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PORQUE CAMINHA O FILHO DO HOMEM


PORQUE CAMINHA O FILHO DO HOMEM
Autores: Gisneide Everdosa, Orietta Prendin e Acácio da Paz


Acácio, Gisneide Everdosa e Orietta Prendin

"Um dia podemos descobrir que toda viagem é, de algum modo, uma peregrinação em busca de um lugar que é o coração do viajante.

Seu destino final é a sua realidade interior. Mas, faz parte do ritual a busca em lugares distantes onde o seu coração sempre vai, desejoso de um encontro que nem sempre acontece."


O peregrino é a alma e o corpo do Caminho de Santiago. Foram os peregrinos os que deram força a essa peregrinação, movidos por sua inquietude diante do mundo e pela fé num mundo melhor, na Salvação propiciada por uma nova vida. Desde os primeiros peregrinos que se dirigiram à tumba do Apóstolo, depois do seu descobrimento no século IX até hoje, essa via vem transcendendo as culturas e épocas. Milhões de pessoas transitaram pelo Caminho, configurando essa rede de artérias que confluem ao coração de Compostela, primeiramente através do continente europeu, e hoje em dia, também singrando oceanos.

Peregrinos ilustres e poderosos ajudaram a fomentar e manter essa rota sagrada, seja através do poderio político-econômico, seja por devoção religiosa. Porém, é a miríade de peregrinos anônimos e humildes que ao longo dos séculos vem mantendo vivo o espírito do Caminho. Assim, nobres como os reis católicos Fernando e Isabel e nobres humildes como Francisco de Assis deixaram suas pegadas no pó e no barro dessa terra tão formosa e acolhedora. Todavia, conta a Tradição que seus antigos moradores, os celtas, usavam essa rota muito antes da Era Cristã. Correspondendo aos primeiros povos das Américas os celtas parecem ser um dos povos mais antigos do continente europeu. Essa gente caminhava até o que pensava ser o "fim da terra", já que ao final da península só restava a imensidão do oceano e o lugar do Sol Poente. Assim, se diz que os celtas adoravam o Deus Sol. De fato, no pueblo de Finisterre (Finis Terrae en latin) existem uma praça chamada "Ara Solis" (Altar do Sol).


Com o passar do tempo, o catolicismo pretendeu substituir o paganismo absorvendo muito de seus antigos costumes e tradições. Mais tarde, numa época em que o islamismo se alastrava pela Europa, o Caminho a Santiago de Compostela reafirmou o catolicismo, o que pareceu consolidar a hegemonia católica após a expulsão dos mouros.

Na atualidade, Santiago, Roma e Jerusalém são os três santuários da cristandade para onde mais pessoas se dirigem em peregrinação. Dante Alighieri falou que a Roma se dirigem os romeiros, a Jerusalém vão os palmeiros (por levarem palmas) e os peregrinos se dirigem a Santiago. Há quem diga porém, que a palavra peregrino significa "aquele que cruza os campos". Todavia, se a sua motivação para peregrinar é espiritual ou não, lembre-se de que a terra onde você pisa é sagrada: o peregrino é aquele que cruza os campos do Senhor e deve ser com essa dignidade e com esse respeito, que o caminhante anda sempre para frente, ao encontro de si mesmo, e ao encontro do divino.

Nessa caminhada, como na vida, o divino se revela no seu corpo, no seu coração e na sua consciência. Mas você não está só com o seu Deus ou com suas crenças: o Inefável se manifesta na Natureza e na face de cada companheiro da jornada. Assim, tão importante quanto a ducha que você toma, os quilômetros que percorre a cada dia no seu esforço para atingir a meta, tão significativas como possam ser as meditações e anotações no seu diário, também o são o respeito, o silêncio e o sorriso dirigidos aos demais peregrinos e às outras gentes que encontrar. O respeito pela "Madre Tierra" também faz parte da atitude do caminhante. Ela se concretiza, não nos discursos ecológicos, mas através da profunda gratidão pelo canto do passarinho e pelas cores que alegram seu amanhecer, pelas flores que perfumam a senda por onde passa, pelo lugar agradável na relva macia e fresca, que lhe serviu de leito num momento de descanso. Por isso, cada pedacinho de papel que guardar na mochila, preservará a beleza dos seus passos e será como uma dádiva para aquele que vem atrás. Guardar por alguns minutos suas próprias sobras não pesará, pois o Caminho ensina muito bem a distinguir o essencial do supérfluo, seja no que se refere ao material, como ao emocional.



Os peregrinos pois, continuam sendo o motor da "Ruta Jacobea" e deles depende em boa parte, sua existência. E se antes eram os reis, bispos, nobres e cavaleiros, quem impulsionavam a infraestrutura necessária à peregrinação, hoje são as administrações públicas, com a inestimável ajuda das Associações dos Amigos do Caminho, outras agremiações e particulares, voluntários quem realiza esta tarefa. As pessoas que guardam e preservam o Caminho, e também cuidam dos peregrinos, o fazem na maioria das vezes com total despojamento, gratuitamente ou quase. Muitas delas realizam este trabalho como uma forma de compartilhar a experiência única e beatificante da sua própria peregrinação. Portanto, a atitude do peregrino deve ser de aceitação do que lhe ofertam, e não de exigência, como um-turista-que-viaja-em-primeira-classe. Certamente, se você fosse um turista, teria escolhido outro itinerário.

Antigamente, a peregrinação era muito mais difícil. As pessoas podiam enfrentar a fome, a sede, a peste e outras enfermidades, as intempéries, assaltantes e andar por trajetos difíceis, necessitando até cruzar rios. A peregrinação moveu então muitas obras, desde pontes a hospitais de peregrinos junto aos monastérios, favorecendo o desenvolvimento da medicina e da farmácia. Cidades e "pueblos" nasceram e se desenvolveram em torno dessa rota. Ainda hoje, se constroem e reformam pontes, fontes, igrejas, albergues, muitas vezes com a mão-de-obra e donativos dos próprios peregrinos.

Sem dúvida, os peregrinos não só abriram os caminhos a Compostela, mas também um Caminho de Fé, dando ânimo e coragem a outro peregrino que debaixo de sol ou de chuva, se pergunta a cada passo, se será capaz de chegar lá. Eles têm contribuído de uma forma ou de outra, para a configuração deste Patrimônio da Humanidade e Primeiro Itinerário Cultural Europeu, com toda sua riqueza religiosa/espiritual, filosófica, artística, musical, arquitetônica, literária, linguística, econômica, e por que não dizer, política - se consideramos assim, as pontes que se constroem também entre religiões, nações, continentes, culturas, idiomas e classes sociais diferentes.

O Caminho a Finisterre tem passado por fases de esquecimento e fases de moda, mas não deixou de existir. O Caminho a Santiago está renascendo com mais vigor a partir do Ano Santo de 1983 e a cada ano mais e mais pessoas percorrem suas veias. Durante sua existência, sempre houve pessoas com várias motivações para estar no Caminho: desde aproveitadores, saltimbancos, turistas a peregrinos. Na "Ruta Jacobea", como na vida mesma, o que importa é o aprendizado que conseguimos transformar em Sabedoria e usá-la em consciência, a cada momento, visando ao Bem Comum.

Há quem diga que o Apóstolo não está na Catedral. Se seus restos mortais foram ou não enterrados ali é um fato que não representa muito, diante da fé que move milhares de peregrinos do mundo inteiro para abraçar o Santo, afetuosamente. O que importa é a forma como cada pessoa transforma seus pequenos passos e percalços, na construção do Templo, morada viva do seu Senhor. Doze séculos depois do início da peregrinação a Compostela, essa rota, objetiva e verdadeiramente, em última e primeira instância, se realiza por meio e através dos Caminhos de Santiago Apóstolo, irmão do Senhor Jesus Cristo.



No Caminho se ouvem várias lendas eternizadas pelo milagre da tradição oral que transcende idiomas, culturas, religiões e nacionalidades. E muitas lendas falam dos milagres de Santiago, alguns relacionados à morte e ressurreição. Um dos rituais que os peregrinos costumam fazer consiste em abraçar o Apóstolo, ao chegar à Catedral compostelana. Gisneide: "Foi surpreendente e curiosa a sensação que tive ao abraçar o Santo: o ato, que a princípio parecia um ritual automático, na verdade se converteu num abraço ao amigo desconhecido, que tocou e ao mesmo tempo foi identificado com a parte sã, lúcida e radiante, a sede da paz que habita o Espírito Uno e único, no interior de cada ser humano".

Ao Caminho vem aquela pessoa que está disposta a viver a Simplicidade e a Fraternidade, e que está buscando um encontro verdadeiro consigo, com os demais e com a Vida, através do Silêncio. Assim sendo, por mais difícil que seja a lição, experimente alguns exercícios: limpe sua mente dos ruídos, e sua vontade do consumismo compulsivo; limpe sua pseudo-coragem das medidas de segurança, e sua vida dos hábitos da civilização industrial. Esteja exatamente no eterno aqui-e-agora, se entregue nas Mãos da Providência, se esqueça do comodismo, da vida sedentária, do celular e do correio eletrônico, do asfalto e das calçadas ladrilhadas. Despeça-se dos familiares e amigos, e saia da sua casa como aquele que tem a morte como única certeza. Por isso, abra mão do supérfluo, portanto, dos dramas e das preocupações, cujos motivos talvez não mais existam, quando você voltar.

Muita gente pergunta se caminhar tanto sob o sol, sob a chuva e às vezes até com neve, carregando mochila, bolhas, cansaço, fome e sede, não seria uma espécie de masoquismo ou auto-flagelação. Pensamos que a firmeza dos seus passos lhe dirá que o esforço despendido e a superação dos obstáculos, muitas vezes criados por você mesmo, não têm nada a ver com sacrifício. Uma boa ducha, um sorriso, uma sombra e o descanso merecidos dissolvem qualquer tentação de "amolecer", pegar um carro ou encurtar o caminho. O esforço é real, mas ele nos ensina que não existe prazer sem dor e que transcender as dualidades lhe permite sentir asas nos pés.

Temos comprovado que efetivamente, o Caminho de Santiago está vivo, não só historicamente, mas nos nossos corações e no nosso Caminho de Vida. Por isso, sentimos a grata responsabilidade de continuar a manter este sendeiro de Graças, que nos foi transmitido através das várias gerações.

Os peregrinos que agora compartilham este Caminho com vocês, se encontraram e se conheceram em alguma etapa do Caminho e junto com outros formaram uma família fraterna. Gisneide e Acácio são brasileiros e Orietta é italiana. Muita coisa se passou na vida de cada um, mas as diferenças e o bordado da Vida nos uniram e possibilitaram a realização de um livro. Recolhemos aqui, depois de alguns anos, nossas vivências e informações forjadas gota à gota, em milhares de quilômetros percorridos à pé, no verão e no inverno, sob o sol aragonês ou nas planícies nevadas de Castilha.



Quando cada um de nós resolveu fazer o Caminho, pretendia tomar um tempo para si mesmo, fazer uma longa meditação para poder se escutar melhor, e traçar novos rumos na vida. Realmente, mudamos muito a nós mesmos, a nossas vidas e procuramos agora dar uma perspectiva dessa experiência aos demais caminhantes: àqueles que andaram, andarão ou nunca pisarão nessas trilhas. Para aqueles que empreenderão essa aventura, este é uma história simples, que pretende ajudar o Antes (preparação), o Durante (rotas ou etapas e dicas para a caminhada), e o Depois (como se adaptar à vida desde uma perspectiva nova).

Recomendamos que faça um diário pessoal, porque ao andar com atenção plena e consciente, sua Alma pode ditar coisas importantes sobre você e sua vida, e o Sopro do Espírito pode penetrar sua mente, se você realmente abrir seu coração. Mais tarde, essas inspirações poderão ser olvidadas. Mas se estiverem anotadas, servirão como um guia para integrar as experiências da caminhada e viver a renovação.

Por favor, não tome essas palavras, nem nenhum relato de peregrino ao pé da letra. Muito peregrino veio ao Caminho com a ilusão de encontrar os cachorros negros que Paulo Coelho diz ter enfrentado num "pueblo" em ruínas Foncebadón. Lembre-se do que alguém muito sábio escreveu: "Caminante, no hay camino, se hace camino al andar" (Antonio Machado). Lembre-se também de que o percurso, a natureza, os "pueblos" e pessoas mudam a cada momento. O hospitaleiro, o pastor, a igreja, a árvore, as ruínas ou a curva que alguém fantasticamente descreveu podem não mais existir. O mais importante é a sua própria experiência, consciente do esforço a cada passo em direção à sua meta.

O Caminho de Santiago não é uma brincadeira, nem férias nas Bahamas. Está aí, mas ninguém é obrigado a segui-lo, porque é moda ou na esperança de encontrar o elixir da felicidade nas torres da Catedral, na tumba do Apóstolo ou no faro do "Fin do Mundo". Existem várias formas de busca espiritual, e seja qual for a que você escolher, só será eficaz com a prática cotidiana, constante e sistemática. Assim, fazer o Caminho e não seguir na vida diária os ensinamentos que se viveu na própria pele, não vale a pena. E para viver esses ensinamentos, será necessário encontrar um meio para reelaborar as experiências e praticar o que se aprendeu. Algumas pessoas escolhem uma forma de meditação, a psicoterapia, continuar com o hábito de caminhar e viver com simplicidade. Fazer uma ou todas essas coisas não requer passar um mês caminhando na Espanha. Cada um tem a sua forma e portanto, para ser uma pessoa melhor ou mudar a própria vida, não temos que fazer nenhuma peregrinação. Muito menos temos que nos "enganchar" ao caminho várias vezes criando um vício. Isso pode acontecer e de fato, aconteceu conosco. Procuramos fazê-lo com consciência, mas se foi, como todo vício, devemos cortar essa dependência também.

Se você realmente está disposto a fazer a peregrinação, o importante é ir com a cara e a coragem. Gisneide lembra: "Quando me decidi, eu sabia muito pouco: uma lista do material e o peso da mochila, a quantidade total de quilômetros, a existência de albergues para dormir mediante identificação pela credencial, como fazer o câmbio da moeda, que o caminho estava marcado por flechas amarelas e que teria que caminhar, em média, 20 Km/dia. O guia do Caminho, o comprei ao chegar em Santiago, para guardar como lembrança. Havia também um conselho do qual nunca me esqueci e me fez rir, tamanha a simplicidade. Em 1997, dentre as poucas informações que existiam na internet, li que "se chover, você se molha e se fizer sol, você se seca". Para quem estava preocupada com andar na chuva, foi o melhor que podia saber. A simplicidade e o riso romperam meu medo da chuva; afinal, quem vai para a chuva tem que se molhar e quem vai para o Caminho, tem que estar muito bem disposto ao novo".

É paradoxal aconselhar alguém a viajar com menos informação possível, e escrever um Guia sobre a viagem? Ora, em primeiro lugar, não fumos sem nenhuma informação. Tínhamos as que nos pareciam essenciais e nossos corações aventureiros queriam ser guiado in loco, descobrir, nos lançar no desconhecido. Segundo, este Guia ( em edição em breve ) se destina às pessoas mais curiosas, cautelosas e organizadas. Além do mais, existem muitos guias por aí, muitas pessoas organizadas e curiosas que vão ler qualquer coisa que lhe caia nas mãos, e muita gente que passa por situações difíceis, simplesmente por falta de uns bons conselhos.

Com este guia, queremos devolver ao Caminho o presente de Amor que ganhamos e compartilhar com todos esse presente. Além disso desejamos que o peregrino volte mais uma vez a sua consciência as origens do sentido da peregrinação. Por que peregrinamos? O que buscamos? Um novo homem, uma nova mulher? Nossa humanidade perdida no cotidiano? Uma esperança? O sonho de uma "nova vida"? E afinal, o que encontramos? O que move tantas pessoas a peregrinar a Compostela? É somente uma moda, uma competição esportiva, turismo barato, um voto, uma promessa... Ou corresponde a um "chamado" interior, mesmo que a diferentes níveis evolutivos?

Apesar de já termos uma ideia sobre o Caminho de Santiago, a realidade é outra. Só depois de haver realizado a peregrinação começamos a entender o que é e então, começamos a andar o Caminho. Os três autores deste guia percorreram num total aproximadamente dezoito mil quilômetros e o principal ensinamento tem sido o da humildade. Daí o lema: "o turista exige, o peregrino agradece". A única coisa que o peregrino pode exigir é a informação correta, demasiadas vezes negada o ausente.


Para nós, o Caminho propicia um encontro entre amigos solidários... que nos abre uma Porta Santa: um sendeiro de Paz que une todos os povos do mundo numa só família, através do cordão umbilical, que generosamente nos oferta nossa "Madre Tierra". Entretanto, esteja com o coração aberto, bem consciente do quê e quem está buscando e do quê e quem está atraindo; abra bem os olhos para as sincronicidades, e confie desconfiando. No mundo não existem apenas anjos e mesmo um anjo pode ter seus momentos de tentação. Ainda que as responsabilidades sejam também compartilhadas, você e só você é responsável pelas suas escolhas e pelo mundo que constrói ao seu redor.

O conteúdo deste Guia é fruto de vários caminhos e de reflexões feitas depois de tentarmos integrar as experiências nas nossas vidas. O fato de compartilhar nossa experiência e nossa visão sobre o Caminho não significa obviamente, que você viverá o mesmo ou que tenha que seguir as orientações aqui contidas. Esperamos que use seu bom senso e criatividade, e principalmente seu bom humor e sua intuição verdadeira antes, durante e depois do Caminho. Na hora de colocar o pé na estrada, quem lhe guia é seu coração. E ainda que tome todas as precauções ao comprar suas botas, só você sabe onde tem as bolhas.

Gisneide dá mais um lembrete: "Alguém falou que a Santiago sempre se vai, nunca se chega. Seja lá como cada um interpreta essa frase, ao pensar sobre ela agora e a partir de algumas reflexões a respeito do meu caminho no Caminho - ainda sigo colhendo os frutos - cheguei a um ponto interessante. ¡Chegamos a Santiago!"

Existem pessoas que estão sempre aprendendo mas parecem nunca chegar à verdade. Ainda que conservemos a humildade de eterno aprendiz, devemos chegar a um ponto onde a Sabedoria, fruto das aprendizagens ou da abertura do eu ao Espírito, possa ser usada com consciência, no dia a dia, visando a um mundo melhor. Efetivamente. Dentro e fora de nós.


(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

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