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SANTIAGO MATAMOROS - UM BREVE COMENTÁRIO


SANTIAGO MATAMOROS: UM BREVE COMENTÁRIO

Autor: Paulo Césare



Quando cheguei de Compostela pela primeira vez, trouxe na bagagem alguns livros, entre eles aqueles que tratam especificamente sobre lendas e mitos do Caminho. Todos falam da lenda de Santiago Matamoros, de sua aparição na Batalha de Clavijo (que depois descobri que muitos afirmam que nem era Santiago o santo que por lá apareceu, mas San Millán, que pode ser visto sobre a portada do Monastério de Suso vestido de peregrino, montado em um cavalo branco com a espada na mão- muitos acreditando ser o próprio Santiago...) ou na batalha de Simancas, onde teria lutado ao lado de San Millán de la Cogolla; é evidente que essas aparições na Espanha cristã eram "um instrumento em que o ideal religioso se misturava com o político-militar" (Alfredo Gil Del Rio, El Camino de Santiago Siguiendo las Estrellas, pág 30), mas não me interessa agora discutir o panorama político-religioso da Igreja Medieval; falemos do mito Tiago Matamoros.

Quando travamos contato com lendas, mitos, mitologia, devemos estar muito atentos para não aplicarmos o racional diretamente àquilo que estamos observando, especialmente no que diz respeito ao pictórico que é o caso, por exemplo, da figura de Santiago Matamoros sobre um cavalo decepando cabeças mouras; é muito fácil, à primeira vista, conceber uma idéia que mais tarde, com um pouco mais de reflexão e estudo, resulta em um erro de interpretação. Creio que é o que acontece em parte com esse tema jacobeu, o de Matamoros. Vou dar um exemplo, também aplicado à religião, sobre o que acontece em um outro país, a Índia, só para descontextualizar o tema do cristianismo.



Na Índia existe uma Deusa, muito reverenciada, chamada Kali (ou Cali), sendo a própria uma das representações de Parvati, esposa de Shiva, outro Deus muito importante e caro aos hindus. Kali é representada da seguinte maneira: uma deusa negra, com quatro braços, com língua vermelha fora da boca pedindo sangue, portando um colar de crânios cortados com sua espada e de seu cinto saem braços humanos... quem já viu essa imagem dificilmente não se assusta, e a primeira impressão é de que se está diante de uma entidade maligna, tamanha a força de sua aparição assustadora. Foi assim que eu me senti quando pela primeira vez vi uma imagem de Kali...até o dia em que me ensinaram a interpretar aquela imagem pictórica assustadora, levando-me a entender o real significado daquilo tudo, das cabeças, do sangue, dos crânios pelo chão...não cabe aqui explicar o significado de Kali, mas, a grosso modo, ela representa a Mãe Divina, e é aquela que destrói o nosso ego, nos faz renascer e nos acolhe...sua destruição, portanto, é simbólica, e acima de tudo, altruísta.

O que isso tem a ver com Santiago Matamoros? Tudo. Ou nada.

Interpretemos Santiago Matamoros como um Arquétipo. Que Arquétipo seria? Isso pode depender da sua interpretação pessoal, mas podemos colocá-lo como o Arquétipo do Herói, pois se encaixa bem nessa definição de Jung para essa imagem arquetípica, pois é típico do herói aparecer em batalhas complementado pelo monstro (mouros?).

Joseph Campbell, um famoso mitólogo, disse que" nos contos de fadas, nas lendas míticas, nas artes, nas ciências, guerreiros, santos e sábios nos inspiram, evocando em nós o desejo de imitá-los, pois essas figuras foram capazes de vencer a batalha de suas limitações pessoais e históricas, ultrapassá-las e ingressar no âmbito de formas humanas normais, válidas em geral..."(O herói de mil faces, editora Cultrix).

Em outras palavras, a imagem de Santiago sobre um cavalo, vencendo os inimigos no campo de batalha, serve como metáfora para que nós saibamos que há momentos em que precisamos levantar a espada e ir á luta, enfrentar o inimigo (que pode, por que não, ser nosso próprio ego), sendo a "morte" o aniquilamento da ilusão, ou aquilo que lhe impede de progredir, ou tantas outras coisas...


Quando olho para a pequena imagem que trouxe de Santiago Matamoros eu me fortaleço, vejo em mim o arquétipo do Herói que ainda vivencio. E hoje acho engraçado como essa mesma imagem me incomodava há um tempo não muito remoto! Entenda que o Caminho de Santiago é uma grande metáfora da vida, e assim sendo seus ícones também o são. Mas esse é o meu ponto de vista, e é muito pessoal, evidentemente.

Como escrevi acima, pode ser que para outra pessoa, tudo isso não tenha nada a ver, e que o mais correto/racional seja interpretar os fatos historicamente e baseado na Instituição Igreja, na política vigente à época, em dados concretos...e assim sendo, também respeito àqueles que vêm em Santiago Matamoros um lado do santo que jamais deveria ter sido divulgado pela Igreja, que prega o amor e a caridade acima de tudo. É de fato contraditório se pensarmos nisso, não?

(*) Texto Original publicado no Portal Peregrino: www.caminhodesantiago.com.br

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