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A VIDA SECRETA DE FIDEL – Autor: Juan Reinaldo Sánchez

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A VIDA SECRETA DE FIDEL – Autor: Juan Reinaldo Sánchez 

"As revelações de seu guarda-costas pessoal"



Poucos estiveram tão perto ou souberam da vida do líder máximo de Cuba quanto Juan Reinaldo Sánchez, seu guarda-costas pessoal. Ao longo de dezessete anos, ele foi responsável pela segurança de Fidel, mas também testemunha de seus relacionamentos, de sua vida em família, de suas horas de lazer, de suas estratégias políticas, entre outras tantas coisas. Até as revelações de Sánchez, poucos sabiam que Fidel tinha uma ilha deserta paradisíaca para onde levava a família e poucos convidados - num belo iate ou em seu helicóptero - ou então quais eram seus hábitos alimentares, baseados principalmente em alimentos orgânicos.

Em parceria com Axel Gylden, repórter da revista francesa L’Express, Sánchez nos revela segredos de Estado e as múltiplas faces do ditador cubano, a partir de fatos que presenciou e que expõe sem julgamentos. Esse testemunho nos leva a reconsiderar tudo que sempre foi dito sobre Cuba e sobre Fidel Castro.

Sánchez, que fez parte da guarda pretoriana de Castro por dezessete anos, descreve um carismático e inteligente, mas manipulador, sangue-frio e egocêntrico Castro, propenso a acessos de raiva.” - The Guardian

JUAN REINALDO SÁNCHEZ, atleta de alto nível, com treinamento militar, e acadêmico, se dedicou inteiramente à causa da revolução. Em 1977, passou a integrar a equipe de segurança pessoal de Fidel Castro. Ele acompanhou intensamente a vida do líder máximo durante os próximos dezessete anos, registrando diariamente todos os detalhes de suas ações.

Fonte: http://www.editoraparalela.com.br/


Resenha: Parafraseando Trotsky, um soco no paralítico foi desferido contra os que apoiam médicos cubanos e a vinda de Raul Castro para nossa Granja Comari: trata-se do livro “A Vida Secreta de Fidel", de autoria do ex-guarda pessoal do ditador cubano (a quem o trabalhista Darcy Ribeiro chamava jejunamente de “o anjo barbudo”).

Oriundo de uma família de comunistas e anarquistas, este blogueiro simpatizava com o ditador de 91 kilos e 1,90 de altura.

Até que Cuba me deu o maior complexo de culpa possível: e foi em 1991.

Maior critico música deste país, Luis Antonio Giron, havia escrito para a Folha de S. Paulo, em janeiro de 1991, um artigo dilatadamente feroz. Reduzia a nada o esforço de Frei Betto, Chico Buarque e Antonio Callado em promoverem um voo d solidariedade a Cuba (em que, literalmente, nossos intelectuais iriam plantar batatas com adolescentes da UJC, a União da Juventude Comunista cubana). Ao ler Giron, Callado vetou a ida de repórteres da Folha no voo: afinal, Giron referia que todos iriam ali exumar a múmia de Fidel…

Curiosamente, Playa Girón foi onde, à 1h15 de 17 de abril de 1961 um contingente de 1,5 mil exilados cubanos dirigidos pela CIA tentaram derrubar Fidel…

Pois bem: coube a este blogueiro realizar mais uma missão impossível: se infiltrar em Cuba, sem se identificar como jornalista, e fazer uma reportagem de peso.

Minha ideia foi simples: mostrar que o aperto do embargo introduzido contra a ilha, sob Bush pai, estava matando os cubanos.

Liguei para o velho amigo e ídolo, o escritor Fernando Morais, pedindo uns tantos e cordiais conselhos. Ele me indicou para conversar com o jornalista brazuca Aroldo Wall, um dos chefões da agência cubana de notícias Prensa Latina (que teve como um de seus fundadores ninguem menos que o Nobel Gabriel García Márquez, quando este era tão-somente um repórter desconhecido).

Meu primeiro passo: fui visitar, sob indicação de uma antiga professor, Iris Lage Davila, novelista, mão do futuro ministro da economia de Cuba, Carlos Lage, hoje o homem mais forte da ilha após Raul Castro.

Segundo passo: tomar uns tragos na casa de Carlos Lage, junto de boa parte da Politburo caribenha.

Terceiro passo: ficar doente. Dormi sem camisa por dois dias sobre a vasta placa de metal do ar-condicionado russo em meu quarto, no hotel Colina.

Doente ao osso, veio o quarto passo: ser atendido no sistema de saúde cubano. Atendimento cordial, preciso, impecável: mas eu precisava comprar antibióticos. Cada pastilha saia por US$ 45,00 no mercado negro (um médico ou engenheiro cubano ganhavam US$ 40,00 por mês…)

Curado com as pastilhas do mercado negro, fui visitar o jornalista indicado por Fernando Morais. Magro e grave, o olhar de Aroldo se liquefez de ódio quando contei que tinha ficado doente de propósito: e que botava a culpa do meu infortúnio mais no aperto do embargo sob Bush pai do que em Fidel Castro…

Não importava: no outro dia estava na porta do meu hotel um jipe militar, com um jornalista da Prensa Latina, chamado Angel, estabelecendo que eu tinha 24 horas para sair da ilha…

Abandonei a ilha com culpa por ter sapatos novos, camisa limpa, sabonetes e remédios. Jurei jamais pisar ali de novo e ver pessoas de bem sem ter a seu dispor as necessidades básicas…

Eis que este meu torpe sentimento voltou a tona, 23 anos depois, (como um cadáver cheio de gases putrefatos que o fazem boiar), quando li, de uma sentada só, o recém-lançado “A Vida Secreta de Fidel", de autoria do ex-guarda pessoal do ditador cubano, Juan Reinaldo Sánchez.

O que mais me doeu, de todas as denúncias do livro, foi algo que mexeu com um dos meus ídolo e não consta de sua autobiografia: Gabriel García Márquez.

Estive com Gabo um punhado de vezes, como jurado de seu prêmio para jornalistas, na Colômbia (Cartagena de Índias) e no México (Monterrey).

Para manter imaculada a imagem de Gabo em meu coração, preciso apelar para a teoria literária.

O Nobel de Literatura tem esse viés: gosta de conectar o homem à obra. José Saramago, García Márquez, todos trazem na algibeira uma tenaz militância marxo-progressista, que é a maneira como muita gente chama os comunas por aí esses tempos. Afinal, quem ama estrofes ama também as catástrofes.

Jorge Luis Borges, o maior escritor argentino, não ganhou o Nobel porque apoiava os militares portenhos nos anos bravos da ditadura. Chegou a dizer que a única contribuição da África para a civilização ocidental tinha sido “a escravidão e os ritmos lascivos”. Nelson Rodrigues, o baba na gravata, era direitista, mas sua obra é libertária.

Não há, por exemplo, melhor lição de jornalismo do que “A missão da imprensa”, do chumbo-grosso Carlos Lacerda, e o filme “Sob as névoas da guerra”, de Errol Morris, em que o ex-secretário de defesa dos EUA Robert McNamara (um direitista devidamente convertido em tecnocrata centrista) confecciona uma autêntica arte da guerra (Sun Tzu) dos tempos Pós-Modernos. Os dois, Lacerda e McNamara, dão lições de humanismo que muita gente dita de esquerda seria incapaz de captar.

A vulgata da crítica literária não é muito rica nesse estudo da separação entre o homem e a obra. Nietzsche escreveu em “Ecce Homo” que “uma coisa sou eu, outra são os meus escritos”.

E Karl Marx tem uma interessante história escrita sobre esse tema, que são as chamadas “Cartas à madame Harkness”. Nas missivas, Marx confessa que um seguidor do marxismo, o advogado Lassalle, havia escrito peças muito ruins e chatas porque pareciam libelos marxistas intragáveis – com personagens vomitando gritas comunistas a todo o momento.

Para madame Harkness, Karl Marx confessou que preferia Balzac, um escritor conservador, mas em cujas obras o realismo havia vencido.

Ou seja: na estética marxista, o marxismo cai bem quando, na arte, aparece lateral, oblíquo, enviesado, ladino, como uma torre no xadrez. O ataque frontal, o libelo contaminam a sutileza da arte, diz essa escola. Enfim, tudo isso para dizer que a contradição do ser humano, quando escreve algo e fala e age bem diferentemente, é bem-vinda, obrigado, na estética.

E Schopenhauer, tão idolatrado por Einstein e Machado de Assis e Freud e Nietzsche, havia emprestado uma luneta, para um fiscal prussiano, para que esse atingisse na testa, com sua arma, um revolucionário. Fez isso bem na semana em que escrevia o livro tido como “libertário”. Maior contradição que essa não haverá.

Pois bem: quero pensar que Gabriel García Márquez tem sua obra imaculada, que não se compraz com o que li dele no livro “A Vida Secreta de Fidel”, de autoria do ex-guarda pessoal do ditador cubano.

A lista de barbaridades pessoais de Fidel Castro, constantes do livro, trazem detalhes sórdidos: do número de amantes e dezenas de casas burguesas dedicadas a esses encontros furtivos, aos caprichos burgueses do ditador.

Como por exemplo sua ilha secreta aburguesadamente rica, em Cayo Piedra, à quantidade de peixes raros que Fidel exterminava, com suas próprias mãos, para consumir em suas refeições (peixe-lua, peixe-esquilo, peixe-gato, peixe-borboleta, peixe flauta, peixe-trombeta, hamlet, cardeal, cirurgião-listrado, olho-de-cão).

Não vamos praticar spoilers e reveler tudo o que o livro traz, que não é pouco.

Médicos referem que coração é um órgão que não dói: doeu-me fisicamente o coração ao ler na obra a quantidade de festas, rega-bofes e excessos burgueses de Fidel Castro aos quais o sempre convidado de honra era Gabriel García Márquez (que, diz o livro, tinha casa burguesa e Mercedes-Benz a vontade, em Cuba, tutelados pelo sacrifício do povo cubano).

Terei de esquecer deste livro para poder voltar a admirar a obra de García Márquez (até que, mais uma vez, as denúncias do segurança pessoal de Fidel voltem a emergir em minha memória, mais uma vez como um cadáver cheio de gases putrefatos que o fazem boiar).

Por enquanto quero pensar que o homem é uma coisa: e que sua obra é outra.

Por enquanto quero me consolar com a máxima de Nietzsche em Ecce Homo, “uma coisa sou eu, outra são os meus escritos”.

O Gabo do livro do segurança de Fidel Castro matou o Gabo de meu coração.

PS: segue um link com algumas fotos da ilha particular de Fidel, tão frequentada por El Gabo:

http://secretoscuba.cultureforum.net/t65-cayo-piedra-si-primera-vez-fotos-desde-tierra

Fonte: br.noticias.yahoo.com/blogs/claudio-tognolli/


Opinião Pessoal: Um livro bastante revelador, onde emerge o lado possessivo, obscuro, dominador e passional de Fidel Castro.


Minha Avaliação: Excelente! Recomendo!

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