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5ª Etapa: TURVOLÂNDIA à CAREAÇU – 30 quilômetros

5ª Etapa: TURVOLÂNDIA à CAREAÇU – 30 quilômetros


"Poderosa Novena à Nossa Senhora Aparecida: 5° DIA - Ó Maria amabilíssima, que fostes aquele jardim fechado e aquele paraíso de delícias, onde nem sequer por um instante pôde entrar a insidiosa serpente, fazei com que em nosso coração jamais tenha entrada o inimigo das nossas almas."


Segundo o livrinho-guia que eu havia recebido do Rodrigo, o Coodenador do Caminho de Aparecida, esta etapa seria a segunda em termos de extensão, bem como eu necessitaria sobrelevar uma grande aclividade no início do percurso.

Assim, me levantei bem cedo, e tomei o café que a Angélica deixara preparado, pois ela viajara à São Paulo naquele dia, e saíra às 4 h 30 min.

Bem disposto e animado, deixei o local de pernoite às 5 h e 15 min, seguindo por ruas escuras e silenciosas em direção à praça central do município.



Então, passei por trás da igreja matriz, onde conversei rapidamente com um gari que varria as calçadas.

Na sequência, dobrei à direita na Rua José Martins da Silva, seguindo sob forte aclividade em direção ao topo da colina, ainda por asfalto.

Eu estava bastante inseguro quanto ao rumo a tomar, pois dentro das cidades não há plaquinhas ou flechas do Caminho, e eu deveria acessar a estrada que segue em direção ao bairro dos Borges.

Assim, mais acima, quando o terreno se nivelou, eu conversei com um senhor idoso, que sentado dentro de um abrigo, aguardava a passagem do veículo que o conduziria ao trabalho.

Muito cortês, me afirmou que eu estava no rumo certo, mas, bem humorado, deu sonora gargalhada quando lhe contei estava indo à Aparecida a pé.

Afinal, perguntou, onde estão seus companheiros? E cadê o carro de apoio?

Ao lhe assegurar que estava só e levava toda a minha bagagem na mochila, ele, incrédulo, voltou a rir, negando-se a acreditar em minhas palavras.

Tanto que, logo adiante, assim que acabou a iluminação urbana e iniciou o trecho em terra, parei para apanhar minha lanterna, e ainda pude ouvi-lo risonho, à distância, comentando com uma senhora que passava sobre a tolice que eu lhe contara.


Ainda estava bastante escuro, e a estrada prosseguiu plana e larga, porém, só me tranquilizei quando, depois de caminhar uns 2 quilômetros, encontrei a primeira seta-peixe do Caminho.

Aquele sinal me infundiu confiança e, com novo ânimo, prossegui adiante.

Ainda estava bastante escuro, e o dia demoraria a clarear, e observando o firmamento, percebia uma miríade de estrelas a brilhar, sinal de que teríamos bom tempo e o sol, com certeza, iria importunar depois das 10 horas.

Um senhor que vinha de motocicleta à minha retaguarda, parou ao meu lado, perguntou para onde eu seguia, depois me ofereceu carona até a entrada de um sítio mais à frente, onde iria trabalhar, ao qual agradeci por sua alma generosa.

Uma hora caminhando em bom ritmo, e eu encontrei afixada num mourão de cerca, uma plaquinha me avisando que restavam 25 quilômetros até a cidade Careaçu, minha meta para aquele dia.



Então, lentamente, o roteiro principiou a ascender e mais acima, finalmente, encontrei uma bifurcação.

Ali, observando atentamente a sinalização, eu prossegui à direita.


Pouco depois, atravessei ao lado de uma manada de vacas que se encontrava deitada à beira da estrada, aguardando a ordenha, depois voltei a ascender novamente, desta vez, de maneira brusca, em meio a imenso cafezal.



Finalmente, no topo do morro, a quase 1.100 metros de altitude, eu encontrei uma perua Kombi estacionada, bem como os trabalhadores que ela trouxera para ali trabalhar na colheita do café.

Eles, calmamente, tomavam café, sentados no chão, debaixo de uma grande árvore.

Conversei com alguns deles, ainda que rapidamente, e também aproveitei o local para fazer uma pausa e retirar a blusa, pois eu estava suando em bicas.



Pude, ainda, fotografar o entorno, posto que dali eu detinha uma larga visão do horizonte que se descortinava à minha frente.

Animado, retornei à lida, e mais quatro quilômetros caminhados, sempre em lento descenso, encontrei outra bifurcação, bem em frente a outro imenso cafezal, onde vários trabalhadores também se preparavam para iniciar a jornada do dia.



Parei um instante, para confirmar o meu rumo, e trocar amáveis palavras com um simpático senhor que ia dar início à sua dura labuta diária.

Depois, segui adiante, agradecendo a Deus por me dar saúde para prosseguir meu périplo, ao tempo em que pedia clemência e proteção àquelas humildes almas, que teriam uma duríssima tarefa durante o dia, enquanto eu também desfrutaria da natureza, mas caminhando.



Prossegui por um bom tempo em franco descenso e, já no plano, eu transpus um riozinho por uma ponte.

E, logo em seguida, acabei por desaguar em uma estrada larga e plana, situada num local arejado e com bastante sombra.

Ainda era 8 horas, de maneira que resolvi fazer uma pausa para hidratação e ingestão de uma banana.

Enquanto descansava, ouvi o barulho da rotação de um motor, e logo aportou ao local o veículo que trazia a Célia.

Muito alegre e educado, o condutor desceu e se apresentou como Sr. Verônico que, além de mecânico, é entusiasta e um dos representantes do Caminho de Aparecida em Turvolândia.

Ato contínuo, observando a numeração constante no odômetro de seu carro, ele afirmou que até aquele lugar eu já havia caminhado, exatos, 13 quilômetros.


Célia e o Sr. Verônico, uma grande pessoa!

Conversamos por um tempo, batemos algumas fotos, depois ele se despediu e seguiu em direção ao seu labor.

Então, após observar atentamente a sinalização, nós dobramos à direita, e prosseguimos em meio a uma imensa área desmatada, onde a colheita do milho havia sido recentemente encerrada.

Por isso mesmo, o local continha inúmeras espécimes de pássaros, que se aproveitavam das sobras ali deixadas pela colheitadeira, para ingerir seu manjar do dia.



Mais alguns quilômetros caminhados, teve início outro grande descenso que, em seu final, me propiciou transitar diante de uma igreja da Congregação Cristã do Brasil que, curiosamente, está edificada num local ermo, com apenas uma casa próxima.

Depois, iniciou-se um pequeno aclive em direção ao topo de um outeiro, e ao descender do outro lado, encontrei outra bifurcação, orientando que se eu tivesse a intenção de ir à cidade de Silvianópolis, deveria seguir à direita.



Eu girei à esquerda, e o roteiro prosseguiu bucólico e agradável, sempre em meio a grandes fazendas de criação de gado.

Depois de vencer outro grande declive, fiz uma pausa diante de uma fazenda, onde uma plaquinha do caminho me avisava que restavam apenas 5 quilômetros para a chegada.


A cidade de Careaçu, no horizonte

A Célia logo ali chegou e, bem hidratados, seguimos adiante e, depois de mais três quilômetros caminhados, pudemos ver à esquerda, no horizonte abaixo, a cidade de Careaçu/MG, nosso destino naquele dia.

Prosseguindo, mais abaixo, nós encontramos outra bifurcação e, obedientes à sinalização, fletimos à esquerda e, logo, por uma ponte, transpusemos o caudaloso rio Sapucaí.

Logo acima, uma placa nos avisava que deveríamos retornar àquele local no dia seguinte, quando fôssemos prosseguir em nosso périplo.

Na sequência, viramos à esquerda, e seguimos por ruas bastante movimentadas, em direção ao centro da urbe.

Ali ficamos hospedados no Hotel Requinte, de excelente qualidade, e que está situado na praça central da bela cidade.

Para almoçar, nós utilizamos os serviços da Restaurante Quiosque, localizado em local cêntrico, que recomendo pela qualidade, eficiência e limpeza nele observados.

 

Ponte sobre o rio Sapucaí, em Careaçu/MG

A origem de Careaçu data da segunda metade do século XVIII, quando havia referências a uma Repartição Fiscal, a que chamavam Paragem do Sapucairy, no extremo da localidade.

Esse local constitui, hoje, o Bairro da Itagaçaba, denominação derivada de um marco rochoso debruçado sobre o Rio Sapucaí, que consistia, no passado, em um ponto de referência aos forasteiros que cruzavam o vale.

No ano de 1802, faziam-se as primeiras menções sobre a Ermida de Volta Grande, erguida, ao que tudo indica, no correr do último quarto do século, supostamente por João Antônio da Rocha.

A formação do primitivo núcleo se atribui, então, aos apreciáveis contingentes humanos que afluíam atraídos pela lavra de ouro na região.

Instalavam-se nesta área devido às boas condições de fixação que oferecia: às margens do Rio, terras férteis, e uma rica fauna, que asseguravam a sobrevivência dos viajantes. 

No ano de 1819, eram citados como principais moradores da localidade: Joaquim Leite Ferreira de Melo, o Alferes Joaquim Luis da Rocha, Francisco Ponciano da Rocha e Domingos de Souza Coutinho, todos fazendeiros.

Poucas e rudimentares habitações se espalhavam pelo vasto patrimônio, este com área superior a sessenta alqueires de terra doada pelo Sargento Mor, José Joaquim de Gouveia e outros.

Por volta da segunda metade do século XIX, a Lei Provincial nº 998 criava o Distrito de Paz de Nossa Senhora da Conceição de Volta Grande, no dia 27 de junho de 1859, na Freguesia de São Gonçalo da Campanha.


Igreja Matriz de Careaçu/MG

No dia 19 de setembro de 1881, o distrito era elevado à categoria de Freguesia, por força da lei nº 779 com o mesmo nome de Nossa Senhora da Conceição de Volta Grande.

A freguesia permaneceu vinculada a São Gonçalo do Sapucaí, e a 12 de setembro de 1886 era reconhecida canonicamente a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Volta Grande, criada em 1881.

Em 1923, pela Lei Estadual nº 843, Volta Grande desligou-se da Comarca de São Gonçalo do Sapucaí, anexando-se a de Santa Rita do Sapucaí.

A emancipação política e administrativa da localidade viria a primeiro de janeiro de 1954, pela Lei Estadual nº 1039, de 12 de dezembro de 1953, com a alteração de sua denominação original para Careaçu.

Que no idioma tupi-guarani significa: Caré, a coisa torta; Açu, grande.

Sua população atual é composta de 6302 habitantes.

 

Um funcionário do hotel onde eu me hospedara, comentou que existia um grupo de caminhantes, que todo ano ia até a Aparecida buscar a imagem da Santa para, na chegada, abrilhantar a festa da Padroeira da cidade.

Ele me deu algumas dicas de como localizar esse pessoal, por via virtual.

Assim, pesquisando na internet, encontrei o site dos “Andarilhos da Fé” de Careaçu/MG (vide site: www.andarilhosdafe.com), que desde 1976, anualmente, peregrinava até Aparecida/SP.

Esta história de amor e devoção à Nossa Senhora Aparecida teve início quando três amigos, por fé e agradecimento, fizeram naquele ano a primeira romaria a pé, de Careaçu à Aparecida.

A partir do ano de 2005, o roteiro se inverteu, passando a ser de Aparecida à Careaçu, com a chegada dos romeiros trazendo a imagem peregrina para o início da Festa de Nossa Senhora da Conceição e de São Sebastião, realizada anualmente no mês de julho.



No total, são percorridos 146 quilômetros, em cinco jornadas.

No último dia, a romaria sai do centro de Santa Rita do Sapucaí, rumo à cidade de São Sebastião da Bela Vista, através da estrada da serra.

Na chegada a esta cidade, sempre por volta das 9 horas, ocorre uma celebração na igreja matriz, cujo padroeiro é São Sebastião.

Após a cerimônia, reinicia-se a caminhada até o Posto Dom Diego, às margens da rodovia Fernão Dias.

Depois, com o apoio da Polícia Militar, para garantir maior segurança em face do conturbado trânsito de veículos, os caminhantes partem em direção ao seu destino final. 

Na chegada à Careaçu, os romeiros são recebidos pelos devotos de Nossa Senhora Aparecida.

Então, todos seguem em procissão para a praça da matriz, onde ocorre a celebração da Santa Missa e a coroação da imagem trazida pelos penitentes.

 


Muito bem organizada, a Associação possui um regulamento, que acho interessante divulgar, porque ele serve como exemplo, para todos os peregrinos:

“A Romaria é um ato de fé e penitência, onde todos os que dela participam, formam uma só corrente de fraternidade, amizade, espírito de tolerância, cortesia, ajuda mútua e oração. 

Pelo seu bem estar e do grupo, é necessário que cada um faça o seu melhor possível e não transgrida nenhum item do presente regulamento:

01. Ser católico, acreditar em Deus e ser devoto de Nossa Senhora Aparecida;

02. Participar da celebração da Santa Missa das 18 horas na Basílica do Santuário Nacional;

03. Participar das orações nos horários estipulados;

04. Ser responsável e organizado com seus objetos de uso pessoal;

05. Manter sempre limpo os locais de pouso, incluindo os banheiros;

06. Respeitar a ordem de chegada nos locais de pouso, para tomar banho;

07. Respeitar os horários das refeições e o descanso dos companheiros;

08. Respeitar uns aos outros, para que não haja desavenças na romaria;

09. Não consumir bebida alcoólica durante a Romaria;

10. Não fumar nos locais de pouso;

11. Não jogar lixo na natureza;

12. Não praticar qualquer tipo de jogo valendo dinheiro, sob pena de exclusão das próximas romarias;

13. O carro de apoio deve ser usado somente por pessoas que realmente necessitem de socorro;

14. Em caso de menores de idade, o acompanhante será o responsável direto pelo menor;

15. Críticas e sugestões podem ser feitas na "mesa redonda" que é realizada na quinta-feira.

A  Romaria é uma caminhada de fé e penitência para todos, portanto não há mordomias! Aproveite ao máximo, faça com que esses momentos vividos o transformem, mudando assim sua vida para melhor!”

Para saber mais, acesse: http://www.andarilhosdafe.com

 

À tarde, após a necessária “siesta”, fui conhecer e fotografar a igreja matriz da cidade, dedicada à Nossa Senhora da Conceição.

Depois, calmamente, envidei um giro pelas ruas próximas e, pude observar o comércio local, bem como ir ao banco para sacar numerário, como forma de garantir as jornadas sequentes.

Após estudar atentamente o livro-guia, e ao tomar conhecimento da rudeza do percurso que nos aguardava no dia seguinte, a Célia prudentemente, e como forma de preservar sua higidez, optou por seguir de táxi até a cidade de São Sebastião da Bela Vista.

Combinamos, assim, nos encontrar no alto da serra do Paredão, se as coisas fluíssem conforme esperávamos.

Dessa forma, novamente eu cumpriria o primeiro trecho do trajeto sequente integralmente solitário.

Então, antes de me recolher, passei num supermercado para me prover de água e víveres, pois o trajeto imediato aparentava ser de forte intensidade.

E logo fui dormir, pois o dia fora agitado e quente, assim, me sentia bastante cansado.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de razoável extensão, com uma íngreme elevação a ser sobrelevada, logo no início da jornada. Depois o roteiro prossegue sereno, embora na parte final existam outros dois outeiros de média intensidade, a serem vencidos. No geral, um percurso cercado de muito verde, com destaque para inúmeras fazendas de criação de gado. No global, um trajeto de média intensidade, contudo, trilhado sempre em meio a exuberante natureza, por estradas rurais de inexpressivo tráfego de veículos.