4º dia: WENCESLAU BRAZ/MG ao BAIRRO PILÕES (GUARATINGUETÁ/SP) - 31 QUILÔMETROS

4º dia: WENCESLAU BRAZ/MG ao BAIRRO PILÕES (GUARATINGUETÁ/SP) - 31 QUILÔMETROS

"Porque não existem atalhos para qualquer coisa: certamente, não para a saúde, nem para a felicidade ou para a sabedoria. Nada disso pode ser instantâneo. Cada um tem que encontrar o seu rumo, todo mundo tem que percorrer o seu próprio caminho." (Tiziano Terzani)

 

A jornada seria longa, tensa e cansativa, de maneira que minha noite foi um tanto conturbada e, por consequência, meu sono pouco produtivo, agravado pelo fato de que além dos outros 3 peregrinos que nos acompanhavam no Caminho, também estavam alojados no local mais 17 romeiros, procedentes de Campanha/MG, que fizeram muita balburdia no ambiente.

Mesmo assim, partimos animados às 4 h, depois de ingerir o saboroso café da manhã que a Patrícia, a gentil proprietária da pousada, nos deixou preparado sobre a mesa da cozinha.

Deixando o local de pernoite nós seguimos pela rodovia BR-459, que vai na direção da cidade de Piquete/SP, e depois de caminhar 9 quilômetros sobre piso asfáltico e com dia já claro, nós adentramos à direita, num local situado defronte ao bar “Ponte do Zinco”, e prosseguimos sobre terra.

Contudo, percorridos mais 1.500 m e obedecendo à sinalização, nós atravessamos um “quebra-corpo” e passamos a caminhar por uma trilha matosa e ascendente, situada num pasto que, mil metros adiante, nos deixou numa estrada larga e extremamente arborizada, que seguiu na direção leste.

Um pouco adiante, passamos defronte à uma belíssima cachoeira e depois de percorrer 16 quilômetros, nós transitamos pelo interior da Fazenda Boa Esperança, um recanto paradisíaco, que abriga um grande parque campestre, situado a 1.450 metros de altitude.

Na verdade, trata-se de um complexo turístico encravado dentro de uma área de 211 hectares, onde a temperatura média anual é de 16ºC, e que conta com proteção ambiental (Apa da Mantiqueira).

Ali, bromélias e orquídeas dividem com as aves nativas seu habitat natural em meio às mais de 7 cachoeiras da propriedade, com quedas d’água de 3 a 70 metros de altura, as quais podem ser visitadas através das trilhas que margeiam os três rios da região (Boa Vista, Cambau e Onça).

Porém, atualmente, esse espaço está fechado para visitantes, porque as habitações ali disponíveis estão ocupadas pelos funcionários da empresa Camargo Corrêa, que está instalando torres de alta-tensão na região, para dar suporte às linhas de transmissão, com capacidade de 500Kv, que oferecerão maior segurança energética aos habitantes desse território.

Na sequência, nós ultrapassamos uma porteira, passamos ao lado de uma casa e acessamos uma trilha, localizada em meio a um grande bosque, tudo em forte ascensão que, num cruzamento mais acima, nos direcionou para uma senda matosa que, mais adiante, foi convergindo em meio a muito mato, num local ermo e silencioso, onde apenas se ouvia o canto dos pássaros.

Depois de aproximadamente 1.000 metros, encontramos um rumoroso riacho e prosseguimos margeando-o, em sentido contrário ao seu fluxo, tendo-o pelo nosso lado direito, correndo por uma funda grota.

Nesse trecho, em alguns locais específicos, nós utilizamos rústicas pinguelas para vencer alguns afluentes que desaguavam no ribeirão principal, depois, mais adiante, passamos diante de alguns frontões de cimento, uma construção histórica, na verdade, de trincheiras militares, edificadas durante a Revolução Constitucionalista de 1.932.

Finalmente, percorridos 19 quilômetros, transpusemos um ribeirão por uma pequena ponte de cimento, a famosa “Ponte Pênsil”, sob o qual está inserido um grande cano, que serve para captação de água.

Antigamente, o roteiro seguia à esquerda em direção ao Hotel Vista da Mata, porém esse estabelecimento cortou o acesso pelo seu interior, de forma que, obedecendo à sinalização, nós fletimos à direita e logo passamos a transitar por espesso e silencioso bosque de araucárias, num dos trechos mais belos e emblemáticos de todo o roteiro.

Dois quilômetros à frente, nós fletimos à direita, acessamos a “Trilha dos Romeiros” e passamos a caminhar num sobe e desce contínuo, por trilhas extremamente perigosas, pois foram danificadas pela passagem de mototrilheiros, que contribuíram para forte erosão em seu leito.

Depois, acessamos um caminho sombreado e plano que, mais adiante, depois de percorrermos 25 quilômetros, nos deixou num local crucial, exatamente o topo do morro, situado a 1.750 m de altitude, onde tem início a “Trilha da Santa” ou “Garganta do Diabo” ou “Garganta da Morte”, termos utilizados pelos habitantes locais para designar essa problemática declividade.

Pouco antes do descenso, encontramos três oratórios, pequenos, em madeira e cimento, pintados de azul, à margem da trilha, que possuem imagens de Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio e Frei Galvão, sendo que pedidos, orações, bilhetes e agradecimentos de graças e terços ali estão também.

Por esse local passam, anualmente, segundo as estatísticas, aproximadamente 10.000 romeiros, quase sempre nos meses de frio, e a grande maioria vem a pé, porém existem alguns se arriscam de bicicleta, a cavalo ou de moto, e decaem por essa perigosa ribanceira, na verdade, uma senda histórica utilizada desde o ciclo do ouro, que desce a escarpa da Serra da Mantiqueira, sob a densa vegetação.

A descida íngreme pelo meio do mato exige extremo cuidado, ainda que no princípio o terreno se eleve em degraus de rocha, como numa escalada, diminuindo a pressão dos dedos dos  pés contra o bico das botas, assim, o cajado torna-se indispensável para auxiliar a “segurar” o corpo e, tamanha a declividade que se enfrenta nesse perigosíssimo trecho.

Prosseguindo, o Vinícius e eu, logo passamos a ziguezaguear por canaletas altamente erodidas, e em vários trechos as “paredes laterais” atingem mais de 5 metros de altura, sendo que as pedras soltas eram uma constante e, para complicar, encontramos galhos quebrados, terra fofa, degraus na rocha, de amplitude imensa, enfim, o risco de uma torção era iminente e o socorro, praticamente impossível, de forma que fomos decaindo serra abaixo com extremo cuidado.

Em alguns patamares mais íngremes o Vinícius me amparou e deu sustentação ao meu corpo, quando precisei dar passos de maior amplitude, porque, na realidade, nós estávamos enfrentando um imenso desnível, em que descendemos 800 metros em pouco mais de 3 quilômetros.

Finalmente, depois de muitos escorregões a trilha nivelou, transpusemos um riacho, utilizando as pedras alocadas em seu leito, depois, prosseguimos bordejando a imensa serra, porém, agora, sob céu aberto, e foi como se estivéssemos adentrado ao paraíso, porque diante de nós se estendia um terreno gramado e plano, pertencente a um sítio.

Olhando para trás, podíamos ver a escarpa que vencêramos, e nos chamava a atenção a forma como aquele paredão rochoso e verde de mata, morria de todo ao encontrar a planície.

E sem maiores novidades, seguimos caminhando ao lado de um riacho encorpado e murmurante, de águas límpidas e pleno de pequenas quedas, o ribeirão Pilões, que é produto final da reunião de várias nascentes que vertem da Serra da Mantiqueira,que nos acompanhou até o bairro São Sebastião, mais especificamente na pousada de Dona Sueli, lugar onde ficamos hospedados.

A proprietária, uma pessoa simpática e hospitaleira, atualmente, possui uma excelente estrutura para atender aos caminhantes, pois há muitos anos oferece pouso e alimentação a inúmeras romarias que se dirigem à Basílica de Aparecida, e a afeição e respeito que nos foi dispensado pela nossa hospedeira, fez toda a diferença.

Após finalizarmos nosso almoço, aportou ao local a equipe de romeiros de Campanha/MG; mais tarde chegaram o Sr. José Veloso, o João e a Shirley.

Assim, antes do jantar, pudemos, o Vinícius e eu, confraternizar intensamente com os outros peregrinos, pessoas do mais alto gabarito e educação.

Por sinal, o Sr. José nasceu em Itajubá/MG, foi proprietário de sítios na região e conhece, com particularidades, inúmeras histórias desse maravilhoso enclave mineiro.

Ele, na verdade, é uma pessoa agradabilíssima, com imensa cultura geral, de conversa fácil e fluente, uma das maiores amizades que conquistei em minhas andanças, além, é claro, de seu filho João e da Shirley, a quem agradeço pelas manifestações de estima e consideração.

Algumas fotos do percurso desse dia:


Trecho em terra, em direção à Fazenda Boa Esperança.


As trincheiras da Revolução de 1932.


Ultrapassando a "Ponte Pênsil"...


Sinalização no meio da mata.


Início da "Trilha dos Romeiros".


Oratórios existentes no início da trilha da "Garganta do Diabo", trecho final e mais difícil dessa etapa.


Após o descenso, pausa para descanso..


A Serra da Mantiqueira, vista desde a Pousada da Sueli.


A igrejinha do bairro Pilões.


Confraternização, à noite, com nossos peregrinos parceiros. Momentos de muita alegria!



RESUMO DO DIA:

Pernoite na Pousada de Dona Sueli – Apartamento individual simples, com almoço e jantar – Preço: R$90,00;

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de longa extensão, expressivos obstáculos intermediários e contínua ascensão, porém, sempre em meio a uma exuberante natureza. A dificuldade maior fica por conta da descida da mística “Trilha da Santa”, “Trilha de Pilões” ou “Garganta do Diabo”, um desafio ao equilíbrio e condicionamento físico do peregrino. Esse é o trecho mais perigoso de todo o Caminho, por ser feito através de uma valeta funda, que oferece grande risco no período chuvoso, por ser caminho das águas pluviais. No geral, uma etapa plena de emoções e muito verde, a mais bela e difícil dentre todas, com direito a hospedagem, no final, num local de expressiva paz e encanto.

5º dia: BAIRRO PILÕES (GUARATINGUETÁ/SP) a GUARATINGUETÁ/SP - 25 QUILÔMETROS