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O CAJADO


O CAJADO




Autor: Alexandre Dornelles


Infindáveis aspectos ou preocupações passam pela cabeça dos peregrinos que estão no excitadíssimo (existe isso?) processo de preparação para a realização do Caminho de Santiago. A gama de assuntos vai desde prosaicas dúvidas sobre material da roupa de baixo ou "necessidade" delas levarem um batonzinho - eu acho que elas devem levar - até considerações de ordem espiritual e de revisão do rumo da vida dos peregrinos. 

O cajado é um item interessante dentro desse contexto. Preliminarmente, é interessante notar que ele é muito pouco discutido, apesar de ser um elemento quase obrigatório na peregrinação. Podemos dizer que ele tem uma dupla função na peregrinação, duas maneiras de ser encarado: tanto podemos fazê-lo tanto pelo lado prático por ser uma ferramenta de equilíbrio e distribuição de peso e de defesa, quanto pelo lado simbólico de ser um companheiro que não te pede nada, que te apoia na sua trajetória pela vida como um verdadeiro amigo. 

Na minha preparação pouca dúvida tive sobre, por exemplo, usar tênis ou botas. Rapidamente me decidi usar a segunda opção. Mas, curiosamente, me flagrei várias vezes pensando se usaria ou não o cajado. Achava, então, que ele seria um trambolho e que ficar de mãos livres me traria mais prazer na caminhada. Por outro lado, quase todos usam o cajado, como podia ver pelas fotos que tinha acesso. 




No trecho de Saint Jean Pied Port até Roncesvalles não usei cajado. Nem tive vontade de comprar um nas muitas lojas da cidade francesa. No fim do trecho percebi que ele era uma boa alternativa. Para subir e, principalmente, para descer o apoio permitido pelo cajado propiciaria um alívio aos tornozelos e joelhos. Tão importante quanto, daria um equilíbrio adicional na hora de ultrapassar poças de água ou lama ou saltar de uma pedra para outra. O peso da mochila, por deslocar o nosso centro de gravidade para um ponto que não estamos acostumados, acaba funcionando como um acelerador de quedas quando precisamos dar passadas pouco convencionais. 

Achei o meu cajado definitivo no mato, creio que no segundo ou terceiro dia. Estava cruzando uma bela paisagem, a trilha estava bem molhada pela chuva e vi um cartaz pregado numa das muitas árvores do local: "Campo de treinamento de cachorros". Com a histórica fama que os cachorros do Caminho possuem e ante a possibilidade de alguns deles não estarem ainda devidamente treinados e, pior ainda, soltos, resolvi que era chegada a hora e tomei a decisão de possuir um cajado.

Fui com ele até Santiago e lá o deixei.

Olhe que interessante: se caminharmos numa velocidade média de 90 passos por minuto durante 8 horas, e se cada apoiada do cajado no chão diminuir nosso peso em 250 gramas, ao final da caminhada as pernas terão "economizado" 5.400 kg!!!!



Foi bastante fácil aprender a usar o cajado. Dicas?
- Alternar as mãos, mais ou menos meia hora cada uma para equalizar a distribuição de peso e de movimentação entre os dois lados do corpo
- Manter o braço e o ante-braço num ângulo de 90 graus - Pousar e não bater a ponta do cajado no chão 
- O cajado acompanha a passada da perna oposta à mão que o segura 
- O pulso movimenta o cajado quando o terreno é plano
- A não ser que o cajado seja BEM resistente, nunca apoie todo o seu peso nele: se ele deslizar ou quebrar o tombo é certo.

Como tudo no Caminho, cada um tem uma visão particular dos acontecimentos vividos, dos lugares visitados, enfim, do próprio Caminho. E porque seria diferente com o cajado?


(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

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