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3 - LUMINOSA à CAMPISTA


3 - LUMINOSA à CAMPISTA – 17 quilômetros 

            

                A jornada seria dura e áspera, pelo menos era o que informava o guia que tinha em mãos, bem como pelo que eu ascultara entre as pessoas da localidade.

             Isto porque, em 16 quilômetros eu precisaria vencer uma ascendência de 1.081 metros, porquanto Luminosa está a 890 m acima do nível do mar e eu chegaria, lá quase no final da jornada, a uma altimetria de 1.806 m, num ponto situado próximo ao meu lugar de pernoite.

             Não por acaso, esse trecho tem sido compulsoriamente “amaldiçoado” por todos os caminhantes pela sua rudeza e extrema aclividade.

         Assim, levantei às 5 h e, meia hora depois eu desci tomar café na cozinha da pousada, onde Dona Ditinha já coava um líquido escuro, cheiroso e espesso, que ingeri acompanhado de frutas e torradas.

         Depois das despedidas, parti exatamente às 6 h, quando o dia ainda não estava de todo claro, porém a luminosidade ambiente permitia que eu localizasse as flechas sinalizadoras sem maiores problemas.

         Assim que passei ao lado da igreja matriz eu girei à direita e acessei uma larga e plana estrada de terra que me conduziu, depois de uns 2 quilômetros, a uma bifurcação interessante: se seguisse à esquerda, prosseguiria pelo itinerário do “Caminho de Frei Galvão”, em direção à cidade de Piranguçu.

             Porém, obedecendo ao sentido do Caminho da Fé, segui à direta.

             A manhã se apresentava fria, com pesadas nuvens encobrindo inteiramente as montanhas que se projetavam à minha frente.


  E, mais adiante, depois de uma curva, eu avistei um trabalhador rural que caminhava à minha frente, a uns 200 metros.

            Logo o alcancei e prosseguimos juntos conversando, enquanto lentamente principiávamos a ascender em direção ao topo de um grande morro.

            O simpátivo homem se chamava Donizetti e ia trabalhar numa plantação de bananas, o forte da região.

  Em rápidas pinceladas, ele me contou sobre sua vida ali, bem ainda de sua duríssima lida.

  Durante nossa agradável conversa, emergiu um fato interessante ocorrido há quase 20 anos atrás.

  Época em ele residira em São José dos Campos, e fora à Itu, minha terra natal, num domingo, para assistir ao jogo de futebol entre o São José e o Ituano, sendo que valia pelo título da 2ª divisão.

  O resultado favoreceu ao time de sua cidade.

            É certo que na ocasião, por coincidência, eu estivera nesse evento, que data de 1.992, qual seja já habitáramos num mesmo local e espaço, ainda que por poucas horas.

  Apenas não havíamos nos conhecido pessoalmente, em face da rivalidade dos times e a multidão presente no estádio.

  Mais uma prova de que o mundo é efetivamente pequeno e deveras surpreendente.

            Num patamar acima nos despedimos e ele ultrapassou a porteira de um sítio, situado à minha esquerda e seguiu em direção a uma lavoura localizada na extremidade do morro que eu estava galgando.

            Prossegui subindo e logo alcancei outro trabalhador, “seu” Benedito, que estava acompanhado de seu fiel escudeiro, o cão Lupi.

            Trocamos algumas palavras, mas logo ele entrou no bananal em frente e eu prossegui minha jornada.


            A trilha se tornou levemente pedregosa e depois de quatro quilômetros vencidos, cheguei à Pousada de Dona Inês, um lugar fresco, tranquilo e cercado de muito verde, situado a 1.200 m de altitude.

            Por ali tudo era silêncio, apenas uma cadela que estava deitada no terreiro veio me dar boas vindas.


            Defronte a casa existe um pequeno paredão em pedra, onde foram construídos alguns nichos, e neles insertas imagens de santos.

  No centro da edificação, em local de destaque, a de Nossa Senhora Aparecida, a quem pude orar e externar minha gratidão por estar com saúde e animado naquele dia.

  Como não ouvi movimentação dentro da construção e também não pretendia acordar o pessoal, resolvi seguir adiante.

  Logo acima a senda se estreitou, enquanto eu pude visualizar os picos que me rodeavam, plenos de neblina naquele horário.

  Na sequência, transpus pequeno regato e, em seguida, uma porteira.

  Iniciou-se, então, uma íngreme encosta, de extrema aclividade, que fui vencendo paulatinamente, até superá-la com meu esforço e atitude positiva.

  A todo momento eu volvia meus olhos, e podia ver os locais por onde eu viera caminhando, bem como Luminosa, lá embaixo, encravada em meio às montanhas, já se despedindo de minha visão.

  No final da escalada, depois de transpor outra porteira, acabei saindo num local plano, onde avistei algumas habitações esparsas, quase escondidas pela nebulosidade que havia naquele local ermo e silencioso.


  Dali a vista era muito bonita e alcançava muitos quilômetros de distância.

  E ainda era possível ver parte da estrada que tinha percorrido durante a manhã.


  Eu estava caminhando pelo bairro rural de Quilombo e, mais adiante, eu passei defronte uma singela capela branca e prossegui à esquerda, agora em direção a uma nova elevação que surgiu à minha frente.

  Nesse local, uma espessa cerração cobria todo o meu entorno, a vegetação rasteira apresentava-se carregada de orvalho e o ar visivelmente frio.

  Foi essa, sem dúvida, a parte mais difícil do percurso, pois o nível de aclividade nesse trecho chega a ser quase de 50 graus.

  Finalmente, no topo da elevação, a 1.650 m de altitute, eu passei a caminhar por dentro de um grande bosque de eucaliptos e araucárias, uma das espécies de maior densidade nesse trecho.

  Sempre subindo, segui em meio a uma floresta verdejante, ouvindo o cantar mavioso dos pássaros e o barulho do vento que, de vez em quando, açoitava os ramos das árvores.

  Das altas copas, pingavam abundantemente as lágrimas do orvalho noturno.

  Interessante, desde que deixara meu amigo Benedito no terceiro quilômetro daquela etapa até aquele local, não encontrara e nem avistara nenhuma pessoa no caminho.


  Mais um quilômetro percorrido, a mata pareceu-me um grande edifício de telhado verde e colunas de troncos de árvores a orlar a estrada.

  Nesse trecho, pairava uma estranha quietude no ambiente que me envolvia, já que a densa folhagem amortecia todos os sons.


  Às 8 h 30 min, depois de sobrepujar mais uma elevação, acabei saindo diante de um muro pedrado, onde uma placa avisava ser ali a divisa dos Estados, sendo que Minas Gerais ficava à minha direita.


  Assim, após fazer breve pausa para hidratação e descanso, prossegui à esquerda, e retornei definitivamente ao meu Estado natal.

  O trajeto manteve-se fresco e agradável, pois eu estava caminhando a 1.700 m de altitude, num local onde minha vista alcançava grandes distâncias, permitindo-me avistar do meu lado esquerdo, imensos maciços rochosos pertencentes a serra da Mantinqueira.

  Mais abaixo, já descendo, encontrei altaneiro, em meio à espessa mata um marco do Caminho da Fé, me avisando que daquele ponto faltava exatamente 100 quilômetros para eu chegar a minha meta maior: a Basílica de Nossa Senhora, em Aparecida.

  Isto me infundiu um novo ânimo, bem como teve o condão de aliviar meu cansaço e dores, porquanto a sequência foi por locais praticamente planos até que, finalmente, às 9 h, depois de percorrer 12 quilômetros, encontrei asfalto.

  Bastante tranquilo e satisfeito pelo meu rendimento até ali, fiz mais uma pausa para ingerir um lanche, bater fotos e me hidratar, pois o sol já estava quente, embora soprasse uma brisa fresca naquele lugar.

  Novamente refeito, segui à esquerda e logo, o condutor de um carro em baixa velocidade, que seguia na mesma direção, parou ao meu lado.

  Ali ficamos a conversar e ele me contou que ia a um pesqueiro próximo, onde passaria o dia se divertindo um pouco.


  Assim, o Sr. Hélio e eu palestramos durante algum tempo, e então contei-lhe sobre minhas aspirações e, principalmente o motivo de minha solitária caminhada.


  Depois, atendendo a minha solicitação, bateu algumas fotos e, em seguida, após calorosas despedidas, e ter seu oferecimento de “carona” recusado, seguiu adiante.

  Na sequência, prossegui subindo até o local em está situado o marco de 94 quilômetros para alcançar Aparecida.

  Ali ultrapassei o ponto de maior altimetria do Caminho da Fé, posto que naquele lugar eu estava a 1.810 metros de altitude.

  Então, a partir desse marco principiei a baixar e às 10 h eu adentrava à Pousada Barão Montês, local de meu pernoite naquele dia.

 Márcio, o proprietário do local, explicou-me que estávamos a 5 quilômetros do bairro Campista, pertencente a Campos do Jordão, e que sua propriedade, em verdade, está localizada no bairro Campos Serranos, pertencente a São Bento do Sapucaí.

  Depois de um reconfortante banho, dei uma longa volta pelo local e pude apreciar o rio que corta aquela chácara e a luxuriante mata nativa em seu entorno.

  Também pude brincar com o “Urso”, um alentado cão branco que faz a guarda do local.


  O Márcio e seu cozinheiro Zinho prepararam o almoço, que foi servido às 13 h, e do qual me fartei de tanto comer, pois os ingredientes eram saborosos e o gosto do tempero leve, o que faz bem ao meu estilo.


  Mais tarde, chegou uma peregrina de nome Akiko, residente em Salto de Pirapora, veterana do Caminho da Fé, e que havia pernoitado na pousada de Dona Inês.

  O local, como já me manifestei, é de expressiva beleza, pois está localizado em meio a um grande bosque, a 1.750 m de altura, longe da civilização, e o silêncio é seu componente principal, já que nos traz estímulos de paz e tranquilidade à alma.

   Em consonância, propicia uma maior introspecção ao peregrino exaurido, substâncias básicas para melhor análise das experiências vivenciadas e autoconhecimento.

  À tardezinha, fiquei vendo os últimos clarões do dia se esmaecerem no crepúsculo primaveril, descansando sobre uma cadeira na varanda, enquanto sentia o frescor da tarde.


  Enfim, ao meu redor pairava uma quietude de mimetizar o espírito.


4 - CAMPISTA à CAMPOS DO JORDÃO