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TEKENIKA – Autor: Giuliano Giongo

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TEKENIKA – Autor: Giuliano Giongo



No inverno austral de 1988, o experiente escalador italiano Giuliano Giongo decidiu dar um passo para além do abismo. Ele não se suicidou, mas levou a limites extremos sua já elástica noção de conforto e segurança.

Depois de haver cruzado sozinho, durante o inverno, o Campo de Gelo Continental Sul, da Patagônia chilena até a Patagônia argentina, depois de haver escalado o Monte Fritz Roy, a Agulha Egger no inverno e tentado escalar o Cerro Torre também no inverno, Giongo se propôs navegar por outros mares, literalmente.

A bordo de uma canoa inflável de três metros de cumprimento, a roupa do corpo e uma muda reserva, sem quaisquer mantimentos, pouquíssimo equipamento (ele nem levou um cantil para água), Giuliano Giongo desembarcou, clandestinamente, no Estreito de Magalhães e navegou cerca de 500 quilômetros até próximo à Baia Orange, vizinha ao arquipélago do Cabo Horn.

Não bastasse a proeza de haver sobrevivido à inanição por 70 dias se alimentando quase que exclusivamente de algas marinhas e frutos do mar, sem complicações renais por se hidratar com água do mar, não ter morrido afogado por estar flutuando em uma embarcação “cheia de vento” em um dos mares mais perigosos do planeta… Giuliano Giongo fez essa travessia em pleno inverno.

Chamá-lo de “inconsequente” é puro pleonasmo. Claro que ele foi inconsequente!

Mas, tanto o livro quanto o projeto por trás dele fazem todo o sentido do mundo, se levarmos em conta a filosofia de vida pregada pelo autor.

Escaladores do nível de Giongo, que realizaram façanhas em paredes verticais no Himalaia e na Patagônia, idealizados pela mídia como super-heróis, tendem a se achar indestrutíveis. Com o passar do tempo, o acúmulo de experiências sempre de altíssimo grau de exposição ao perigo, a convivência rotineira com o desconforto absoluto, o cansaço com a mesmice da vida urbana cotidiana quando fora de expedições, é normal que os limites para esse tipo de gente se tornem turvos.

Até onde eu consigo chegar? Qual meu limite físico? Psicológico? Onde as regras médicas e estatísticas científicas deixam de ser aplicadas a mim? E assim por diante.

Nesse estágio, o aventureiro passa a usar a si mesmo como um laboratório de pesquisas em movimento, em tempo real, assumindo todos os riscos e não fazendo concessões.

Nessa travessia, Giongo se compara inúmeras vezes aos índios nômades canoeiros yamanas, que habitaram por milênios os canais da Terra do Fogo, vivendo seminus expostos a um clima desumano. Mas, nem de longe o italiano se parecia com os pequenos yamanas. Enquanto Giuliano viveu essa aventura por tempo determinado, por opção própria, a título de autoconhecimento ou seja lá qual foi sua motivação pessoal, os yamanas só buscavam a sobrevivência e nada mais. Enquanto a Giongo sobram expectativas e possibilidades, aos yamanas todo dia era dia de sobreviver e nada mais. Essa bagagem cultural Giongo não conseguiu deixar em terra.

Giuliano Giongo pode ser considerado um “herói” entre aventureiros, pela façanha digna de mérito que realizou, mas seu exemplo não deixa lições maiores à raça humana do que uma aula de perseverança e autoflagelo. O livro tem importância específica a pessoas, como eu, interessadas além da conta pela Patagônia e Terra do Fogo, estudiosos de expedições de exploração e autoconhecimento usando a natureza como campo de provas, mas, fora isso, não dá para ser considerado uma obra de arte.

Minhas pesquisas na internet não revelaram mais informações sobre Giuliano Giongo. Embora ele tenha sobrevivido essa viagem de canoa pelos mares do Cabo Horn, parece que ele desapareceu do mapa depois dessa viagem. Talvez a experiência tenha sido reveladora demais e ele virou um ermitão vivendo em alguma caverna perdida do planeta – o que combinaria muito som seu discurso antisociedade de consumo, antiindustrialização e antitecnologia.

Tekenika é boa leitura de aventura. A gente chega a sentir frio, fome, sede e exaustão lendo suas páginas. Um livro que eu recomendo.


Sinopse: Trata-se da iniciativa de um italiano, aventureiro radical, mais acostumado a escalar cerros famosos no Sul da Patagônia do que desafiar as águas pouco amigáveis do Canal de Magalhães a bordo de um caiaque. A experiência nos surpreende a cada instante e ultrapassa em muito nossas expectativas. Entediado e estressado com vida urbana onde ocupa excelente cargo numa empresa, resolve dar mais um basta em busca da liberdade e da adrenalina pura. Desta vez radicaliza numa área que não domina; a náutica. Escolhe um caiaque inflável, uma sacola, uma barraca, uma roupa apropriada, todos transportáveis a pé, e investe em pleno inverno num ambiente já deveras agreste e temido pelos raros moradores locais. Escolhe como ponto de partida o sul do Chile e após ter negada a licença das Autoridades locais, se lança de um pesqueiro em absoluta clandestinidade, apenas compartilhada pela tripulação que tenta até a última hora removê-lo da louca ideia. Inicia-se assim um das mais impressionantes aventuras de um indivíduo solitário que tem um firme objetivo pela frente. As águas geladas e tempestuosas do Estreito de Magalhães impõem para sempre a imobilização em menos de 3 minutos a todo ser humano que por qualquer descuido nelas se quedar, o que não pode ser evitado em determinado momento de grande desespero. Durante o trajeto desfila pela mente sua vida, seus desafios anteriores, questionamentos medos e autoanalises são expostos de forma crua e real em meio aos raros momentos de sublime beleza, acompanhados de outros crescentes de enormes sacrifícios e padecimentos impostos pelas forças naturais que ingnoram sua presença. A fome, a sede e o frio são companheiros contumazes só quebrados pela fraternidade, a generosidade, o calor humano de raros e compungidos pescadores e habitantes de estações antárticas que se surpreendem com a presença inesperada, e que tentam sem sucesso o resgate deste inquebrantável aventureiro. Os maus humores climáticos se sucedem enquanto subtraem as forças do personagem, ao mesmo tempo que engrandecem e purificam seu espírito até o desfecho final. (José Antônio Torelly Campello) - http://www.popa.com.br/


Opinião Pessoal: Um livro que prende a atenção do leitor do início ao fim, pelo grau de dificuldades e perigos enfrentado pelo autor em sua frágil embarcação.


Minha Avaliação: Excelente! Gostei Muito!


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