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3ª etapa: PORTO FERREIRA à TAMBAU – 48 quilômetros

3ª etapa: PORTO FERREIRA à TAMBAU – 48 quilômetros


Levantei muito bem disposto, afinal a “folga” vivenciada no dia anterior me fizera muito bem.

Então, antecipadamente, me programei para chegar até Tambaú, porém, em face da grande extensão que necessitaria percorrer, deixei para tomar a decisão definitiva quando aportasse na cidade de Santa Rita do Passa Quatro.

Assim, vencidos os deveres de praxe matutinos, deixei o local de pernoite às 5 h 30 min, seguindo por ruas vazias e frígidas, em direção ao rio Mogi Guaçu, que transpus por uma antiga ponte.

Na sequência, prossegui em leve ascenso, primeiramente em direção ao Jardim Botafogo, depois ao bairro Cristo Redentor.

O trajeto, todo urbano e cumprido sob intensa iluminação, está muito bem sinalizado, de maneira que não tive problemas para encontrar o rumo, apesar do dia ainda não ter nascido.

Depois de ultrapassar uma rotatória, enfrentei 300 metros tensos e sobre asfalto, num local em que não existe acostamento e, surpreendentemente, apesar do horário, com intenso tráfego de veículos, em ambos os sentidos.

Mais acima, defronte ao Condomínio Las Palmas, as flechas me remeteram à esquerda, onde acessei uma larga e pedregosa estrada de terra, integralmente deserta àquela hora.



Então, com a madrugada sendo varrida pelo lindo amanhecer que se descortinava no horizonte, vivi momentos indeléveis e silenciosos, quando, então, aproveitei para fazer minhas orações e agradecimentos ao Criador, por minha saúde.

O percurso, praticamente todo plano, salvo raras e breves ondulações, me levou, depois de 6 quilômetros percorridos, a transitar em meio a uma imensa plantação de laranjas, com os frutos integralmente maduros.

O trajeto prosseguiu bucólico, entremeando plantações de cana, milho e cana de açúcar, com imensas áreas de pastagem, onde pude observar grandes rebanhos leiteiros.



Num trecho mais adiante, encontrei um belo e florido pé de ipê, que mereceu algumas fotos, pela exuberância de sua tonalidade amarela.



Depois de 10 quilômetros percorridos, quando meu relógio marcava 7 h, ultrapassei um encorpado rio e após a ponte, parei sob a sombra de um bambuzal para retirar minha blusa, ingerir uma fruta e me hidratar.

Na sequência transitei em meio a grandes áreas recentemente lavradas, que possivelmente estavam aguardando chuva para serem semeadas ou replantadas.

Por sinal, o dia permanecia calorento e opressivo, além do que a estrada apresentava grossa camada de pó acumulado em seu leito, e a passagem de qualquer veículo motorizado, até mesmo uma motocicleta, era suficiente para espalhar a poeira pelo ar.


Depois de percorrer 13 quilômetros, passei por um sítio agradável e bastante arborizado onde, após pedir licença a um Senhor que lá encontrei, pude descansar e matar minha sede, numa bica d’água ali existente.

Em seguida, melhor preparado, prossegui adiante e logo enfrentava o primeiro grande obstáculo do caminho.

Um morro, que me levou de 550 metros de altitude, onde eu me encontrava, a 800 metros, quando atingi seu cume, isto num espaço de um quilômetro.

Foi, efetivamente, um bom teste para meu condicionamento físico, que venci com muito ânimo e coragem.



Já no topo, descortinou-se um horizonte privilegiado de todo o vale por onde eu caminhara, podendo meus olhos alcançar além de grandes plantações e imensas pastagens, as cidades de Porto Ferreira e Descalvado, inclusive a Via Anhanguera, com seu trânsito carregado.



Ainda caminhando em leve aclive, passei ao lado de três belíssimos pés de ipês, integralmente floridos, o que me obrigou a fazer outra pausa para fotos.

Logo eu principiei a descender e, depois de percorrer 16 quilômetros, aportei à Rodovia SP-328, seguindo, então, à direita, pelo asfalto.

Três quilômetros depois, sempre em lento declive, cheguei defronte ao portal que dá acesso à cidade de Santa Rita do Passa Quatro.

A cidade, que possui pouco mais de 26 mil habitantes, é um convite para o viajante, e eu tinha imensa curiosidade em conhecer um pouco de sua história, bem como ver de perto suas belezas naturais.

Porquanto, além de ser o torrão natal de Zequinha de Abreu, compositor da famosa canção “Tico-tico no Fubá”, foi ali que nasceu também o ator José de Abreu, contratado da Rede Globo de Televisão.

No município, mais especificamente dentro do Parque Estadual Vassununga, se encontra a mais antiga árvore conhecida do Brasil, um jequitibá-rosa (Cariniana legalis), com idade estimada em 3.030 anos e 40 metros de altura.

Além de fazer parte dos 12 municípios paulistas considerados estâncias climáticas, ela ainda ostenta o indesejado título de “Capital Nacional dos Raios”, pois ali as descargas elétricas provenientes do céu são frequentes.

Distinção que, sabiamente, seus moradores fazem questão de ignorar, com medo de que os turistas deixem de conhecer seus recantos e cachoeiras. 

Ainda, como curiosidade, foi nela que o Sr. Adolfo, um jardineiro aposentado de 78 anos, faturou a Mega Sena de Ano Novo, sorteada em 31/12/2009, abiscoitando, como único ganhador, a quantia de R$72 milhões de reais.



Tudo isso já seria motivo para agendar o meu pernoite na cidade, contudo, fiz uma pausa para descanso e avaliação, num local defronte à imagem de Santa Rita, que se encontra fincada do lado direito da rodovia.

A tentação de encerrar a jornada do dia era grande, mormente porque o calor já começava a incomodar, tanto que tinha minha camiseta integralmente molhada de suor.

No entanto, repensei o motivo de minha peregrinação, afinal eu não estava fazendo turismo, além do que, dentre as atrações oferecidas pela cidade, quase todas estão alocadas fora do perímetro urbano, e eu estava a pé.

Ademais, o meu estímulo em aportar à Aparecida resumia-se a pleitos pela saúde de alguns familiares, e entendia que meu esforço em seguir adiante, também seria levado em conta por Nossa Senhora.

E como os pedidos revestiam-se de extrema urgência, eu pensava em aportar aos pés da Mãe Maria, o mais rápido possível, como forma de ali entregar-lhe, pessoalmente, meus humildes rogos.

Além disso, eu ainda contava com outro fator favorável, ainda era muito cedo, pois meu relógio marcava “apenas” 8 h 45 minutos.

Depois, eu ainda não me sentia cansado, tinha água suficiente, levava frutas e chocolates, e estava com bastante disposição física.

Assim, após muito refletir, optei por seguir adiante.

Decisão tomada, ao invés de adentrar à urbe, eu prossegui pelo asfalto, e três quilômetros depois, encontrei outro trevo, local exato onde nasce a rodovia em direção à Tambaú.

Naquele lugar, eu reencontrei as flechas do Caminho da Fé, pois elas servem de orientação para os peregrinos que iniciaram sua jornada no centro de Santa Rita.

Logo abaixo, mais 1.500 metros percorridos, as setas amarelas me direcionaram para a direita, e logo eu acessei uma estradinha de terra pedregosa e poeirenta, que seguiu sempre em leve, mas perene ascenso.



Tudo permanecia calmo e silencioso àquela hora, e o sol dardejava sem piedade, levantando da terra uma aragem morna.

Mais cinco quilômetros percorridos, eu retornei à beira da rodovia e por ela segui por mais um quilômetro, quando, então, numa bifurcação eu segui à direita, por uma via asfaltada, que vai em direção ao Morro Itatiaia.

Essa elevação conta com 970 m de altura, se apresta à prática do voo livre (parapente e asa delta), e possibilita uma excelente vista panorâmica da região, além de existir ali edificada uma estátua de Cristo, com 22 metros de altura.

Lá também há uma capela, sanitários, e face sua localização privilegiada, é possível avistar várias cidades como Tambaú, Porto Ferreira, Pirassununga, e outras.

Eu nem havia caminhado 100 metros, quando uma cena chocante confrangeu meu coração, pois avistei um lindo cão vira-lata, que fora atropelado a pouco, vez que ainda apresentava sua beleza natural, sem a rigidez cadavérica característica.

Aquilo me entristeceu profundamente, pois possuo três exemplares dessa espécie em minha residência, e sei do amor que devotamos, reciprocamente.

Permaneci em silêncio um bom tempo no local, refletindo sobre nossa impermanência nesse mundo, e esse fato, infelizmente, acabou por ser a nota dissonante neste trecho, porquanto me aborreceu bastante.

Isto porque, com a idade do Juízo, o adentrar dos anos, no contato áspero e maravilhoso com a natureza, somos levados, como São Francisco, a amar todos os animais e a respeitar o transcurso natural de suas existências.

E eu estou atravessando o início dessa temporada, que inclui não desejar a morte de nenhum animal, seja o que for, sempre rezando pela cartilha dos hindus, que não molestam nem os bichos que se agregam em seus corpos.

Bem, mas o jeito era prosseguir adiante, assim, depois de mais um quilômetro percorrido, as flechas me direcionaram para a esquerda, onde acessei uma agradável estrada de terra, situada em meio a um imenso canavial, já no ponto de corte.



O trecho seguiu em descenso e bastante arborizado, contudo depois de mais 3 quilômetros percorridos, retornei definitivamente à rodovia.

Fazia muito calor e o sol era intenso.

Esse derradeiro trecho é realmente difícil, tenso e perigoso, pois, a rodovia não possui acostamento, apesar de ser bastante movimentada.

De maneira que, a todo momento, quando percebia  a vinda de algum veículo, eu precisava sair da pista, numa tarefa dura, inquietante e cansativa.

Depois que eu já havia percorrido globalmente uns 32 quilômetros, iniciou-se um brusco descenso que se prolongou por quase uma hora.

Aquilo foi um bom alento, porém me preocupava o que estava ainda por vir, vez que observando do outro lado da ponte, por onde obrigatoriamente eu transitaria, verifiquei que posteriormente iria necessitar vencer um alentado morro.

E foi efetivamente o que ocorreu, pois o terrível ascenso prolongou-se por uns 3 quilômetros, obrigando-me, em face do horário e do sol ardente, a fazer várias paradas para descanso e hidratação.

Quando restavam ainda uns dez quilômetros para a chegada, e eu já visualizava ao longe, no horizonte, a cidade de Tambaú, minha meta para aquele dia, tive uma surpresa agradável, pois avistei 4 peregrinos descansando debaixo de uma árvore.

Ao alcançá-los, eles reiniciavam a marcha, de forma que depois das apresentações e cumprimentos, fiquei sabendo que eram os que haviam partido de São Carlos no dia de minha chegada.

Sendo que um deles, o faltante, já seguira para Tambaú, objetivando negociar as acomodações para o pernoite.

Naquele dia eles haviam partido de Santa Rita no meio da manhã, e como caminhavam num ritmo bastante tranquilo, eu acabei por alcançá-los.

O Sr. Jorge e sua filha acabaram ficando para trás, mas o casal do Rio de Janeiro, Clézio e Sedalice, seguiram comigo conversando, e foi gratificante ter companhia nesse final de jornada.

Com a animação dos meus interlocutores, eu acabei esquecendo a sede que me perseguia, bem como meu cansaço que misteriosamente desapareceu.



Porém, em face do ritmo intenso que acabamos imprimindo na caminhada, os peregrinos curitibanos acabaram por ficar distantes.

Assim, quando adentramos em zona urbana, os cariocas optaram por aguardá-los, seguindo eu novamente sozinho em direção ao centro da urbe.

Para tanto, junto à Cerâmica Cunha, eu acessei uma grande escadaria e, quando na parte alta, segui o fluxo e a sinalização, aportando no centro da cidade, extremamente estafado, quando meu relógio marcava 15 horas.



Rapidamente, me registrei no Hotel Tarzan, depois fui almoçar no bar do Geninho, onde a comida caseira e atenção dispensada pelo proprietário, fizeram a diferença.

Mais tarde, após um breve descanso, retornei à Secretaria de Turismo do Município, para carimbar minha credencial peregrina.



Em seguida fui rezar no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, depois segui até a casa do Padre Donizetti, para uma visita rápida, pois o local iria fechar às 17 horas.

No trajeto, defronte à praça principal da cidade, acabei por reencontrar os 4 caminhantes que havia conhecido no caminho, pois eles estavam chegando àquela hora.

Conversando com o Clézio, fiquei sabendo que o pessoal iria se hospedar no Eliane Hotel, de forma que me despedi e deixei-os à vontade, porque eles estavam buscando um bar para fazer um lanche, antes de se recolherem ao local de pernoite.

Afinal, no dia seguinte eu os reencontraria em Casa Branca, e teríamos tempo para uma interação mais tranquila e salutar.

 

 

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de grande extensão, agravada pelo fato de que os derradeiros 17 quilômetros são feitos por asfalto, num trecho duríssimo e desestimulante pelo expressivo tráfego de veículos e a tensão de um possível atropelamento. É de se ressaltar, no entanto, que o trecho até Santa Rita é bastante belo e fácil, à exceção do outeiro a ser sobrelevado quase no final do trajeto. No global, um percurso vencido debaixo de muito sol e poeira, uma das mais difíceis e desgastantes etapas que vivenciei no Caminho.


 4ª etapa: TAMBAU à CASA BRANCA – 30 quilômetros