz começou a trazer problemas, pois muitas brotavam e cresciam atrapalhando o morango. Foi também introduzindo o uso do esterco de galinha e uma pequena parcela de adubo adquirido no mercado.

No ano de 1970 o Sr. Sebastião Feliciano Ribeiro, iniciou sua própria plantação, após trabalhar dois anos com o Sr. Osvaldinho. O Sr. Sebastião conseguiu com o Sr. Ranoi (Japonês de Atibaia), matrizes e as plantou nas proximidades da cidade.

Quase toda produção era levada para o mercado “Santa Rosa” em São Paulo/SP. No ano de 1976, o Sr. Mateus, iniciou o sistema de coleta, utilizando-se de uma perua Kombi, conduzindo toda a coleta até o mercado “Santa Rosa”.

As embalagens usadas eram fabricadas em madeira, tanto a caixa, quanto as cumbucas, que acomodavam três camadas de morango.

Com a evolução e crescimento da produção, começaram a aparecer os comerciantes intermediários, representantes de empresas que lidam na comercialização de frutas, como: D’Marc; Carbonari, Louverense e muitos outros aventureiros que infelizmente, usavam da boa índole do produtor, e compravam grandes quantidades de produtos e depois desapareciam, deixando o pequeno produtor com prejuízos significativos, levando muitos deles a bancarrota.

(extraído do site: http://www.estiva.mg.gov.br)

 

 Em Estiva/MG, confraternizando com os peregrinos de Jacutinga/MG: Donizetti, Mauro, Fernanda e Lúcia

À tardezinha, fui até a igreja matriz fazer minhas orações, depois acessei a internet numa “lan house”, localizada defronte à praça central da cidade.

No retorno, finalmente, me encontrei com os peregrinos de Jacutinga/MG, e pude saber pelo coordenador do grupo, o Maurão, se eles pretendiam, como eu, no dia seguinte, pernoitar em Paraisópolis/MG.

Trocamos informações sobre as etapas pretéritas e foi muito bom me integrar e confraternizar, finalmente, com outros peregrinos do Caminho da Fé.

Mais tarde conheci o simpático casal Amauri e Luciana, residentes em Monte Alegre do Sul/SP, que, por absoluta falta de tempo, haviam iniciado o Caminho em Ouro Fino/MG, e naquele dia, também haviam percorrido o trajeto Borda da Mata a Estiva.


Com o Sr. Poka, dono da Pousada homônima, em Estiva/MG

À noite, desci na padaria existente no térreo do edifício, e enquanto lanchava e ingeria uma cerveja, tive o prazer de conhecer o Sr. Poka, o proprietário do estabelecimento onde eu me hospedava, uma pessoa simples e bastante simpática.

Ficamos a conversar um bom tempo, depois me despedi de todos e me recolhi, pois a jornada seguinte, também seria longa e intensa.


8ª Etapa – ESTIVA à PARAISÓPOLIS – 42 quilômetros