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PEREGRINAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO INTERIOR


PEREGRINAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO INTERIOR



Autor: Césare


"Caminante, son tus huellas, El Camino y nada más; Caminante, no hay camino: Se hace camino al andar. Al andar se hace camino Y al volver la vista atrás Se ve la senda que nunca Se ha de volver a pisar." (anônimo)

Desde seu primeiro passo, muitas vezes sem sequer imaginar o valor que essa ação terá sobre si mesmo, o peregrino inicia um processo de transformação interior que o levará a percorrer certos cantos de sua alma onde poderá ter a chance de encontrar as respostas para as questões mais marcantes de sua existência.

Muitas são as vezes em que nos deparamos na vida com certos momentos que somente no futuro nos daremos conta do quão importantes e mágicos foram, e que por um descuido qualquer, deixamos passar impunemente. Isso pode vir a ser a razão de muitos sofrimentos futuros, mas talvez o que mais nos incomode ao lembrarmos desses momentos seja o fato de sabermos que tínhamos em mãos a chave para abrir a porta que nos conduziria a uma vida completamente diferente da que hoje levamos. Essa pode ser uma forma peculiar para tentarmos entender o significado que damos à palavra destino; não seria o destino uma sucessão de portas que encontraremos pela grande jornada da vida? E, em assim sendo, será que não nos é dado ao nascermos o livre-arbítrio para escolhermos as portas que desejamos abrir ou fechar durante essa caminhada?

É essa a forma como percebo o Caminho de Santiago: para mim o Caminho é uma dessas portas; ao abri-las, estarei entrando não só em um caminho real, físico, mas também em um caminho interior, que trará consigo os mesmos percalços e alegrias que a trilha percorrida através das estradas poeirentas.

Infelizmente, ao percorrer o caminho interior, o peregrino não encontra as setas amarelas que o guiam pelas estradas compostelanas; por isso que a jornada interior é tão mais difícil do que a jornada física: nesse tipo de viagem, você se torna seu único guia. É um rito de passagem, e como costuma acontecer nessas ocasiões, em que deixamos certos paradigmas de lado e vivenciamos atitudes transformadoras, tudo depende exclusivamente do potencial transformador e, quem sabe até, transmutador de cada um.

O grande diferencial entre uma peregrinação e uma viagem comum, de apelo turístico, é que no processo do caminhar o peregrino busca obter duas vitórias em uma única experiência: a vitória de chegar em Compostela, vencendo toda a gama de obstáculos que costumam surgir em uma viagem longa e cansativa, e a vitória de chegar à parte mais intocada de sua alma e de lá sair renascido, consciente do processo de transformação originado desse contato.

Acredito que poucas pessoas consigam atingir esse nível durante a peregrinação compostelana, pois o fato de seguir um caminho iniciático, como é conhecido o Caminho de Santiago, não quer dizer que basta percorrê-lo para iniciar-se, mesmo porque a Iniciação é antes de tudo uma alquimia interna, e pode ser obtida das mais diversas formas; percorrer um caminho sagrado é apenas um dos meios de se lançar a experiências iniciáticas, o que não sugere que todos os que o percorrem serão iniciados em algum tipo de sistema espiritual, religioso ou metafísico.



Deve o peregrino, portanto, tentar fazer do Caminho uma experiência arquetípica, mais voltada à busca do próprio ser interior, dando mais atenção à linguagem simbólica daquilo que irá surgindo a cada passo. Agindo dessa forma, outras portas se abrirão durante a jornada, e o Caminho que antes pensava-se único, na realidade revela-se múltiplo, infinito em possibilidades de crescimento.

Certamente é necessário ter muita coragem para se chegar até esse nível da jornada; há que se ter uma certa estrutura e rigor para saber qual o melhor momento de enfrentar o dragão - ou fugir dele, pois o bom senso é ainda mais importante do que a própria coragem.

Não existem fórmulas nem segredos para o peregrino saber se está percorrendo os caminhos certos; basta cultivar o hábito de prestar atenção aos sinais, que podem vir através de símbolos, imagens, canções, trechos de uma obra literária, conversas com pessoas desconhecidas...a possibilidade é infinita e reconhecer a linguagem dos sinais é apenas uma questão de treino. Apesar de parecer uma ideia típica dos que enveredam pelas sendas do misticismo, as experiências decorridas do processo de peregrinação atingem muito mais o peregrino em caráter inconsciente, que é onde toda a experiência transmutadora vai operar. O segredo é trazer, à medida do possível, essas transformações assimiladas para a mente consciente, e a partir daí estar aberto para que os resultados dessa transformação se instalem.



Qualquer bloqueio por parte do peregrino é prejudicial à oportunidade de crescimento; seu Caminho será transformador proporcionalmente à sua capacidade de abertura ao processo.

O próprio santo que deu origem à essa rota milenar, que como bem escreveu Dante, foi a responsável pela formação da Europa, possui uma enorme riqueza metafórica; há de se entender o Caminho de Santiago como a metáfora da própria vida, caso contrário não existe o sentido de busca enquanto meio de crescimento interior. O apóstolo Tiago, no contexto das peregrinações compostelanas, é a personificação do santo e do guerreiro, na figura do Matamouros; esse paradoxo santo/guerreiro é uma das chaves para o peregrino descobrir certas atitudes latentes da sua personalidade. Levando-se isso em consideração, o peregrino tem em mãos um rico arsenal simbólico para a sustentação de sua jornada arquetípica.

Cabe ao peregrino decidir, portanto, se a viagem terá o caráter lúdico de transformação dinâmica, efetiva, ou se será apenas uma viagem para ser fruída, no que não deixa de ter sua magia, a mesma que vem enfeitiçando peregrinos desde os mais remotos tempos, provando que o homem moderno pouco difere do homem medieval: a vida, para ambos, é única e simplesmente uma grande peregrinação.

"Caminhante são tuas pegadas, O Caminho, e nada mais; Caminhante, não há caminho: O caminho se faz ao andar. Ao andar se faz o caminho E ao voltar-se a vista atrás Se vê a senda que nunca Se há de voltar a pisar."


(*) Texto Original publicado no site: www.caminhodesantiago.org.br

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