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2010 - Caminho da Fé-III Rm Noroeste: Cravinhos


2010 - CRAVINHOS à TAMBAÚ, 100 quilômetros, a pé, em 3 dias



“A vida necessita de pausas” é uma célebre expressão cunhada por nosso insigne poeta maior, Carlos Drummond de Andrade.

Foi pensando nessa inspirada metáfora, que decidi fazer breve interlúdio em minha vida profissional, a fim de caminhar, meditar e conhecer novas plagas, pois parece que chega uma hora em que, depois de muitos apelos, a vida, já aborrecida e desesperada de tanto insistir, nos inflige o imprescindível repouso.



Então, aproveitei a ocasião para percorrer o Ramal Noroeste do Caminho da Fé, um percurso de 100 quilômetros, que venci, a pé, em 3 etapas.

Para tanto, tomei um ônibus da Viação Cometa, que depois percorrer a Via Anhanguera por 150 min, me deixou na ponte de acesso à cidade de Cravinhos/SP.

Rapidamente, tentei me registrar no Hotel e Pousada Girassol, onde havia feito reserva.

Para minha surpresa, o atendente me disse que o quarto a mim destinado ainda estava ocupado, de forma que só poderia adentrar às suas instalações após às 18 h.

Sem opção, verifiquei que as flechas sinalizadoras do roteiro tinham início defronte aquele estabelecimento comercial.

Assim, aproveitei o ensejo e fui conhecer o Portal do Caminho da Fé, que está situado numa praça, defronte à igreja de Santa Luzia, localizada na principal avenida da urbe.

O trajeto foi longo, mas valeu a pena, pois o monumento, composto de 3 blocos de granito e incrustações em aço inox, é bastante sugestivo e foi inaugurado quando da abertura dessa Rota, em 09/07/2008.




A cidade de Cravinhos foi fundada em 1876 e elevada a distrito em 1.893, pertencendo à comarca de Ribeirão Preto, de onde dista 26 quilômetros.

Atualmente, possui 30 mil habitantes e seu nome teve origem na flor Cravina, pequenos cravos, que havia em grande quantidade nos canteiros da Fazenda Cravinhos e na região.

O município possui elevações rochosas e montanhosas, sendo que grande parte de seu solo é aproveitado para o cultivo.

Além disso, germinam excelentes pastagens, que por não serem muito íngremes, dão condições de fácil acesso ao gado.

As pequenas planícies, sempre com um pequeno decline alongado, são formadas de terras roxas, cujo solo fértil aceita qualquer tipo de cultura, inclusive, cana de açúcar, a maior riqueza da região.

Ao retornar ao hotel, me sentia cansado e indisposto face ao forte mormaço reinante na região, à época, sem contar que meu quarto somente seria liberado às 19 h.

Com isso, diante de tal negligência, desisti de pernoitar nesse local e resolvi ligar para o Cravinhos Park Hotel, onde fui prontamente atendido.

Porém, havia um empecilho, pois ele está localizado a 2 quilômetros da cidade.

Dificuldade superada após um telefonema.

Em seguida, embarquei no táxi do simpático Sr. Weudes (Goiano, para os amigos), que rapidamente, me deixou na portaria do estabelecimento.



Prontamente me registrei no hotel, tomei posse de meus aposentos e, após um refrescante e necessário banho, saí para lanchar. E logo me recolhi, pois a jornada do dia seguinte prometia muitas emoções.

Antes de adormecer e com o fito de acalmar meu espírito, ainda tive tempo para ler e meditar sobre os escritos de Thich Nhat Hanh, intitulado “The long road to joy” (A longa estrada para a alegria), cujas sábias palavras resumo abaixo.

O autor é um monge budista vietnamita, poeta e ativista dos direitos humanos, que em 1967 foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, por Martin Luther King.

É autor de mais de 60 livros e reside em Plum Village, um centro de meditação na França.

Anualmente, faz um giro pelo mundo todo, ministrando “retiros” que enfatizam a arte de viver em plena consciência.




1- Você já chegou. Portanto, sinta o prazer em cada passo, e não fique preocupado com as coisas que ainda tem que superar. Não temos nada diante de nós, apenas um caminho para ser percorrido a cada momento com alegria. Quando praticamos a meditação peregrina, estamos sempre chegando, nosso lar é o momento atual, e nada mais.

2- Por causa disso, sorria sempre enquanto andar. Mesmo que tiver que forçar um pouco, e achar-se ridículo. Acostume-se a sorrir, e terminará alegre. Não tenha medo de mostrar seu contentamento.

3- Se pensa que paz e felicidade estão sempre adiante, jamais conseguirá atingi-las. Procure entender que ambas são suas companheiras de viagem.

4- Enquanto anda, está massageando e honrando a terra. Da mesma maneira, ela estará procurando auxiliá-lo a equilibrar seu organismo e sua mente. Entenda esta relação, e procure respeitá-la – assim, que seus passos sejam dados com a firmeza de um leão, a elegância de um tigre e a dignidade de um imperador.

5- Preste atenção ao que acontece a sua volta. E concentre-se em sua respiração – isso o ajudará a libertar-se dos problemas e das ansiedades que tentam acompanhá-lo em seu caminho.

6- Ao caminhar, não é apenas você que está se movendo, mas todas as gerações passadas e futuras. No mundo chamado de “real” o tempo é uma medida, mas no verdadeiro mundo não existe nada além do momento presente. Tenha plena consciência de que tudo que já aconteceu e tudo o que acontecerá está em cada passo seu.

7- Divirta-se! Faça da meditação peregrina um constante encontro consigo mesmo; jamais uma penitência em busca de recompensas. E que sempre cresçam flores e frutas nos lugares onde seus pés tocaram. (extraído do site “Paulo Coelho's blog”)



1º dia – CRAVINHOS à SÃO SIMÃO – 32 quilômetros 


Sabia, de antemão, que o percurso seria longo. Ademais, a previsão vaticinava muito sol e calor para aquele dia.

Assim, levantei-me às 4 h, ingeri o café que o porteiro da noite, Sr. Marcos, gentilmente deixara preparado.

E exatamente às 5 h, embarquei no táxi do pontual Goiano que, após 15 min de trajeto, me deixou defronte ao Portal do Caminho da Fé da cidade.



Após fraternais despedidas do gentil motorista, fiz minhas orações derradeiras, alongamentos e, animado, iniciei minha aventura.

A cidade estava deserta naquele horário e por ruas frias e ventosas caminhei na direção noroeste, seguindo as providenciais flechas amarelas.

Um quilômetro e meio adiante, contornei a antiga estação ferroviária e logo passei ao lado da velha igreja matriz, cujo padroeiro é São Benedito.

A construção está em ruínas, mas, milagrosamente, com seu frontão intacto.

Na verdade, um patrimônio histórico de 120 anos, que desabou, parcialmente, em 24/02/2009, em razão de infiltrações em sua estrutura.

Da imponente edificação sobrou apenas a fachada, com a torre do sino e as portas e janelas da entrada.




Aos primeiros albores da madrugada ultrapassei a rodovia SP-328 e segui por uma estrada de terra paralela à mesma, até encontrar mais abaixo a via Anhanguera.

Ali, fleti à direita e prossegui por uma estrada vicinal, sempre paralelo à essa importantíssima via paulista, no sentido interior-capital.

Tudo estava muito escuro, de forma que, utilizava minha potente lanterna, quando não tinha certeza do lugar.

O dia ainda não clareara, mas fugia depressa o escuro da noite.

Depois de 5 quilômetros percorridos e com a luz do sol já assomando, passei ao lado de obras de inserção de grandes dutos, de propriedade da empresa Petrobrás, que servirão para escoamento da produção de álcool combustível daquela região.

Alguns trabalhadores já operavam máquinas retroescavadeiras, enquanto caminhões basculantes se movimentam pelas imediações.



   


O caminho seguiu sempre em meio a extensos canaviais, por estradas bem demarcadas, planas e com ótima conservação em seu leito. 

Dois quilômetros à frente, eu contornei um posto de combustíveis, e prossegui seguindo as flechas amarelas tendo postes de eletricidade a me ladear pelo lado esquerdo. 

Às 7 h, após 8 quilômetros percorridos, passei ao lado de uma fazenda que se dedica à criação de gado bovino, onde encontrei grandes árvores para me proteger, pois o sol, nascente à pouco, já irradiava forte calor. 




Após ultrapassar esse oásis, adentrei em campos onde a cana já havia sido colhida, de forma que um belo visual descortinou-se ao meu lado direito.

Inclusive, como o dia se apresentava claro e de uma nitidez incrível, pude avistar, ao longe, ainda que de maneira tênue, os contornos da cidade de Ribeirão Preto.

Depois de 11 quilômetros caminhados, passei ao lado de uma grande mangueira, uma das raríssimas árvores existentes naquelas paragens, por isso mesmo, um forte ponto de referência nesse trecho.

Às 8 h, depois de vencer 15 quilômetros, ultrapassei um grande cruzamento diante da Fazenda Santa Ana, onde existem algumas casas margeando a pista.

Um cavaleiro vinha subindo pela direita e quando nos encontramos, trocamos algumas palavras.

Ao saber de minha intenção para aquele dia, o Sr. Josias ficou impressionado e desejou-me uma ótima “viagem”, sob as bençãos e companhia de Nossa Senhora Aparecida.




O percurso seguiu monótono e deserto, sempre entre canaviais, num trajeto áspero e sem sombras, até desaguar, às 9 horas, depois de 19 quilômetros percorridos, junto à Via Anhanguera novamente. Por um túnel, que também serve de retorno para veículos, ultrapassei sob o asfalto, e prossegui à direita em direção a um posto de combustível. Ali fiz providencial pausa para adquirir água, isotônico e ingerir um reforçado copo de café.




Em sequência, acessei a rodovia que vai em direção à cidade de São Simão, e pelo acostamento, no sentido contrário ao fluxo de veículos, caminhei uns 500 m.

Após ultrapassar defronte à entrada da Fazenda Ipê, fleti à direita, atravessei uma cerca de arame através de um quebra-corpo, e prossegui paralelo à rodovia, sob a sombra refrescante de um extenso renque de pinheiros.

O sol já crestava com violência quando, depois de um quilômetro, dobrei à direita e prossegui por uma estrada sem sombras e extremamente arenosa, que dificultava sobremaneira meus passos, ainda ladeado por extensos canaviais, todos já em ponto de ceifa.

Mais à frente, depois de mais três quilômetros percorridos, atravessei por dentro de uma bela chácara, onde existe um lago e, dentro dele, visualizei um majestoso casal de cisne.

Porém ali tudo estava solitário e triste, mais ainda, face à canícula reinante.




Na saída, um cartaz exibia uma antiga prece irlandesa, cuja mensagem estimulava e desejava boa sorte ao peregrino:

“Que o caminho seja brando a teus pés, o vento sopre leve em teus ombros.

Que o sol brilhe cálido sobre tua face,

as chuvas caiam serenas em teus campos. E até que eu de novo te veja, que os Deuses te guardem nas palmas de Suas mãos.

Que a estrada abra à tua frente, que o vento sopre levemente em tuas costas, que o sol brilhe morno em e suave em tua face, que a chuva caia de mansinho em teus campos.

E até que nos encontremos de novo... Que os Deuses te guardem nas palmas de Suas mãos.

Que as gotas da chuva molhem suavemente o teu rosto, que o vento suave refresque teu espírito, que o sol ilumine teu coração, que as tarefas do dia não sejam um peso nos teus ombros, e que os Deuses te envolvam num manto de amor."




Logo adiante, um rumoroso riacho atravessava dentro de um pequeno bosque, local propício para um merecido descanso.

Foi o que fiz, depois de ultrapassá-lo sobre uma graciosa ponte, aproveitando, ainda, para lanchar, hidratar e renovar o protetor solar, pois o calor ambiente estava, simplesmente, terrificante.

Enquanto ingeria uma maçã debaixo de frondosa árvore, raciocinava que o mês de abril não era o ideal para a realização de uma grande aventura a pé, face à intensidade dos raios solares.

Contudo, meu trabalho exige assinatura de ponto diariamente, assim, não disponho de muitas opções para realizar meus sonhos.

Com isso, me submeto aos interregnos que me são concedidos.

Nesse contexto, tenho comigo que quando me aposentar, e falta pouco tempo para isso, poderei programar com mais parcimônia minhas caminhadas, direcionando-as para meses em que a atividade solar esteja menos veemente.

Ainda sobre o tema, alguns livros atinentes ao assunto, que já li, sugerem tópicos importantes, mandamentos que pretendo professar, na medida do possível, quando essa nova fase chegar: persiga suas paixões, leia livros de assuntos diferentes, viaje para lugares fora do circuito turístico, siga uma religião ou várias, para entender suas diferenças e semelhanças, , etc..

Visto que a "melhor idade" não é apenas uma frase, mas resume um estado de espírito e, com saúde, dinheiro e alegria de viver, é certamente a oportunidade que nos é oferecida de aproveitar tudo o que a vida tem de melhor. Com tempo e sabedoria, obviamente.


Porém, o ato de se aposentar, implica num grande choque emocional, e seu peso está catalogado num patamar elevado, quando se consulta a tabela de nível de estresse.

E se a pessoa não estiver preparada para tal evento, pode incorrer em calamidades e decepções.

Assim, o que me conforta a respeito do assunto, é saber que toda catástrofe, fatalmente, gera mudanças. Isto é fato comprovado.

Porque o difícil é tomar consciência do que está acontecendo, quando se está no “olho do furacão”.

Creio que foi o filósofo Henri Bergson quem criou essa imagem ao falar sobre a dificuldade de se conceituar o que é existência: é impossível descrever a chuva, ou a neblina, quando estamos no meio delas.

Só conseguimos emitir juízos e avaliações de processos externos ao nosso íntimo, e a existência é o ambiente em que vivemos.

Qualquer tentativa de conceituá-la levará ao mesmo erro que cometerá quem, nadando para atravessar um rio caudaloso, tentar elaborar teorias hidráulicas sobre a composição das forças correntes hídricas que o arrastam.

Uma vez no rio, é nadar ou nadar.

Inquieto por natureza e praticante de esportes há mais de 40 anos, quero passar longe do clichê do aposentado padrão, qual seja: aquele que veste pijama e do sofá de casa, aguarda a vida passar.

Pois, em minha opinião, o maior castigo que uma pessoa pode impingir a si mesma é não encontrar nada para fazer.



Essas lucubrações findaram quando, reanimado, afivelei a mochila e recoloquei o pé na estrada.

Prossegui, então, por lento e perene aclive, tendo à minha direita, uma bela serra, estupendamente arborizada, com fazendas de criação de gado ao seu redor.

No meio do trajeto, um bando de perus me saudou, à sua maneira, grugulejando alegremente à minha passagem.

Quase no final do percurso, ladeei um grande bananal e depois de virar bruscamente à esquerda, iniciou-se severa descida que culminou sob a linha férrea.

Após ultrapassá-la sob um viaduto, adentrei em zona urbana, seguindo à beira do asfalto, por um caminho de terra, em direção à urbe.

Alguns metros à frente, uma placa identificadora do Caminho da Fé, afixada num poste, indicava aos caminhantes que restavam, exatos, 500 quilômetros para a chegada à cidade de Aparecida do Norte, casa de Nossa Mãe Maria.




Mais acima, passei ao lado do Ginásio de Esportes da cidade e após trafegar por mais algumas ruas praticamente sem vivas almas, cheguei ao Hotel São Simão, local onde me hospedei, exatamente às 12 h.

    



São Simão, atualmente com uma população de 13.800 habitantes, chegou a ter 30.000 pessoas no século XIX, tornando-se a segunda maior povoação do estado de São Paulo, à época.

A cidade ainda é conhecida como o “Berço da Proclamação da República”, pois em 31 de janeiro de 1.888, antecipando ao clamor popular, sua Câmara Municipal propunha a extinção da monarquia e anulava a formação do 3º império.

Para se ter uma ideia da importância de sua extensão territorial, no contexto geográfico de seu ápice, ela foi comarca dos seguintes distritos, por sinal, hoje progressistas cidades: Cravinhos, Santa Rosa de Viterbo, Serrana, Sertãozinho, Ribeirão Preto, Pontal, Dumond, Guatapará, Serra Azul, Barrinha, Santa Rita do Passa Quatro e Luiz Antonio.


Com Maria e Thomas, atendentes do Hotel São Simão

Em face de seu clima privilegiado, por conta das serras que a cercam, e, consequentemente, da água potável e cristalina em abundância, ela está credenciada a ser uma futura estância hidro-mineral, pois tratativas estão sendo feitas nesse sentido pela sua administração municipal.

Olhando a urbe pelo lado oeste, vê-se o imponente morro do Cruzeiro.

Nele se encontra fincado um Cristo Redentor, com 40 m de altura. Para se ter uma ideia, ele é 2 m maior que seu homônimo carioca.

Esgotado fisicamente, não tiver pernas para subir até seu topo, mas dizem que a vista que de lá se descortina é exuberante.

Não é à toa, conta uma lenda local, que os antigos moradores sabiam, com bastante antecedência, quando iriam receber visitas.

Por orientação do gerente do hotel, Sr. Thomas, fui almoçar no Restaurante Alfa, localizado a mais de 10 quadras do local de meu pernoite, mas valeu a pena o esforço despendido, pela qualidade dos produtos e serviços oferecidos.

À tarde, após merecido descanso e depois que o sol amainou, fui visitar a igreja matriz dedicada a São Simão Apóstolo.

Em seu interior existem afrescos de Benedito Calixto e do italiano Cercelli, contudo, não os pude admirar, posto que o templo se encontrava fechado.


Na Sorveteria do Adriano 

À noite, depois de refrescante banho, fui até a praça principal fazer um lanche no quiosque do “Sheik”.

Em sequência, seguindo a “dica” inserida no excelente “Guia do Caminho da Fé”, de autoria de Antonio Olinto, passei na Sorveteria do Adriano, para conhecer seus produtos.

E me surpreendi com a qualidade e diversidades dos sabores ali oferecidos, uma tradição que vem de seu pai, conforme me contou.



Em seguida, retornei ao hotel e me recolhi, pois estava bastante desgastado, face à longa jornada do dia e em vista do forte calor reinante na região.

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma etapa de razoável amplitude, uma das mais longas de todo o Caminho da Fé, com um percurso quase todo plano, porém, praticamente sem sombras. A paisagem chega a ser monótona, pois tirante o finalzinho da jornada, todo feito em meio a infindáveis canaviais, sendo 26 quilômetros em terra e o restante em asfalto. Além disso, existem alguns trechos bastante arenosos, que dificultam sobremaneira o deslocamento do caminhante.



2º dia – SÃO SIMÃO à SANTA ROSA DO VITERBO – 28 quilômetros 


Mais uma vez a previsão metereológica indicava muito sol para aquele dia.

Diante disto, resolvi sair o mais cedo possível, como forma de minorizar o efeito dos raios solares, pois, certamente, aportaria ao destino “com o astro-rei” quase à prumo.



Convém salientar que a noite fora tumultuosa, posto que havia um Encontro de Médicos-Veterinários sendo realizado na cidade.

E todos estavam hospedados no mesmo local que eu. Pelo que fiquei sabendo através do porteiro noturno, eles retornaram de um churrasco bastante “alegres”, aportando ao hotel por volta das 21 h, quando eu tentava conciliar o sono.

A partir dali iniciou uma sessão de “tortura” para meus ouvidos: gritos, assobios, batuques, música alta e outras ruidosas brincadeiras, que se estenderam até às 2 h da madrugada.

Assim, praticamente, não dormi e às 3 h já estava em pé, preparando-me para a etapa do dia.

Depois, calmamente, ingeri o café que o Sr. Thomás preparou e, exatamente, às 5 h eu deixava o hotel, seguindo por ruas desertas, naquela hora de silêncio e sono, em direção à igreja matriz da urbe.




Ali pude exteriorizar minhas orações matinais, ainda que do lado externo.

Aproveitei ainda para fotografar o singelo Portal do Caminho da Fé, que foi edificado no paço fronteiriço ao templo.

Depois prossegui por ruas ascendentes até aportar no trevo viário da cidade, localizado na rodovia SP-253.

Estava tudo escuro ainda e o céu límpido e brilhante encontrava-se salpicado por cintilantes estrelas.

Obedecendo às orientações, segui à direita pelo acostamento, no sentido contrário ao fluxo de veículos, sempre em contínua ascensão.

Enquanto vencia longa elevação, lentamente, a madrugada principiou a raiar preguiçosa, com pálida claridade, e à primeira mostra do dia, trouxe-me uma sensação de alívio.




Depois de 6 quilômetros percorridos, com o dia já translúcido, entrei à esquerda, numa larga e plana estrada de terra, e segui, então, em meio a extenso bosque de eucaliptos.




Mais à frente a paisagem mudou e passei a caminhar, alternadamente, entre canaviais e fazendas de criação de gado.

Por sinal, surpreso, nesse trecho, observei na Fazenda Rincão, à minha direita, uma grande plantação de pés de café, com os frutos maduros, já em ponto de colheita.




Depois de 10 quilômetros percorridos, passei ao lado de uma casa, onde três cães encardidos e com olhos ramelentos, porém amistosos e carentes por um afago, vieram alegremente me desejar bom dia.

Na residência, embora fechada, pude ouvir a TV ligada num canal religioso, transmitindo a missa dominical.



A partir dali, iniciou-se breve descida e logo, dentro de agradável bosque, transpus um rumoroso riacho sobre uma ponte. 

Depois de breve ascenso, adentrei outro extenso bosque de eucaliptos e por três quilômetros transitei em meio a árvores altas, que ao obstar os raios de sol propiciavam uma caminhada refrescante, plena de fragrâncias olorosas. 

Contudo, o caminho seguia, ainda que de maneira leve, sempre em contínua ascensão. 

Catorze quilômetros percorridos, finalmente, saí do bosque e encontrei uma grande e larga estrada de terra, bastante movimentada naquele horário. 

Seguindo as flechas, virei à direita e logo deixei essa via, adentrando à esquerda, em meio a um mirrado canavial. 

Depois de meia hora, labutando em meio a dificultoso areal, fleti à esquerda, e encontrei um caminho de terra bem demarcado, com bastante sombra e muitos pássaros a gorjear. 

Iniciou-se uma longa e agradável descida, com belas paisagens por ambos os lados.




Quase no final dessa extensa ladeira, passei em meio a um curral e algumas casas, onde poderia, se estivesse necessitado, conseguir água.

O descenso se encerrou, depois de 17 quilômetros percorridos.

Era 9 h, quando então transpus um encorpado riacho.

O local, agradavelmente arborizado, convidava a fazer um descanso.

E foi essa a decisão que tomei, aproveitando para lanchar e me hidratar, pois o calor era insuportável.

Enquanto degustava alguns pães-de-queijo que trouxera na mochila, matutava sobre a vida magnânima do Conde Francisco Matarazzo, que residira por muitos anos, numa fazenda situada próximo do local onde me encontrava.

Na verdade, sua vida foi um exemplo de trabalho e dignidade, pois, assim como meus avós paternos e maternos, também era um imigrante italiano pobre, e sua história merece ser lembrada.




Nascido em uma pequena vila do Sul da Itália, 1.854, numa família antiga da região, Francesco, em 1.881, aos 27 anos, imigra para o Brasil em busca de melhores condições de vida. No desembarque, na Baía de Guanabara, perde a carga de banha que trazia.

Com o pouco dinheiro que lhe sobrara se estabelece na cidade de Sorocaba no comércio de secos e molhados.

Alguns anos depois estabelece uma empresa de produção e comércio de banha de porco.

Em 1.890, muda-se para São Paulo e funda, com os irmãos Giuseppe e Luigi, a empresa Matarazzo & Irmãos.

Diversifica seus negócios e começa a importar farinha de trigo dos EUA.

Giuseppe participava da empresa com uma fábrica de banha estabelecida em Porto Alegre e Luigi com um depósito-armazém estabelecido na cidade de São Paulo.



No ano seguinte, a empresa foi dissolvida e constituiu-se em seu lugar a Companhia Matarazzo S.A. que já conta com 43 acionistas minoritários.

Essa sociedade anônima passa a controlar também as fábricas de Sorocaba e Porto Alegre

Em 1.900, a guerra entre a Espanha e os países centro-americanos dificulta a compra do produto e ele consegue crédito do London and Brazilian Bank para construir um moinho na capital.

A partir daí, seu império se expande rapidamente, chegando a reunir 365 fábricas por todo o Brasil.

A renda bruta do conglomerado é a quarta maior do país, e 6% da população paulistana depende de suas fábricas, que, em 1.911, passam a se chamar Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo (IRFM), uma sociedade anônima.

Sua estratégia de crescimento segue o lema "uma coisa puxa a outra". Para embalar o trigo, monta uma tecelagem. Para aproveitar o algodão usado na produção do tecido, instala uma refinaria de óleo, e assim por diante.



Francesco Matarazzo não pertencia à nobreza italiana nem à de outros países da Europa, tendo emigrado para o Brasil em busca de melhores condições de vida.

Aqui, enriqueceu acumulando uma fortuna bilionária, e em reconhecimento à ajuda financeira e demais mercadorias que enviava à Itália durante a Primeira Guerra Mundial, em 1.917 recebeu do rei Vitor Emanuel III o título nobiliárquico de conde.

Em 1.928 participou da fundação do Centro das Indústrias de São Paulo (atual FIESP).

Morreu na capital paulista, em dezembro de 1.937, após uma crise de uremia, na condição de homem mais rico do país, possuindo uma fortuna avaliada em 10 bilhões de dólares.



O sol já crestava com violência, quando principiei a subir pelo lado oposto.

Logo acima, observei uma grande placa afixada à minha direita, informando que, a partir daquele marco, se iniciava a Rodovia Municipal Esdras Wilson Wiezel.

Em sequência, por uma via ensolarada, sem sombras, e ladeado por grandes fazendas de criação de gado, sempre em contínua e dura ascensão, prossegui por mais 3 quilômetros, até aportar num local amplo, onde cruzavam inúmeros caminhos vicinais.

Seguindo as flechas amarelas, prossegui pela estrada mais larga e em seguida, retornaram os canaviais.

Para complicar, o tráfego de veículos tornou-se intenso, certamente em direção às várias fazendas existentes ao derredor.

Também, por ser um domingo, muitos se dirigiam à cidade para diversão, e vice-versa. 



Infelizmente, a cada carro que passava, uma nuvem de poeira cobria o horizonte, obrigando-me a respirar com dificuldade e lançar mão de um lenço para minorizar o efeito do pó em meus pulmões.




Finalmente, às 10 h 30 min, reencontrei a rodovia SP-253 e, seguindo a sinalização, dobrei à esquerda e, por uma rua de terra, paralela ao asfalto, segui até o trevo de acesso à cidade.

Prossegui adiante, e depois de mais um quilômetro percorrido, encontrei uma moderna ciclovia, prosseguindo então sobre um piso empedrado até a Rotatória João Gentil.

Ali acessei a Avenida Presidente Vargas, que segue em direção ao centro da cidade.

E logo acima, no número 730, encontrei o Hotel Malim, local em que fiquei hospedado.

Santa Rosa do Viterbo, atualmente, com pouco mais de 23.000 habitantes, foi fundada em 1.883, como distrito de São Simão, do qual se emancipou em 1.910.

A história conta que o município se formou à beira do Córrego da Lagoa, em terras doadas por um casal de fazendeiros.

Eles ofereceram as terras a Nossa Senhora e compraram a imagem da Santa de um mascate turco que passava pela cidade.

Quando levaram a imagem para benzer em Cajuru, município vizinho, o padre levou um susto, pois a objeto sacro representava Santa Rosa de Viterbo.

Eles tinham sido enganados pelo mascate, que não dispondo da escultura pretendida, entregou outra. E assim ficou.




Só que a Santa Rosa de Viterbo não é propriamente uma Santa, porquanto não foi canonizada.

Na verdade, era uma jovem que fazia milagres na Itália, região de Viterbo, e o povo italiano passou a idolatrá-la como tal.

A cidade tem uma qualidade de vida invejável, pois possui o maior parque industrial da região, além de usinas de açúcar e álcool, fábricas de ácido cítrico, papel e embalagens, sabonetes e outras, todas localizadas nas terras da antiga Usina Amália, além de um comércio local forte e atuante.

Por sugestão do atendente do hotel, o Sr. Roberto, fui almoçar bem próximo do local de pernoite, no restaurante Divino, o qual recomendo.

Depois de uma bela sesta, fui conhecer o centro da urbe, bem como sua bela igreja matriz que, para variar, se encontrava fechada.

E foi ao lado do templo, bem perto do marco inicial do Caminho da Fé, que o jovem Francisco Matarazzo escolheu para construir um belo palacete, de onde administrava suas 365 empresas.

É de se ressaltar que até ser adquirida, em 1.920, a fazenda pertencia a Henrique Dumont, pai do inventor do avião, Alberto Santos Dumont.

Hoje, quem passa pela praça Mariah Pia, no coração da cidade, ainda vê o portão, trancado a cadeado e escoltado por dois leões de metal, que delimita o início da estrada àquela herdade. Em tempo: o palacete é uma das poucas partes da Fazenda e Usina Amália que ainda pertencem aos Matarazzo.




À noite estava no “hall” do hotel assistindo o jogo de futebol, entre Santos e São Paulo, quando, alegremente, travei contanto com o Sr. Rui, um representante e vendedor de insumos agrícolas que, por obra do acaso, contou-me que no dia imediato, iria à praça na cidade de Tambaú.

Como o percurso seguinte seria por demais longo, fiz-lhe um pedido, prontamente aceito: que levasse o material que eu portava na mochila, deixando aos cuidados do Hotel Tarzan, local onde eu havia feito reserva.

Dessa forma, eu poderia caminhar mais leve e tranquilo, portando apenas elementos essenciais para essa etapa, como água, lanches e frutas.

Cumpre esclarecer que no site do Caminho da Fé há notícia da existência de uma pousada na metade do percurso, a Estalagem do Sobreira, na Fazenda São José.

No entanto, eu tentara contato com os proprietários, inúmeras vezes, discando o números dos telefones lá disponibilizados, porém, não obtive sucesso.

À noite, aproveitei para lanchar em um bar próximo e em seguida retornei ao hotel para repousar, pois a jornada seguinte seria por demais pesada.

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada normal, com algumas ladeiras importantes a serem sobrelevadas. Porém, com belos visuais e, afora o derradeiro trecho, com bastante sombra no percurso. No total, são 18 quilômetros em terra e 9 em pavimento, contando com 3 “tops” bem distintos.


3º dia – SANTA ROSA DO VITERBO à TAMBAU – 40 quilômetros



Novamente a previsão indicava muito sol para aquela segunda-feira, de forma que cumpri a rotina dos dias anteriores. Qual seja, levantei às 4 h, ingeri um café básico que o porteiro noturno, o Sr. Ademir, havia preparado e, pontualmente, às 5 h, iniciei minha jornada.




Assim, observando a sinalização do roteiro, segui calmamente em direção à rotatória João Gentil.

Apesar do horário, um bom número de pessoas já se movimentava pelas ruas, possivelmente, “rurais”, que iriam trabalhar no corte da cana, posto que a safra recém se iniciara.

Em seguida, acessei a ciclovia que segue paralela à rodovia SP-253 e na primeira bifurcação, segui à esquerda, pela rua Alexandre de Angelis, por caminho de terra, ainda sob o brilho da iluminação urbana.

Um quilômetros depois, acessei uma estrada municipal, a SRV-030 Hani Moussa Debi, um largo e plano caminho em terra batida, e por ali fui utilizando minha potente lanterna.

Ao longe, galos já rompiam seu canto peculiar em saudação ao novo dia, enquanto a madrugada ensaiava seus primeiros clarões.




O clima estava fresco, o céu límpido e coalhado de estrelas, o piso bastante firme, de forma que pude caminhar num ritmo constante e sem preocupações.

Às 6 h, depois de percorrer 6 quilômetros, passei pelo bairro do Nhumirim sob piso asfáltico, onde encontrei tudo deserto e silencioso.

Este local abrigou antigamente uma importante estação ferroviária, hoje porém, desativada.

No final da rua fleti à esquerda e, em sequência, passei defronte a igrejinha dedicada à Santa Rita, padroeira desse distrito.

Logo findou o calçamento urbano e retornei ao chão de terra, seguindo à esquerda, por larga estrada situada entre imensos canaviais.

Curti, sem atropelos, o gostoso frescor da manhã.

Um perfume delicioso de flores silvestres e resinas brotando dos troncos intumescidos inundava o ar, misturando-se ao pipilar da passarada no alvoroço do amanhecer.

Predicativos que só quem vivenciou tal deleite pode mensurar o tamanho da felicidade que inunda o coração do caminhante nesses indeléveis momentos.




Mais à frente, passei defronte a entrada para a Fazenda Planalto, no instante em que o sol principiava a nascer.

Logo adiante, num grande cruzamento, obedecendo as flechas sinalizadoras, fleti à direita e segui por dentro de um bosque de eucaliptos, na direção da Fazenda Santa Rita.

Prossegui, depois, por um caminho estreito, ladeado de árvores com copas entrelaçadas, que não permitiam a entrada da luz.

Minutos depois, a claridade se infiltrou pelas ramagens superiores, deixando tudo claro novamente. Mais adiante, numa clareira, dobrei à esquerda e passei sob um grande pé de jatobá.

O percurso continuou por estrada bastante arborizada, até que, às 7 h, depois de 12 quilômetros percorridos, teve início severo descenso, entre duas grandes serras, onde o forte é a criação de gado e, em locais mais acidentados, há plantações de café.




No final da descida, prossegui caminhando num grande planalto, situado em local de muita água, ladeado por imenso matagal.

O ar gostoso, com cheiro de capim gordura, entrava pelas narinas, na manhã fresca, orvalhada e de céu a se abrir claro, prenunciando, como previsto, dia de sol em ardência.




Num arvoredo próximo brincavam chupins e algumas maritacas, em palreado barulhento, picavam um cacho maduro de um coqueiro alto, fincado num barranco fronteiriço.

Numa curva, à frente, surpreendi um grande gavião carcará caminhando garbosamente pela estrada, certamente à caça de sua refeição matinal.

Nesse trecho observei, de tempos em tempos, inúmeros bandos de tucanos se deslocando pelo firmamento, assim como centenas de tirivas e maracanãs.

Esse local deve ser um imenso santuário ecológico, tamanha a diversidade de pássaros que vi pelas árvores confluentes ao caminho.

Mais adiante, após percorrer 15 quilômetros, passei diante da porteira da belíssima Fazenda Santa Rita, onde notei diversas construções, todas caprichosamente edificadas, tendo uma grande serra à guarnecê-las, pela retaguarda.




A partir desse marco, iniciou-se pronunciado ascenso em direção ao topo do morro, e num cruzamento, as setas amarelas recomendavam seguir à direita, em direção à Fazenda São José.



Logo adiante, iniciou-se grande descida.

Enquanto tentava me equilibrar, em vista das pedras soltas no piso, encontrei 2 cães da raça “Beagle”.

Eles que vinham subindo pelo caminho, imediatamente mudaram de direção e seguiram-me alegremente até chegar à Estalagem do Sobreira, que está localizada dentro da Fazenda São José. Ali aportei, exatamente, às 8:15 h, depois de percorrer 19 quilômetros.

O lugar me pareceu extremamente deserto, porém, apesar do silêncio reinante, consegui localizar um funcionário ordenhando as vacas, num curral próximo.

Depois que me apresentei, ele contou-me que os proprietários se encontravam ausentes e que já a algum tempo não apareciam no local.

Acrescentou, ainda, que a mais de 10 dias não passava ninguém a pé ou andando de bicicleta, em direção à Tambaú.




Solicitei água e ele gentilmente indicou-me uma torneira, onde pude saciar minha sede à vontade, além de repor o precioso líquido nas garrafas plásticas que levava.

Em seguida me despedi, pois não queria atrapalhar sua faina.

Prossegui, então, em direção a um portão de ferro.

Depois de transpô-lo, segui por uma trilha agreste em direção à Fazenda Madrinha Maria.

Defronte à entrada dessa propriedade virei à esquerda e, mais à frente, passei grande dificuldade para transpor outra porteira, pois a mesma estava fechada com várias voltas de uma corrente.

Assim, cautelosamente, ultrapassai o obstáculo, trespassando meu corpo por dentro uma cerca de arame farpado.

Porém, o pior estava por vir, pois 500 m à frente existe outra porteira e, logo depois, impetuoso rio.

A ponte que permitia a passagem pelo caudal fora destruída, certamente, pelo poder das chuvas ocorridas no início do ano.

Nesse local, existe um desvio sinalizando à direita, obrigando o trânsito dos peregrinos prosseguir por um roteiro alternativo, até que esse entrave seja sanado.



O acesso se faz escalando um barranco fortíssimo, quase em sentido vertical, tangenciando uma cerca.

Depois, através de uma portão de ferro, adentrei a um pasto e prossegui subindo em direção a um bosque, onde consegui ultrapassar o endiabrado riozinho, por uma ponte de madeira, bastante desconjuntada.

A partir dali, segui ainda subindo em direção a um curral onde, após transpor uma porteira situada em sua lateral, deixei a fazenda seguindo, sempre em grande ascensão rumo à uma solitária capelinha.

Após deixá-la, à minha direita, prossegui ainda em terrível ascensão e, quinhentos metros acima, extremamente fatigado, acessei uma larga estrada de terra, plana e arborizada.

A partir desse marco, com o sol já queimando a valer, passei a caminhar num grande planalto, por um caminho extremamente fresco e sombreado.

Nesse pique, atravessei dois grandes bosques e, num grande cruzamento fleti à esquerda, seguindo em direção à fazenda 2D.




Mais adiante, depois de atravessar densa faixa de mata, vi-me em dilatados campos verdejantes, que se perdiam no horizonte.

Ligeiras elevações de quando em vez interrompiam a monotonia do ambiente.

Depois de ultrapassar o Sitio Anita, caminhei dentro de um grande bosque de eucaliptos.

Quando este se findou, uma surpresa agradável me aguardava.




Do meu lado direito estendia-se um enorme laranjal, com milhares de frutas, no ponto de colheira.

Primeiramente, pedi licença a um senhor que trabalhava na limpeza da plantação.

Depois, meu afiado canivete entrou em cena.

Assim, enquanto caminhava, fui descascando e ingerindo o saboroso suco natural.

Creio que no total foram mais de 20 frutas consumidas, as quais, em face do mormaço reinante e a sede opressora, propiciaram-me imediato bem-estar.

Prosseguindo, depois de caminhar 28 quilômetros, encontrei outra grande plantação de laranjas.

Máquinas barulhentas faziam a colheita dos frutos, mas diante de tanta fartura não pude resistir, e aproveitei para saborear algumas delas, que serviram para reabrandar minha sede, vez que o sol escaldante e o calor insuportável, já principiavam a incomodar.

Mais abaixo, quando iniciou uma extensa plantação de feijão, segui em direção à Fazenda da Paz, passando defronte seu portão.

Prossegui, então, costeando a cerca de suas divisas por uma estrada extremamente arenosa.




Foi, de longe, o trecho com mais areia que encontrei em todo o percurso.

Demorei 30 min para conseguir vencer apenas 2 quilômetros, motivado pela dificuldade de locomoção, pois, mais patinava que caminhava.

Por sorte, esse trecho era integralmente sombreado.

Nesse local, face a colheita recente da cana, nadava no ar um cheiro de mato ressequido, poeira e queimada.

Mais à frente, depois de 32 quilômetros percorridos, enquanto caminhava pela sombra, rente a uma fileira de frondosos eucaliptos e no topo de uma elevação, pude avistar, ao longe, esparramada num grande vale, minha meta para aquele dia.

Tambaú é considerada a “Cidade da Cerâmica”.

E não é por menos, posto que apesar da distância, consegui distinguir centena de chaminés fumegantes, porquanto lá existem mais de 100 empresas instaladas que se dedicam, exclusivamente, à fabricação de tijolos, telhas, lajes, elementos vazados, tubos, pisos, revestimentos, etc. 




Mas ela é também conhecida nacionalmente como a terra do Padre Donizetti, que lá faleceu em 16 de junho de 1.961.

Embora fosse natural de Santa Rita de Cássia/MG, onde nasceu em 03 de janeiro de 1.882, passou os últimos 35 anos de sua vida nessa cidade.

A ele são atribuídos inúmeros milagres.

O primeiro deles ganhou fama rápida, quando curou as pernas cheias de feridas de um vendedor-ambulante de vinho.

O homem tratou de contar o acontecido aos comerciantes das cidades vizinhas, e em poucos dias os romeiros começavam a afluir à cidade para receber as bênçãos do padre taumaturgo.

Num curto espaço de tempo ocorreram outra curas, de forma que sua fama de milagreiro aumentou gradativamente e, por consequência, o número de romarias.

Segundo consta nos jornais da época, em um único dia a povoação chegou a receber cerca de 350 mil pessoas em busca de suas bênçãos.



Com a súbita fama conquistada, a vida dos tambauenses saiu da rotina e se transformou num verdadeiro caos.

Não existiam acomodações suficientes para tantos fiéis.

A cidade que contava até então com cerca de 9.500 habitantes, possuía apenas uma pensão e um pequeno hotel.

As indústrias de cerâmicas paralisavam a produção, pois não havia como se locomover na cidade.

Os trens vinham lotados da capital e as estradas de rodagem, que na época eram quase intransitáveis, apresentavam um volume de tráfego surpreendente e caótico, registrando-se filas de quase 20 quilômetros de caminhões, que conduziam romeiros de menos posses.

Muitas pessoas aumentavam a renda familiar alojando visitantes em suas residências, convertendo-as do dia para noite em pensões.

Além dos romeiros, a cidade também foi invadida por vendedores de artigos religiosos, provindos de outras regiões do estado.

O abastecimento de água potável e o suprimento de alimentos eram insuficientes.

Diante da situação caótica, o prefeito da época, Sr. José Roberto Pereira, viu-se perdido em meio às reclamações da população e dos romeiros e, em 1955, chegou a decretar estado de calamidade pública.

Conforme relata o Jornal “A Noite”, do dia 3 de março de 1955, um dos casos mais impressionantes das histórias de cura atribuídas ao padre Donizetti, ocorreu com um garoto paralítico.



Os pais do menino José Alexandre Braga, de cinco anos, o levaram do norte de Minas Gerais para Tambaú, a fim de tomar a benção do vigário, no intuito de curá-lo da paralisia que acometera suas pernas.

O menino se locomovia com grande sacrifício, a pequenos passos, e com a ajuda de um aparelho ortopédico.

A mãe enfrentou a fila da multidão até chegar ao padre Lima, que fez uma oração e, inclinando-se, fez um sinal da cruz na testa da criança.

Em seguida, pediu à mãe que retirasse o pesado aparelho da criança e ordenou ao menino que andasse.

O garoto caminhou vagarosamente entre os olhares atônitos da multidão e voltou para sua terra natal sem o aparelho, que foi doado à igreja local.

Conforme citado no jornal supra, uma junta médica, composta por 3 competentes profissionais, atestou que Alexandre era portador de um processo agudo de articulação coxo-femural direita, que foi realmente sanado após da benção do Padre.



Sua derradeira aparição pública aconteceu em 30 de maio de 1955.

Após esta data, ele precisou se recolher por ordens superiores e aceitou a proibição sem se revoltar.

Mesmo assim, creditam a ele muitos milagres que aconteceram após o seu retiro e mesmo depois de sua morte.

As histórias e estórias dos milagres do Padre Donizetti também povoam o imaginário dos habitantes da cidade.

Dizem que o menino Edson Arantes do Nascimento, o PELÉ, esteve na cidade em 1955.

Estava junto de seu genitor na praça lotada de romeiros que ouviam o sermão do padre, quando este disse: "há aqui um menino acompanhado de seu pai, que um dia se tornará um atleta não só conhecido no País, como em todo mundo".

Outra história, porém confirmada pelo próprio protagonista, é a do economista da Rede Globo, Joelmir Betting.

Depois de tomarem sopa de quiabos na Casa Paroquial, o padre pegou a mão do garoto e juntos rezaram um Pai Nosso em voz alta.

Nunca mais o futuro jornalista gaguejou e pode, finalmente, ser aceito na escola, a qual o recusava por causa de sua deficiência oratória.

Ele é natural de Tambaú e foi, inclusive, coroinha do Padre Donizetti, seu guia espiritual.




Minhas tergiversações se encerraram quando, mais adiante, teve inicio pronunciado descenso que fui vencendo, primeiro, caminhando junto a um bosque de eucaliptos. Depois, mais abaixo, ladeado por canaviais.

Enquanto me deslocava, ia observando a triste paisagem ao redor que a soalheira castigava, face a demorada estiagem.

Em sequência, numa grande baixada, encontrei uma movimentada estrada municipal e nela, fleti à direita, seguindo em meio a muito poeira, pois o tráfego de caminhões naquele horário era intenso.

E, no final de uma grande subida, depois de 38 quilômetros percorridos, adentrei em zona urbana, seguindo a partir desse local, por piso asfáltico.

Finalmente, depois de percorrer ainda um bom trecho citadino, sempre por movimentas ruas e sob sol intenso, aportei ao Hotel Tarzan, localizado ao lado do belíssimo Santuário de Nossa Senhora Aparecida, exatamente, às 12 h 08 min.

Após merecido e reconfortador banho, fui almoçar próximo dali, no Bar do Geninho, onde a comida caseira e a extrema gentileza do proprietário fazem a diferença.




À tarde, aproveitei para descansar e, quando o calor deu uma trégua, fui rever a Casa dos Milagres e a Secretaria de Turismo do Município, local em que minha credencial foi carimbada.

E, no dia seguinte, após visitar no cemitério local o jazigo onde se encontra sepultado o Padre Donizetti, retornei ao meu lar.


IMPRESSÃO PESSOAL – Uma das etapas mais difíceis de todas que já trilhei, mormente pela distância a ser suplantada nesse roteiro e face ao calor reinante naquele dia. Outro grande entrave a ser superado são os intermeios arenosos, que nessa jornada ocorrem à profusão. No global, um roteiro bastante deserto e silencioso, ladeado de belas paisagens, além de ter muita sombra. Em minha opinião, o trecho mais complicado de todo o trajeto se situa logo depois da Fazenda Mãe Madrinha, na metade do percurso, onde são imprescindíveis garra e superação para vencer os obstáculos ali presentes, sem descuidar da incipiente sinalização, sob pena de não encontrar o rumo a seguir.


FINAL




Ao encerrar mais uma jornada peregrina, observo que toda “viagem”, ainda que de reduzida amplitude, como essa que fiz, é uma ótima oportunidade para reciclar sentimentos, professar a fé, além de proporcionar a oportunidade única de conhecer novos lugares e fazer amizades.

Apesar desses atrativos, já dizia Sófocles - partir rumo ao desconhecido pode ser algo assustador.

Porém, para quem tem na alma a inquietude do vento e a crença na Mãe Maria, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a peregrinação.

Por derradeiro, cumpre ressaltar que o Ramal Noroeste do Caminho da Fé se encontra muito bem sinalizado.

Diria mesmo que é praticamente impossível se perder nesse roteiro, mesmo caminhando sozinho.




Ainda assim, tomo a liberdade de sugerir ao peregrino portar o “Guia do Caminho da Fé”, como eu fiz.

Recomendo esse opúsculo editado pelo cicloculturista Antonio Olinto (www.olinto.com.br), pois ele trás informações valiosíssimas sobre todo o percurso abrangido pelo Caminho, além de conter dados extremamente confiáveis sobre quilometragem, altimetria, informações turísticas, etc...

“A força mais potente do universo? A fé!” (Madre Teresa de Calcutá)


Bom Caminho a todos!


maio/2010