8ª Etapa – ESTIVA à PARAISÓPOLIS – 42 quilômetros

8ª Etapa – ESTIVA à PARAISÓPOLIS – 42 quilômetros

Eles te sustentarão nas suas mãos, para que não tropeces com o teu pé em pedra.” (Salmo 91, Versículo 12, da Bíblia Sagrada).

 

A etapa seria longa e acidentada, contudo, apesar do esgotamento físico decorrente da difícil jornada vivenciada no dia anterior, eu acordei muito bem disposto após uma noite de sono profícuo e reparador.



A Pousada do Poka não serve café da manhã, em compensação, a Panificadora Santa Edwirges, que funciona no térreo do edifício e que também pertence à família Poka, abre suas portas, diariamente, às 5 h 30 min.

Assim, os peregrinos que desejarem, tem a oportunidade de ingerir algo quente e um lanche, antes de iniciar seu trajeto do dia.

Mesmo sabendo desse facilitador, eu preferi comprar frutas e chocolates no dia anterior, de forma que, bem nutrido, e depois de me despedir do pessoal de Jacutinga/MG, deixei o local de pernoite às 5 h 15 min, seguindo por ruas desertas e silenciosas em direção à rodovia Fernão Dias.

Quando ali aportei, utilizei a passarela para transpor a malha viária e, já do outro lado, adentrei numa estrada larga de terra batida e prossegui em frente, com a lanterna na mão.

O primeiro trecho, praticamente todo plano, foi vencido sem sobressaltos, de maneira que, uma hora depois, cinco quilômetros sobrepujados, passei pelo bairro Boa Vista, enquanto o dia lentamente amanhecia.

Algumas pessoas aguardavam condução, umas para ir ao trabalho, outras para seguirem à escola, ou ao centro da cidade.

Todas estavam bem agasalhadas, pois uma espessa cerração deixava todo o entorno úmido e nebuloso.

Eu subi pela pracinha, mais acima, dobrei à esquerda, passei por um aglomerado de casas e, depois de mais dois quilômetros caminhados, virei bruscamente à direita, e segui em direção à temível serra do Caçador.



No dia anterior, quando me restavam uns 7 quilômetros para aportar à Estiva, sentira fortes fisgadas na panturrilha da perna esquerda, mas a ingestão de um relaxante muscular, colaborara para que eu encerrasse a jornada sem sobressaltos.

No entanto, quando principiei a “escalar” a montanha, logo no primeiro trecho, pavimentado por bloquetes de cimento, em face de sua fortíssima inclinação, a dor voltou com intensidade, obrigando-me a fazer uma pausa para alongamentos.

Já refeito, reiniciei minha progressão em direção ao cume da cordilheira.

Ainda um tanto ressabiado com meu problema físico, fui lentamente ascendo pela vertente, até que na metade de pronunciado aclive me deparei com 4 cabeças de gado na estrada, sendo que duas vacas aguardaram pela minha passagem, e uma outra, assustada, arrebentou um ponto da cerca com a cabeça, e adentrou em um pasto.

O outro bovino, um touro ainda jovem, disparou encosta acima, e eu prossegui em ascensão à sua retaguarda.

Já no alto da serra, num local em que o caminho se nivelou, visualizei o animal assustadiço e nervoso se movimentando diante de um mata-burro ali existente, sendo que a estrada tinha cerca de arame farpado em ambos os lados.

Indeciso quanto ao que fazer, estaquei, porque o bicho poderia tentar saltar o obstáculo e, quiçá, tendo suas patas presas, quebrar uma perna, fato que mesmo sem ter culpa, eu iria lamentar.

Estávamos a uns 15 passos de distância, então, resolvi pular a cerca que havia do meu lado esquerdo, como forma de não sobressaltar ainda mais o boi, que se sentia acuado pela minha presença.

Contudo, no momento em que eu intentava tal medida, o touro virou-me em minha direção e investiu repentinamente.



Na verdade, ele estava se sentido acossado e tentava retornar ao seu rebanho, porém, face seu ato intempestivo, eu apenas tive tempo de subir no barranco, me encostar em um mourão e assistir seus chifres passarem em desabalada carreira a uns 40 centímetros de meu corpo.

Ele ainda correu mais alguns metros, depois parou bruscamente, se voltou e ficou a me mirar fixamente.

Sem hesitar, eu apanhei a mochila, corri em frente e saltei o mata-burro, me sentindo então em segurança, porém ainda aterrado pelo susto que o selvagem animal me perpetrara.

Não posso garantir se a cor vermelha da mochila que eu portava, tinha influenciado na decisão do marruá, contudo seu ato me deixou aturdido e fez meu sistema nervoso adentrar em um estranho comportamento.

Isto porque, quando enfrento alguma ameaça ou algo inesperado acontece, sou calmo, raciocino com toda a lucidez, tomando as providências apropriadas ao caso.

Mas, passado este, vem uma reação nervosa que me deixa como um trapo, pois os músculos dos maxilares, dos braços, do ventre, vibram de modo incoercível e as pernas ficam bambas, precisando sentar-me ou procurar apoio.

E foi dessa forma que me senti quando alcancei o outro lado da estrada, necessitando fazer uma pausa para hidratação e aguardar o retorno do meu corpo ao seu eixo central, para depois prosseguir adiante.



Na sequência, já refeito, segui ainda em ascensão e, de um arranque final, acabei por aportar ao cume do morro, de onde detinha uma visão privilegiada de toda a região por onde eu viera caminhando.


Foto batida do alto da Serra do Caçador, próximo de Consolação/MG

No entanto, ao longe, mais ao fundo, tudo se achava coberto por forte cerração, me parecendo estar avistando uma grande lagoa.

Fiz ali providencial pausa para me hidratar, comer uma banana e fazer breve reavaliação de minhas condições físicas que, surpreendentemente, em face da rudeza encontrada no roteiro até aquele patamar, se encontravam bastante favoráveis.

Por conseguinte, o sol já raiara, porém o dia continuava frio e ventoso, ideal para a caminhada.



Na sequência, passei a transitar pelo cimo da serra, num local plano, pleno de muito verde, situado entre fazendas de criação de gado e grandes plantações de morango.

Um senhor tangia um grande rebanho de vacas pela estrada em direção a um sítio vizinho, após a ordenha e, pacientemente, imprensado junto à cerca, aguardei pela passagem dos animais.

Mais adiante, pude desfrutar da gentileza do Sr. Antônio Gomes da Silva, que colocou uma torneira com água potável à disposição daqueles que por ali transitam.

Naquele horário, bandos de aves cruzavam o céu azul e sem nuvens, em busca do alimento matutino.



E depois de 15 quilômetros caminhados, após vencer a derradeira elevação, onde existe um grande e solitário pinheiro do lado direito da estrada, eu alcancei a marca de 1.300 metros de altura, o ponto de maior altimetria dessa etapa.

Então, na sequência, passei a descender e logo passei diante de uma cruz que assinala o local onde ocorreu o “acidente” com o peregrino Luiz Fernando Marques, que faleceu em 03 de abril de 2.010.



Fiz ali uma breve pausa para externar minhas preces, depois segui adiante, agora em franco descenso.

Essa brusca declividade perdurou por mais três quilômetros até que, já no plano, girei à esquerda, e logo passei diante de uma fábrica de polvilho.

A farinha de mandioca tem servido de base para alimentação dos sul-americanos há séculos, e nesse local, o peregrino tem a oportunidade de observar a secagem da mandioca, que é feita em ambos os lados da estrada.

Ressalte-se que tal processo é fundamental para a preparação do alimento, já que a fécula possui ácido cianídrico, um veneno mortal, e é somente após sua exposição prolongada ao sol, que esse alimento se torna apropriado para o consumo.

Na sequência prossegui em uma estrada bastante empoeirada e, às 9 h, aportei em Consolação.

 


Com 1.727 habitantes, Consolação se destaca pela cultura de morangos, pois a cidade apresenta um excelente clima para a produção da fruta.

A mandioca também é cultivada na cidade, e utilizada pela fábrica, instalada no município, para a produção de polvilhos e derivados, que são distribuídos para todo o Brasil.

Outro importante recurso natural muito bem aproveitado economicamente pela cidade é a água mineral.

O setor primário dita o ritmo de vida dos moradores de Consolação, que vivem em um ambiente tranquilo e hospitaleiro.

Na cidade, o turista tem a oportunidade de conhecer o modo de vida tipicamente mineiro, experimentar boa comida e conhecer seus atrativos naturais e culturais.

Destaque para a Cachoeira do Urubu, a Gruta do Zé Teixeira, a Pedra da Independência, a Serra do Caçador e a Serra do Bairro Cascavel.

 


Próximo da praça central da cidadezinha, eu encontrei uma padaria, onde adquiri pães, chocolates e água, depois fiz uma pausa num banco fronteiriço para descanso e hidratação.

Ainda era bastante cedo e eu me encontrava animado para enfrentar o trecho seguinte, mas o sol já brilhava forte e certamente eu teria problemas até atingir o final da jornada do dia.

Assim, rapidamente me recompus e, mochila novamente às costas, segui em direção à igreja matriz da estupenda cidadezinha, que é dedicada à Nossa Senhora da Consolação.

Então, principiei a descender até atingir a rodovia que segue em direção Paraisópolis, por onde segui, agora sobre piso asfáltico, por mais 4 quilômetros, até adentrar à direita, numa estrada de terra.



Logo, por uma ponte de madeira, ultrapassei o rio Capivari que, serpenteando pelo vale, faz a divisa entre os municípios de Consolação e Paraisópolis.

Mais acima, transitei pelo bairro dos Jacintos e num local já próximo de uma igrejinha dedicada à Nossa Senhora de Aparecida, fui ultrapassado por dois jovens ciclistas, Pedro e Eduardo, que também haviam saído de Estiva naquele dia.

Conversamos rapidamente, e eles me confirmaram que haviam partido da Pousada do Poka juntamente com o pessoal de Jacutinga, aproximadamente às 6 h 30 min.

Assim, quando confirmei que também havia saído do mesmo local naquele dia, porém, às 5 h 15 min, eles se surpreenderam e disseram estar admirados pelo ritmo que eu empreendia nessa jornada, visto já me encontrar naquele local.



Logo, eles se despediram e prosseguiram em frente, pois pretendiam pernoitar em Luminosa, fato que depois confirmei, quando assinei o Livro de Visitas de Dona Ditinha, lá na Pousada Nossa Senhora das Candeias.

Prosseguindo, sempre escoteiro, passei pelo Bairro Pedra Branca, transitei por uma larga estrada de terra, depois, mais à frente, adentrei à direita, seguindo as indicações das setas amarelas.



Esse derradeiro trecho é bastante árduo, pois se faz necessário sobrepujar duas grandes aclividades, sendo que a derradeira me exigiu bastante esforço, em face do adiantado da hora e pelo cansaço acumulado na jornada até aquele patamar.


Vista da Pedra do Baú, ao fundo, próximo de Paraisópolis/MG

Vencido esse último obstáculo, seguiu-se um trecho relativamente plano e, mais adiante, pude fotografar a famosa Pedra do Baú, pelo meu lado direito.

Depois de sobrepujar outra íngreme, contudo curta elevação, acabei por sair em zona urbana e principiei a descender, agora sobre piso empedrado, em direção ao centro da urbe.

E, às 13 h 45 min, quando o cansaço já debilitava minha coordenação motora, extremamente fatigado, eu adentrei à espetacular Pousada da Praça, local em que havia feito reserva.



Ali, fui recebido pela gerente, a Jandira, uma pessoa competente, simpática e que trata muito bem os hóspedes.

Ela também me confirmou que já existiam outros 10 peregrinos hospedados ali, que haviam saído de Consolação naquele dia.



Mais tarde, depois de reconfortante banho e lavagem de roupas, fui almoçar no Restaurante Cantina Mineira, localizado na praça central da cidade, onde, por irrisórios R$9,50, pude degustar, à vontade, um saudável alimento preparado nos moldes da típica cozinha mineira.

Depois de merecido descanso, saí para dar uma volta na cidade e, no retorno, conheci o pessoal que estava na Pousada, sendo que 4 mulheres residiam em São João da Boa Vista.

Elas haviam se agregado ao simpático grupo de Vinhedo, composto pelo Ubirajara, Jair, Lole e Donizetti.

Os outros dois peregrinos, com quem também conversei, eram o Sr. João, de Campina, e o Claudionor, de Araçatuba.


Igreja matriz de São José, em Paraisópolis/MG

Todos eles seguiriam na manhã seguinte, como eu, em direção à Luminosa/MG, o que muito me alegrou.

Mais tarde, por volta das 17 horas, aportou na Pousada o casal de Monte Alegre do Sul, o Amauri e a Luciana.

E, quase em seguida, os 8 caminhantes de Jacutinga/MG, sendo que esses 10 peregrinos, prosseguiam na manhã seguinte, via São Bento do Sapucaí/SP, então, não mais os veria até Aparecida.


Com a simpática Jandira, gerente da Pousada da Praça, em Paraisópolis/MG

Eles estavam bastante cansados e debilitados, assim, rapidamente, se refugiaram em seus respectivos quartos para banho e descanso.

Como havia uma massagista na Pousada fazendo seu trabalho com o Sr. Ubirajara, de Vinhedo, também me habilitei aos seus cuidados, pois sentia muitas dores nos joelhos e pés.

E, logo em seguida, pude desfrutar de uma relaxante massagem, que muito contribuiu para repousar meus membros fatigados, pois a Francisca é uma pessoa extremamente competente naquilo que faz.

Mais tarde, fui lanchar numa padaria da cidade e, no balcão, passei a conversar com um simpático jovem, o Miguel, que, coincidentemente, trabalha no Banco do Brasil na cidade de Gonçalves, localizada próxima dali.


Miguel, meu simpático colega de Banco do Brasil, em Paraisópolis/MG

Foi uma conversa bastante amistosa e produtiva, onde pude relembrar meu tempo de bancário, visto que também militei no BB por 25 anos.

De volta ao local de pernoite, ainda tive tempo de dialogar com alguns peregrinos, mas logo me recolhi, pois o dia fora, efetivamente, bastante puxado.

Na verdade, estava feliz por haver conseguido chegar até Paraisópolis, sem maiores percalços físicos, além do cansaço natural, e por estar rodeado de amigos recém-conquistados.

Nesse sentido, gosto de enfatizar que os dias de peregrinação são sempre diferentes e as experiências não se repetem jamais.


9ª Etapa – PARAISÓPOLIS/MG à LUMINOSA/MG – 24 quilômetros