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EU ESTIVE NO CAMINHO DE SANTIAGO


EU ESTIVE NO CAMINHO DE SANTIAGO

Autor: Ronaldo Camboim



COMO CONHECI O CAMINHO:

Conheci Vera em 1992, num Congresso de Ecologia, em Recife.

E foi por intermédio de Vera, que fez o Caminho pela primeira vez em 1996, que tomei conhecimento do Caminho de Santiago de Compostela. Por volta de maio a junho de 1996. Lembro que fiquei fascinado com o relato de Vera. Minhas reações variavam conforme ia ouvindo e entrando naquele mundo distante, místico, fascinante. Caminhar oitocentos quilômetros ? A pé ? A troco de quê ? É loucura ! Mas como é mesmo ? Ao fazer esta pergunta, inconscientemente eu havia decidido que iria fazer o Caminho. E o fiz quatro anos depois.

POR QUÊ DECIDI FAZER O CAMINHO?

Imagino que a primeira e mais forte decisão que tomei foi mesmo inconsciente. Nunca havia tomado conhecimento do Caminho antes, em qualquer circunstância. Não era uma meta na minha vida. Eu não estava num momento de crise, como passei a ouvir nos depoimentos de outras pessoas que também fizeram o Caminho. E quando digo que houve uma primeira decisão, é porque ao longo dos quatro anos que separaram o depoimento de Vera, da minha ida ao Caminho, outros momentos de decisão foram acumulando-se em meu interior. A cada contato com uma matéria jornalística, ou casualmente ouvindo alguém mencionar Santiago ( mesmo que não fosse o de Compostela ), batia uma sentimento de emoção, de desejo de estar lá. Era como se algo forte me atraísse. Como não sou um católico praticante, nem tenho uma forte devoção ao Santo, atribuo esta atração mais ao sentimento de aventura, pois sempre gostei muito de viajar. Porém, no íntimo creio que teve algo mais, pois o Caminho não me era apresentado propriamente como uma viagem, um passeio em férias. O que era este algo mais, ainda não sabia. Sabia que o Caminho me atraia e que poderia me proporcionar muitas lições, muitos momentos de reflexão. Para saber, precisava estar lá.

Em dezembro de 1978, Rita me presenteou com o livro de Francisco Carvalho Júnior, A Caminho de Santiago, desejando me proporcionar uma primeira viagem através dele.

Houve então um momento muito forte. Foi na passagem do Ano Novo de 1999 para 2000. Estava na Praia do Francês com Márcio, Fabiana e Leonardo. Havíamos feito uma fogueira na areia, fogos, champanhe, céu estrelado...Naquele momento, bateu uma emoção muito forte. Eu fechava os olhos e me via no Caminho, misturando as imagens do imaginário com o que já havia visto nas fotografias e nas reportagens da tv. Decidi que iria em 2000, ainda no primeiro semestre. E fui.



A PREPARAÇÃO

Decidir que iria ainda no primeiro semestre de 2000 me colocou rápido no redemoinho da preparação. Na verdade comecei o Caminho naquele momento do Ano Novo na praia. Tudo na minha vida começou a girar em torno do Caminho. A preparação, que durou um pouco mais de três meses fez mesmo parte do meu Caminho.

De repente, eu só pensava nas botas, nas meias, na mochila, no saco de dormir, no cantil...Acordar bem mais cedo para as caminhadas (na orla de Maceió, até o Francês, caminhadas em Murici, até o tabuleiro, subir ladeiras). Caminhadas nas inúmeras cidades em que trabalhei nesse período (Palmeira dos Índios, Santana do Ipanema e Penedo, em Alagoas; Barreiras e Santa Maria da Vitória, na Bahia; Limoeiro do Norte e Fortaleza, no Ceará; Recife; Itapecuru Mirim, Bacabal e São Luiz, no Maranhão). Qualquer oportunidade num shopping, em qualquer centro comercial destas cidades, me fazia pesquisar- e comprar, algo que iria precisar, ou que achava que precisaria (algumas coisas foram descartadas na hora de pesar a mochila).

Nesse período, foi muito importante a convivência com as pessoas que já haviam feito o Caminho, na Associação dos Amigos do Caminho de Santiago, em Maceió, e as informações obtidas na Lista pela Internet (www.caminhodesantiago.com.br), inclusive para conseguir comprar alguns equipamentos não encontrados aqui no nordeste, com apoio dos peregrinos do sul.

O período da preparação foi fundamental. Estar com a musculatura e tendões fortificados, evitou as fatídicas tendinites que molestam e tiram do Caminho muitos peregrinos. Só não evitou as terríveis bolhas. Mas delas falarei mais adiante.



A VIAGEM

Saí de Maceió para Recife num Domingo, dia 23 de abril e de lá, no dia seguinte, para Madrid. Lembro que relutei bastante na escolha do dia que iniciaria o Caminho. A decisão foi tomada num rompante. Havia feito reserva na Varig, Vasp, Transbrasil, Ibéria e TAP, todas em datas diferentes, algumas em lista de espera. Quando me ligaram da Agência, confirmando a reserva pela VASP, com preços bem convidativos, decidi que seria com ela. Me passava pela cabeça que, naquele mesmo instante, outras pessoas em vários lugares do mundo, também estavam tomando a mesma decisão. Sabia que iniciar o Caminho em um ou entro dia, significava encontrar pessoas diferentes, enfrentar dias com mais chuva ou mais sol, mais frio ou calor...

E foi com essa sensação, tomado por muita emoção, que, com mochila (9 kg) nas costas e cajado na mão, segui para o "meu caminho". De Maceió a Recife, de lá a Madrid, de Madrid a Pamplona, depois até Roncesvalles, quase na fronteira com a França, de onde iniciei a caminhada três dias após ter saído de Maceió.

Cheguei a Roncesvalles de ônibus. Desci em frente ao Monastério onde está situado o Albergue às sete e quinze da noite (noite no modo de dizer, pois o dia estava claríssimo, ainda com sol). Vários peregrinos estavam naquele ônibus da viação Montañesa, que faz a linha de Pamplona a Roncesvalles. Em torno de quinze peregrinos. Já havia conhecido Joaquim Pozo, espanhol, que estava no mesmo trem de Madrid a Pamplona. Alberto, de Salvador, mas que seguiu de taxi para San Jean Pied Port, na França. Melanie, norte-americana que estava na Espanha estudando o idioma. E Graça, que também veio de Maceió.

Fui encaminhado a uma pequena sala, junto com os demais, onde preenchi um formulário e recebi o primeiro dos muitos carimbos na credencial do peregrino, que atesta a trajetória no caminho e permite o alojamento nos albergues. Em seguida segui para o albergue, onde deixei a mochila e o cajado. Fui informado que a missa do peregrino seria as oito, estando já em cima da hora. Nem deu tempo tomar um banho. Missa, jantar, banho e cama. O sono, este custou a chegar. O albergue estava lotado. Sentia a excitação que tomava conta de todos, nos suspiros, no revirar da cama, na luz do relógio que acendia para ver as horas. Para a maioria dos que ali estavam, o dia seguinte seria o primeiro da caminhada (para os que vinham de San Jean, já bastante cansados, a expectativa era menor). 

NO CAMINHO - Os primeiros passos

E assim, no dia vinte e seis de abril, as oito da manhã, sob um céu bastante nublado, com muita chuva e frio, após um breve "desayuno" no restaurante em frente ao Monastério, dei os primeiros passos nos quase oitocentos quilômetros do caminho, rumo a Santiago de Compostela. Lembrei da primeira vez em que ouvi Vera falar no Caminho; lembrei daquele momento da passagem do Ano Novo na praia; das caminhadas na preparação...Pensei em quantas pessoas já haviam passado pelo mesmo que eu estava passando agora. Olhava para o chão lamacento e via as pegadas dos muitos que estavam à minha frente e podia sentir a emoção de cada um, que devia ser a mesma minha.

Lembrei também das palavras do padre na missa da noite anterior. Ele havia feito uma benção aos peregrinos, pedindo proteção a Deus para todos que ali estavam. Desejei que conseguissem alcançar seus objetivos em paz. Tinha vinte e nove dias de caminhada pela frente. Sabia que ia passar por muita coisa, ter alegrias, tristezas. Lembrei da peregrina belga, Alice de Graemer, que faleceu no caminho vítima de um acidente. Pedi a Deus proteção para mim e para todos que ali estavam. Ultreya e Suseya !



NO CAMINHO - As primeiras emoções

As emoções vividas nos vinte e nove dias em que estive no Caminho são difíceis de descrever nestas poucas linhas. A cada minuto, cada segundo, vivi uma emoção diferente. Seja numa pessoa que conheci, numa árvore que dava sombra, nos muitos cantos de pássaros, um riacho, uma casa, uma igreja, uma fonte, um pequeno pueblo, um(a) peregrino(a) descansando sob uma árvore...Sentimentos contraditórios tomaram conta de mim. Ora alegria, euforia até, ora tristeza, depressão. Cansaço e disposição se misturavam, tornando-se difícil separá-los. A noção de cansaço, que tinha do meu quotidiano não valia para o Caminho. Andar diariamente 22, 24, 25, 35 quilômetros me transformavam e provocavam reações conflitantes, que o período de preparação não produziu, já que as longas caminhadas não eram contínuas. As dores musculares eram massageadas pela alegria de mais uma etapa vencida ao final do dia, pelo banho quente no albergue, pela ceia com os amigos e uma convidativa "botella de vino tinto de La Rioja".

Três horas de caminhada e depois de ter passado pelos pueblos Burguete, Espinal e Biscarreta, uma parada para o lanche em Lintzoain, abastecer o cantil numa fonte e um breve descanso para recuperar as energias. Nesta primeira parada, encontro Melanie, a norte-americana que conheci no ônibus, junto com Alex Whalley , inglesa e Jon Maiza, espanhol. Jon seria companheiro de peregrinação até Santiago de Compostela, tornando-se um grande amigo (na verdade, me adotou como pai - e eu o adotei como filho). Alex nos acompanhou por mais sete dias, até Logroño, de onde retornou a Valencia para completar os estudos do espanhol. Melanie ficou por mais dois dias, até Pamplona, precisando retornar aos Estados Unidos por um problema grave de saúde de sua mãe. 

No momento em que nos conhecemos, trocamos lanches e algumas informações e, naturalmente formamos um grupo. Lembrei de quando estava decidindo o dia da minha saída do Brasil. No momento em que tomei a decisão, era como se tivesse marcado encontro com aquelas três pessoas, naquele lugar, cada uma de uma nacionalidade diferente, e com as quais compartilhei muitas das emoções vividas no Caminho.

Seguimos conversando, nos conhecendo; - O que você faz ? Pretende fazer o Caminho todo ? Como conheceu o Caminho ? E por ai vai..., até Zubiri, nosso primeiro pernoite. Chegamos em Zubiri por volta das duas da tarde. O albergue estava quase vazio. Encontramos Zuleika, gaúcha, Márcia, baiana, as duas com problemas de distensão nas pernas.

Foi bastante agradável este segundo pernoite no Caminho. Se em Roncesvalles havia a tensão, a expectativa do dia seguinte, em Zubiri já experimentava uma certa tranquilidade, um certo relaxamento, apesar de cansado. Esta primeira etapa é cheia de subidas e descidas - Alto de Mezkiritz, Alto de Erro, dificultados ainda mais pela lama excessiva formada pela chuva que caia sem parar, forçando bastante os joelhos e articulações dos pés. A chuva havia cedido um pouco, havendo até um solzinho camarada. Comecei a organizar as tarefas diárias, que seriam realizadas por todo o Caminho, ao chegar no albergue; carimbar a credencial, escolher uma cama (beliche, triliche), estender o saco de dormir na cama (sinal de ocupação), tomar um banho, lavar a roupa do dia, procurar ou improvisar uma varal, tomar informações sobre restaurante e "tiendas" para comprar mantimentos para o dia seguinte. 

Depois de almoçar/jantar num restaurante, passei na tienda para comprar os mantimentos (leite, pão, queijo, alguma fruta) e, uma boa botella de vino, que apreciamos no pátio do albergue (que fica anexo a uma escola), conversando animadamente sobre a caminhada do dia e traçando o roteiro do dia seguinte. Além de Márcia e Zuleika, chegaram ao albergue os baianos Marta, Manoel, Floriano e Edson,. Animadíssimos. Além de belgas, holandeses, franceses, espanhóis, alemães, italianos...Estive próximo dos baianos por mais seis dias, até Santo Domingo de La Calzada, quando eles deram uma parada para ir até Bilbao. Não nos vimos mais. O albergue em Zubiri lotou, ficando peregrinos em colchão no chão.

NO CAMINHO - Os muitos amigos

Imaginar fazer o Caminho sem a presença das pessoas que lá encontrei é difícil, quase impossível. A cumplicidade, a troca que estabeleci entre as pessoas, todas, ou quase todas, buscando a mesma coisa, com o mesmo ideal, foi muito forte. Tínhamos apenas o nome e a nacionalidade. No máximo tínhamos uma profissão. Não precisávamos ter sobrenome nem conta bancária, nem patrimônio. Éramos todos peregrinos, com uma mochila nas constas e um cajado na mão. Éramos iguais nas nossas diferenças.

Conheci algumas pessoas mais de perto. Com muitas tive um breve convívio, o bastante para um afago, um abraço, um tapa nas costas, um "hola", um "buenos dias", um "buen viajen", um "adiós", "hasta luego", que expressavam tanta coisa, muito mais que a quantidade de letras da palavra, muito mais que a simplicidade aparente do gesto.

Convivi com Jon, "mi hijo del Camino", com Alex e Melanie, com Joaquim Pozo, com os baianos, com Zuleika, que reencontrei em Leon, dezessete dias depois de deixá-la em Zubiri. Convivi com Andrés, espanhol, Alfredo Bráulio, espanhol, com Alfredo Antonio, paulista, com João Batista, mineiro/carioca, com Tupac, peruano/madrilenho, com "la querida pareja" Jaqueline e Rubens, de Joinville, com Graça, de Maceió, com Mariona Martinez, espanhola e mascote do grupo, em seus maduros dezoito anos. Convivi com o grandioso Francisco Oya, espanhol, com Wilma e seu neto André, paulistas, com Martin e seu pai, alemães. Convivi com Uchoa, paulista, com Itamir, gaúcho, com Janete, paranaense de Londrina, com Meire, paulista, com Vinícius, paulista, com outra "pareja" Carlos e Palmira, de Ilhéus, e mais outra Ana e Victor, espanhóis gallegos, com Fernando Campo, espanhol. Convivi com Annelise Bruus, dinamarquesa, Jordi e Narcis, espanhóis. E de todos eles, recebi amizade, apoio, força, companheirismo, solidariedade. Para mim, o espírito do Caminho estava nestas pessoas e em tantos outros anônimos (franceses, irlandeses, italianos, espanhóis, húngaros, brasileiros, alemães, poloneses, australianos, belgas). Imaginava Santiago em cada um deles. Até mesmo nos momentos que estava mais introspectivo, que estava querendo ficar só, pensando, e alguém interrompia (lembra Alfredo ?) ali estava Santiago, feito homem, feito mulher, feito gente, gente que na hora de dormir perturbava o sono com os roncos ( um dia ainda me vingo daquele francês roncador, o Michel ). Lembro com mais detalhes de dois momentos particularmente especiais para mim. O primeiro foi com Jon, num Domingo em que havíamos saído de Samos, pensando em pernoitar em Portomarín. Como andei mais à frente, junto com Mariona, ao passar em Ferreiros, pequeno Pueblo com umas dez casas, o albergue estava aberto, bem à margem do Caminho. Era mais ou menos duas da tarde. Resolvi ficar, Mariona também. Os que vinham mais atrás, chegavam e iam ficando também. Por último Jon, que não quis ficar, decidindo continuar até o ponto previsto inicialmente, Portomarín. Era um momento de separação. Como já havíamos estabelecido muitos vínculos, na convivência diária, fiquei triste com a despedida. De repente não tinha mais um filho para cuidar, para rir com as brincadeiras. Não tinha mais o professor de espanhol nem o aluno de "brasileiro". Era uma amostra do que todos nós teríamos que enfrentar dali a poucos dias, depois que chegássemos a Santiago; o momento de despedida. Dois dias depois, em Arzúa, encontro Jon sentado em um banco da praça. Sentei também e conversamos. Foi muito bonita nossa conversa. Havíamos estabelecido uma forte ligação no Caminho. Estávamos emocionados por estar ali, por viver aquele momento, por saber tão próximo a chegada a Santiago de Compostela. Sabíamos muita coisa da vida um do outro. Havíamos tentado ajudar o outro com a experiência de cada um. Valeu ! O segundo momento forte que recordo, foi com Mariona. Eu estava andando mais à frente, entre Arzúa e Monte do Gozo, quando fui tomado por forte emoção. Estava chegando a Santiago. Vinte e oito dias haviam se passado desde os primeiros passos em Roncesvalles. Comecei a recordar de tudo e sem me dar conta, comecei a chorar. Começava a sentir saudade do Caminho, mas também sentia saudade de casa, da família. Queria alcançar minha meta, mas queria que durasse mais. Queria descansar de tantos dias carregando a mochila, mas queria ficar cansado para poder descansar. Sem me dar conta, Mariona se aproximou de mim, percebeu que eu estava chorando e começou a conversar, a contar sobre sua vida, sobre sua família, seus problemas, seus sonhos. Por quase duas horas fiquei mais ouvindo, falando pouco, mais para estimular a que ela continuasse seu relato. Quando paramos em um restaurante, toda a tristeza já havia passado. Me sentia bem. Havia compartilhado com Mariona um pouco da história de sua vida e me senti feliz por isto. Valeu !



NO CAMINHO - As Setas Amarelas

Sai do Brasil com uma preocupação, quanto à possibilidade de me perder no Caminho, mesmo com os depoimentos dos que já haviam ido, relegando esta possibilidade. 
Levei uma fotocópia do Guia Camino de Santiago a Pie, El Pais - Aguilar, mas quando o lia, achava complicado e imaginava que em algum momento poderia me perder. Não contava com o imenso poder das setas amarelas. Sai de Roncesvalles e cheguei a Santiago de Compostela guiado pelas setas amarelas. O Guia me serviu como referência para informações sobre os nomes das cidades, informações sobre albergues, tiendas, restaurantes, para programar roteiros do dia seguinte. O que me colocava no caminho certo, assim como aquelas centenas de peregrinos que encontrei, foram as setas amarelas, que ocasionalmente estavam estilizadas na forma de concha, ou de uma placa. Mas sempre era ela. Lá no meio do mato, no tronco de uma árvore, numa pedra, num muro, na parede de uma casa. Por quase oitocentos quilômetros, peregrinos das mais diversas nacionalidades percorrem as mesmas trilhas, passam pelas mesmas igrejas, as mesmas fontes, chegam aos mesmos albergues. E isto é simplesmente fantástico. Lembro que no Caminho eu dizia que o maior poder do Caminho, além da fé, da força de vontade, estava nas setas amarelas.

NO CAMINHO - Os albergues

Se os amigos são a grande alegria, a força do Caminho, se as setas o poder de guiar a todos ao mesmo destino, os albergues são o porto seguro. Neles refiz minhas forças para continuar prosseguindo. Neles o momento de relaxamento, de mais convivência com os demais peregrinos, o aconchego de uma lareira, de um banho quente. Nos albergues com cozinha, pudemos fazer ceias coletivas que, mesmo não estando tão saborosas, nos aproximavam uns dos outros ainda mais. Um bom momento de descontração, de alegria, de muita conversa sobre o que aconteceu no dia, os detalhes de cada um. Viu aquela igreja em ruínas do século XII ? Passou por um peregrino voltando de Santiago ? E aquela francesa a cavalo, corajosa não ?

No albergue também se tratava das tendinites, das dores nas costas, das inúmeras bolhas nos pés. Alguém tem uma pomada para dor ? Quem tem um compeed sobrando? Alguém sabe costurar bolhas ? Meu sabão para lavar roupa acabou, alguém tem um pedaço sobrando ? E por aí vai...

Encontrei dois albergues lotados. O primeiro logo no segundo dia no Caminho, em Pamplona. Cheguei a Pamplona por volta das quatro da tarde, sozinho. Jon, Melanie, Graça e Alex haviam ficado para trás. Estava todo molhado e com muito frio. O albergue fica no bairro antigo de Pamplona, vizinho a igreja de San Saturnino, no 4º piso, com apenas 20 camas beliches. Era uma confusão de peregrinos para lá e para cá num corredor estreito, mochilas para tudo quanto é lado, o piso molhado. Uma senhora me atendeu e foi logo dizendo estava completo. O próximo albergue a 5 KM, em Cizur Menor. Respirei fundo, completamente desanimado e com uma cara de cachorro abandonado falei: em pensamento até que consigo ir até Cizur Menor, mas minhas pernas não aguentam dar um só passo. Ficarei no chão ! Neste momento havia se aproximado o Andrés, espanhol que já citei anteriormente, que falou algo para a senhora, muito rápido não dando para entender. O que entendi foi que apareceu uma vaga para mim, numa espécie de escritório. Lá, em meio a livros, estantes, e uma infinidade de toalhas, botas, camisas, meias, calças, todas secando próximo ao aquecedor, havia uma bicama. Consegui a parte de baixo para mim, que estendi no corredor e Graça, que havia chegado um pouco depois, ficou no "quarto" com a cama. Os demais tiveram que ir para um Hostal (espécie de hospedaria, mais barata). Outro albergue que encontrei lotado foi o de Belorado. Também neste dia, estava chovendo muito, fazia muito frio. O albergue é pequeno, anexo à igreja de Santa Maria, num antigo teatro paroquial. Possui vinte e duas camas beliches. Ao chegar, a encarregada, Sara, foi logo dizendo: no tengo buenas notícias ! ao que indaguei : está completo ? Ela respondeu que sim e eu fiz a mesma coisa que em Pamplona. Fico no chão, ou em cima da mesa, em qualquer lugar, mas não saio daqui. Resultado: consegui uma "boa" caminha. Creio que o fato de desejar ficar no albergue, nem tanto por economia, mas pela possibilidade de estar com os demais peregrinos, comovia os encarregados, que sempre tinham uma reserva estratégica para as emergências.

Encontrei albergues muito simples, sem água quente, com camas velhas e outros reluzindo de novo, com uma infra-estrutura moderna (cozinha, lavanderia, secadora, duchas, quartos separados, com apenas quatro camas). Mas o que marcava mesmo era o astral, o aconchego encontrado. Em Bercianos, por exemplo, o albergue, antiga casa reitoral, ainda está sendo reformado. No Guia ele aparece com em escombros, só devendo ser procurado em caso de força maior. Mas já está funcionando, mesmo sem água quente. Fiquei com mais sete peregrinos em Bercianos. Fizemos uma ceia (sopa, macarrão), tomamos vinho, um chá e sentamos na sala ao lado do aquecedor, conversando. Foi bastante acolhedor, mesmo sem uma boa infra-estrutura. Em outros albergues, mais modernos (como o de Ponferrada, por exemplo), às vezes não sentia o mesmo clima encontrado em Bercianos.

Os albergues situados em Monastérios, ou antigos Monastérios (Roncesvalles, San Juan de Ortega, Leon, Samos ), são um caso a parte. São gerenciados com disciplina (só entra depois de carimbar a credencial; tem hora certa para abrir, hora certa para fechar, para levantar) mas são muito bonitos, e quase sempre fazem programação para os peregrinos, como missa, cantos gregorianos, preces.

Não trocaria as noites nos albergues (exceção de Pamplona e Ferreiros) por nenhum Hotel com banheira e hidromassagem.

NO CAMINHO - As dificuldades


Imaginei que as maiores dificuldades que enfrentaria no Caminho seriam o cansaço e a sede, já que no período de preparação, quando ia de Maceió ao Francês, levava um cantil de um litro, comprava água mineral nos quiosques, água de coco e, ainda assim, a sensação era a de que toda a água do mundo seria insuficiente para matar a minha sede. Na caminhada que fizermos em Bonito, onde não havia quiosque para comprar água, se não fosse uma casa que encontrei na estrada (lembra Naide ?), creio que teria passado mal. 

Nada disso. Quer dizer, o cansaço era muito grande, mas a beleza do Caminho, a companhia dos amigos, as deliciosas garrafas de vinho, as reflexões sobre a vida, as duchas quentes (nem sempre, é verdade), faziam com que o cansaço fosse superado. A sede, esta nem de longe chegou a incomodar. O clima, ainda um pouco frio e seco do início da primavera, reduziam e até mesmo impediam , em alguns dias, a transpiração. Com um cantil de meio litro, e com as inúmeras fontes do Caminho, a sede não foi problema para mim. 

As principais dificuldades enfrentadas no Caminho, foram, por ordem de grandeza: 1- As bolhas nos pés (oito no total); 2- O excesso de pessoas fazendo o Caminho, provocando uma corrida para sair cedo e andar depressa para chegar logo e pegar vaga nos albergues; 3- O excesso (pelo menos para meu gosto) de azeite na alimentação (carne com muito azeite, batatas boiando no azeite...).

A primeira bolha senti no calcanhar direito, no terceiro dia do Caminho, entre Pamplona e Puente La Reina, um pouco depois do Alto Del Perdon. Foi a primeira de uma série de oito. A maior delas, no dedo mínimo do pé direito, me fez visitar o Posto de Saúde em Astorga, além de fazer com que fizesse um percurso em "autobus". Quero destacar a maneira gentil e eficaz com que fui atendido e tratado no Posto de Saúde, pela enfermeira e peregrina Luisa.

Quanto à elevada quantidade de pessoas no Caminho, claro que tem um lado positivo, que é o de saber que cada vez mais um ideal, um estilo de vida é compartilhado com tanta gente. Entretanto, muitos estão no Caminho apenas passando um final de semana mais prolongado, um passeio. Grupos de jovens, com carros de apoio, ônibus, passam pequenos períodos no Caminho, depois pegam o transporte, chegam cedo nos albergues e ocupam as vagas que deveriam ser dos "verdadeiros" peregrinos. Ao conversar sobre isto com o encarregado do albergue de Astorga, ele disse que tinha conhecimento do fato, mas que era impossível controlar, pelo grande número de peregrinos atualmente, "solo la policia puede controlar" .



NO CAMINHO - As lições

Ah, as famosas lições do Caminho. O Caminho é o mundo ideal. O mundo da fraternidade, da solidariedade, de uma irmandade em torno do mesmo objetivo. Um mundo em que quanto menos bens materiais você tiver, mais fácil será percorrê-lo. Quem não se desfez de alguma coisa que levou a mais na mochila ? Na hora de arrumar, pensava: "não posso passar sem isto" ! Eu larguei uma bermuda, uma camiseta, uma toalha, entre outras bugigangas menores, tornando minha mochila mais leve e por consequencia mais fácil o meu caminho. E não é isto que fazemos no caminho da vida ? Não estamos sempre acumulando coisas e mais coisas, tornando pesado o fardo de mantê-las ?

Além do Caminho propriamente dito, fiz também uma viagem interior sobre minha vida. O que estou fazendo, o que tenho deixado de fazer, a busca de algumas respostas, que ainda não encontrei, mas que tomei consciência da necessidade tê-las. Lembro que no trecho entre Santo Domingo de La Calzada e Belorado, conversei bastante com Jon, ele contando seus problemas de jovem recém formado, em busca de uma oportunidade no mercado de trabalho, sua relação com os pais, com as garotas...E eu, com meus problemas. Seriam tão diferentes ?

Muitas das situações que vivi no Caminho ainda estão sendo analisadas na minha cabeça. Lá, era mais fácil tomar decisões. O lado emocional estava à flor da pele e tinha a sensação de que o mundo deveria ser sempre assim. Que ao retornar, seria tudo diferente. Seria mesmo ?

Bom, mas fazer o Caminho foi uma das grandes realizações da minha vida. Tenho a sensação de que por muito, muito tempo ainda as lembranças estarão presentes, nítidas, como se as tivesse vivido no dia anterior. Me sinto feliz em ter feito o Caminho e agradeço a Deus, ao Santo (Tiago) e aos inúmeros Santiagos que encontrei nos trinta dias em que estive no Caminho.
Ultreya e Suseya !

(Este artigo especial é parte integrante do livro: "O Caminho de Todos Nós" - de 18 peregrinos de Alagoas. Se quiser ler os outros 17 artigos faça contato com o autor através do e-mail abaixo).

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

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