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4 - CAMPISTA à CAMPOS DO JORDÃO


4 - CAMPISTA à CAMPOS DO JORDÃO - 21 quilômetros



              Pontualmente, às 5 h, me levantei, fiz minhas orações, depois um breve aquecimento e, às 5 h 45 min, deixei o local de pernoite em direção ao restaurante da pousada para tomar o café, como havia combinado com o Márcio.

          Para minha surpresa, tudo ali se encontrava escuro e, ainda, quase fui atacado pelo cão Urso, que devido à escuridão reinante e por enxergar com apenas um olho, não me reconheceu de pronto.

          Fiquei rodando pelas imediações, aguardando algum movimento na preparação do desjejum, mas quando meu relógio marcou 6 h, resolvi partir, mesmo sem ingerir alimento algum.

             Nesse instante, apareceu o Márcio, cara de poucos amigos, dizendo que estava atrasado, mas que em 30 minutos tudo estaria pronto e no seu devido lugar.

           Com calma, falei-lhe sobre o compromisso assumido no dia anterior, ademais, precisava chegar cedo a Campos do Jordão, onde necessitava sacar dinheiro, fazer alguns telefonemas e acessar internet, posto que não encontrara essas facilidades disponíveis nos três últimos pernoites.

            Depois, lembrei-lhe sobre o desvelo devido aos peregrinos, posto que essa deveria ser a preocupação maior naquele local, já que sua renda provém basicamente de uma boa acolhida aos caminhantes que ali aportam.

             Então, para não me aborrecer demais, dei meia volta, subi por uma estradinha de terra, acessei a rodovia e iniciei minha caminhada.

           Por sorte, ainda me restavam na mochila uma barra de chocolate e um pedaço de pão que não comera na jornada anterior, de forma que em face da contingência, esses alimentos me serviram de refeição matinal.


          Os primeiros cinco quilômetros, todos feitos em asfalto, foram em transloucada descida, ainda que o dia não estivesse clareado totalmente e o roteiro fosse abundantemente arborizado.

             Já no plano, atravessei diante do “Parque dos Lagos”, uma grande área dedicada ao lazer e hospedagem para turistas.

   Em seguida transpus o ribeirão dos Marmelos por uma ponte e alcancei o município de Campos do Jordão.

           Na sequência, fleti à direita e passei a caminhar pelo bairro Campista que naquele horário, salvo alguns trabalhadores transitando de bicicletas em direção ao labor, tudo o mais se encontrava deserto e silencioso.

            Mais ao centro do distrito passei diante de uma casa curiosamente decorada por milhares de latinhas de alumínio e, quase em seguida, obedecendo à sinalização, próximo a um campo de futebol, dobrei à esquerda, acessei uma agradável estrada de terra, e prossegui em meio a muito verde.

           O clima estava frio e úmido, o sol ainda não havia nascido, a vereda se encontrava em meio à mata nativa, enfim meu coração pulsava feliz, diante de tanta beleza e solidão, pois os únicos sons audíveis era o pipilar dos pássaros e o barulho do vento.

            Nessa toada, sempre em constante aclive, passei diante da entrada de várias propriedades rurais, todas silenciosas, até que, às 8 h, depois de percorrer 10 quilômetros, fiz uma pausa para hidratação e descanso.


            Nesse trecho observa-se uma reserva florestal, plena de araucárias.

            Não existe outra exploração econômica, a não ser extração de madeiras, tanto que notei a existência de duas serrarias, as quais, certamente, tem autorização do Ibama para funcionar  nesse local.

            É de se ressaltar que a área, como um todo, mantém a cobertura florestal muito bem preservada, não obstante, tenha observado próximo do acesso à cidade, a existência de inúmeras residências edificadas em meio à densa mata.

  Eu estava diante da entrada do sítio Aconchego, onde alguns cães de guarda fizeram uma tremenda algazarra, em face de minha presença no local, o que me obrigou a limitar meu repouso e, ato contínuo, prosseguir em frente.

          A partir desse ponto, a estrada se tornou larga e plana, e passei a caminhar sobre o topo de uma elevação, já conseguindo enxergar, à distância, alguns bairros periféricos de Campos do Jordão.

         Embora estivesse ainda transitando por estradas de terra, logo eu adentrei em perímetro urbano, passando defronte a inúmeros clubes, restaurantes, e condomínios residenciais.

         Enquanto ultrapassava os bairros Siomara e Pereiral, o tráfego também aumentou, e nesse trecho cruzei com inúmeras pessoas caminhando, além de ciclistas, charretes, cavaleiros, caminhões e alguns automóveis.

         Mais adiante, atingi o Condomínio “Vale Encantado”, onde passei defronte a belíssimas residências, certamente pertencentes a pessoas abastadas residentes na capital paulista, pois a maioria se encontrava fechada e deserta.

            Finalmente, depois de 15 quilômetros percorridos, adentrei em asfalto, porém, foram apenas por 1.000 metros, pois logo retornei a terra.

            Apesar da complexidade de ruas para se chegar ao centro da urbe, a sinalização nessa etapa está impecável, assim, não tive qualquer dificuldade em encontrar o rumo certo.

  No quilômetro 18, retornei ao asfalto definitivamente e segui por ruas largas e com trânsito incipiente até a Avenida Miráglia, já próximo do Refúgio dos Peregrinos, quando meu relógio marcava exatamente 10 h.


           Sabia que o albergue ainda não estaria aberto nesse horário, de forma que visando agilizar meus procedimentos na cidade, hospedei-me na Pousada Toco, onde pude auferir um belo desconto, quando demonstrei minha condição de peregrino.

            Por volta de 1.771, a coragem épica de Inácio Caetano Vieira de Carvalho, seguindo as pegadas do Oyaguara, subiu os degraus da Serra Preta, na Mantiqueira, em direção ao Pico do Itapeva, vindo de Taubaté, fixando-se com sua família durante 18 anos nos Campos da Mantiqueira.

  Fundou a Fazenda Bom Sucesso, requereu e obteve carta de sesmaria do Governador da Capitania de São Paulo e lutou bravamente para defender as divisas de São Paulo contra seu vizinho sesmeiro, João da Costa Manso, da Fazenda São Pedro, das bandas de Minas Gerais.

  Graças à sua luta, Campos do Jordão permaneceu paulista e Inácio Caetano Vieira de Carvalho levou para o túmulo a glória de ter sido o pioneiro desta, hoje, maravilhosa Estância.

  Com a sua morte em 1.823, seus herdeiros hipotecaram a sesmaria ao Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, que, mais tarde, adquiriu-a nas imediações do dia de Natal, pelo que o povo passou a chamar o lugar de Fazenda Natal e, logo em seguida, de Campos do Jordão, estando ai a origem do nome.

  Membro do Governo Provisório e diretor do Tesouro da Capitania de São Paulo, o Brigadeiro Jordão era cidadão ilustre, grande proprietário de herdades e figurou ao lado de D. Pedro quando do Grito do Ipiranga, no famoso quadro de Pedro Américo.


  Infelizmente, não chegou a conhecer as terras às quais emprestou o nome, e seus herdeiros retalharam suas posses, vendendo às porções, para diversos proprietários.

  Já a Vila Abernéssia foi fundada pelo escocês Robert John Reid, o agrimensor da divisão judicial da Fazenda Natal, e a Vila Capivari foi fundada pelos médicos higienistas Emílio Marcondes Ribas e Victor Godinho, que ali projetaram a Vila Sanitária em 1.911.

         Campos do Jordão localiza-se a 1.700 metros de altitude e pesquisas científicas acusaram a superioridade de seu clima em relação a Davos Platz, nos Alpes Suiços, bem como um teor de oxigenação e ozona superior ao de Chamonix, famosa estância francesa, pela pureza do ar.

  Além disso, apresenta vantagem sobre as demais estâncias climáticas brasileiras: o seu clima tropical de montanha faz com que o sol esteja presente praticamente o ano todo.

  Tanto que a luminosidade costuma atingir o seu grau máximo no inverno, quando então a temperatura chega a 5 graus negativos, embora já tenha atingido, no passado, a 18 graus abaixo de zero, no ano de 1.992.

            Depois de refrigerante banho, segui caminhando até o bairro Capivari, onde pude me prover de numerário, bem como acessar à internet e dar notícias as meus familiares e amigos.

            Após um grande giro pelo belíssimo complexo turístico situado nessa área, eu me sentei na Cervejaria Baden Baden e, merecidamente, pude ingerir o líquido mais famoso dessa notável casa: o chops Cristal.


            Mais tarde, almocei num restaurante situado nas imediações do Shoping Aspen e, em seguida, retornei à pousada para um merecido descanso.


            Quando, finalmente, o sol amainou, resolvi sair e dar uma outra volta na cidade.

  Então, segui à direita, em direção ao bairro Albernessia, onde está localizado o centro comercial e administrativo da cidade, e pude adquirir mantimentos para consumir na jornada seguinte.

            Depois, segui até o Refúgio de Peregrinos, a fim de carimbar minha credencial.

           Naquele maravilhoso local tive a satisfação de conhecer os simpaticíssimos Edson e Marilda, proprietários daquele estabelecimento, bem como a funcionária Bianca, atualmente a responsável pela parte operacional e atendimento aos peregrinos.

           Ali também encontrei a aguerrida turma de Descavaldo, com a qual já havia feito breve contanto na Pousada do Poka, em Estiva.

           Então, descontraidamente, pude conversar longamente e saber histórias desse pessoal de excepcional fé e simpatia, que na ocasião era composto pelo Romão, Freitas, Serginho, Regina, Esdras, Marcos, Tuca, Thiago, além do Paulinho Sagioratto, Secretário de Turismo da cidade e responsável pelo grupo, bem ainda o Marcelão, motorista do carro de apoio.


            Foram momentos de confraternização e grata lembrança, onde pudemos fazer algumas fotos e, principalmente, brindar nossa amizade com variadas histórias e uma descontraída conversa com todos que ali estavam hospedados.


            À noite, antevendo a longa e acidentada jornada que iria enfrentar na manhã seguinte, optei por uma frugal refeição, que fiz num barzinho existente próximo do local de meu pernoite.


            E logo me recolhi, pois apesar de já estarmos avançados na primavera, a temperatura estava na casa dos 11 graus centígrados, quando deitei.


 5 - CAMPOS DO JORDÃO a PINDAMONHANGABA