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9ª etapa: ANDRADAS à OURO FINO – 44 quilômetros

9ª etapa: ANDRADAS à OURO FINO – 44 quilômetros


Novamente teria uma longa jornada pela frente, de forma que, metodicamente, levantei às 4 h, ingeri frutas e um cappuccino e, às 4 h 45 min eu deixei o local de pernoite, seguindo em direção à saída da cidade.

O percurso urbano é praticamente todo plano e está muito bem sinalizado, de forma que caminhei em bom ritmo, porquanto o clima frio da madrugada era um estímulo importante, que se desvaneceria rapidamente assim que sol apontasse.

Vinte minutos depois eu encontrei um trevo, que atravessei pelo meio e, já do outro lado, adentrei em larga estrada de terra.

Sobre minha cabeça eu podia ver um lindo céu estrelado, onde os astros pareciam ter um brilho especial, realçados pela escuridão e o silêncio que imperava naquele trecho.

Com a lanterna na mão, lançando círculos concêntricos de luz, segui sem problemas, enquanto lentamente a natureza acordava, com pássaros cantando, galos saudando o novo dia, cachorros latindo ao longe.

Nessa toada, passei defronte à Casa Geraldo, uma famosa vinícola que comercializa vinhos finos.

Mais adiante, logo após uma ponte, a estrada se bifurcou e, observando a sinalização, prossegui à direita.

E logo passava diante da Granja União, um local que estava bastante iluminado, e onde pude perceber pessoas se movimentando pela propriedade, apesar do horário extemporâneo.



A partir desse patamar a paisagem mudou radicalmente, porquanto passei a caminhar cortando enormes fazendas de café, numa estrada bastante movimentada, com muita poeira e pedras alocadas em seu leito.

Lentamente o céu clareava a leste, e a aurora benfazeja não tardou a apontar, enquanto as cigarras estridulavam, saudando as ardências do dia.

No céu, visualizei uma mancha escura toldando o azul claro, o que me deixou esperançoso, vez que aquilo podia ser prenuncio de chuva, pois o mormaço só aumentava.



E, após duas horas, sempre por uma estrada larga e em leve ascensão, cheguei às franjas da temível Serra dos Lima que, para minha surpresa, recentemente teve seu piso asfaltado.

Iniciei, então, uma subida íngreme e brusca.

A escalada é lenta e árdua, pois a encosta é terrivelmente alcantilada. 



O interessante da caminhada, é que não sabemos o que nos reserva a próxima curva.

No caso da montanha por onde eu ascendia, aguardava expectante pelo próximo rodeio, na esperança de ver uma estrada plana, mas na maioria das vezes apareciam novos patamares a serem superados.

No meio da serra, olhando para trás, descortinava-se uma visão panorâmica da região, inclusive, eu avistava a cidade de Andradas muito longe, ao fundo, bem como a estrada tortuosa por onde eu havia transitado.



Quase chegando ao final da escalada, eu passei defronte uma singela capela, onde existe uma gruta dedicada a Nossa Senhora de Lourdes.

Ao lado da ermida há uma pia com água potável, onde aproveitei para lavar as mãos, matar a sede e molhar a cabeça, o que me deu um novo alento para vencer os derradeiros metros.

E após atravessar a Fazenda Roda D’água, atinge-se o cume, a 1.221 m de altitude.  

Entretanto, o esforço empregado é compensatório, posto que a visão ampla de quem está no topo do morro é simplesmente espetacular.

Foi agradabilíssimo caminhar no alto da serra, pois, além da paisagem verdejante e paradisíaca ali existentes, o clima ainda estava ameno e fresco naquele horário.



Em breve, adentrei à pequena povoação, após já ter vencido 13 quilômetros da jornada, quando meu relógio marcava 7 h.

A localidade pertence ao Município de Andradas e possui igreja, escola e bar.

E tem na cultura cafeeira a sua principal atividade econômica.

Fiz uma pausa num banco existente na praça fronteiriça à igreja para hidratação e descanso.

Na sequência, ainda prossegui em leve ascensão, mas depois de 1 quilômetros, se tanto, principiei a baixar.



E logo passei defronte à casa e pensão de Dona Natalina, onde observei que tudo estava quieto, triste mesmo, apenas um cachorro fazia a guarda da casa e latiu à minha passagem.

O motivo desse silêncio, como fiquei sabendo mais tarde, era porque seu esposo falecera naquela madrugada.

De forma que no momento em que por ali transitei, deixei de carimbar minha credencial, bem como conhecer as instalações desse local tão elogiado pelos peregrinos.

Segui em frente por uma estrada plana e levemente ascendente, e logo depois avistei ao longe, no sopé da serra, uma pequena povoação, denominada São José do Mato Dentro, que fui deixando à direita.



Pude contemplar, também, à minha frente, no horizonte, um pequeno aglomerado de casas num vale, uma minúscula vila, exatamente aquela que seria o meu próximo destino. 

Nesse trecho observei bonitas paisagens e extensas lavouras de café dos dois lados da estrada, onde alguns trabalhadores faziam a manutenção das plantações, utilizando enxadas e foices.

Cumprimentei-os, depois me pus a bendizer os proprietários que investem e persistem no ramo, proporcionando o pão de cada dia ao seu semelhante.

A partir dali, iniciou-se terrível e constante descenso, sempre em meio a belas fazendas de gado, porém o piso irregular continha uma grande camada de pó em seu leito, assim, segui com bastante cuidado para evitar um tombo ou um escorregão mais traumático.

Que, certamente, teria efeitos catastróficos.



Às 10 h, mais 8 quilômetros percorridos, cheguei à pequena São Pedro da Barra, mais conhecida por Barra, um povoado simples e hospitaleiro, cuja vila situa-se parte no município de Andradas e parte em Ouro Fino.

Ela se encontra encravada a 922 m de altitude e, curiosamente, fazendo divisa, também, num pequeno vértice, com o município de Jacutinga. 

Possui atualmente 250 habitantes, e tem na cultura cafeeira sua principal atividade econômica.

O calor estava insuportável e o sol já tostava com violência, de forma que fiz uma parada num bar localizado na entrada da povoação, onde aproveitei para comprar chocolates e me prover de água,

Logo após ultrapassar a simpática igrejinha da localidade, eu parei diante da Pousada Tio João, na expectativa de carimbar minha credencial.

Porém, uma senhora me avisou que os proprietários estavam na cidade, tanto que, o bar a eles pertencentes, se encontrava fechado.



Assim, prossegui meu caminho e, logo na saída encontrei forte e inclinada elevação, numa ascensão brusca que se prolongou por um bom trecho.



Trata-se do famoso Morro do Calisto de Oliveira.

Logo adiante, um riacho passava sobre a estrada e a travessia foi feita por cima das pedras de uma cachoeira que despenca à esquerda.



Sem dúvida, um local onde se deve redobrar os cuidados, principalmente, em épocas de chuvas torrenciais e correnteza.

Depois, o Caminho prossegue em meio a locais bucólicos e singelos, com pequenas subidas e descidas, cortando inúmeras fazendas de café e de criação de gado. 

Por volta das 10 h, o mormaço convidava a procurar sombra, enquanto o intermitente retinir das cigarras punha sonolência em tudo.



Às 11 h ultrapassei o pequeno povoado de Taguá e, nesse trecho derradeiro, o sol forte parecia amolecer minha cabeça e as pernas se negavam a cumprir as determinações do cérebro.



Finalmente, às 12 h adentrava à Crisólia, distrito de Ouro Fino, distante sete quilômetros de sua sede.

Esse pequeno povoado nasceu por ter sido encontrada uma pequena imagem de Nossa Senhora da Piedade, primeiro nome dado ao vilarejo, que posteriormente passou a se chamar Paróquia de Nossa Senhora da Piedade.

Construído o primeiro oratório, vieram as primeiras graças e, em razão desses milagres, o número de devotos não parou de crescer. 

Foi construída, então, a atual capela e o distrito atualmente denomina-se Crisólia, contando atualmente com 2.300 habitantes.

Eu aportei no bar da Zetti, extremamente exaurido, pois o sol esturricante já molestava inclemente, e minha água havia acabado quando restavam 5 quilômetros para atingir aquela povoação.

Sentei numa cadeira e me refresquei tomando 1,5 litros do precioso líquido, que lentamente renovaram minha disposição.

Aproveitei, ainda, para ingerir um lanche que havia levado, pois o almoço ali somente seria servido após as 12 h 30 min.

Para dizer bem a verdade em relação ao meu estado de espírito naquele momento, tinha a intenção de pernoitar naquele distrito, tal como ocorrera em 2.005.

Porém, o antigo local onde fiquei alojado, uma rústica habitação pertencente ao casal Dona Adelaide e Sr. Mário, infelizmente, não acolhe mais peregrinos.

Atualmente, foi disponibilizada a Pousada do Peregrino, localizada logo na entrada do vilarejo, porém eu não havia feito reserva antecipada, como é praxe, nem tinha a intenção de retroceder por dois quilômetros até o local.

Assim, fiquei um bom tempo ali palestrando com a Zetti, uma senhora risonha e franca.

Ela também um dos maiores ícones do Caminho da Fé, pela simpatia e ternura com que trata a todos os peregrinos.

Meia hora depois, razoavelmente renovado, parti para cumprir a derradeira etapa daquele dia.



Por sorte, o céu lentamente nublava, e uma brisa forte e refrescante varria a ressequida campina situada ao meu redor.

Efetivamente, tal como previsto, o clima estava se modificando, e isto serviu como incentivo para que eu vencesse, ainda que em ritmo bastante lento, o final da jornada.

Afinal, eu vivenciava o silêncio acabrunhante do meio-dia, e a temperatura asfixiante que enfrentei nesse trecho derradeiro, lavava-me o rosto com suor e colava ao corpo a camiseta encharcada.



Nesse trecho específico, além de encontrar uma estrada larga e sem tráfego de veículos, tive a oportunidade de avistar vários pés de ipês floridos, algo que reacendeu minha alegria interior.



Finalmente, superado um pequeno trecho urbano, parei para fotografar e admirar o gigantesco monumento erigido em homenagem à música “Menino da Porteira”.

Por sinal, composição de Teddy Vieira, inicialmente cantada por Luizinho e Limeira, mais tarde imortalizada nas vozes de Tonico e Tinoco, que tornou Ouro Fino, famosa no Brasil todo.

A estátua de 10 m de altura, por 16 m de largura, impressiona pelo seu tamanho, e está localizada no trevo principal da rodovia MG 290. 

Nunca é demais relembrar que a não menos famosa música “Chico Mineiro”, também, tem seu desfecho fatal numa “Festa do Divino Espírito Santo”, ocorrida nesta mesma cidade.

Eu segui por ruas movimentadas até o centro da cidade, com a intenção de localizar a Casa do Peregrino, porém, numa movimentada esquina, e por obra do acaso, me reencontrei com os peregrinos de Vargem Grande.

Foi com indizível alegria que abracei a todos, pois não espera revê-los mais, posto que eles mantinham um ritmo de caminhada muito forte e já deveriam estar bem mais à frente, conforme haviam planejado.

Contudo, me contaram que naquela noite havia falecido o esposo de Dona Natalina, e eles aguardaram o retorno dela do hospital para tomarem café, externar suas condolências e agradecerem pela acolhida.

Com isto, por força das circunstâncias, ao invés de partirem às 4 h da manhã, haviam saído às 8 h, este o motivo de ainda estarem naquele local, àquele horário.



Eles se dirigiam ao Hotel Caiçara com o fito de carimbarem suas credenciais.

Então, eu os acompanhei e, enquanto eles se desvencilhavam dos trâmites burocráticos, rapidamente negociei minha hospedagem naquele estabelecimento.

Após novas e emocionadas despedidas com o aguerrido grupo Vargengrandense, eu tomei banho, lavei minhas roupas e saí para almoçar.

Para tanto, utilizei o restaurante Biba’s, localizado próximo do local de pernoite, onde por um preço muito módico, pude comer à vontade, inclusive me servir de vários tipos de carne.

Efetivamente, um dispêndio irrisório em troca de uma excelente refeição, num local que recomendo, com efusividade.

Mais tarde, depois de escrever meu diário e curtir uma merecida soneca, saí passear pela cidade, e adentrei em sua igreja matriz, que é dedicada a São Francisco de Paula.



Já descendendo, curioso, adentrei à Casa do Café com Leite, como é conhecida popularmente, um dos importantes monumentos da história da política mineira e até nacional, que hoje abriga a Biblioteca Municipal.

Por trás de sua fachada, de características ecléticas, com predominância neorenascentista, o prédio foi palco da assinatura do pacto do café com leite, firmado entre o representante do Estado de São Paulo, Cincinato Braga, e o presidente do Estado de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão, em 1.913.

O tratado representou a aliança dos dois Estados, garantindo um revezamento na Presidência da República entre candidatos de São Paulo e de Minas Gerais, que durou até 1.930, quando Getúlio Vargas foi eleito presidente.

Construído no século XIX, por um imigrante italiano, o casarão foi doado por seu proprietário para a Loja Maçônica Deus e Caridade em 1.898, quando o dono voltou para a Itália.

Em 1.908, o imóvel foi vendido para Francisco Ribeiro da Fonseca, que era cunhado do presidente de Minas, Júlio Brandão.



Em minha opinião, outras boas lembranças terá o peregrino de Ouro Fino, se procurar, posto que o casario antigo e conservado empolga pela beleza arquitetônica.

Os interiores também, como a Farmácia Rossi, que conserva todo o mobiliário desde a fundação, há mais de cem anos, pois sua inauguração aconteceu em 1.906: prateleiras e balcões em jacarandá maciço, com incrustações e relevos de arte.

No retorno, pude acessar a internet e adquirir mantimentos num supermercado próximo.

O tempo já mudara, pois o céu estava todo encoberto, com um vento refrescante, aumentando de força.

À noite, atravessei a rua e fui tomar um lanche, acompanhado de uma cerveja, num bar localizado próximo da estação ferroviária.

Enquanto ali estava, o céu nublou repentinamente e começou a trovejar.

E, por obra divina, assim que recoloquei meu pé na porta do hotel, começou a chover, primeiramente, uma garoa fraca, depois em forma de violentas pancadas.

O pé d’água prosseguiu noite à dentro, transformando-se num agradável soporífero a embalar meu remansado sono, que curti entorpecido pelo calor gostoso das cobertas.


 

AVALIAÇÃO PESSOAL - Uma etapa, também, de razoável dificuldade, a começar pela distância percorrida. Depois, a Serra dos Lima realmente é um obstáculo nada fácil de superar, bem como a forte descida até a Barra, que magoa sensivelmente pés e joelhos, pela impetuosa descensão que se enfrenta nos quilômetros derradeiros. O restante do percurso é praticamente todo plano, porém o calor opressivo somado com o esturricante sol que enfrentei nesse dia, concorreram para que essa jornada se transformasse numa das mais difíceis que sobrepujei em toda a minha peregrinação.


10ª etapa: OURO FINO à BORDA DA MATA – 30 quilômetros