Home‎ > ‎Artigos Peregrinos‎ > ‎

DOIS CAMINHOS


DOIS CAMINHOS

Autor: Odone Augusto


Olá pessoal! 

Meu nome é Odone, sou gaúcho, e já fiz o caminho de Santiago duas vezes. Na primeira vez que fiz, em junho de 1999 era muito calor. 

Nesta época é verão na Espanha. Inicia-se a caminhada muito cedo, pois ao meio-dia é muito quente. Sempre iniciava por volta das 7:30 h. A maioria do pessoal sai antes, entre 6:00 e 7:00 horas. Caminhava até por volta das 12 h. Fazia uma média de 25 km por dia. Neste horário o sol é muito forte e não se tem muita disposição para caminhar. 

A segunda vez foi em novembro de 2000. Iniciava a caminhada às 9:00 h (amanhece em torno das 8:30 h) e caminhava até escurecer (em torno das 18:30 h), sem pressa. Sem pressa e curtindo, este é o segredo do Caminho. 

Quando comecei a caminhada não chovia tanto, mas após Burgos começou a chover e até Santiago caminhei literalmente abaixo d'água. 

Na Galícia haviam lugares que se caminhava com os pés dentro d'água. O caminho virava um pequeno riacho em determinados trechos de tanta chuva. 

Qual a época melhor para se caminhar? é uma pergunta difícil. No verão, a paisagem é muito bonita pois os campos ainda tem as flores e é gostoso se deitar sob uma árvore e tirar um cochilo, mas tem o problema (no bom sentido - um dos melhores momentos do caminho é quando os peregrinos se encontram) que existem centenas de peregrinos e muitas vezes caminha-se muito rápido para conseguir um lugar nos albergues, se bem que comigo isto só aconteceu uma vez. Eu consegui uns colchonetes emprestados de peregrinos neste dia e dormi sem problemas. 




No inverno não tem tantos peregrinos e os hospitaleiros são mais gentis e pode-se conhecer melhor os costumes dos locais. Em novembro de 2000, vários hospitaleiros fizeram jantas para nós peregrinos. O José Luiz e a Maria do Socorro em Logroño e o José Luiz em Najera foram fantásticos. Fizeram para nós uma tortilla que fico com água na boca só em pensar como estava boa. Nesta época se curte mais os hospitaleiros com seus costumes, mas em compensação não há tantos peregrinos. 

Para se ter ideia havia em torno de 6 ou 7 no máximo nesta última caminhada. Parecíamos uma família. Saudades..... 

No verão tinha dias que haviam mais de 100 pessoas no albergues. Creio que a época melhor seria a que antecede o verão, em abril e maio, é primavera e os campos da Espanha são super floridos, e não há tantos peregrinos e o calor não é tanto. 

Pode-se curtir um pouco mais da paisagem, colocar os pés dentro dos inúmeros riachos que existem, fazer um picnic nos bosques e outras coisas mais. No inverno, chove muito e estas coisas sempre é difícil de se fazer, se bem que levando um isolante, um colchonete muito fino, isto se resolve. Mas tem-se o aconchego das chimeneias (lareiras) com um bom vinho e um bom papo com os peregrinos. 

O caminho de Santiago é mágico e cada vez que faço tenho certeza que mais e mais vezes irei fazer. As amizades que se faz, as experiências, a cultura que se adquire, os valores e conceitos que se modificam. Você descobre que não se precisa de muito para viver, que o nosso maior tesouro são nossas relações, nossos amigos, família... 

Com certeza estas caminhadas são as loucuras mais sadias de minha vida! A primeira vez iniciei em Roncesvalles no dia 03 de junho e terminei no dia 04 de julho de 1999 em Santiago. Parei um dia devido a tendinites. A segunda vez iniciei em 07 de novembro em San Jean na França e terminei no dia 07 de dezembro de 2000 em Santiago. Sai um dia do caminho para conhecer o museu Gugenheim de Bilbao. 

Obs.: para que gosta de museu e arquitetura é um passeio imperdível. Recomendo a todos iniciar pelos Pirineus. É muito bonita a paisagem e o caminho é dez, isto que fiz abaixo de uma tempestade de neve. Nunca treinei antes com longas caminhadas, muito pelo contrário, antes desfazer pela primeira vez eu nem caminhava muito. No verão fiz com tênis e no inverno com um tênis abotinado. Não conheci ninguém com um calçado que fosse perfeitamente impermeável. As pessoas que caminham com botas normalmente tem bolhas. Eu só tive uma no verão e nenhuma no inverno e nunca usei as duas meias como recomendam alguns guias. 

No inverno é imprescindível uma boa capa de chuva, resistente ao vento. No verão tem-se a vantagem de se levar menos roupas. Tinha duas bermudas e uma calça cargo e três camisetas e um moleton. 



No inverno duas calças cargos, três camisetas, uma blusa de lã fina e um casaco impermeável. 

O ideal são as calças cargo com zíper, pois se separa as pernas da calça quando está muito quente. 

A mochila nunca me incomodou em termos de peso. Sempre carregava em torno de 8 ou 9 kg. 

Quanto a alimentação há desde restaurantes onde se come o menu do peregrino, em torno de 1.000 pesetas, equivalente a R$ 11,00. Ou se faz no albergue. No inverno sempre tem peregrinos fazendo comida e você termina comendo com eles, é muito bom. 

No verão há muita gente e eu sempre comia em restaurantes. No inverno gasta-se menos. Divide-se os gastos com os outros peregrinos na hora da compra da comida. 

Conheci pessoas que fizeram o caminho com somente 300,00 dólares. A maioria gasta 500,00 dólares. Isto não considerando ter que se deslocar entre o aeroporto e de onde irá se iniciar a caminhada ou outras despesas extras. É só para alimentação e gastos com higiene pessoal e albergues. Os albergues mais caros custam 500,00 pesetas ($ 2,50 dólares) e na Galícia não se paga por eles, deixa-se uma colaboração espontânea. 

Tenham certeza de uma coisa, sempre há uma mudança em nossas vidas após fazermos o caminho. 

Seja um peregrino, vale a pena mesmo! 


(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

 ‎VOLTAR