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ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE SÃO TIAGO


ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE TIAGO "O MAIOR: O HOMEM, O MITO, O SANTO



Autor: Edison Martins

Mês passado se comemorou o dia de São Tiago, na quarta-feira, 25 de julho. Denise e eu fomos à missa celebrada no Centro Cultural de Brasília, instituição jesuíta onde o Padre Iglesias tradicionalmente reúne peregrinos para encontros e bate-papos. Ele, porém, não estava lá, recolhido em algum retiro espiritual. Mas compareceram inúmeros ex- e futuros peregrinos, sempre ansiosos por relembrar, ou conhecer, as histórias das mágicas trilhas de Espanha. A missa, como sempre, foi simples e bonita. De volta, no carro, viemos conversando sobre "o caminho". Denise, então, mencionou como é interessante notar o poder e o carisma que São Tiago teve e tem, gerando tantos e importantes eventos históricos e religiosos e, ainda hoje, constituindo o cerne de uma tradição que já remonta a doze séculos. Em ligeiras palavras, resumiu as diferentes facetas do santo. Foram idéias muito interessantes, e resolvi escrever este breve artigo.

Todos sabemos, evidentemente, dos poucos registros a seu respeito: pescador, homem simples, irmão de João, o evangelista, seguidor de Jesus desde que o Nazareno o chamou - e a João-, quando consertavam redes na orla do mar da Galiléia, pregador, o primeiro dos doze apóstolos a ser martirizado por divulgar as palavras de Cristo, e, finalmente, cristão decapitado em Jerusalém no ano 44. Ainda, segundo a lenda, teve o corpo trasladado para a Galícia romana, sendo lá sepultado. 



Vamos voltar, portanto, quase dois mil anos no tempo e imaginar o jovem Tiago, provavelmente um receoso, inculto e analfabeto pescador, como a maioria daqueles indivíduos dos povos antigos. Certo dia, um homem o encontra, e a seu irmão, e os convoca para tarefa completamente distinta daquilo que sabiam fazer. E eles simplesmente o seguem. Bem-aventurados. Naquele instante suas vidas assumiriam novo e imensamente difícil rumo. Quantos de nós, tão esclarecidos, atenderíamos, hoje, a um chamado como aquele? Reconheceríamos o interlocutor? Acreditaríamos que o Deus vivo chegou até nós, pecadores? Ninguém sabe exatamente quem era Tiago, então - se alma despida de pecados ou indivíduo a quem não importavam muito a prática e os preceitos religiosos de sua comunidade. Apenas foi escolhido e seguiu com o mestre, abdicando das certezas de seu restrito universo, abraçando causa sem futuro palpável, de poucas expectativas. Coragem foi a atitude. Tocado pelo divino, foi capaz de perceber a luz e a pureza do homem que o chamava. A Igreja, no futuro, o faria santo, com base nas investigações e nos ritos canônicos da burocracia humana. Tiago, porém, santificou-se mesmo foi lá naquela praia, ao momento em que atendeu ao chamado do Homem. Passou a ser conhecido como "o maior", porque havia entre eles outro Tiago, um pouco mais novo. Com certeza, tornou-se pregador na Palestina. É difícil crer, entretanto, que, na curta existência de seu ministério, após a morte do seu mestre, tenha viajado para a distante Ibéria e, lá, propalado palavras de fé e de esperança. 

Também, isso não importa. A lenda criou o mito e o mito atravessou fronteiras, cativando corações e mentes. Sem dúvida, o mito foi usado. Quem sabe isso ocorreu mesmo por desígnios divinos, para que a história fosse como foi, com a Europa cristianizada e, depois, a América? Isso nos faz pensar na imagem do São Tiago peregrino, o ungido por Deus, aquele por quem rotas quilométricas foram trilhadas, e ainda o são e o serão. Em memória de quem cidades e monumentos foram erguidos, vilas foram ampliadas e aldeias surgiram do nada, dando alicerces físicos à construção de uma nacionalidade cristã, a hispânica, depois duas, com a portuguesa tornada independente, mais tarde várias, na América colonizada. Pois foram o mito, forjado ou não, e "o seu caminho", os fundamentos que importantes historiadores atribuem como base para a construção da civilização européia ocidental, ao afirmarem que "a Europa cresceu caminhando para Compostela" . No mínimo, foram fatores que deram o necessário impulso para a unificação cristã na península ibérica. Nos faz lembrar, também, que com o do pacífico santo peregrino convive o esquisito mito do "mata-mouros", provavelmente ungido apenas pelos homens, o aglutinador dos combatentes cristãos às hostes sarracenas, ao lado do qual era privilégio e honra morrer pela causa hispânica. O pregador feito soldado, imaginária figura que lutava contra os infiéis e sua ocupação no cristão solo da ainda incipiente, mas maculada, pátria. O pacificador feito sanguinário em nome da fé. Estranho, mas de incrível poder para aquela gente. Pacífico, ou nem tanto assim, foi aquele santo.


É isso, santo: resumo do homem e do mito. E que incrível poder ainda possui, dois milênios depois, com gente de todas as partes do mundo que percorre sua história ao longo daquelas trilhas... milhares de peregrinos sempre reverenciando seu santuário em Compostela e centenas de igrejas e capelas do norte espanhol a ele dedicadas. Santo e forte. Que incrível poder nos atrai, ano após ano, a retornar fisicamente ao caminho ou dele estar perto em recordações e trocas constantes de idéias com amigos que vivenciaram a mesma experiência. Quem explica por que, mesmo em outros continentes, reúnem-se grupos nos 25 de julho, para celebrar a data de um santo dito espanhol (mas há séculos globalizado - muito antes de este termo existir) -, ou sempre que possível, para discutir e relatar as próprias experiências, criar associações e divulgar novos fatos? Já notaram que somos um imenso clube de aficionados, em que, em qualquer oportunidade, como o lançamento de um livro sobre o caminho, por exemplo, caras antigas estarão sempre presentes, ladeadas por novas e sorridentes feições que se incorporaram ao time no intervalo anterior e já trouxeram outros candidatos que, no evento seguinte, farão parte do núcleo de caras antigas, num ciclo que não se acaba? Bondade, alegria, reencontro com os mistérios de cada um de nós, solidariedade, amizade, desapego, fé, paz interior - apenas algumas pinceladas desse poder. O santo é forte e seu carisma, poderoso. 

Tiago, o homem, seguiu a Jesus sem duvidar. Seu mais forte exemplo foi a coragem. O mito percorreu distâncias, atravessou fronteiras, conclamou massas e, sem dúvida, contribuiu para construir nações. Seu principal legado foi o de aglutinar mentes e espíritos. Do santo, não há dúvidas, e amor pode bem ser seu sinônimo. Dois milênios depois, ele continua a guiar pessoas de diferentes credos e sentimentos nas peregrinações em busca do amor, do encontro e das coisas divinas. 



Nós, católicos (embora não todos), costumamos eleger nossos santos de devoção, aqueles a quem recorremos como intercessores nas horas em que precisamos ter mais fé. Eu não tinha nenhum (e tomava emprestado os alheios) até 1999, quando estive no caminho pela primeira vez. São Tiago tornou-se este elo de ligação. Embora eu não acredite em muita coisa do mito, respeito e admiro profundamente a coragem do homem e, agora, reverencio o santo com devoção. 

É, de fato, o santo é forte.

* O autor e sua mulher percorreram o caminho, a pé, entre setembro e outubro de 1999 e retornaram em outubro de 2000 para refazer algumas etapas. Em dezembro de 2000, publicaram o livro No Caminho de Santiago (Thesaurus Editora de Brasília, 232 p.). É também de sua autoria o artigo Breve análise geopolítica sobre o caminho de Santiago, publicado nesta página.

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

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