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1ª etapa: SÃO CARLOS à DESCALVADO – 46 quilômetros

1ª etapa: SÃO CARLOS à DESCALVADO – 46 quilômetros

 

Apesar de estar vivenciando o início do mês de agosto, o clima mais parecia um “veranico”, pois estava quente, com sol forte e baixa umidade relativa do ar após as 12 horas.

Para piorar, já fazia mais de 30 dias que não chovia naquela região.

Como forma de minimizar os efeitos da estiagem e do calor, resolvi sair o mais cedo possível, desde que isto não representasse risco de me perder ou perigo à minha integridade física.

A noite passou atribulada, quase insone, devido à excitação da aventura.

Afinal, experimentava um certo entusiasmo nascente, e me sentia pronto para a odisseia.

Ademais, tinha esperado meses por aquele dia, ainda que sob a forma de expectativas.

Naquele momento, em todo o país, as pessoas estariam se levantando para o trabalho, mais tarde ficariam entaladas em engarrafamentos, cingidas pela fumaça dos escapamentos.

Ao revés, eu ia sair para uma caminhada no campo, e me sentia feliz e preparado para tal.

Desse modo, sem grande esforço, levantei às 4 h e, uma hora depois, por ruas escuras e desertas, eu deixei o hotel e segui em direção à Catedral de São Carlos.

Ali eu acessei a Rua 13 de maio, e por ela segui uns 500 metros quando, obedecendo às flechas amarelas, dobrei à direita e prossegui até chegar diante de um córrego.

Então, virei à esquerda e segui beirando suas margens por uns dois quilômetros.

A iluminação urbana estava perfeita, as flechas com pintura recente, de forma que não tive problemas quanto ao rumo a seguir.

Por um bom tempo prossegui ao lado do riachinho, sentindo o rosto ser acariciado pela brisa matutina, fresca e revigorante, até que desaguei na Avenida Getúlio Vargas.

No final dela, eu atravessei a rodovia SP-310 sobre um pontilhão, depois prossegui pela Rua Alexandre Pedrazzani, na direção do bairro Novo Horizonte.

Às 5 h 45 min, cinco quilômetros percorridos, o asfalto terminou, eu acessei uma estradinha em terra.



Fiz uma parada rápida, externei uma prece, repassei a viagem, e verifiquei que até aquele momento tudo dera certo.

Pedi a Deus para encerrar o Caminho com saúde e sem intercorrências, isto seria o suficiente.

Na sequência, segui caminhando paralelamente à rodovia SP-215, que naquele horário, apresentava escasso tráfego de veículos.

Como ainda estava escuro, eu utilizei minha potente lanterna de viagem para ir checando as flechas amarelas.



Mais adiante, eu passei diante de um motel e, logo, as flechas me remeteram, num ângulo de 90 graus, à esquerda.

Com o dia amanhecendo, prossegui por uma estrada de terra larga e plana, até que depois de 2 quilômetros, numa bifurcação localizada junto a um laranjal, tomei à direita.



Exatamente num local, onde uma placa me avisava que eu estava distante 532 quilômetros de Aparecida.

Prenunciava-se uma manhã agradável, de azul intenso e eu estava ciente de que o caminho não seria tão difícil em termos altimétricos, pois eu enfrentaria subidas curtas, entremeadas por longos estirões planos.

Segui, então, caminhando em direção à fazenda Graúna, num trecho onde encontrei muito pasto, plantações de cana e alguns bosques de eucaliptos.



Mais adiante, iniciou-se um grande descenso e, no final deste, eu atravessei um riacho por uma ponte, e logo enfrentei um grande aclive.

Vencido este, seguiu-se um trajeto bastante fresco, agradável e arborizado.

Depois, prossegui entre grandes pastagens, com ampla visão do horizonte ao meu redor.



Às 7 h 45 min, 15 quilômetros percorridos, aportei no Santuário de Nossa Senhora Aparecida da Babilônia, cuja sede é São Carlos.

Nesse lugar nasce o ribeirão das Águas Turvas.

Ali existe uma graciosa e muito bem cuidada igrejinha, objeto de intensa devoção do povo sancarlense.

Segundo a história, quem patrocinou a construção da primitiva capela foi Dona Querubina Maria Barbosa, filha de Cândida Barbosa.

Conta uma lenda, que Ângelo Dias, cuiabano, corneta de um corpo militar, do qual desertou antes de 1.842, vindo morar na casa de Dona Querubina.

Tempos depois, ele fez a escultura de Nossa Senhora Aparecida, em barro, dando-a de presente para Dona Cândida, sob a condição dela doar 2 alqueires de suas terras, naquele local, para patrimônio da Santa.

A construção foi finalizada por volta de 1.873, e existe uma fervorosa crença professada pelo povo da região de que a imagem é milagrosa.

Desde então, todos os anos, sempre no dia 15 de agosto, quando se comemora a Assunção de Nossa Senhora, uma concorrida romaria se dirige ao local.

No entorno da ermida, há uma razoável estrutura para recepcionar os romeiros, com banheiros, pontos de água, e um restaurante rural, que serve refeições aos domingos.

Desde a implantação do ramal Oeste do Caminho da Fé, em fins de 2.008, existe a promessa do credenciamento de uma Pousada neste lugar.

Porque ela seria de crucial importância para o peregrino, porquanto seria uma forma de melhor dividir essa etapa, em vista de sua larga extensão.



Vagarosamente, fui em direção ao templo, adentrei em seu interior, externei minhas preces, depois bati algumas fotos da área localizada ao redor do Santuário.

Nas construções ali existentes, apenas observei, ao longe, duas pessoas trabalhando numa granja avícola, as demais se encontravam fechadas e silenciosas.

Finda a visita, segui adiante, agora por asfalto, utilizando a Estrada Municipal Leôncio Zambel que, mais acima, me levou a cruzar a rodovia SP-215, no seu quilômetro número 136, num local onde existe uma grande rotatória.


Já do outro lado, prossegui por uma larga estrada de terra que, depois de 2 quilômetros, numa bifurcação, me remeteu à esquerda, agora margeando um frondoso bosque de eucaliptos.

Nesse trecho, observando à direita, no horizonte, eu podia avistar as escarpas das terras altas do município de Analândia.

Também, atravessei entre imensas pastagens, onde o forte é o gado holandês e o nelore, vez que a região é grande produtora de leite.

Mais adiante, passei defronte um haras, onde observei uma expressiva criação de cavalos.

Nesse entremeio, avistei culturas de milho, sorgo, café, mas pouca cana, sendo que também visualizei extensos galpões, onde são criados frangos para corte.

Depois 22 quilômetros percorridos, quando meu relógio marcava 9 horas, eu voltei a sair na Rodovia Vicente Botta, a SP-215, seguindo, então, pelo seu acostamento, durante quinhentos metros.

Mas logo, as flechas me remeteram à direita novamente, em franco ascenso, por larga e pedregosa estrada de terra.

Já no topo, num cruzamento, segui à esquerda e, em seguida, passei a caminhar em pronunciado declive, culminando, em seu final, diante do concorrido e famoso Spa Água Santa.

Pela sua localização estratégica, este seria outro local ideal para o credenciamento de apartamentos visando ao pernoite de peregrinos, pois ele se encontra distante, por terra, 25 quilômetros de São Carlos.

Fica a sugestão, no entanto, se impossível a implementação dessa ideia, ao menos deveria ser tentada a disponibilização de um lugar de descanso e fornecimento de água para os caminhantes.



Prosseguindo, na sequência, transpus mais uma vez a rodovia SP-215, agora por um largo pontilhão e, quando do outro lado, encontrei uma placa me avisando que eu estava adentrando ao município de Descalvado, que dista 21 quilômetros daquele ponto específico.

A partir desse marco, o caminho se tornou largo, em leve ascendência, e terrivelmente empedrado, um martírio para meus pés.

Mais acima, num trecho extremamente arborizado, percebi duas pessoas caminhando à minha frente.

Infelizmente, a vã esperança de que poderiam ser peregrinas logo se desfez, pois quando as ultrapassei, após cumprimentos e rápido papo, fiquei sabendo que elas estavam hospedadas no Spa, que eu havia ultrapassado mais abaixo.



Mais adiante, cruzei com outros clientes dessa clínica de emagrecimento, estes já retornando ao estabelecimento, pois o sol principiava a incomodar e eles deveriam ter saído mais cedo para o “trecking”.

A estrada prosseguiu larga, empoeirada, e com intenso tráfego de caminhões, pois o forte nessa região é a plantação de cana de açúcar, cuja safra estava em pleno andamento.

Fiz, então, uma providencial pausa para hidratação e lanche, exatamente no acesso à Fazenda Cedro, onde encontrei uma tentadora e providencial sombra debaixo de uma grande seringueira.

Quando me preparava para partir, sobre minha cabeça, num galho de árvore, um bentevi chilrou alegremente, e eu, levemente assustado, entendi seu acorde como um bom presságio para o restante da minha meta para aquele dia.

Por bastante tempo fiquei sem ver as tão animadoras flechas amarelas, contudo não fiquei preocupado, pois as únicas saídas possíveis da via principal eram os acessos às propriedades rurais, sempre vedados por porteiras trancadas com grossas correntes.


Finalmente, depois de 6 quilômetros percorridos em território descalvadense, encontrei uma grande flecha amarela pintada no tronco de grossa árvore, situada à beira da estrada, o que me infundiu grande alegria.

O percurso permaneceu plano e quase sempre sombreado, porém em alguns intermeios eu encontrei o piso com bastante areia, que dificultavam, sobremaneira, minha locomoção.

O tráfego de veículos prosseguiu intenso e quando apontava um automóvel ou mesmo, um treminhão, eu precisava deixar a rodovia e me esconder.

Porquanto, após a passagem dos “brutos”, formava-se extensa nuvem de poeira, que demorava a baixar, pois não havia brisa soprando naquele dia.

Fato inusitado me ocorreu no trecho subsequente, porque ao passar por um bosque, ouvi claramente uma voz humana, que parecia vir do alto de uma árvore.

Curioso, parei e tentei localizar algum autofalante, ou mesmo uma pessoa que estivesse alcondorada em algum galho, mas nada vi, embora a estridente sonoridade persistisse.



Mesmo encasquetado pelo alarde, prossegui caminhando, porém, de repente, ouvi um barulho na retaguarda, que me fez dar um salto e virar, com extrema rapidez e agilidade.

Senti um baque fortíssimo nas espáduas e o meu coração disparou, não de medo, mas pela surpresa da coisa jamais sonhada.

Fiquei imóvel como estátua, retendo até a respiração, atento como num desespero, pois sentia na altura do estômago uma sensação de vácuo e de frio.

Para meu estupor, um enorme papagaio colorido quase sentara em meu ombro, contudo com o espavorido movimento que fiz, ele acabou por bater em minhas costas, desequilibrando-se, e caindo ao chão.

A ave, belíssima, de plumagem intensa e com uma anilha no pé esquerdo, continuava falando, imitando perfeitamente a vocalização do ser humano.

Sua inexplicável presença num lugar tão distante e ermo despertou minha curiosidade, pois não conseguia encontrar explicação para tão incomum fato.



Afinal, de onde ele viera? Teria escapado do cativeiro? Algum criador devolveu-lhe a liberdade? Teria migrado de outra região que sofreu alteração em seu habitat?

Ainda confuso, tentei oferecer meu cajado para que a avezinha subisse até minha mão, mas ela se assustou, voou para uma árvore situada na margem esquerda da rodovia, e logo desapareceu.

Posteriormente, comentando a insólita aparição com um morador local, ele disse que possivelmente o “louro” residia nas matas adjacentes, pois elas fazem parte da Fazenda Santana do Monte Alegre, cujo proprietário é o Sr. Fernão Bracher, que foi presidente do Banco Central do Brasil, em 1995.

Sendo que essa área é utilizada pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente – IBAMA, para Soltura e Monitoramento de animais selvagens no Estado de São Paulo, por apresentar boas condições ambientais para a readaptação de aves que são apreendidas em operações de fiscalização.



Assunto esclarecido, prossegui caminhando, e logo passei pelo acesso à imensa Fazenda Santa Rita (Agrindus), uma empresa especializada em bovinocultura de leite.

Mais adiante, cruzei com uma estradinha em terra, de interessante conotação histórica, vez que no passado, ela servia de leito para a estrada de ferro que fazia a ligação até a Fazenda Aurora, hoje desativada.

Também, nesse trecho final, deparei com placas indicativas das entradas para as tradicionais fazendas Santa Fé  e São João do Morro Alto.

O padrão das terras também variou bastante, pois ora ela era vermelha, sendo utilizada para culturas de cana ou cítricos, ora era arenosa, sendo indicada para pastagens.

Não deixa de ser um trajeto bonito, porém nos derradeiros 21 quilômetros é impossível a obtenção de água, vez que inexistem nascentes, e as casas sedes das fazendas que compõem esse trajeto, estão situadas a longa distância do caminho.


Quanto passava defronte uma pequena chácara, totalmente distraído, um enorme cão latiu e partiu em minha direção, pregando-me um terrível susto.

Uma cerca reforçada impediu-o de me atacar, porém seu rosnado rouco era uma nota dissonante naquele mundo silencioso e pacífico, por onde eu transitava.



O sol castigava sem dó, fazia um calor infernal, e meus pés ardiam pelo esforço dispendido, nesse trecho derradeiro.

Eu sustentava meu sofrimento com resignação estoica e, ainda assim, precisei de muita energia e fé para cumprir até o final a jornada desse dia, pois cada fibra cansada, cada músculo alongado, implorava por descanso.



Finalmente, depois de 43 quilômetros percorridos, ao atingir o topo de pequena elevação, sob uma ofuscante luminosidade, proveniente de um céu azul e sem nuvens, eu avistei Descalvado, minha meta para aquele dia.

A vontade de chegar me pegou de corpo e alma, e repentinamente, uma nova onda de energia parecia fluir dentro de mim.

Porquanto, às 13 horas, sob um sol escaldante, através de uma cortina de ondas tremeluzentes de calor, a promessa de água fresca fez meus pés que se arrastavam, se elevarem novamente do chão.



Fiz um esforço compenetrado para vencer os derradeiros quilômetros, e logo adentrei em zona urbana, seguindo em direção ao centro da urbe bastante feliz e satisfeito.

E, com razão, pois entendia que a parte mais difícil da viagem ficara para trás.

Para tanto, transitei pelo Bairro São Sebastião, através de avenidas largas e de asfalto recente, depois passei diante da antiga estação ferroviária, hoje desativada, seguindo, então, em direção ao centro.

Lá chegando, me dirigi ao Hotel Descalvado, onde havia feito reserva, localizado na praça principal dessa simpática urbe.

Eu estava extremamente cansado e sedento.

Assim, logo encontrei um frigobar bem abastecido no apartamento refrigerado que me foi destinado.

Isso me devolveu a calma, e a temperatura ideal reanimou minhas energias.

Após, demorado e revigorante banho, fui almoçar no restaurante A Cabana, que recomendo, pois ali pude recuperar condignamente minhas forças, face à qualidade dos alimentos ingeridos.

 

Descalvado significa “sem cabelos”, “careca”, ou ainda, “um local de vegetação rasteira”, porém, o nome da cidade não deriva do solo da região, que na verdade é excelente.

Era sim, a alcunha de um morro situado ao sul do município, desprovido de vegetação, que servia de referência aos viajantes vindos de Rio Claro, e que seguiam em direção à Araraquara.

Na verdade, essa colina até possui cerrada flora em seu topo, porém apresenta partes rochosas, o que lhe legitima a denominação de escalvado ou calvo.

 

Depois de um merecido e longo descanso, seguido de vigorosa massagem nos meus sofridos pés, fui até o prédio Prefeitura Municipal.

Ali pude abraçar novamente o Paulinho Saggiorato, que ocupa o cargo de Secretário do Turismo do Município, a quem havia conhecido no ano anterior, juntamente com a Caravana dessa Cidade, quando eu percorria o trecho final do Caminho da Fé.

Combinamos nos encontrar à noite para festejar nossa amizade, assim, segui até um supermercado próximo, a fim de me prover de víveres para a jornada seguinte.



Em seguida, fui até a igreja matriz da cidade, dedicada a Nossa Senhora do Belém, onde pude admirar seus belos vitrais.

Também, muito me impressionaram os afrescos existentes em seu interior, de autoria do pintor esloveno Franciscus Pavlovic, que utilizou como inspiração as decorações existentes nos museus de Kunsthistorisches e de Burgtheather, ambos em Viena.

Após, demorada visita naquele sacro local, segui as flechas amarelas por um bom tempo, como forma de inteirar do roteiro que faria no dia seguinte.


No bar Quatro Cantos, com os amigos Zito, Marcelo Paludetti e Paulinho Saggiorato

Mais tarde, após nova pausa para descanso, fui até o bar Quatro Cantos, e ali em companhia do Paulinho, Marcelo e o Zito, pude confraternizar entre amigos, minha visita inaugural àquela simpaticíssima cidade.

Estávamos numa quarta-feira, de maneira que o dia seguinte seria de trabalho para todos, assim, por volta das 10 horas nos despedimos, e eu logo fui dormir.

 

Um pouco antes de adentrar em Descalvado, fotografei a placa dos 500 quilômetros restantes até Aparecida

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de grande extensão, cumprida sob intenso calor e sol ardente, agravada pelo fato de não existir a possibilidade de se conseguir água no Caminho, o que me obrigou a carregar uma razoável quantidade desse líquido. No geral, uma etapa bastante complicada, uma das mais difíceis que enfrentei nesse roteiro, exacerbada pelo intenso tráfego de veículos encontrados quando adentrei ao município de Descalvado. No entanto, cumprida sempre em meio a muito verde e belas paisagens, com a ressalva de que a parte final do caminho é bastante sombreada.


 2ª etapa: DESCALVADO à PORTO FERREIRA – 20 quilômetros