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PELAS TRILHAS DE COMPOSTELA – Autor: Jean-Christophe Rufin

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PELAS TRILHAS DE COMPOSTELA – Autor: Jean-Christophe Rufin

"O RELATO DE UMA VIAGEM LAICA"



Quando parti para Santiago, não buscava nada, e o encontrei.” — Jean-Christophe Rufin


SINOPSE: Um dos grandes relatos de viagem dos nossos tempos: “Quando parti para Santiago, não buscava nada, e o encontrei.” - Jean-Christophe Rufin.

Santiago de Compostela é sem dúvida um dos destinos de peregrinação mais populares dos nossos tempos, com cerca de 200 mil visitantes por ano. Jean-Christophe Rufin, renomado escritor, acadêmico e diplomata, relata sua jornada de 800 quilômetros pelo Caminho do Norte, muito menos movimentado do que a usual rota dos peregrinos, até Santiago de Compostela. Ao longo do caminho, a experiência física torna-se uma reflexão em busca de si mesmo. O autor, um peregrino incomum, se torna um observador lúcido que descreve com um senso de humor único sua jornada pelas costas do País Basco e da Cantábria e através das montanhas das Astúrias e da Galícia. Pelas trilhas de Compostela apresenta histórias engraçadas, personagens inusitados e um delicioso exercício de autocrítica para aqueles que partem sem um objetivo específico, mas que acabam encontrando uma inesperada motivação para continuar a jornada.

Fonte: http://www.ciadoslivros.com.br


Coluna "Os Encantos do Caminho de Santiago" - O Caminho Ecumênico - Colunista: Eduardo Assumpção de Queiroz

Recentemente li o livro O Caminho Imortal, de autoria do francês Jean-Cristophe Rufin. Além de escritor premiado, o autor é médico, fundador dos Médicos sem Fronteiras, e diplomático, tendo sido embaixador da França no Senegal entre 2007 e 2010.

Rufin relata sua peregrinação pelo Caminho do Norte, uma rota menos frequentada, mas de beleza incomparável graças ao litoral Vasco e Cantábrico.

A seguir, relato alguns dos trechos com os quais mais me identifiquei. Alguns destes são fiéis traduções da versão espanhola do seu recém-lançado livro, outras levam minha própria livre adaptação.

Ao se iniciar o Caminho passamos por uma breve fase que deve ser saboreada.

Nesta etapa se pensa muito. Nossos pontos de referência, posição familiar, social e profissional, vão desaparecendo conforme avançamos rumo ao destino ainda tão distante, quase inacessível. A sensação liberdade e desnudez que se produz no caminhante diante do desconhecido que o rodeia e do anonimato de sua nova identidade propiciam uma forma de introspecção que se acentua ao ar livre. Um está a só consigo mesmo. O pensamento é a única coisa familiar, o que permite criar diálogos e convocar recordações com as quais sentimos uma proximidade bem-vinda. O caminhante reencontra a si mesmo com emoção, como se de repente encontrasse um velho amigo. Tudo passa a ter uma nova perspectiva: as lembranças, os projetos, as ideias. Nos surpreendemos em meio a nossa solidão. Avança-se no caminho ao ritmo dos próprios sonhos e, quando estes nos impulsionam a toda velocidade, nos vemos quase correndo. Diz um ditado que “a alegria dá asas”.

Ao cabo de algumas horas, ou dias, o caminhante se dá conta de outra presença: seu corpo. Este instrumento normalmente silencioso começa a emitir sua própria voz. Diversos componentes da nossa máquina interna e externa passam a se manifestar ruidosamente um após o outro, reivindicando atenção e cuidados, até culminar num grito de socorro.

A digestão é o primeiro, através de suas armas bem conhecidas: fome, sede, estômago ruidoso, barriga se retorcendo, o que nos leva a uma parada.

Logo vêm os músculos. Seja qual for o esporte que se faça habitualmente, nunca serão os mesmos os músculos que estarão treinados. O esportista que tenha encarado o Caminho com a arrogância de quem sabe o que é esforço será o primeiro a se surpreender com a descoberta de novas dores em pontos do corpo que nunca se havia dado conta.

A pele, que normalmente pouco reclama, lembrará ao caminhante todo e qualquer inchaço, irritação, atrito ou corte.

Estes órgãos relegados, tais necessidades básicas, desconfortos, migram do interior e da periferia do corpo e acabam ocupando o salão nobre da atenção do peregrino. Interrompem a alegria das imagens e dos sonhos às quais um havia mergulhado inicialmente. O caminhante então toma uma decisão de autoridade. Para reagir a todas estas exigências internas e subalternas – às quais está obrigado a atender de uma forma ou de outra –, decide por forçar-se a pensar. Isto se chama reflexionar.

O peregrino diz a si mesmo que, depois de se contentar com o que passava pela cabeça, chegara a hora de confrontar metodicamente questões sérias. Todos levamos dentro de nós um número de assuntos delicados: decisões pendentes, projetos aos quais não temos dedicados tempo suficiente, questões metafísicas que nunca tivemos ímpeto de responder ou buscar respostas.

Vem então um período de concentração mais ou menos longo durante o qual a pessoa se vê forçada a pensar. São horas e dias mergulhados no vai e vem da reflexão, interrompida pelas distrações do Caminho.

É difícil não se distrair caminhando: as flechas que nos guiam na rota, os carros, outros peregrinos, os pés que doem ou o peso da mochila. De qualquer forma, as ideias sempre acabam voltando e os problemas se apresentam com mais clareza e quase sempre sem o mesmo peso. Pode até acontecer de se encontrar as soluções para o que antes parecia não ter saída.

No entanto, basta atravessar um novo vilarejo, encher a garrafa de água na fonte municipal, ou se engajar numa conversa com outros peregrinos para que toda esta viagem interna desapareça em um instante: a solução que tínhamos visualizado, o projeto, a cura para a dor, a bolha superada...

Aí, em meio a todos os esplendores, o Caminho nos confia um segredo. Sussurra sua verdade que se torna nossa. Santiago de Compostela não é uma peregrinação cristiana, mas algo muito maior, ou menor, dependendo de como se enxergue esta revelação.

Santiago de Compostela não pertence a nenhum culto e, a bem da verdade, se pode atrelá-lo a todos que se queira. Se pudesse relacioná-la a uma religião seria com a menos religiosa de todas, a que não diz nada de Deus, mas que permite abordar sua existência abertamente. Santiago de Compostela é uma peregrinação budista. A peregrinação nos libera dos tormentos do pensamento e do desejo, nos faz perder toda a vaidade do espírito e acaba com o sofrimento do corpo, apaga a rígida envoltura que rodeia as coisas e as separa de nossa consciência, e põe o nosso eu em sintonia com a natureza. Como toda iniciação, penetra o corpo através do espírito e é difícil comparti-la com quem não tenha tido esta experiência.

A peregrinação se encaixa mais com uma espiritualidade contemporânea, menos abordada pela Igreja. Muitos que embarcam no Caminho se veem atraídos por valores de despojamento, união com a natureza e realização de si mesmo. Pode-se formular a hipóteses de que se a peregrinação fosse criada por outra religião também atrairia tanta gente. É importante salientar que o Dalai Lama lembra aos ocidentais que querem se unir ao budismo tibetano que estes podem beber também, e em primeiro lugar, das fontes cristianas.

Para concluir, divido com o autor o seguinte:

Há os que não voltam para casa com a mesma conclusão que descrevemos acima. Não temos a intenção de convencer ninguém. Simplesmente descrevemos o que sentimos durante nossas várias viagens na rota jacobeia. Para resumir de uma forma divertida, quando partimos para Santiago, não buscávamos nada e encontramos.

Fonte: http://www.trilhacultural.com.br/


Opinião Pessoal: Relato de uma peregrinação realizada pelo Caminho do Norte, roteiro que percorri em 2011, daí minha curiosidade ao adquirir esse opúsculo. Algo raro e inédito em termos de livro, vez que a maioria das publicações peregrinas se referem a experiências vivenciadas no Caminho Francês.


Minha Avaliação: Sensacional! Para um peregrino contumaz como eu, um livro impagável e delicioso de se ler!


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