Home‎ > ‎Artigos Peregrinos‎ > ‎

A SANTIAGO DE COMPOSTELA: OS MUITOS CAMINHOS


A SANTIAGO DE COMPOSTELA: OS MUITOS CAMINHOS

Autor: Antoin Abou Khalil



“Este é agora o meu caminho – diz Zaratustra – onde está o vosso? Eis o que respondia àqueles que me perguntavam pelo caminho. É que o caminho não existe”. (F. NIETZSCHE)

Muito se tem escrito a respeito do Caminho de Santiago. No momento em que elaboro estas linhas, consulto o Portal Peregrino e vejo elencados nada menos que oitenta e dois (82) títulos dedicados a essa rota de peregrinação, alguns deles há muito esgotados, outros recém-lançados, não importa: foram oitenta e duas pessoas que se dispuseram a trilhar o Caminho pelo menos duas vezes, a primeira, com as próprias pernas, de corpo presente, e a segunda, através da escrita, por meio da memória e dos devaneios de seu espírito.

Se pararmos para pensar um pouco, concluiremos sem muito esforço que existem muitíssimos outros escritos, até porque nem todos se dispõem a levar adiante a idéia de publicar seu relato sobre o Caminho, seja por motivos pessoais, seja por razões financeiras, sem contar que estamos a falar dos títulos lançados em português...

Antes de trilhar o Caminho, o que fiz em SET/01, saindo de St. Jean Pied-de-Port, li tudo o que pude encontrar sobre o tema, a começar pelo poético relato de Guy Veloso, passando pela surrealista narrativa de Paulo Coelho. Nesse esforço, procurava captar, com antecedência, aquilo que me seria reservado pela experimentação. Queria saber detalhes a respeito do estado dos albergues, a higiene dos sanitários, o clima, a alimentação, etc..

Há aqueles que nada lêem, procurando reservar o máximo espaço para o imprevisível, e aqueles que, se possível, preveem inclusive os albergues em que pretendem permanecer ao longo da trilha, antes mesmo de tê-la iniciado. Suponho que me situo num ponto intermediário entre ambas as posturas.

Creio que um mínimo de planejamento é necessário, até porque, para quem é brasileiro, estar-se-á a um oceano de distância de “casa”, o que dificulta, para muitos, a repetição da experiência de trilhar o Caminho na hipótese de ter de abortá-la por conta de eventos que até seriam contornados, senão evitados, caso tivesse havido algum planejamento... Conheci um brasileiro, por exemplo, que simplesmente ficou sem saco de dormir porque levou, para o Caminho, um que pesava mais do que dois quilos, quando existem, no mercado, os de setecentos gramas. O sujeito, mal informado, deu-se conta, já na Espanha, de que era impossível levar tamanho peso extra em sua mochila. Terminou por abandonar o utensílio para salvar a peregrinação.

Essa era minha preocupação quando me cerquei de todas as leituras possíveis. Esgotadas estas, passei a frequentar a Associação de Amigos do Caminho de Santiago, onde era possível trocar idéias com pessoas que já haviam vivido a experiência, sem falar nas conversas tidas com amigos próximos que por ela também haviam passado. Algumas dicas práticas se revelaram de fato muito preciosas.

No entanto, sem me dar conta, percebi que, ao embarcar para a Espanha, haja vista a quantidade de informações acumuladas em minha mente a respeito do Caminho, levava inconscientemente a crença de que nada sairia errado. Afinal de contas, como poderia, já que sabia tanto a respeito do assunto?

No entanto, logo no início de minha jornada, ainda no Brasil, recebi o que hoje, vistas as coisas pela perspectiva histórica, até pode ser interpretado como um sinal de que não podemos ter sobre os fatos o “controle” que desejamos. Refiro-me ao incidente que enfrentei no balcão de despacho da companhia aérea. Para evitar contratempos quanto à reserva, adquiri minha passagem com antecedência de cinco meses. Além de garantir meu assento, pretendia com isso viajar sem a dívida da passagem ainda pendente. Pois bem, quase perdi o vôo, por conta de imprevistos que não cabe aqui contar.



Meu primeiro dia na Espanha foi igualmente marcado por imprevistos de toda ordem, dramáticos no momento em que vividos, mas cômicos quando evocados pela memória.

Umas das lições que ficaram claras logo no início foi a de que cada um faz o seu caminho. A expressão até apresenta um sentido poético, é verdade, mas no Caminho se trata de poesia concreta.

São inúmeros os fatores para que isso ocorra, a começar pelos diferentes trajetos. Há peregrinos que, morando na França, saem de suas cidades (às vezes até mesmo Paris!) com a mochila nas costas. Conheci alemães que haviam saído da própria Alemanha! Ou seja, enquanto St. Jean representava, para mim, o início da peregrinação, para estes significava a metade do Caminho!...

E nem se fale que há diversas rotas até Santiago, e muitas delas sequer se cruzam.

À parte o aspecto “geográfico”, que tem uma dimensão, digamos assim, mais objetiva, a diferença pode se dar também do ponto de vista subjetivo. Dependendo do que cada um se pôs a buscar no Caminho – de sua motivação para a jornada –, ele se apresentará ao caminhante de maneiras individualizadas. Conheci, por exemplo, uma brasileira que vivia mal humorada. A coisa era tão séria que se tornava mesmo desagradável ficar em sua companhia. A partir de seus comentários sobre o Caminho, percebi que se dispusera a fazer a peregrinação sob a perspectiva meramente turística; o que buscava, na verdade, era uma forma “econômica” de conhecer a Espanha. Não contava, é claro, com o desconforto de certos albergues, para não dizer das bolhas, tendinites, etc.. Foi um tremendo erro de cálculo...

Muitas vezes não nos damos conta de que nossa motivação funciona como um verdadeiro “filtro” perceptivo, uma espécie de lente colorida que colocamos perante nossos olhos e a partir da qual colorimos o mundo. Achamos que a cor percebida pertence ao mundo, quando, na verdade, não passa de uma projeção de nossas próprias mentes, sujeitas que estão à cor da lente que escolhemos usar.

Por exemplo: aquele que vai para o Caminho procurando “viver um amor” – também conheci quem se guiasse por essa intenção (e era brasileira, por sinal!) –, perceberá o grupo que a rodeia a partir da faixa etária e do sexo. Além disso, essa pessoa tenderá a julgar o Caminho a partir dessa perspectiva específica: a experiência de peregrinar, para ela, será tanto melhor quanto mais intenso for o relacionamento amoroso que a vida lhe proporcionar nesse trajeto.

Ao mesmo tempo em que lamentável, parece ser praticamente inevitável que, ao assumirmos uma determinada perspectiva, acabemos abdicando de outras. Por isso, quando se decide fazer o Caminho, creio que tão importante quanto a experiência em si é a consciência daquilo que se busca alcançar com a peregrinação.

Gostaria de concluir compartilhando com o leitor uma particularidade pessoal sobre minha própria peregrinação. Nos livros que li sobre o Caminho, era comum encontrar o clímax da viagem no final do relato. Muitas pessoas – talvez a maioria – sobem os degraus da catedral banhadas em lágrimas, e se emocionam profundamente com a visão do altar, onde se encontra a representação do santo. Obviamente, não sabia qual seria minha reação ao chegar, mas imaginava algo próximo disso.

No entanto, a chegada, para mim, acabou sendo algo extremamente corriqueiro. Do ponto de vista emocional, nada parecido com os momentos inesquecíveis vividos nas trilhas que atravessam as “mesetas”, tantas vezes percorridas sob a luz do sol nascente. Dei-me conta, assim, do quão importante é viver o caminho, a tal ponto que chegar passe a ser um mero detalhe, mera decorrência de uma sucessão de passos: o que importa é o que fica entre o primeiro e o último deles.



(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

 ‎VOLTAR