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8ª etapa: ÀGUAS DA PRATA à ANDRADAS – 34 quilômetros


8ª etapa: ÀGUAS DA PRATA à ANDRADAS – 34 quilômetros


“Peregrinação é o período em que o caminhante se desliga do labor, afasta-se do trabalho para, introjetando-se em seu eu, recobrar forças na vida espiritual.” (J. B. Abreu)

 

Com a Sra. Odete Loro Boscariol, atual Presidenta da Associação dos Amigos do Caminho da Fé


Trinta e quatro dias depois, cumprindo o compromisso que assumira com minha Mãe Aparecida, eu retornei a Águas da Prata numa segunda-feira à tarde, e me hospedei na Pousada do Peregrino.

Quem me atendeu desta vez foi a funcionária Karina, a quem também já conhecia de longa data.

Ali já encontrei alojados outros seis peregrinos, todos procedentes de Vargem Grande do Sul, a quem logo me apresentei.

Tratava-se do Ederson, Vanderlei, Gustavo, Rodrigo, Jânio e Cynthia, esta residente em Poços de Caldas/MG.

Sem dúvida, um grupo animado e piedoso, com quem me enturmei facilmente.

Eles haviam trabalhado no domingo normalmente, pois alguns deles eram feirantes.

Assim, às 15 horas, logo após o almoço, partiram, a fim de pernoitar na pousada de Dona Cidinha, ainda em Vargem.

Naquele dia haviam subido a serra da Fartura, e depois descendido a Águas, num trajeto bruto e penoso, pois mescla duríssimos aclives com violentos descensos.

Pelo visto, fizera uma vítima, pois o Gustavo reclamava de dores em seu joelho esquerdo, em face de uma torção sofrida no tramo final, quanto se transita em meio a imensos cafezais.

Eles estavam preparando o jantar na cozinha da Pousada e me convidaram para cear com eles.

A refeição era um misto de macarronada com carne e batatas, além de saladas e pães, algo bastante calórico e necessário para quem havia gasto muita energia naquela dia.

Contudo, eu como passara o dia “flauteando”, declinei do convite, me contentando apenas com um frugal lanche, que adquiri num bar vizinho do local.

Combinamos fazer o trecho até Andradas juntos, no dia seguinte, depois eles seguiriam até a Serra dos Lima para pernoitar na Pousada de Dona Natalina, num percurso total de 49 quilômetros.

Realmente, algo impensável, já que eu estava me readaptando à dura liça peregrina.

Então, como persistia sem chover há mais de 60 dias, e o sol estava por demais ardente, após as 10 h, pactuamos em sair às 4 h da madrugada.


O aguerrido grupo de Vargem Grande do Sul: Gustavo, Ederson, Jânio, Vanderlei e Rodrigo 

Assim, me levantei às 3 h, tomei parte no café da manhã comunitário que a Tina deixara preparado no dia anterior, e no horário aprazado partimos para a aventura.



Antes, porém, na calçada defronte à Pousada, fizemos vários fotos do grupo, como forma de eternizar aquele momento sublime e importante.

Como todos portavam lanternas, não tivemos dificuldade em encontrar o rumo a seguir, até porque o primeiro trecho é feito todo por asfalto e sob intensa iluminação urbana.

Mais acima, assim que adentramos em estrada de terra, nossos faroletes entraram em ação, e prosseguimos em bom ritmo.

Por sorte, a fadiga muscular que se instalara depois da inatividade física forçada se fora e, para meu alívio, descobri que ainda estava em forma.

Naquele horário, a temperatura estava amena, e um vento frio soprava à nossa retaguarda, como que tentando nos empurrar em direção ao nosso objetivo daquele dia.

Porquanto, o trajeto, até o seu 25º quilômetro, é sempre em perene e lenta ascensão.

Dessa forma, uma hora depois, 8 quilômetros vencidos, passamos ao lado de uma igrejinha dedicada à São Jorge, toda vestida de amarelo intenso e com pintura recente.

Sobre ela existe uma história interessante que me foi contada pela Iracema, uma das fundadoras do Caminho da Fé:

Um casal de médicos peregrinos ao passar naquele local, tempos atrás, fotografou o templo em ruínas, de vários ângulos.

Depois, ao revelar o filme, constataram, com enorme surpresa, que a pequena igreja aparecia nas fotos reconstruída e, ainda, com belos desenhos em seus vitrais. 

Impressionados, entenderam ser aquilo uma mensagem celeste.

Por isso, solicitaram ao proprietário da fazenda permissão para reformá-la. 

E, assim, com recursos próprios, deixaram-na conforme aparecia nas fotografias.


Igrejinha de São Jorge

O resultado final foi aquilo que contemplei embevecido.

Infelizmente, apenas externamente e sob a pálida luz da lanterna, porque, lamentavelmente, por razões de segurança, o local sacro permanece, quase sempre, inacessível à visitação. 

Em razão disso, minhas preces foram proclamadas do lado de fora, ao ar livre, solicitando proteção na jornada.



A manhã ia surgindo lentamente, pois ainda não era dia, mas a luz das estrelas se apagava e o céu rapidamente embranquecia.



Já amanhecendo, passamos a caminhar em meio a montanhas, tendo um riacho rumorejante correndo pelo lado esquerdo.

A paisagem circundante achava-se ressequida, efeito da longa estiagem que vivenciávamos, mas que já tinha dia marcado para cessar, pois a metereologia previa chuva para dali a dois dias.



Às 7 h 30 min, 16 quilômetros superados, fizemos uma pausa na “Ponte de Pedra” para descanso, hidratação e lanche.

O local é belíssimo, pleno de frondosas árvores, ar puro, porém, a exuberante cachoeira que dá vida ao local se encontrava reduzida a um pequeno fio de água, em face da falta prolongada de chuva.

Fato curioso é que a torrente passa debaixo de uma enorme pedra, que serve de ponte e estrada que segue para uma fazenda.

Bem alimentados, retornamos a caminhar e mais à frente, passamos defronte à estrada que dá acesso ao Pico do Gavião que, com seus 1.663 metros de altura, é considerado no “ranking” mundial o 4º melhor colocado para a prática de vôo livre.



Logo depois, atravessamos um riacho, por uma minúscula ponte, e deixamos o Estado de São Paulo para adentrar ao de Minas Gerais. 

Naquele local, estávamos ao nível de 1.143 m, acima do mar.

Prosseguimos ascendendo, primeiramente, dentro de um encantador bosque de eucaliptos.

Depois, em meio a muitas árvores, ladeado pela grande serra da Mantiqueira, que seguia pelo meu lado direito.



Ali me afastei um pouco do grupo e parei para admirar o Pico do Gavião, cujo nome é conhecido o maciço mais elevado daquelas montanhas, devido à quantidade daquela espécie de ave.



"..Observei a cordilheira ao longe e vi 2 montanhas como se fossem as asas, e a grota arborizada no meio o corpo e a cabeça, forcei o desenho de uma ave em voo ascendente, isto apenas na imaginação.

Por sinal, o nome do local provém de a natureza proporcionar que ali seja o habitat de três ou quatro tipos de gaviões, como o preto, o marrom e o carijó, espalhando-se por toda a cadeia montanhosa, onde eles nidificam, principalmente nas árvores mais altas.

Sobre o tema ainda, sabe-se que o gavião é um predador, mas o faz somente para comer e alimentar seus filhotes.

O carijó é o tipo predominante, sendo dotado de uma cauda cortada por três estrias pretas, os calções listrados, o ventre pardo, listrado de branco.



Por essas nuanças, mereceu o tipo a atenção para simbolizar uma das maiores torcidas de futebol do mundo, cujo emblema é ostentado por seus adeptos em bandeiras, faixas, flâmulas e camisas.

À propósito, alguém já ouvir falar da “Gaviões da Fiel”?

Concernente ao tema, dizem que da guarita existente bem ao alto, perto do pico, olhando para baixo, nota-se que o traçado da estrada desenha o corpo de um pássaro, o que é também apenas uma curiosidade proporcionada pela natureza e pelo homem que a procura vencer...."  

(texto extraído do livro "Paciência e  Descontração no Caminho da Fé", 1ª edição de maio/2.006, de autoria de Ovídio Mora)


Examinando bem o céu, avistei dois parapentes com seus ocupantes fazendo arrojadas manobras, visto que o Pico é um dos pontos mais requisitados pelos praticantes desse esporte radical no Brasil.



O Caminho prosseguiu por uma via larga e movimentada, em ininterrupto aclive, até atingir, após ultrapassar a Fazenda Pinheirinho, a altitude de 1.400 metros, o ponto de maior altimetria nessa etapa.

Dali eu já avistava, ao longe, no horizonte, a cidade de Andradas, esparramada sobre um planalto, minha meta para aquele dia.

E logo chegamos à Pousada Pico do Gavião, instalada num local privilegiado, e que oferece excelentes serviços aos turistas.

Porém seu foco principal está voltado para a comunidade do voo livre, vez que ela dista apenas 5 quilômetros da rampa de decolagem do pico homônimo.

Embora a Pousada não faça mais parte da relação de estabelecimentos credenciados pelo Caminho da Fé, seu proprietário ainda conserva o carimbo pertinente, de maneira que nós fizemos ali uma parada para “sellar” nossas credenciais.

Como o sol já estava forte e o clima extremamente seco e com baixa umidade, aproveitamos para encher nossas garrafas com água, bem como matar a sede.

Coincidentemente, havia 3 peregrinos hospedados no local e que estavam iniciando sua jornada naquele momento, embora meu relógio marcasse 9 h.

Ocorre que iriam caminhar apenas 8 quilômetros naquele dia e, como eu, também iriam se hospedar em Andradas.

Conversamos ainda por alguns momentos, depois reiniciamos nosso périplo, agora por um caminho levemente ascendente.



Após uns 500 metros, se tanto, giramos à direita e principiamos a descender por uma estrada pedregosa e com alta camada de pó em seu piso, o que deixava tudo muito perigoso, pois um tombo poderia causar danos irreparáveis em termos físicos.

Foram vários declives, em meio a muito verde e extensas plantações de café, sempre ladeado por duas grandes montanhas, onde estão instaladas várias torres de captação de sinais de telefonia e TV.



Depois de muitas voltas, finalmente vencemos mais uma pedregosa ladeira e, já no plano, às 10 h 30 min, atingimos a zona urbana da cidade. 

Nesse trecho derradeiro, o sol estava terrível, daqueles de “arrebentar mamona.”

Gastamos, ainda, meia hora caminhando por calçadas entre os transeuntes, disputando espaço, para, finalmente, às 11 h, alcançar o Palace Hotel, onde fiquei hospedado.

De se ressaltar que esse estabelecimento oferece uma estrutura invejável para o peregrino, pois dispõe de comodidade, conforto e preço baixo para quem está no Caminho da Fé.

Sem dúvida, deveria servir de exemplo para muitos, pois, para se ter uma ideia, paguei apenas R$50,00 pelo pernoite, com direito a ar condicionado, frigobar, cama de casal, café da manhã, silêncio, etc..

O pessoal de Vargem se proveu de água e lanches num supermercado próximo, carimbou suas credenciais e rapidamente se preparou para partir, decisão que não invejei, pois fazia um calor infernal.

Então, nos despedimos de forma definitiva, pois eles ainda iriam enfrentar mais 15 quilômetros de estrada até aportar ao destino naquela data, e pretendiam pernoitar em Inconfidentes no dia seguinte.

Antes de reiniciarem a caminhada, emocionado, agradeci o seleto grupo pela acolhida que me deram.



Depois, ainda pousamos para uma foto derradeira nas escadarias do hotel.

Andradas, atualmente, com quase 40.000 habitantes, oferece excelsas belezas naturais, muito verde e um agradável clima de montanha, pois se encontra emoldurada junto à belíssima serra do Caracol. 

Seu nome é uma homenagem a Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, ex-governador de Minas Gerais.

Vinho, café, doces, laticínios, confecções, cerâmicas e móveis são produzidos de acordo com os mais altos padrões de qualidade, diversificando o comércio local. 



Sua altitude média é de 898 metros.

Por sugestão do gerente do hotel, fiz minhas refeições no Restaurante Styllus, onde a comida é farta e de qualidade, a preço convidativo.

Depois de um sono reconfortante e assim que a temperatura decaiu, fui visitar a igreja matriz da cidade, cujo padroeiro é São Sebastião.

Depois, passei num supermercado e mais tarde fui acessar a internet.

Conforme fora previsto há tempos, haveria mudança climática sensível, com previsão de chuvas abundantes para dali a dois dias, fato que muito me alegrou.

À noite o tempo mudou, e fortes rajadas de vento no sentido sul/norte passaram a varrer as ruas da cidade.

Prudentemente, me recolhi cedo, após singelo lanche que ingeri num bar próximo ao local de pernoite.

E logo fui dormir, pois a jornada seguinte seria longa e acidentada.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de excelsa beleza, entretanto, de expressiva dificuldade, mormente, para aqueles que estão iniciando o Caminho, por ser uma jornada relativamente longa e acidentada. No meu caso específico, agravada pelo dia ensolarado, clima seco e muita poeira. Porém, o local de pernoite e a cidade de Andradas, considerada por muitos como aquela que melhor recebe os peregrinos, compensa todo o esforço despendido no percurso.

9ª etapa: ANDRADAS à OURO FINO – 44 quilômetros