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2ª Etapa: BAIRRO MATÃO (ALFENAS) à GUAIAPAVA (PARAGUAÇU) – 28 quilômetros

2ª Etapa: BAIRRO MATÃO (ALFENAS) à GUAIAPAVA (PARAGUAÇU) – 28 quilômetros


Poderosa Novena à Nossa Senhora Aparecida: 2° DIA - Ó ditosíssima Maria, que qual mística arca do dilúvio universal do mundo, só e sem igual fostes preservada do naufrágio, eia!, salvai-nos de tantos vícios e pecados que inundam as plagas do Cristianismo.


O percurso seria de razoável extensão, mormente para um sábado, que prometia bastante sol e calor.

Assim, tomamos café na cozinha com dona Duína às 5 h e 15 min e, depois de calorosas despedidas, deixamos o local de pernoite quando meu relógio marcava 5 h 45 min.

Lá fora, ainda estava bastante escuro, frio e uma espessa neblina cobria o entorno.

Eu portava minha potente lanterna “led” e, logo na saída, não tivemos dúvidas do rumo a tomar.

Primeiramente, caminhamos entre um enorme cafezal que pertence à Fazenda Ipanema e, em face do horário, numa bifurcação, ficamos sem saber para qual braço seguir, em razão da ausência de sinalização.

Porém, após uma pequena pausa para debate, resolvemos prosseguir em frente e não seguir o caminho que se abria à direita e estávamos certos, porquanto, logo depois afixada num mourão, encontramos as tranquilizadoras setas-peixe.



Mais à frente, com o dia já clareando, encontramos uma grande plantação de cana, contudo logo depois, voltamos a caminhar por um bom tempo, em meio a outro imenso cafezal.

O caminho seguiu muito bem sinalizado, e depois de certo tempo, as pastagens apareceram e sobre elas muito gado bovino.


Lentamente, fui caminhando em meu ritmo, e num local onde havia um grupo de árvores altas e frondosas, avistei um bando de tucanos pousados nos galhos, algo inusitado e bastante emocionante para quem reside na cidade.

Depois de vencer um breve descenso, eu transpus o belíssimo rio Machado por uma ponte, onde avistei dois homens pescando.

Conversamos um pouco e me disseram que aquele curso d’água era bastante piscoso e, ao saberem do mesmo destino, me desejam uma sonora “boa viagem!”

Então, principiei a ascender e, às 8 h, quando já havia percorrido 10 quilômetros, passei pelo Bairro Chico dos Santos, cuja sede é a cidade de Paraguaçu/MG, constituído por umas 30 casas esparsas.


Igreja existente no Bairro Chico dos Santos/Paraguaçu-MG

Ainda, percorrendo a localidade, pude avistar no alto de um morro uma igrejinha.

Ali também existe o bar do Joel, que se encontrava fechado, quando por ali transitei.

Afora o estabelecimento comercial, não existe ainda opção de pernoite nesse local, bem como nenhum outro tipo de comércio.

Depois de caminhar mais 1.000 metros, num local deserto e sombreado, fiz uma pausa para hidratação e alongamentos, diante de uma placa do Caminho que avisava restar 17 quilômetros para chegar ao meu destino.



A Célia chegou mais tarde e também parou para descansar.

O dia se encontrava nublado e frio, e o roteiro prosseguiu por uma estrada larga, de piso úmido, que ascendeu por locais extremamente arborizados, em meio a enormes áreas verdes, destinadas à criação e mantença de gado bovino.


Finalmente, às 9 h 30 min, depois de percorrer 15 quilômetros, eu cheguei à BR-479, que liga Alfenas/MG à Paraguaçu/MG, onde encontrei uma senhora e sua filha, aguardando o ônibus municipal.

Conversamos alguns instantes e ela me confirmou que Paraguaçu estava distante 14 quilômetros, daquele ponto.

Eu aguardei pela chegada da Célia, e já do outro lado da rodovia, acessamos outra estrada larga e sombreada que nos levou, depois de mais 2 quilômetros, a ultrapassar um pequeno rio, através de uma ponte.


Mais abaixo, agora solitário, fiz uma pausa para ingerir uma barra de chocolate diante de uma fazenda, onde avistei inúmeros tanques, separados por faixas de terra, o que inferi, servissem para criação de peixes.

Prosseguindo, iniciou-se um “tramo” extremamente matoso, e depois de mais dois quilômetros vencidos, passei diante do bar Recanto dos Amigos, mas eu estava bem suprido e segui adiante.



Então, a paisagem se abriu e passei a caminhar entre plantações que, surpreendentemente,  identifiquei como trigo e mamona, algo inusitado para mim, mormente num local onde o frio não se faz tão intenso para se ver semelhante cultura.



Após ultrapassar um frondoso bosque de eucaliptos, eu transpus outro riacho por uma ponte e na sequência, principiei a ascender levemente.

Numa curva da estrada, avistei perplexo uma grande máquina agrícola queimada por inteiro, que quase obstruía o trânsito de veículos.

O motorista cuidava de trocar um imenso pneu e, quando lhe questionei sobre o acidente, me contou que no dia anterior, ao retornar para a sua sede, após fazer a colheita de milho numa fazenda vizinha, tivera um dos pneus da colheitadeira estourado.



Assim, precisou deixa-la naquele lugar, para promover a troca no dia seguinte, contudo alguém passou a noite pelo local, jogou óleo diesel no veículo e ateou fogo, inutilizando-a totalmente, tanto que a vistoria feita pela companhia de seguros, dera “perda total”.

Vingança, depredação, vandalismo ou simples diversão, essas foram as perguntas que brotaram na mente daquele senhor honesto e trabalhador, mas ele ainda não conseguira saber o motivo real que levara alguém, num local tão ermo e tranquilo, a cometer tamanha insensatez com o pertence alheio.



O percurso seguinte discorreu tranquilo, sempre entre imensas áreas pastoris, e depois de ultrapassar um riozinho que me acompanhava a tempos, pelo lado direito, adentrei em Guaiapava, meu destino para aquele dia.

A Célia chegou mais tarde e, por conta das setas sinalizadoras, acabou seguindo em frente por uma estrada vicinal, sendo depois resgatada por uma perua que passava pelo local.

 

O pequeno distrito está situado à margem esquerda do rio Sapucaí, conta com aproximadamente 988 almas (Censo de 2010), e tem como sede a cidade de Paraguaçu/MG, distante 16 quilômetros.

Ela também é conhecida como a “Terra do Marolo”, uma fruta exótica de sabor inigualável, muito utilizada na fabricação de doces, bolos, biscoitos e sorvetes.

Sobre o Marolo, um “produto” do qual jamais ouvira falar, me reporto ao teor do texto extraído do site - http://www.portalparaguacu.net

“Trata-se de uma fruta nativa do cerrado brasileiro, sendo muito encontrada no Sul de Minas e, principalmente, na cidade de Paraguaçu/MG.

Cientificamente, o marolo é denominado Annona crassiflora, e pertence à família das anonáceas, da qual também fazem parte a graviola, a fruta-do-conde, a pinha e a atemóia, dentre outras.

Marolo, uma fruta exótica e saborosa

Ele é também muito utilizado na confecção de licores e doces.

O marolo constitui um dos símbolos de Paraguaçu, pela sua influência sócio-cultural no município.

Na cidade, os maiores produtores dessa fruta se encontram nos bairros Macuco, Macuco dos Alves, Chico dos Santos e Guaipava.

Sua safra tem início em meados de fevereiro, vai até abril, e os maroleiros são encontrados principalmente em campos abertos e pastagens.

Com folhas grossas e galhos retorcidos, é uma árvore rústica, frutificando mesmo em solos pobres em nutrientes.

Quando o fruto começa a amarelar por baixo, é sinal de que está maduro, sendo que sua polpa tem aroma perfumado, sabor forte, e é muito doce. .

Segundo a Emater – Empresa Brasileira de Expansão Rural, a polpa do Marolo pode ficar congelada por até um ano, o que facilita a industrialização do produto.”

 

Ali fiquei hospedado num local também bastante rústico, posto que segundo o livrinho-guia que recebi, ali existiria a Pousada Santa Maria das Dores, que poderia acomodar 10 pessoas.

Ocorre que a Renata, esposa do Petrônio, com quem tratei sobre o pernoite, me contou que tal estabelecimento se encontrava alugado para outras pessoas, de forma que pernoitei na casa em que ela reside com a sogra, num quarto que me destinaram.

A improvisação quase me rendeu uma malsinada gripe, pois estávamos na segunda quinzena de junho, fazia bastante frio, e o chuveiro de minha acomodação se encontrava com sua resistência queimada.

Na verdade, ali cheguei extremamente suado e com tanto frio, que corri diretamente para o box do banheiro, projeto imediatamente frustrado pelo mau humor do chuveiro que se recusou a deixar cair sequer um pingo de água quente, obrigando-me a tomar um terrível banho gelado.



Conquanto eu pudesse ser vítima de uma inoportuna gripe, por sorte, meu Anjo da Guarda estava de plantão e nada de mal me aconteceu, mas fica o alerta para futuros peregrinos.

O almoço foi servido numa pequena cozinha existente no supermercado onde a Renata é a proprietária.

Após uma reparadora soneca, fui verificar o local por onde eu deixaria o distrito no dia seguinte, depois pude fotografar a igreja de Santa Isabel, a padroeira da pequena vila.


Igreja de Santa Isabel, em Guaiapava/Paraguaçu/MG

Aproveitei para ir ao supermercado e me prover de víveres e água para o dia seguinte, e como estava sendo transmitido um jogo de futebol pela TV, acabei por me acomodar numa mesa e beberiquei uma cerveja.

E, ao observar os moradores que transitavam pelas ruas daquele rústico enclave, sempre plácidos e desprovidos de pressa, acabei por me lembrar do quanto os citadinos são agitados e loquazes e, curiosamente, sempre nervosos e falantes.

O jantar foi preparado por dona Kátia, a mãe do Petrônio, e o degustamos no próprio local de pernoite.

Posso garantir que, embora simples e leve, pois se tratava de um modesto omelete com pão e cebola, estava imensamente saboroso e me caiu muito bem.

E logo fui dormir, pois o dia seguinte seria um domingo, e eu tinha a intenção de chegar cedo ao meu destino.

 

A Renata, Dona Kátia e a peregrina Célia, em Guaiapava/MG

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada sem grandes variações altimétricas, arborizada em quase toda extensão, e bastante agradável. O ponto negativo talvez seja o local de pernoite, pois feito em local improvisado. No entanto, a atenção e o calor humano ali recebido, acabaram por compensar e inibir maiores restrições a essa pacata localidade.