Home‎ > ‎Artigos Peregrinos‎ > ‎

O BUFÃO VITORINO


O BUFÃO VITORINO - EM MEIO À TENEBROSA MADRUGADA, RUÍDOS DE PASSOS E DE BATER DE PORTAS

Autor: Alberto Sena


Vitorino - Foto de José Roberto Pinto de Almeida

Por duas vezes consecutivas, quis Deus nos dar a oportunidade de pernoitar em Hontanas, lugar estratégico para o peregrino que sai de Burgos. Duas são as opções de pernoite para quem inicia um dia de jornada a partir da bela Burgos, ex-capital espanhola: ficar no albergue de Arroyo San Bol, onde o gerente, o alemão Hubo, nos negou uma fatia de pão, cerca de dez quilômetros antes de Hontanas; ou ficar em Hontanas, porque Castrojeriz, a cidade seguinte, fica adiante mais de dez quilômetros.

Hontanas é um lugar pequeno. Se acontecer de o albergue local, gerenciado por uma mulher, estar lotado, a única opção de hospedagem é a casa de Vitorino. Ela e Vitorino não se combinam, segundo dizem os nativos do lugar. Vivem às turras e um faz concorrência ao outro. A mulher afirma que Vitorino é bruxo. Ele diz que ela, sim, é bruxa, e à boca pequena assegura tê-la visto um dia voando em uma vassoura, no clássico estilo.

Nessa segunda estada em Hontanas, aconteceu de o albergue estar lotado e fomos para a hospedagem de Vitorino. Era a coisa mais esquisita a casa dele. Do lado de fora se via que era antiga, de dois pavimentos, sustentada por madeira de grosso diâmetro; lembrava as habitações gaulesas ou do tempo dos Cruzados. Na parte de baixo funcionava o que seria o restaurante, em espanhol, ‘comedor’. Do lado direito da entrada da casa ficava o balcão e lá dentro a cozinha. Bastava aproximar-se do balcão para observar todos os movimentos de Vitorino na cozinha.

Figura insólita, ele. Estatura baixa, gorducho, disfarçava a calvície de quase toda a parte superior da cabeça com dúzia e meia de fios de cabelo que deixara crescer de um lado e os mantinha grudados no coco com brilhantina. A pele oleosa dava-lhe a impressão de que quase nunca tomava banho. Para ele estava tudo muito bem, conquanto os cabelos estivessem emplastados. Vitorino costumava guardar lenço embolado no bolso traseiro da calça e de vez em quando o retirava para passá-lo no nariz ou na calvície oleosa e guardar de novo embolado. Para resumi-lo em poucas palavras, ele era um bufão. Fazia-se de bobo para viver em meio à imundície de homem sem mulher há muito tempo.



Como estávamos cansados da caminhada do dia, o que mais queríamos era nos estirar numa cama. Em outra situação não teríamos dormido ali, a não ser que Vitorino desse uma faxina geral na casa, retirasse o lixo e melhorasse as condições de higiene do lugar. Foi depois que descansamos um pouco e deixamos os apetrechos no quarto na parte de cima da casa e descemos para jantar que se deu a constatação. Foi nessa hora que nos arrependemos de estar ali. Dirigimo-nos a uma mesa próxima da lareira antiga e ao puxarmos a cadeira vimos que a lareira era usada como lixeira. Havia nela pedaços de tudo quanto é coisa, desde restos de comida e nacos de carne de carneiro a guardanapos de papel, plásticos e garrafas. Faltou só ratazana à vista, mas certamente, no silêncio da noite, os ratos atacavam ajudados pelas inseparáveis baratas. A lareira era um prato cheio para inquilinos do tipo.

Antes, quando descíamos as escadas de madeira para nos sentarmos vimos de relance que ali já estavam uma mulher e dois homens franceses. A mulher parecia ser esposa de um deles. Alegres, eles conversavam e riam, achavam interessante o ambiente que era como que a cara de Vitorino esculpida em mármore carrara. Os franceses ali foram somente para jantar e se diziam ansiosos para assistir ao show que o dono da casa prometia aos seus clientes, mas só depois de terminado o jantar.

Estávamos com fome e Vitorino trouxe-nos uma vasilha de barro com fatias de pão e uma garrafa de vinho, garrafa reutilizada, pois tinha marcas à vista do líquido escorrido em várias direções. Engolir aquele vinho e o pão não foi difícil. Complicado mesmo foi tomar a sopa que Vitorino serviu logo depois que o vimos levar as duas mãos à boca para tossir e em seguida abraçar um pão redondo para cortá-lo em fatias, como um sapateiro faz para colocar meia sola em um sapato.

Era sopa de grão-de-bico e tinha tonalidade amarela brilhante cheia de suspeição. Tomamos algumas colheradas da sopa e deixamos a garrafa de vinho pela metade e íamos retirando dali para o quarto quando Vitorino anunciou que ia começar o show da noite. Ele abriu um móvel bicentenário e retirou dele o que seria um bule antigo. Encheu o bule de vinho e se postou em um ponto do salão de modo a ser visto por todos. O bufão pôs o bico na testa e entornou o bule, enquanto sapateava e cantava uma estranha canção, segurando a lateral da calça. Apenas um filete de vinho escorreu-lhe pela face e ele se sentiu o máximo. Recebeu e agradeceu com uma reverência os aplausos calorosos dos franceses.

Nós tratamos de ir para o quarto o mais rápido possível e ficamos receosos até mesmo de dormir naquela cama que chiava a cada movimento. Foi uma noite tenebrosa. Em meio ao silêncio da madrugada, ouvimos passos na casa e abrir e fechar de portas como se ali estivesse hospedado um batalhão de gente, mas só nós estávamos naquele lugar.

O relógio da igreja ainda não havia dado a primeira das seis badaladas e Vitorino já estava de pé. Nós escutamos os passos dele indo de um lado para o outro e em seguida, ele ligou a televisão em volume alto, como quem queria nos tirar da cama o quanto antes. Achamos que ele ficara ofendido com a nossa saída repentina da mesa na noite anterior. Entendemos a mensagem e nos levantamos. Em pouco tempo estávamos prontos para partir. Descemos as ruidosas escadas de madeira e nos dirigimos ao Vitorino, que se encontrava na cozinha. Ele nos perguntou se queríamos tomar café e dissemos que não. Pagamos a conta, dez euros, e nos despedimos.

Fazia um dia de céu azul. O cheiro do mato molhado ainda estava no ar. Enquanto caminhávamos rumo a Castrojeriz, íamos comentando o que se passara na noite anterior. Rimos muito e entre um comentário e outro, de repente quedamo-nos estáticos embevecidos com a cena de uma família inteira de coelhos que atravessava a trilha bem à nossa frente.



(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

 ‎VOLTAR