4ª Etapa – SANTARÉM à GOLEGÃ – 32 QUILÔMETROS

4ª Etapa: SANTARÉM à GOLEGÃ – 32 QUILÔMETROS – “LABIRINTO DE CULTURAS AGRÍCOLAS

“A linha reta domina novamente o perfil dessa etapa que discorre, em sua totalidade, pelas planícies ribatejanas. Não há grandes obstáculos que interfiram na marcha, porém o interminável labirinto de caminhos, e uma sucessão quase repetitiva de plantações e campos em cultivo, acabam por desanimar o caminhante. Ademais, não há sombras, pois cada palmo de terreno está cultivado. Isto obriga o peregrino a madrugar nos dias calorosos, se não quiser sofrer a castigo do sol. Desde Santarém, baixaremos a Ribeira para cruzar o rio Alforce, afluente do Tejo, e nos dirigirmos a Vale de Figueira. Após essa localidade, tem inicio um dos trechos mais solitários e labirínticos, onde se caminha sempre em meio a imensas áreas cultivadas. Ao final nos aguarda Azinhaga, terra natal do escritor José Saramago, e uma das aldeias agrícolas mais bonitas do Ribatejo. E, para terminar, Golegã, “a Capital do Cavalo”, uma cidade agradável, porém com poucos alojamentos, pelo que se faz indispensável fazer reserva antecipadamente.” (Traduzido/transcrito do Guia El País Aguilar, edição do ano de 2007, que utilizei na viagem)

 

Eu me hospedei do lado oposto daquele por onde eu iniciaria o roteiro do Caminho, de maneira que deixei o local de pernoite às 6 h e caminhei quase um quilômetro, por ruas frias e desertas, até sair novamente no complexo das “Portas do Sol.”

Então, fleti à esquerda, e mais abaixo, eu transpus um antigo portão da vila amuralhada, a “Puerta de São Tiago y Salinas”, por onde eu deixei o “casco viejo” da cidade.

Iniciou-se, então, uma trilha boscosa, em forte declividade, que fui vencendo com muito cuidado, pois o dia ainda não raiara, contudo eu contava com dois trunfos a me auxiliar: o cajado e minha potente lanterna.

Algum tempo depois, eu passei por uma escada em pedra e saí em asfalto, já na cidade de Ribeira de Santarém, a qual cruzei por sua avenida principal, que corresponde, exatamente, ao traçado da rodovia N-114.



Já deixando a urbe, eu transpus o rio Alforce através de uma famosa ponte medieval e, logo depois, eu acessei uma rodovia vicinal asfaltada que seguiu à direita.

Setecentos metros caminhados, próximo a uma casa branca abandonada, obedecendo a sinalização, eu adentrei à esquerda, numa estrada de terra onde encontrei bastante barro.

Segui com muito cuidado, evitando afundar meus pés no terreno encharcado, tendo imensos vinhedos a me ladearem em ambos os lados.

Mais adiante eu retornei à rodovia, contudo, logo as flechas me direcionaram para a esquerda, onde acessei uma larga e retilínea estrada de terra, situada entre vinhedos e milharais.

Para se ter uma ideia, conforme li num livrinho turístico em Santarém, a quantidade e a qualidade de uva colhida nessa parte de Portugal, faz concorrência com a da região da Rioja, na Espanha, e a do Vale de Languedoc, na França.



O terreno se encontrava muito alagado e a sinalização nesse trecho é bastante deficiente, no entanto, com o dia clareando, pude me posicionar melhor em relação à direção, e segui adiante, sem ter dúvidas, por uns 3 quilômetros.

Depois, o caminho prosseguiu em terreno seco, mas sempre vadeando imensos campos cultivados, e nesse trecho passei diante das Quintas da Légoa e da Boa Vista.

Logo depois de suplantar pequeno outeiro, fiz uma pausa para hidratação.

Então, refeito, toquei firme em frente.

A estrada seguiu em linha reta, que me pareceu interminável, e por mais que eu me distanciasse de Santarém, sobranceira num outeiro, ela não desaparecia da vista quando eu olhava para trás, como a dizer: que não se esquecia de quem a visitou e nela pernoitou.



Duas horas e meia caminhando, 11 quilômetros percorridos, eu adentrei em Vale de Figueira, uma pequena povoação, pela qual atravessei por sua rua principal.

Talvez, por ser um domingo, a localidade se encontrava integralmente deserta e o silêncio só era quebrado, de quando em vez, pelos latidos dos cães a saudar meu trânsito pela cidade.

Eu passei diante da igreja e logo as flechas me remeteram para uma rua à direita, em pronunciado descenso.

Duzentos metros caminhados, e iniciou-se um bucólico trajeto entre bosques e imensas plantações de eucaliptos, num trajeto sombreado, silencioso e extremamente fresco.

Logo à frente, por uma ponte metálica eu transpus o encorpado rio Alviela, e mais adiante eu voltei a cruzar campos intensamente cultivados, onde houvera extensos milharais, cujos frutos foram recentemente colhidos.



Mais à frente a estrada larga por onde eu caminhava desembocou numa rodovia asfaltada, por onde segui até próximo de Pombalinho.

Porém, não adentrei à cidade, pois as flechas me remeteram à esquerda, em direção à Estrada Real, um percurso asfaltado e bastante arborizado.

Dois quilômetros adiante, as flechas amarelas sinalizaram à esquerda, contudo as placas da cidade de Azinhaga diziam que eu deveria continuar adiante, se quisesse passar por aquela povoação.



Confuso, indaguei a um senhor que passava em um trator, de como deveria proceder.

Ele, sem maiores dúvidas, disse que eu deveria ignorar as marcações, que me remetiam à esquerda e seguir adiante.

Foi o que fiz, e mais dois quilômetros percorridos, eu adentrei em Azinhaga, “a aldeia mais portuguesa do Ribatejo”, conforme alardeia uma placa afixada na entrada da localidade.



A cidade é famosa, porque, em 16/11/1922, foi berço de nascimento do escritor José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura em 1998, o primeiro autor em língua portuguesa a receber tal galardão.

De se ressaltar, que ele viveu nessa aldeia apenas um ano e meio, porque depois seus pais emigraram para Lisboa em busca de um futuro melhor, embora nos verões seguintes ele tenha retornado a esse povoado para passar suas férias.



Eu passei diante da casa na qual ele veio ao mundo, onde atualmente funciona a Fundação homônima, na frente da qual existe uma estátua do famoso personagem sentado num branco.

Eu bati algumas fotos, passei junto à igreja matriz dedicada ao Espírito Santo, e logo me encaminhei para a saída da urbe, pois o sol inclemente, já começava a me molestar.



Mais abaixo eu acessei a rodovia N-365, e mais à frente, sempre em asfalto, eu passei diante da portentosa Quinta da Broa, uma das maiores mansões senhoriais da Freguesia de Azinhaga, construída no século XIX, por Rafael José da Cunha.

Que ficou conhecido como o “Rei dos Lavradores”, não só pela grande quantidade de terras que possuía, mas também pelas inúmeras obras de caridade que fazia.

Pois sempre dava trabalho a quem lhe pedia, mesmo em meses em que não havia o que fazer no campo, além de, diariamente, repartir pão de milho (broa) com os pobres.

Sempre por asfalto, transpus o rio Almondia, e enfrentei o pior trecho da jornada, pois já me encontrava bastante cansado e a estrada, além de não ter acostamento, estava ilhada de ambos os lados, por dois canais de irrigação.

E, talvez por ser um domingo, o trânsito intenso de veículos tenha me deixado bastante preocupado, pois sempre que dois veículos se cruzavam próximo de onde eu me encontrava, eu não tinha para onde fugir.

Inclusive, só consegui fazer uma pausa para hidratação, quando me restavam apenas dois quilômetros para finalizar o percurso.

Naquela altura, me sentia extremamente fatigado, e meus pés doíam muito na altura dos calcanhares, o que se acentuava no contato com o asfalto, tornando tudo mais difícil: eram as famosas bolhas em erupção.



Efetivamente, esse trecho derradeiro foi terrivelmente tenso e cansativo, mas, finalmente, às 13 horas eu adentrava em Golegã, minha meta para aquele dia.

Como boa cidade ribatejana, ela está muito relacionada com todos os ciclos agrícolas e bovino, embora sua verdadeira identificação sejam os equinos, pois ela é considerada “a Capital do Cavalo” portuguesa.

Título que se justifica, pois todo ano, em novembro, nela acontece a famosa Feira Nacional do Cavalo e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano.

Suas origens se localizam em uma pousada que uma mulher galega abriu nos tempos do rei Sancho (1154-1212), para oferecer seus serviços aos viajantes em trânsito pelo caminho real, de Lisboa ao Porto.

Assim, a “venda da galega”, terminou por metamorfosear-se em Vila de Golegã, lugar onde os viajantes se abasteciam e trocavam de montaria, e os ricos pastos que a circundam são a origem de sua vinculação com o mundo equestre.

Efetivamente, seguindo o conselho do Guia que eu portava, tentara fazer reservas em duas Pousadas no dia anterior, porém sem sucesso, pois os telefones não atendiam.



Assim, quando aportei à urbe, fui ao Parque de Campismo, que faz aluguel de apartamentos, porém este se encontrava fechado para almoço até as 15 h.

Fiz, então, contato em outra Pousada, porém os proprietários estavam viajando, segundo me informou um morador local.

Um taxista me recomendou buscar guarida no Bar e Restaurante Té, porém lá encontrei as portas fechadas, pois o estabelecimento havia sido interditado pela Divisão Sanitária, e seus proprietários estavam no campo.

Extremamente fatigado e sem ver outra alternativa, me hospedei no Hotel Luzitano, estabelecimento luxuoso e caro, onde paguei 75 Euros por um quarto individual, a maior quantia dispendida nesse mister durante toda a minha aventura.

E olha que eu consegui um desconto especial para peregrinos, pois o preço normal seria de 88 Euros.

Fica aí o alerta para os futuros peregrinos.

Para almoçar, utilizei os serviços do Café Central.

Após o banho, percebi que aquela dor insistente que sentira no pé era uma grande bolha.

Que tratei na forma recomendada, mas sua localização bem na curvatura do calcanhar e da planta do pé esquerdo, dificultou bastante a colocação do “compede” que eu levava em meu estojo de primeiros socorros.



Depois de uma restauradora soneca, saí caminhar e pude conhecer e fotografar a igreja matriz, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, que possui um soberbo pórtico manuelino do princípio do século XIV, e um interior revestido por ricos azulejos.

E pelo diário de Confalonieri, sabe-se que naquele tempo havia um relógio em seu frontispício.

Na praça principal da urbe, eu pude admirar as soberbas instalações do Palácio do Pelourinho, um edifício que antes serviu de cárcere e, depois museu.



Entre essas duas edificações, pude observar uma estátua comemorativa, dedicada a Manuel dos Santos, ilustre toureiro português, que nasceu nessa localidade.

Aproveitei para seguir as flechas amarelas, e me cientificar do local por onde eu deixaria a cidade na manhã seguinte, pois pretendia sair bastante cedo.

Por sorte, na volta eu encontrei um supermercado aberto, e pude me prouver de gêneros alimentícios para o lanche noturno e para a jornada seguinte.

No retorno ao local de pernoite, eu telefonei para casa e acabei esquecendo na cabine uma "tarjeta" telefônica de 10 Euros, da qual só dei-me conta ao chegar ao hotel.

Rapidamente, voltei conferir se, por milagre, ainda estava na cabine, mas alguém já tinha recolhido.

Fui deitar cedo, pois efetivamente o percurso desse dia foi bastante cansativo.

 


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada toda plana, contudo de razoável extensão, agravada pelo trecho alagado que me surpreendeu no início do percurso. Porém, o trajeto transcorre sempre em meio a muito verde, com imensos espaços cultivados ladeando o caminho do peregrino. A dificuldade maior ocorreu na final do percurso, pois os derradeiros 15 quilômetros foram feitos sobre asfalto e debaixo de sol ardente.

Ainda, de se lembrar, a complexidade para se conseguir alojamento em Golegã, o que me obrigou a dispender razoável quantia monetária, para conseguir uma hospedagem digna.