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3ª etapa – LA PANADELLA a TÁRREGA – 31 quilômetros


3ª etapa – LA PANADELLA a TÁRREGA – 31 quilômetros


Toda conquista começa com a decisão de tentar.




A jornada seria de razoável extensão, então, como de costume, deixei o local de pernoite bem cedo e às 6 h 30 min me pus em marcha.

Caminhei um pouco pelo acostamento da rodovia, porém, assim que eu ultrapassei um grande posto de combustível, as setas me remeteram para uma agradável estrada de terra, à esquerda, por onde segui tranquilo.


Caminhando ao lado de trigais.

Ainda estava escuro, mas logo o dia clareou e, 20 minutos mais tarde, o sol nasceu.

No início eu caminhei por um agradável bosque de pinheiros, contudo, mais abaixo, passei a transitar, como de praxe, entre grandes plantações de trigo.


Mais um dia de sol...

E, sem maiores problemas, uma hora mais tarde, percorridos 5 quilômetros, passei pela cidade de Pollerols, onde residem 66 pessoas.

Ali não há comércio e também não avistei vivalma em sua única rua.

Meu guia alertava para observar a igreja de Saint Jaume, por se tratar de um marco jacobeu de todo o caminho catalão.


Quase chegando em Pollerols.

Construída no século XII, ela possui nave dupla e foi recentemente restaurada.

No entanto, por algum motivo que não me lembro, eu transitei distraído pela minúscula povoação e não fotografei, nem visualizei esse templo.

O clima se apresentava fresco, com uma brisa insistente soprando às minhas costas.

Prossegui extremamente animado, mas agora por uma rodovia vicinal asfaltada.

Um mil e quinhentos metros adiante, transitei pela pequena vila de Sant Antolí i Vilanova, onde habitam 158 pessoas.

Na povoação há bar, “tienda” e farmácia, mas encontrei todos fechados, face ao horário matutino.


Igrejinha de 
Sant Antolí i Vilanova.

Em determinada praça, fiz uma pausa para fotografar a igreja local, de incomum beleza.

Ainda por asfalto, passei pela pequeníssima aldeia de El Hostalets e, mais à frente, transitei pela vila de Saint Pere dels Arquells.

No final de sua única rua, surpreendentemente, eu encontrei uma trifurcação de caminhos e parei para consultar meu guia.

Eu poderia seguir à esquerda, utilizando uma variante da GR 171, que me levaria até Cervera depois de 7 quilômetros.

A opção da direita, me levaria até a Rodovia Nacional, que me deixaria em Vergós, o próximo povoado por onde eu transitaria, depois de 2.300 metros.


Caminho espetacular e arejado.

Mas, eu escolhi seguir em frente e não me arrependi.

No início, transitei entre imensos trigais, um trajeto agradável e arejado, sempre por uma estrada larga de piso socado.

Todavia, um quilômetro adiante a estrada se findou diante de um trigal e as flechas me remeteram para uma senda estreita, localizada no interior de um agradável bosque.


Caminhando em direção ao topo do morro.

A trilha foi se empinando e passei momentos difíceis para sobrepujar um escarpado outeiro.


Aqui também encontrei excelente sinalização. Vide seta do lado esquerdo, na pedra.

De se ressaltar, no entanto, que o caminho prosseguiu extremamente bem sinalizado e me perder estava fora de cogitação.

Logo passei a caminhar pelo cimo do morro, com excelsas vistas de todo entorno, um trajeto agradabilíssimo.

O local é ermo, desabitado e pedregoso, portanto, segui compenetrado no percurso, pois uma simples queda resultaria em problemas sérios.

Foi esse um dos trechos mais interessantes e solitários que percorri no Caminho Catalão.

Porém, não há mal ou bem que perdure eternamente.


Descendendo em direção a um vale.

Assim, um par de quilômetros adiante, principiei a descender.

No início, pelo interior de agradável bosque.

Depois, voltei a caminhar entre imensos trigais, a perder de vista.


Roteiro plano e arejado, mas sem sombras.

O dia estava claro, sol brilhando num céu azul e sem nuvens, temperatura ao redor de 12°C, tudo concorria para deixar meu astral elevado.

De quando em vez, eu fazia uma pausa apenas para aspirar o ar puro que o entorno me oferecia, bem como para apreciar a paisagem circundante.

Lentamente, porém, fui me aproximando da civilização.

E alguns quilômetros depois, transitei rapidamente por Vergós, onde vivem 51 pessoas.


Transitando rapidamente pela vila de Sergós.

Nessa minúscula aldeia há vários edifícios religiosos como, por exemplo, a igreja de Santa Maria, do século XI.

Eu não a avistei porque o roteiro perpassa por uma rua estreita e, na sequência, encaminha o peregrino para a rodovia.


Transitando pelo acostamento da rodovia. Cervera já aparece no horizonte.

E foi por ela, no acostamento, que caminhei mais 4 quilômetros, até atingir a cidade de Cervera.

Um percurso duro que, lentamente, foi se empinando.

Nesse trecho, fui alcançado por um grupo de ciclistas que pausaram sua marcha e fizeram questão de me cumprimentar, enfatizando minha coragem de caminhar solitário, longas distâncias.


À frente, a cidade monumental de Cervera.

A chegada à cidade foi árdua, pois há uma grande altimetria a ser sobrepujada.

No entanto, eu já estava bem-adaptado ao caminho e logo passei a transitar em zona urbana.

Já conhecia a história dessa cidade, onde residem quase dez mil pessoas, porém ela me surpreendeu agradavelmente pela magia que emana de suas antiquíssimas ruas.


Praça principal de Cervera.

Cidade monumental por natureza, onde se destacam suas muralhas, um conjunto fortificado, ampliado e reformado em 1368.

Capital de la Segarra, ela se encontra situada na margem direita do rio Ondara, sobre a colina de Montseré.


A Universidade de Cervera.

De se destacar sua Universidade que foi edificada junto à praça de São Miguel.

Construída no século XVIII, durante cem anos, nos tempos do rei Felipe V, que lhe outorgou tal distinção, ela deteve a exclusividade de ser o Centro de Estudos Superiores da Catalunha, cujo objetivo era evitar o desdobramento de centros universitários.

Por sinal, ao final do século XVIII, ela chegou a contar com mais de 2 mil alunos.


Igreja matriz de Cervera.

Eu segui tranquilamente pelas ruas urbanas, que estavam praticamente vazias, apesar de ser quase 10 horas da manhã de um belíssimo sábado.

Parei para fotos em sua “Plaza Mayor”, onde está situada a igreja matriz, dedicada à Santa Maria, uma construção do século XIV.

A cidade, como um todo, me impressionou positivamente e mereceria uma excursão mais duradoura pelo seu centro velho, se lá eu fosse me hospedar nesse dia.

Contudo, eu ainda tinha quase 12 quilômetros para caminhar, de forma que deixei a povoação meia a contragosto, mas o que fazer?

Afinal, eu seguia um cronograma de viagem, pré elaborado no Brasil e não poderia fugir do meu roteiro logo no 3º dia de caminhada.

Dessa forma, eu descendi rapidamente pelo lado oposto da localidade, utilizando, para tanto, uma rodovia vicinal.


Igrejinha abandonada, onde adentrei à direita.

Mais abaixo, já no plano, próximo de uma igreja abandonada e em ruínas, adentrei num caminho de terra, bastante poeirento pois, pelo que observei, não chovia há muito tempo na região.

Fiz ali uma pausa para hidratação e aproveitei para ingerir uma banana.

O dia prosseguia frio, céu limpo, sol a pino, temperatura agradável e eu solitário em meu caminho.

Era tudo o que eu queria, de forma que além de agradecer a Deus pelo momento que vivenciava, aproveitei para renovar meu protetor solar.


Caminho deserto e sem sombras.

Caminhando em frente, eu tinha uma montanha do meu lado direito, plena de pedras e mirrados arbustos.

Em contrapartida, do meu lado esquerdo havia um extenso vale hidratado, com vinhedos, trigais, enfim, uma variedade incrível de culturas agrícolas.

Tive tempo para meditar e avaliar o assunto, enquanto caminhava rumo ao meu destino.


Morro e pedras do lado direito. Do lado esquerdo, um fértil vale.

De um lado, nada produtivo, paisagem híspida, árida, algo que poderia transpor para a vida real, como algo ruim, até depressivo.

Em compensação, do lado oposto, a não mais de 100 metros, imensas culturas agrícolas, progresso e preciosas vistas das vilas adjacentes.

Como em tudo que existe na terra, eu via à minha frente, desfilando, lentamente, o bom e o ruim, uma preciosa lição que ia curtindo, enquanto avançava em direção ao meu objetivo do dia.


Caminho plano e empoeirado, sob muito sol.

A estrada plana, integralmente deserta, e muito bem sinalizada, me possibilitou momentos de intensa introspecção.

Feliz da vida, eu praticamente não vi passar os quilômetros, tamanha a alegria que vivenciava interiormente.

Minhas pernas, já fortes, ditavam o tom da caminhada, e eu curtia intensamente o ambiente por onde eu perpassava, na certeza de que ele não se repetiria.

Depois de mais 10 quilômetros vencidos em ritmo uniforme, transitei diante da pequena vila de El Talladell, cuja população atual conta com 265 habitantes.


No morro, à direita, cidade de El Talladell.

Contudo, o caminho não passa pelo interior da povoação, assim, apenas pude fotografar sua igreja matriz de estilo barroco, à distância.

Uma rodovia vicinal conduz os veículos à cidade, porém eu segui adiante e a partir desse marco, voltei a caminhar sobre asfalto.


Nesse trecho final, voltei ao asfalto.

Sem muito esforço, depois de mais dois quilômetros, adentrei em zona urbana e logo estava caminhando no centro de Tárrega.

Segui pela Avenida de La Generalitat por algum tempo, até me defrontar com um poste, situado próximo de uma praça.

Nele ocorre a bifurcação desse roteiro.


Este poste marca a bifurcação dos caminhos. Eu segui à direita.

Se eu seguisse à esquerda, caminharia em direção à cidade de Saragoza e, um pouco antes, em Fuentes del Ebro, me enlaçaria com o Caminho do Ebro, que havia percorrido no ano anterior.

Esse não era meu objetivo para o Roteiro em curso, de forma que segui à direita e tomei informações com transeuntes.

Assim, logo estava diante do Hotel Ciudade de Tárrega, onde fiquei muito bem alojado.

Ali, por 30 Euros, desfrutei de um excelente apartamento individual.

Depois do banho necessário e a lavagem diária das roupas, fui almoçar próximo dali.

Para tanto, utilizei os serviços do Restaurante Carmen, onde degustei um maravilhoso “menú del dia”, por 11 Euros.

Depois, merecidamente, deitei para descansar.


Praça principal de Tárrega.

Tárrega é a capital da comarca de Urgel, possui 12.054 habitantes e é banhada pelo rio Ondara.

Sua origem remonta a meados do século XI, quando o conde de Barcelona, Ramón Berenguer I, conquistou seu castelo.

Durante o século XIX, assistiu a inauguração da linha de trem Mantera -Tárrega - Lérida e foi alçada a cidade em 1884, por Alfonso XII.


A Igreja matriz da cidade.

A praça del Carme, conhecida popularmente como “El Pati”, é o centro da cidade.

Na Praça Maior, onde se encontram os prédios do Ayntamiento e da igreja matriz, destaca-se a Cruz de Término Gótica, situada no centro desse espaço público.


A famosa Cruz de Término Gótica.

A fachada do edifício que abriga o “Ayuntamiento” foi construída em estilo renascentista, no ano de 1674.

Na calle del Carme, está situado o antigo Palácio dos Marqueses de la Floresta, em estilo românico civil catalão, construída no final do século XIII.

A economia do município se baseia, historicamente, na agricultura e na criação de gado, embora nos últimos anos tenha se destacado no setor comercial e cultural.

Um exemplo significativo dessa nova tendência é a Feira do Teatro de Tárrega, uma das reuniões cênicas mais importantes de toda a Europa, celebrada sempre na segunda semana de setembro.



A Igreja Matriz de Tárrega, sob outro ângulo.

Mais tarde, assim que o sol amainou, dei um grande giro pela cidade, aproveitando a ocasião para observar o local por onde deixaria a cidade na manhã seguinte.

Tive tempo para ir visitar e fotografar a igreja matriz da cidade, cuja padroeira é Santa Maria l'Alba, uma construção do século XVIII.

Passei também no albergue de peregrinos que está situado num local central e oferece apenas 4 camas.

Infelizmente, o hospitaleiro me informou que nenhum peregrino ainda havia chegado, embora já passasse das 17 horas.


Uma interessante escultura.

Fiquei assim sem saber da Graça, contudo, posteriormente, ela me informou que se abrigara em Cervera.

Já do Tony, não tive notícias e também não sei se ele pernoitou na cidade.

Eu comprei um lanche num bar, segui em direção ao meu local de pernoite e logo me recolhi, pois a jornada sequente seria bastante árdua.


Estação Ferroviária de Tárrega. O Caminho passa em frente; vide a flecha amarela no muro.

CONCLUSÃO PESSOAL: Uma jornada de razoável extensão, com trânsito por belos e ermos locais. Na primeira parte do percurso, caminhei metade em asfalto e a outra em terra. A cidade de Cervera realmente impressiona pela sua beleza e monumentalidade. O trecho final, todo em terra, foi extremamente agradável e percorrido sob sol forte, mas com baixa temperatura. No global, outra jornada onde, praticamente, não encontrei sombras e nem avistei peregrinos.