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O CAMINHO DO NORTE


O CAMINHO DO NORTE

Autor: Uli Salter - Novembro de 2009



Domingo retrasado regressei da minha caminhada pelo “Camino del Norte”. Acompanhado pela credencial emitida por vocês, junto com a Oração do Peregrino e os carinhosos votos de “Buen Camino“ comecei a andar no dia 14 de setembro em Irún/Hendaye e cheguei para abraçar o nosso querido apóstolo em Santiago no dia 20 de outubro, em ótimas condições físicas e com muita paz interior.

O Camiño del Norte impressiona pela sua beleza natural com as encostas escarpadas, as praias, as bahias e os portos pesqueiros aí encravados. Com as faldas da cordilheira cantábrica se despencando de grande altitude até o mar o caminho se caracteriza por contínuas subidas e descidas íngremes, do tipo “tobogã”, especialmente quando se opta por desvios pela costa, como eu muita vezes preferi fazer, para assim desfrutar mais da paisagem. De todos os caminhos que eu já percorri (Camino Francés, Aragonés,Via de la Plata, Camí de Sant Jaume, Camino Primitivo) é certamente o mais duro, exigindo um bom preparo físico. Além dos temidos “repechos” o Camino del Norte segue muitas vezes por vias asfaltadas e por regiões de alta densidade populacional (especialmente Grande Bilbao ), desafiando a resistência do peregrino.

Nesta época do ano encontrei poucos peregrinos no Caminho. Um caminho realmente solitário. Fiquei por isso muito feliz de ter tido a companhía até Avilés de meu amigo espanhol Santy (amizade que vem desde o nosso segundo Caminho em 2005) e de lá pra frente a de meu amigo alemão Burkhart (de meus tempos de universidade na Alemanha).



Comparado ao Camino Francés, o Camino del Norte oferece menor densidade cultural/espiritual /religiosa mas, ainda assim, muitas vezes o espírito de Santiago está presente em lugares como: no Santuário de Guadalupe e na Ermita de Santiagotxo (no trecho Irún – Donostia); na Placa de Aço no Monte Mendizorrotz (no trecho Donostia–Zarautz), com a inscrição em hebraico do versículo do profeta Isaias 56,1 “Mantende o juízo e fazei justiça...” ; na Catedral de Vilanova de Lourenzá, que serviu como modelo para a construção da fachada da Catedral de Santiago (de frente para a praza do Obradoiro); no Casco Antiguo de Mondoñedo (antigamente uma das 7 capitais administrativas da Galícia) com sua magnífica catedral de estilo românico do século XIII e, para concluir esta pequena enumeração, do imponente Mosteiro Cisterciense de Sobrado dos Monxes (igreja de estilo barroco), onde tive a felicidade de assistir às vísperas cantadas por 20 monges.

Por outro lado, o Camino del Norte nos aproxima à história da Espanha através de vários fragmentos, como por ex.: o Monumento a Juan Sebastián Elkano em Getaria (no trecho Zarautz-Deba), o piloto da frota de Fernão Magalhães, que após a morte do mesmo nas Filipinas, concluiu a primeira circunavegação do mundo; o povoado de Bolibar (origem da família do libertador Simon Bolivar); Guernica, com sua trágica história de bombardeio pela aviação alemã na guerra civil da Espanha, onde até hoje o Lehendakari (presidente do governo vasco) faz seu juramento sob o lendário carvalho, “‘Árbol de Guernica”, antigo símbolo do anseio de liberdade do povo vasco; o Porto de Laredo, onde desembarcou o Rei Carlos V na sua última viagem à Espanha para viver seus derradeiros anos no Monastério de Yuste (Extremadura), fato registrado pelas placas “La Ruta de Carlos V”; os inúmeros palacetes construídos pelos “indianos”, emigrantes espanhóis do séc XIX que, bem sucedidos (“hicieron las Américas”), retornaram às suas vilas de origem (visitei o emblemático “Archivo de Indianos” em Colombres); a Estátua do conquistador da Florida, Pedro Menéndez de Avilés; a pintura sobre azulejo contando a vitória dos habitantes de Luarca sobre a invasão dos normandos no ano 842;

Tudo isso, além das deslumbrantes paisagens, enriquece o Caminho de Norte, alimenta a mente e amplia os conhecimentos sobre a rica e fascinante história da Espanha.



NOTAS: A sinalização nesse caminho é precária em alguns trechos, principalmente na Cantábria e Astúrias, o que às vezes nos levava a desnecessários desvios... As variantes pela costa, que não são propriamente o Caminho, são mais bonitas pela paisagem e valem a pena.

A rede de albergues é fraca, porém cobre de alguma forma todo o Camiño del Norte. Só na Galícia a infraestrutura é excelente. Eu costumava ficar em pequenas pensões e uma vez ou outra em albergues juvenis.


(*) Texto Original publicado no: www.caminhodesantiago.or.br

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