9ª Etapa – PARAISÓPOLIS/MG à LUMINOSA/MG – 24 quilômetros

9ª Etapa – PARAISÓPOLIS/MG à LUMINOSA/MG – 24 quilômetros

Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o filho do leão e a serpente.” (Salmo 91, Versículo 13, da Bíblia Sagrada).

 

O percurso daquele dia se desenhava bastante tranquilo, pois a jornada seria de pequena extensão.

Dessa forma, optei por sair mais tarde, depois que o dia já tivesse amanhecido.

Assim, levantei às 5 horas e, às 5 h 30 min, eu desci tomar o café da manhã na cozinha da Pousada, onde ingeri frutas, pão e, ainda provei alguns dos alimentos preparados pela simpática Jandira, no dia anterior.

Ali, também, me despedi dos peregrinos de Jacutinga e do casal de Monte Alegre, posto que eles também prosseguiriam pelo Caminho da Fé, mas pelo roteiro antigo, aquele que passa por São Bento do Sapucaí, Sapucaí-Mirim, Santo do Antônio do Pinhal, etc.

Sentia, naquele instante a dor e a triste emoção daquela despedida, mas, por outro lado, seguia feliz e agradecido pela oportunidade do encontro e a certeza de que construíra amizades gratificantes e alicerçadas pela fé.

Com efeito, saí com os olhos marejados, pois são extremamente tocantes esses contatos profundos e efêmeros, que acontecem em minhas “viagens” pelos caminhos do mundo.



Então, exatamente, às 6 h, eu deixei o local de pernoite, seguindo por ruas urbanas frias e ventosas, e, naquele horário, já com intenso movimento de pessoas e veículos, visto que era uma quarta-feira, dia normal de trabalho.

Assim, mais abaixo, acessei uma rua ascendente e, depois de 3 quilômetros percorridos, desaguei na rodovia que segue em direção à São Bento do Sapucaí.

Então, girei à esquerda, mais adiante, eu transpus o rio Sapucaí-Mirim e, depois de mais um quilômetro vencido em bom ritmo, adentrei à direita, em larga e deserta estrada de terra.



Ainda estava frio e uma leve neblina persistia no trajeto quando, mais à frente, passei diante da Pousada Casa da Fazenda, localizada num local paradisíaco, pleno de muito verde e junto à encosta de majestosa serra.



Lentamente, pois, não havia pressa, fui vencendo as distâncias, até que, às 8 horas, 10 quilômetros percorridos, passei diante da igreja de São Benedito, localizada no bairro de Áreas.



O dia já clareara de todo, mas o céu permanecia nublado, ainda assim, fiz uma pausa próximo do templo para me hidratar e retirar minha blusa, pois sentia bastante calor.



Na sequência, já descendendo, tomei água num local onde existe uma gruta com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, e ali parei alguns instantes para externar minhas preces.



Mais adiante, a paisagem se fez deslumbrante e pude visualizar no topo de um morro um imponente casarão, cuja construção remonta à época áurea do café, sede da Fazenda da Pedra Branca, propriedade atualmente da família Goulart.

Então, depois de atravessar um ribeirão por uma ponte de madeira, teve início a serra do Cantagalo, que fui vencendo com tranquilidade, enquanto admirava a paisagem que ia se descortinando pelo meu lado esquerdo.



Pude fotografar novamente a cachoeira existente no ribeirão Cantagalo, mas, infelizmente, em face da estiagem que vivenciávamos, apresentava pequeno fluxo de água.

E, depois de vencer a derradeira elevação, aportei no bairro Cantagalo, pertencente ao Município de São Bento do Sapucaí, um local bucólico e fresco, situado a 1.200 metros de altitude, e rodeado de muito verde.

Tranquilamente, eu atravessei um pequeno córrego através de uma ponte e fui fotografar a cativante igrejinha do povoado, dedicada à Santa Maria.

Depois, fiz uma pausa no bar do Gato, situado defronte ao templo, onde ingeri um isotônico, acompanhado de uma barra de cereal.

 


Antigo caminho dos tropeiros, escravos e comerciantes, o bairro do Cantagalo hoje se transforma em parada para o turismo do campo.

O local preserva o passado, revela a vida na roça, longe das tecnologias da cidade grande.

Um lugar para voltar às origens, conhecer a vida dos nossos antepassados que muitos não conhecem.

Ali, nada de leite e ovos de caixinha, prato de microondas, comidas semiprontas e enlatadas, nada de asfalto ou o barulho do trânsito.

Nada de gravatas e saltos.

Ao levantar pela manhã o traje certo é jeans e botas sete léguas.

Comum é ir ao curral com uma caneca na mão para tomar o leite aos pés da vaca.

Depois, caminhar pelas trilhas na mata para exercitar o corpo e relaxar a mente ao avistar bela natureza nativa e belas vistas dos altos das montanhas.

Hora do almoço e o cardápio é comida caipira feita no fogão de lenha.



A tarde pode-se reservar para andar a cavalo, ir à igreja, ao coreto, ouvir as histórias dos nativos e conhecer suas tradições e cultura.

A noite chega e é hora do descanso em simples aposentos com direito aos barulhos bem diferentes da cidade.

O bairro do Canta Galo surgiu, segundo moradores, talvez ainda no século XIX, mas foi fundado na década de 30.

O nome, de acordo com os antigos moradores Benedito Bento e Pedrinho Bento, foi dado devido ao seguinte “causo”: Um engenheiro, um padre e dois escravos faziam picada na mata para abrir estrada.

O grupo, na hora do descanso, começou a ouvir um galinho cantar, porém, ao procurar o tal galinho não encontraram.

Levando a história aos moradores locais, o nome se espalhou e assim ficou o lugarejo chamado de “Cantagalo”.

Pertencente à cidade de São Bento do Sapucaí, Cantagalo fica na divisa com o Estado de Minas Gerais.

Há indícios de moradores indígenas, logo virou rota dos escravos, dos tropeiros e dos comerciantes dos Estados de São Paulo e Minas Gerais.

E por ali, algumas famílias decidiram ficar.

O vilarejo com o tempo cresceu ao redor da Igreja de Santa Maria, padroeira do bairro, porém, seu crescimento se limitou devido à distância dos recursos melhores da cidade e por isso seus filhos quando cresciam acabavam indo buscar trabalho em outro lugar e assim é até hoje.

Atualmente, estima-se uma população de 500 habitantes, 66 famílias.

(extraído do site http://www.jornalsmantiqueira.com.br)

 


Bem disposto e animado, segui adiante e logo passei diante da Pousada Vó Maria, onde seu proprietário, muito simpático e descontraído, me convidou para entrar e tomar café.

Respondi-lhe que estava bem suprido, agradeci a oferta e prossegui em frente.

E, mais adiante, passei defronte à casa do artesão Zé Ramos, onde são comercializadas peças típicas do interior, produzidas artesanalmente, como o pilão, gamela, monjolo, porteira e outros.

Prosseguindo, principiei a ascender novamente e na marca dos 20 quilômetros percorridos, ultrapassei a divisa dos Estados, para adentrar novamente no de Minas Gerais.



Alguns metros adiante, parei diante da entrada para a Pedra do Cruzeiro, um local emblemático, situado a 1.575 metros de altitude, no morro do Tatu.

Nesse local, anualmente, é realizada a tradicional festa de Santa Cruz, um bom momento de reflexão, pois sua tradição data do ano de 1941.

Segundo a história, em Brazópolis, a Festa de Santa Cruz costuma ser realizada no dia 03 de maio.

As capelas que se encontram nas residências e na beira das estradas, têm suas cruzes enfeitadas em atitude de reverência à Santa Cruz.

Ali, os fiéis rezam e em seguida participam de uma festa na casa do festeiro.

Em 03 de maio de 1941, foi realizada a 1ª celebração religiosa na Pedra do Cruzeiro, que tem altitude de 1.575 metros e fica na divisa de Luminosa (MG) e Cantagalo (SP).

Em Luminosa, os romeiros saem a pé ou a cavalo, percorrendo aproximadamente duas horas, em uma subida íngreme, findando o itinerário no alto da Pedra do Cruzeiro, onde se encontram com os romeiros que saem do Bairro Cantagalo.

Uma missa é celebrada e, após a cerimônia, as pessoas se confraternizam e é oferecida uma festa aos fiéis.

Não obstante ter uma história bem antiga, a romaria é atual, pois proporciona aos fiéis um retiro espiritual, oportunizando-os a redescobrir os valores cristãos.


Vista do Distrito de Luminosa/MG, desde o alto da serra

A partir desse patamar, eu enfrentei forte declive, em meio a frondoso bananal e, depois de uns 100 metros, pude avistar e fotografar Luminosa, lá embaixo, no fundo de um vale, minha meta para aquele dia.

E, após descender bruscamente por mais 3 quilômetros, aportei ao pequeno distrito, cuja sede é Brazópolis/MG.

Ali, fiquei hospedado na Pousada Nossa Senhora das Candeias e, como de praxe, fui muito bem recebido pelos seus proprietários, a Dona Ditinha e o Sr. Nilton, pessoas especiais e carinhosas que tudo fazem para que o peregrino se sinta em casa, naquele ambiente abençoado.


Peregrinos de Vinhedo e São João da Boa Vista, almoçando na Pousada de Dona Ditinha, em Luminosa/MG

Mais tarde, por volta das 13 horas, aportaram ao local os peregrinos de Vinhedo e São João da Boa Vista, 4 homens e 4 mulheres, que almoçaram na Pousada, depois seguiram adiante, pois iriam pernoitar na Pousada de Dona Inês, situada no alto da serra.

Depois de uma descontraída e apetitosa refeição comunitária, permaneceram no estabelecimento, além de mim, o Sr. João, de Campinas, e o Sr. Claudionor, de Araçatuba, que haviam chegado um pouco antes.

Sobre esse local fabuloso, nominado Luminosa, onde sempre me senti revigorado física e mentalmente, faço questão de transcrever singela crônica, para deleite dos leitores, que muito dignifica esse simpático distrito.

Ali, também, pude desfrutar de mais tempo e, assim, observar a rotina de seus moradores e descansar bastante, recuperando parte das energias perdidas na estafante caminhada do dia anterior.



CAMINHOS DA FÉ E DA LUZ: MEMÓRIAS, CASOS, DIÁRIO DE BORDO...

“São estranhos os nomes das cidades pelos lados dos caminhos da Fé e da Luz: Manhumirim, Manhuaçu, Tocos de Mogi, Carangola, Tombos, Luminosa...

Um trecho do Caminho da Fé é simplesmente maravilhoso; inicia-se “ladeando” a Mantiqueira e, depois, principalmente de Tocos de Mogi a Luminosa, penetra-se em seus fundões e a gente se vê cercado de Mantiqueira por todos os lados. Luminosa, por exemplo, uma pequena vila, com mais de mil metros de altitude, é cercada por altas, inalcançáveis, azuis e pedregosas montanhas. Em uma delas, em seu topo, o Observatório Astronômico de Brasópolis. Tivemos sorte; foram noites estreladas, céu azul, cheiro de ar, corpo cansado caído em cama limpa: depois de um dia de caminhada, um bem inestimável para a alma.

Luminosa é um pequeno distrito no município de Brasópolis. Pertenceu a São Paulo e desgarrou-se deste estado para se amasiar com Minas Gerais, na revolução de 32. Tem mais cara de cidade mineira mesmo. Pouco depois de se passar pelo povoado de Canta Galo, município de Paraisópolis, vê-se do alto de uma vertente da Mantiqueira, lá embaixo, a pequena Luminosa, com seus mil e poucos metros de altitude: cara e jeito de uma cidade medieval européia. “Só que de gentios desrespeitosos deixaram do lado de fora os seus mortos”, pensei, ao ver, separado da cidade e fora dos muros inexistentes, o cemitério. No mais era só inventar com o pensamento o muro de pedra e lá estaria a medieval Luminosa. Era dia de festa religiosa. Cidade cheia de gente e de misturas improváveis nos dias de hoje: encontrava-se lá, na ruazinha única da cidade, estacionadas ao lado dos cavalos e das mulas, potentes motos “off road”; caipiras com suas calças justas, canivete atado ao cinto, chapéu de aba larga ao lado de fortes e ruidosos rapazes em suas indumentárias coloridas de percorrer velozmente trilhas com suas motos; por ser dia de festa, muitos bêbados nas ruas: alguns tentavam, em seus cavalos, acrobacias e peripécias para fazer bonito para as mocinhas, mas seus cavalos, obedientes e dóceis, mesmo cutucados pelas esporas afiadas e cortantes, reconhecendo o estado de seu dono, teimavam em andar a passos curtos e seguros, o cavaleiro cambaleando - com o sorriso de bêbado - todo torto em seu dorso. Na calçada, carros estacionados, com o volume do som o mais alto possível, tocando forrós acompanhados por bandos de jovens alegres e barulhentos. Perto da igreja, em um galpão improvisado, havia leilão para “arranjar fundos” para reformar a bela igrejinha de frente à praça. E jovens namorados se beijando na boca com muita sensualidade, pouco se importando com o mundo lá fora: puro prazer. Tinha de tudo em Luminosa.



A “janta” e o café da manhã estavam inclusos nos vinte reais a serem pagos na pousada de Luminosa. Muito simples e limpa, fica no andar de cima do bar do casal; naquele dia, o movimento aumenta e dona Neuza vai ajudar o marido: fritar frango e batata para acompanhar a cerveja dos motoqueiros e cavaleiros daquele domingo de alegria na pequena vila; “tem que se aproveitar o dia”, dizia; da janela da pousada se vê o difícil caminho do dia seguinte: serão por volta de quatorze quilômetros de subida forte. Hora da “janta”, que é servida na cozinha da família. Por causa da festa e para ajudar no bar, estava lá a mãe da Dona Neuza, que é intimada: “Mãe, janta com os moços para fazer companhia para eles.

O cheiro de fogão de lenha e banha de porco, ser chamado de “moço” e a companhia da velha e comilona senhora aumentou o apetite. Uma repentina folga no bar deixou livre Dona Neuza, que, esperta, fez logo seu prato e, como minha mãe o fazia, comeu em pé, ao lado do fogão. Comida da “janta”: arroz, feijão, farinha de mandioca, salada de alface com tomates, chuchu, mandioca frita, bife de vaca e pedaços de leitão assado, arrematado no leilão da igreja por vinte reais - deliciosos.

Como, no dia seguinte, a caminhada prometia ser árdua, o recurso era sair cedo: foi o que dissemos à Dona Neuza, e tivemos a mais inusitada das respostas: “Meu quarto é este aqui. É só baterem na porta, me acordarem que faço o café rapidinho; vou deixar tudo arranjado.

Na manhã seguinte, pela primeira vez em minha vida, estou eu lá batendo na porta do quarto para acordar e não ser acordado pelo dono do hotel; sono leve, Dona Neuza acordou rápido e mais rápido ainda fez o solicitado café sem açúcar, ou, em seu dizer, “café margoso”: palavra que há anos não ouvia.”

(extraído do site: http://oficiocontadordehistorias.Blogspot.com/2008/11/caminhos-da-fe-e-da-luz-memrias-casos.html e postado por Fátima Noronha no site: http://ajaneladobraz.blogspot.com.br)

 


Mais tarde, após um bom sono, fui dar uma volta pela cidadezinha e segui em direção à sua igreja matriz, dedicada à Nossa Senhora das Candeias.

O templo se encontrava fresco, vazio e silencioso, então, calmamente, pude externar minhas orações, além de renovar meus pleitos e agradecimentos à Mãe Maria.

Depois de bater algumas fotos do entorno, e me sentindo bem disposto, tomei a decisão de me afastar um pouco da minúscula povoação, para conseguir visualizá-la por um ângulo diferente.

Assim, retornei sobre os passos que fizera quando adentrara em zona urbana, depois, fleti à direita e segui em direção ao cemitério da vila que, como já mencionado, fica um tanto retirado dessa simpática aldeia.

Uns 500 metros depois, fiz uma pausa para observar os arredores, bater uma foto da paisagem e observar as montanhas a leste, por onde eu seguiria na manhã seguinte.

Os dias, em agosto, são bem mais curtos que os do restante do ano, assim, tranquilamente, eu regressava pela mesma estradinha, enquanto o pôr do sol aos poucos se despia de suas cores e a noite descia.

Na vida normal, eu costumo perder a transição do dia para a noite porque me retiro para o brilho caloroso da luz elétrica de minha casa.

Entretanto, achei a mudança da luminosidade celeste um dos momentos mais gloriosos daquele dia.

Porquanto, os últimos raios de sol deixavam uma serenidade no ar, como eu não observava há muito tempo, um momento mágico, fascinante.

Senti um enlevo, uma transcendência, uma energia especial, um recado profundo da “divina” natureza.

Lentamente as cores e as sombras se suavizavam, formando um calmo pano de fundo que me abraçava, mas sem exigir atenção, permitindo que meus pensamentos se interiorizassem ou voassem para o céu infinito.

Foi um momento especial e propício à reflexão sobre os acontecimentos daquela data e das duas próximas e derradeiras jornadas.

Então, eufórico, mas reflexivo, retornei à Pousada de Dona Ditinha, onde já encontrei o jantar posto à mesa.


Com os peregrinos Claudionor, de Araçatuba/SP, e Sr. João, de Campinas/SP, pernoitando em LuminosaMG

Tive o prazer de fazer essa frugal refeição ao lado do Sr. João, de Campinas, figura ímpar, e do Claudionor, de Araçatuba, uma pessoa alegre e extrovertida.

Depois de bem alimentados, ficamos à mesa rindo, tomando cerveja e trocando experiências, num dos momentos mais memoráveis e hilários do dia.


Dona Ditinha e seu neto Rafael

Dona Ditinha, sempre prestativa, ainda nos serviu sobremesa e, depois, um café bem quente.

E, mais tarde, emocionado, me despedi dos meus amigos, pois não os veria mais, já que ambos, no dia seguinte, seguiriam apenas até o bairro Campista, onde pretendiam pernoitar na Pousada Barão Montês.

E, em seguida, me recolhi, pois a jornada seguinte seria extremamente longa e exigente, em termos físicos.


10ª Etapa – LUMINOSA/MG à CAMPOS DO JORDÃO/SP – 36 quilômetros