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LEMBRANÇAS DO DIFÍCIL RETORNO


LEMBRANÇAS DO DIFÍCIL RETORNO

Autora: Carmen Lemos



Peregrinos,

Este mês comemoro um ano de Caminho de Santiago. Quando parti, tinha esperança... Alimentava a ilusão de fazer o Caminho a pé, que seria um ato de braveza, de desprendimento, de perseverança... 

Pensava que o Caminho traria as respostas para minhas ansiedades pessoais... Queira crescer, ajudar o Mundo, trabalhar minha espiritualidade, num caminho que fosse só meu... 

Acreditava que queria fazer o caminho parra ter uma iluminação, não dessas de santos, mas de sentido da vida mesmo. Queria me deparar com o inédito de mim mesma.... 

Tantas coisas se passaram.... Ainda hoje, nem mesmo consigo dizer  tudo o que sinto... 

Está por fazer um ano, que parti... Há um ano atrás, quando parti para Santiago imaginava que ia lá, fazia o caminho, e pronto, já tinha respostas e soluções... e fim... 

Nas minhas primeiras tentativas de me comunicar com o grupo, sentia grande dificuldade, não me sentia compreendida, não consegui expressar meus sentimentos. Por outro lado, dentro de mim havia muitas desilusões, fortes o suficiente para não querer mais ter  a  intenção de me envolver com esse tipo de coisas, com o Caminho... 

Naquele tempo, pensava que as amizades do caminho eram temporárias, por que não iria mais ver e conviver com as pessoas com quem cruzasse... Ledo engano! 




Logo que voltei, sentia uma falta enorme do Caminho, uma emoção sufocando meu peito, um grito contido na garganta... Era tanta emoção não partilhada.. 

Que sentido teria ter feito o Caminho se me dispunha a não entrar mais em contato com nada que estivesse relacionado? 

Depois de alguns dias, já tinha contado minha experiências para a maioria de meus familiares e amigos. Estaria fadada a não mais ter com  quem conversar sobre o Caminho. Não, eu não queria me envolver, lembram... 

Passei a freqüentar a lista na moita. Lia diariamente, compulsivamente, todas as mensagens. não conseguia ficar sem beber desta fonte. Ligava na TV espanhola e ficava ouvindo espanhol, só para não perder o hábito, procurava revistas nas bancas sobre o Caminho. 

Enfim, diagnostiquei que estava profundamente dependente. Uma forte dependência física, mas, pior do que isso, tinha uma grande dependência emocional... Dentro de meus conceitos, estava terrivelmente viciada no caminho. 

Sentia forte necessidade de fazer o que tinha imaginado que nunca aconteceria. Queria me comunicar. para quem não me conhece, desde pequena eu "era"muito calada, dificilmente, expondo meus sentimentos, (para não dizer, quase nunca). 

Certo dia, num desses em que o caminho invade e toma conta de nossa alma, mesmo a revelia, comecei a escrever para o grupo. Foi um dia muito especial para mim. Estava muito sensível, me sentia próxima as amigos peregrinos, mais do que isso, queria partilhar meus sentimento com quem eu sabia que poderia me compreender. 




Foi quando conheci melhor, Walter Jorge, José Roberto, Clarice e tantos outros. Era noite de sexta feira, minha família estava em casa. Eu mantinha a mesma postura de participação solitária. Tinha voltado do Caminho e assumido todos os meus papéis de volta, porém, eu sabia que não eram mais a mesma. Que por mais que fizesse tudo igual, lá dentro, no âmago da minha alma, eu tinha vivido um sonho, mais do que isso eu havia experimentado uma nova realidade, havia conhecido um novo EU,... 

Por mais que as pessoas ao meu redor tivessem participado de minhas emoções, por mais que tivesse compartilhado com eles minhas experiências, não conseguia saciar-me. Precisava beber da mesma fonte do caminho... 


(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

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