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3ª Etapa: GUAIAPAVA (PARAGUAÇU) à CORDISLÂNDIA – 24 quilômetros

3ª Etapa: GUAIAPAVA (PARAGUAÇU) à CORDISLÂNDIA – 24 quilômetros


"Poderosa Novena à Nossa Senhora Aparecida: 3° DIA - Ó Maria, pomba candidíssima, que erguestes o voo com as vossas brancas penas, sem jamais pousar sobre as imundícies que cobriam a face da Terra; fazei que de vós aprendamos a não nos deixar seduzir pelos bens falazes desta vida."


A jornada seria relativamente curta, mas como era um domingo, resolvemos acelerar nossa saída.

Assim, após tomar o café preparado pela Renata, e depois de fraternais despedidas, deixamos o local de pernoite, às 5 h 40 min.

A pequena povoação ainda dormia e o entorno estava silencioso, a não ser pelo cantar dos galos e o latir de alguns cães que vagueavam pelas imediações.

Lentamente, nós ascendemos em direção ao cemitério local, passamos diante de seu portão e acessamos uma estrada de terra larga e sombreada, localizada entre grandes fazendas destinadas a criação de gado leiteiro.



Era hora da ordenha e, embora fosse um domingo, em muitos locais pude observar o pessoal trabalhando nos currais, como se fosse um dia normal.

Vacas mugiam, bezerros berravam, pássaros passavam em grande número sobre nossas cabeças, cantando e saudando o amanhecer: era mais um dia nascendo!

O caminho prosseguiu bucólico e, em alguns trechos, passamos em meio a cafezais.

Numa curva da estrada a Célia fez uma pausa para fotografar o entorno e eu prossegui escoteiro.

No trajeto, sucederam-se leves ascensos e descensos, entremeados com longos estirões planos.

Num determinado trecho, passei ao lado de um casal de seriemas, um pássaro notavelmente arisco, mas que nessa região, talvez por falta de agressividade das pessoas e, possivelmente, pela ausência de predadores, se tornaram extremamente mansos.



Depois de 9 quilômetros caminhados, principiei a descender, e logo transitei diante do Sítio Rio Dourado, que possui uma bela sede.



Mais abaixo, por uma ponte, eu ultrapassei duas vezes o impetuoso rio Dourado que, nesse local, curiosamente, abre-se em dois braços para, mais abaixo, unirem-se novamente.

Prossegui ascendendo em meio a frondoso bosque, porém, mais acima, já no plano, passei a ser ladeado por um imenso cafezal.

Num local sombreado e com ampla vista do horizonte, fiz uma pausa para hidratação e aproveitei para fazer algumas fotos.



E, depois de 13 quilômetros caminhados, cheguei ao distrito de Douradinhos, pertencente à cidade de Machados/MG, e distante 30 quilômetros de sua sede.

Segundo o censo de 2010, ali viviam 1693 almas.

 

Uma informação interessante sobre essa povoação de nome Douradinhos: tem data de fundação mais antiga que a sede do município (Machado) e também já pertenceu à Paraguaçu, isto no século XIX.

Segundo historiadores e relatos orais que ainda ecoam entre a população Paraguaçuense, é que os primeiros habitantes da região, onde hoje se encontra o distrito, foram os índios da tribo Mandibóias – que significa “cobra enrolada, ou seja, pronta para dar o bote” – da nação dos Cataguás, habitantes das margens dos rios Sapucaí e Dourado.

Visto à acepção nomística da tribo, pode-se pensar o quão ariscos eram os referidos índios.

Que, apesar de não serem antropófagos, eram conhecidos por seus atos de violência.


Igreja de São João Batista, em Douradinhos/MG

É o que está registrado nos relatos de Martim Correia de Sá, ao percorrer as imediações, denominado Sertão de São Sebastião, já no final do século XVI, juntamente com os estrangeiros Henry Baraway e Antony Kniwet.

Provavelmente, nos séculos XVII e XVIII, a referida região foi palco de passagens de bandeirantes, oriundos de São Paulo em busca de áreas mineradoras ou mesmo em tentativas de encontrar minerais por essas terras, as quais passaram a ser domínio mineiro somente em 1749. Já em 1746, descobriu-se ouro em Santana do Sapucaí, ao sul de Paraguaçu.

A partir de 1765, com a abertura do caminho que iria de Cabo Verde a Santana do Sapucaí, deu-se início à ocupação das terras vizinhas.

Dentro do território de Santana do Sapucaí, na confluência dos rios Sapucaí e Dourado, à época, florescia a localidade chamada Douradinho, com a capela dedicada a São João Batista.

A povoação que, posteriormente, daria origem à cidade de Paraguaçu, teve inicio somente no final do século XVIII, quando ocorreu a queda da produção aurífera e mineral no estado. (extraído do site: www.portalparaguaçu.net)

 

Na localidade, desde o dia anterior, acontecia uma grande festa junina, e pude ver na praça fronteiriça à igreja de São João Batista barraquinhas para venda de guloseimas, bebidas e utensílios, bem como um pequeno parque de diversões armado especialmente para a ocasião.

Afinal, estávamos na véspera de São João e, a todo momento, eu era surpreendido pelo estouro de rojões e fogos de artifício.

A bela povoação, que foi edificada no topo de um morro, se encontrava em grande alvoroço, com pessoas transitando animadas, carros buzinando, cavaleiros desfilando pelas ruas em trajes de gala, enfim, tudo era motivo para festejar aquele domingo.

E, como estímulo, o dia se mantinha ensolarado, com o sol brilhando forte num céu azul e sem nuvens.

Fiz uma pausa num banco situado em sua praça central, onde pude me hidratar enquanto apreciava a grande movimentação que se processava no entorno.

Meu relógio marcava 9 h e, até ali, eu já caminhara 15 quilômetros.

Quinze minutos depois a Célia chegou, e também parou para descansar, ainda que brevemente.



Bem dispostos, reiniciamos o nosso périplo, seguindo até o final da praça, onde fletimos à esquerda e acessamos a rua paralela que, depois de uns 300 metros, nos colocou novamente diante de uma larga estrada de terra, por onde seguimos em franco descenso.

Nesse ponto, a Célia fez outra uma pausa para fotografar o entorno, e eu segui adiante.


Então, após ultrapassar um riacho, principiei a ascender e, mais acima, girei à direita e passei a caminhar em meio a um frondoso e fresco bosque de eucaliptos que, em seu final, me propiciou transitar defronte à bela Fazenda Lagoa dos Patos.

A partir daquele marco, passei a ser ladeado por imenso cafezal.

E logo eu girei à esquerda, caminhei um tanto pelo topo do morro, onde tinha ampla visão do horizonte, depois principiei a baixar.

A estrada larga de terra batida se encontrava bastante movimentada, com razoável tráfego de veículos em ambas as direções.



No entanto, chamou minha atenção uma camionete cabine dupla, que por quatro vezes me ultrapassou, em ambos os sentidos, sempre em alta velocidade e com o som ligado no máximo volume, tocando música sertaneja.

Visivelmente, o motorista e demais acompanhantes estavam se exibindo, mas, para quem?

E, apesar da estrada ser de terra socada, invariavelmente o veículo levantava uma cortina de poeira e, quem sofria, era este pobre caminhante.



No final de extensa declivididade, acabei por sair numa bifurcação: se girasse à direita, prosseguiria em direção à Turvolândia, distante 14 quilômetros.

Porém, minha meta para aquele dia era a cidade de Cordislândia, assim, prossegui adiante e, logo depois, por uma ponte antiga eu transpus o volumoso rio Sapucaí.

Sem dúvida, mesmo abandonada nas últimas décadas pelos órgãos públicos, a ponte, construída em 1937, revela uma imagem de rara beleza e representa uma volta ao passado.

Várias pessoas pescavam por ali e, quando indagado, um senhor me confirmou que aquele belo curso d’água, era bastante piscoso.

Prosseguindo, caminhei mais um quilômetro por zona urbana, até aportar na Pousada Santa Catarina, onde fiquei hospedado.

Ali fui muito bem recebido pelo Sr. Acácio, o proprietário, que foi chamar sua filha, residente ao lado, para me conduzir aos aposentos reservados anteriormente.

A Patrícia foi logo me avisando que, embora houvesse prometido minha habitação para às 10 horas, ainda precisava fazer uma limpeza geral, porque no dia anterior, um sábado, houvera uma grande festança naquele ambiente, por conta de seu aniversário.

Por isso, eu precisaria aguardar, para que tudo entrasse nos eixos, o que fiz pacientemente.

Para almoçar, utilizei os próprios serviços daquela residência, porquanto ali também funciona um restaurante.

 

Rio Sapucaí, em Cordislândia/MG

Nessa região do Planalto Mineiro, banhada parcialmente pelos rios Grande e Sapucaí, onde está incrustado o município, teve os bravos índios Abatingueiras como seus primitivos habitantes, sendo eles, posteriormente, eliminados pelos Cataguás.

Quanto ao território cordislandense, sem registros seguros sobre a presença indígena, recebeu o colonizador branco a partir de 1860, quando o fazendeiro José Paredes Viana, pernambucano que residia na Fazenda Ipiranga, localizada nestas paragens, fundou um povoado com a denominação de “Paredes”.

Contemplado com um solo fértil, o território foi logo povoado graças ao afluxo de novos moradores, atraídos pela facilidade na formação de lavouras, e algum tempo após deu-se o início da edificação do arraial.

Joaquim Silvério Grilo e José Máximo doaram terrenos para as primeiras construções, inclusive o cemitério e a Igreja.

Em 1889, instalava-se uma escola tendo D. Vitalina Pereira como professora e, logo a seguir, criava-se a Agência Postal sendo seu Agente o Sr. Francisco Tomaz Arantes.

O nome de Paredes do Sapucaí foi adotado em 1911, e, em 1930, inaugurava-se a iluminação elétrica.

Em 1945, era criada a Paróquia, tendo o Sagrado Coração de Jesus como padroeiro, sendo que, em 30 de dezembro de 1962 foi alterada a denominação da cidade para Cordislândia.

O topônimo originou-se de homenagem prestada ao padroeiro da comunidade, Sagrado Coração de Jesus, sendo o gentílico: cordislandense.

Sua população é composta 3435 habitantes (Censo 2010).

 

Infelizmente, encontrei, no quarto que me foi disponibilizado na Pousada, um persistente mau cheiro e muito mofo nas paredes, o que acabou por me desencadear uma crise de rinite.

Para piorar, o banho também foi frio, porque ocorria manutenção na rede elétrica do município, e a energia somente seria restabelecida após as 18 h.

Muito tarde para esperar, para quem levantou às 4 horas, e ainda caminhou 24 quilômetros debaixo de sol ardente.

O quarto que a Célia ocupou mais tarde, também deixou muito a desejar, pelo insuportável cheio de mofo que exalava.

Também, o fato do banheiro estar localizado fora da habitação, e ser compartilhado pelos demais hóspedes, deixou muito a desejar em termos de higiene.


Igreja matriz do Sagrado Coração de Jesus, em Cordislândia/MG

Diria que dentre os locais utilizados para pernoite no Caminho de Aparecida, este foi o mais precário de todos.

Dessa maneira, sugiro aos futuros peregrinos que, se puderem, sigam caminhando até Turvolândia, ou tomem um táxi, porque lá, as acomodações da Pousada da Lua são impecáveis.

À tarde saí dar um giro pela cidadezinha e, apesar de ser um domingo, encontrei uma mercearia aberta, onde pude adquirir víveres e água para a jornada seguinte.

Depois, fomos, a Célia e eu, fotografar a igreja Matriz do município, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus.

Aproveitando a ocasião, e como nos encontrávamos famintos, entramos na Lanchonete Delicia’s, localizada defronte à igreja, onde pudemos ingerir um excelente “sanduba”, cujo recheio principal foi o carinho, a atenção e a amabilidade dos seus proprietários.

O Sr. Ismael, que gerencia o estabelecimento, juntamente com a esposa e filho, e embora fosse um domingo e ele estivesse trabalhando duramente desde cedo, fez de tudo para nos agradar, de maneira que sua amabilidade acabou por minimizar o problema da hospedagem. 

E, logo depois da refeição, eu me recolhi, pois o clima esfriou rapidamente e principiou a chover, deixando a cidade vazia e quieta.

 

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada com razoáveis acidentes altimétricos, entretanto, muito bela e com entorno sempre verde em toda extensão. A passagem pelo distrito de Douradinho é providencial, já que proporciona a oportunidade para um refrigério, posto que o distrito conta com bares e padaria à disposição do caminhante. Mais uma vez, o ponto negativo foi o local de pernoite. Porquanto, feito em instalações inadequadas, precárias e, diria mesmo, insalubres, representando um risco à saúde do peregrino.