1º dia – ÁGUAS DA PRATA/SP a ANDRADAS/MG – 32 quilômetros


1º dia – ÁGUAS DA PRATA/SP a ANDRADAS/MG – 32 quilômetros


Peregrinação é o período em que o caminhante se desliga da monotonia, afasta-se do cotidiano para, introjetando-se em seu eu, recobrar forças para a vida espiritual.” (J. B. Abreu)


Mãe Aparecida, peço a vossa benção e proteção, sempre!

Eu iniciara o Caminho da fé em Sertãozinho, porém, por motivos pessoais de grande relevância, precisara retornar ao meu lar, depois de cumprir 8 jornadas e percorrer 261 quilômetros.

Dezoito dias depois, início do mês de julho, ratificando o compromisso que assumira com minha Mãe Aparecida, eu retornei a Águas da Prata numa terça-feira à tarde, e me hospedei na Pousada do Peregrino.

Quem me atendeu novamente foi a Tina, nosso “Anjo da Guarda” naquela localidade. 


Com a Tina, na Pousada do Peregrino, em Águas da Prata.

Ali já encontrei alojados outros 4 peregrinos, na verdade, dois casais, que iniciariam o caminho do dia seguinte. 


Com o Sr. Almiro Grings, o Fundador do Caminho da Fé, na Pousada do Peregrino, em Águas da Prata.

Conversamos longamente, trocamos experiências e conselhos, depois saí para lanchar num bar próximo.

Bem, como persistia sem chover há mais de 30 dias, e o sol estava candente, após as 10 h, resolvi sair bem cedo na manhã sequente. 


Antes de deixar a Pousada do Peregrino, em Águas da Prata, pedindo benção e proteção a Mãe Maria.

Assim, me levantei às 4 h, ingeri frutas, uma barra de chocolate e, no horário aprazado, parti para a aventura.

Deixei o local de pernoite às 5 h e, observando à sinalização, segui solitário em direção à saída da cidade. 


Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, localizada na saída de Águas da Prata.

E quando findou a iluminação urbana, fiz uso de minha excelente lanterna de “led” e prossegui em bom ritmo.

Por sorte, a fadiga muscular que se instalara depois da inatividade física forçada se fora e, para meu alívio, descobri que ainda estava em forma.

Naquele horário, a temperatura estava amena, e um vento frio soprava à minha retaguarda, como que tentando me empurrar em direção ao meu objetivo daquele dia.

Porquanto, o trajeto, até o seu 25º quilômetro, é sempre em perene e lenta ascensão.

Dessa forma, uma hora depois, 7 quilômetros vencidos, passei ao lado de uma igrejinha dedicada a São Jorge, que se apresentava com pintura recente.

Sobre ela existe uma história interessante que me foi contada pela Iracema, uma das fundadoras do Caminho da Fé, e gosto de sempre de repetir, pois trata-se de um autêntico milagre.

Um casal de médicos peregrinos ao passar naquele local, tempos atrás, fotografou o templo em ruínas, de vários ângulos.

Depois, ao revelar o filme, constatou, com enorme surpresa, que a pequena igreja aparecia nas fotos reconstruída e, ainda, com belos desenhos em seus vitrais.

Impressionado, entendeu ser aquilo uma mensagem celeste.

Por isso, solicitou ao proprietário da fazenda permissão para reformá-la.

E, assim, com recursos próprios, deixaram-na conforme se revelava nas fotografias.

O resultado final foi aquilo que contemplei embevecido.

Infelizmente, apenas externamente e sob a pálida luz da lanterna, porque, lamentavelmente, por razões de segurança, o local sacro permanece, quase sempre, inacessível à visitação.

Em razão disso, minhas preces foram proclamadas do lado de fora, ao ar livre, solicitando proteção na jornada. 


Caminho deserto e arejado. O sol ainda não havia nascido.

A manhã ia surgindo lentamente, pois ainda não era dia, mas a luz das estrelas se apagava e o céu rapidamente se iluminava.

Já amanhecendo, passei a caminhar em meio a montanhas, tendo um riacho rumorejante correndo pelo lado esquerdo. 


Início de forte ascenso.

A paisagem circundante achava-se ressequida, efeito da estiagem que vivenciávamos.

Superados 11 quilômetros, fiz uma pausa na “Ponte de Pedra” para descanso e hidratação.

O local é belíssimo, pleno de frondosas árvores, ar puro e, por sorte, a exuberante cachoeira que dá vida ao local se encontrava com dilatada corrente de água. 


Cachoeira na Ponte de Pedra, com muita água este ano.

Fato curioso é a torrente passar por debaixo de uma enorme pedra, que serve de ponte e estrada aos que seguem para uma fazenda próxima. 


Os ciclistas e peregrinos Luiz Fernando e Rodrigo fazem fotos.

Logo aportaram ao local 2 ciclistas que residem em Mogi Guaçu, o Rodrigo e o Luiz Fernando, que também haviam iniciado o caminho naquele dia.

Conversarmos sobre a jornada, batemos algumas fotos, depois eles fizeram uma pausa para hidratação. 


Trecho boscoso e fresco.

Já eu, animado, retornei a caminhar e mais à frente, passei defronte à estrada que dá acesso ao Pico do Gavião que, com seus 1.663 metros de altura, é considerado no “ranking” mundial o 4º melhor colocado para a prática de voo livre. 


Caminhando próximo do final do trecho boscoso.

Um pouco antes de chegar a esse local, fui suplantado pelos dois ciclistas guaçuanos que, por estarem em excelente forma atlética, pretendiam finalizar o caminho em 3 etapas apenas.

Naquele dia eles pretendiam pernoitar em Tocos do Moji, depois de percorrer aproximadamente 120 quilômetros. 


 Deixando a mata e caminhando em local mais aberto.

Realmente, um feito factível para poucos aficionados do cicloturismo. 


Acesso a pinguela existente sobre o rio que divide os Estados de São Paulo e Minas Gerais.

Logo adiante, depois de percorrer 14 quilômetros, atravessei um riacho, por uma minúscula ponte, e deixei o Estado de São Paulo para adentrar ao de Minas Gerais.

Naquele local, eu estava a 1.143 metros acima do mar. 


Trecho agradável e sombreado, trilhado em meio a extenso eucaliptal.

Prosseguindo ascendi, primeiramente, dentro de um encantador bosque de eucaliptos.

Depois, em meio a muitas árvores, ladeado pela grande serra da Mantiqueira, que seguia pelo meu lado direito. 


Nesse trecho, o caminho é silencioso e bucólico.

Ali parei para observar o Pico do Gavião, cujo maciço é o mais elevado daquelas montanhas, devido à grande quantidade daquela espécie de ave no local.

Observei a cordilheira ao longe onde pude ver o contorno de duas montanhas como se fossem as asas e a grota arborizada no meio como corpo e cabeça, forcei o desenho de uma ave em voo ascendente, isto apenas na imaginação.

Por sinal, o nome do local provém de a natureza proporcionar que ali seja o habitat de três ou quatro tipos de gaviões, como o preto, o marrom e o carijó, espalhando-se por toda a cadeia montanhosa, onde eles nidificam, principalmente nas árvores mais altas. 


Vista do fabuloso Pico do Gavião.

Sobre o tema ainda, sabe-se que o gavião é um predador, mas o faz somente para comer e alimentar seus filhotes.

O carijó é o tipo predominante, sendo dotado de uma cauda cortada por três estrias pretas, os calções listrados, o ventre pardo, listrado de branco.

Por essas nuanças, mereceu atenção para simbolizar uma das maiores torcidas de futebol do mundo, cujo emblema é ostentado por seus adeptos em bandeiras, faixas, flâmulas e camisas. 




A propósito, alguém já ouvir falar da “Gaviões da Fiel”?

Concernente ao tema, dizem que da guarita existente bem ao alto, perto do pico, olhando para baixo, nota-se que o traçado da estrada desenha o corpo de um pássaro, o que é também apenas uma curiosidade proporcionada pela natureza e pelo homem que a procura vencer.

Observando bem o céu, avistei dois parapentes com seus ocupantes fazendo arrojadas manobras, visto que o Pico é um dos pontos mais requisitados pelos praticantes desse esporte radical no Brasil.

O Caminho prosseguiu por uma via larga, de piso socado, em ininterrupto aclive. 


Placa indicativa de que faltam 300 quilômetros até Aparecida, onde fiz uma pausa para descanso e hidratação.

Mais adiante, como de praxe, fiz uma pausa para descanso e hidratação diante de uma placa informando que restavam 300 quilômetros até Aparecida.

A partir dali o roteiro se abriu e caminhei um bom tempo por uma estrada descendente, recentemente alargada, que prossegue depois em leve ascensão. 


Caminho arejado e pleno de muito verde.

Na verdade, nesse trajeto existia um trecho orlado por pinheiros, que oferecia fresca e agradável umbrosidade aos caminhantes.

Infelizmente, as árvores foram cortadas, restando um local arejado, com ampla visão do entorno, contudo, sem sombras no trajeto. 


Nesse trecho existia um bosque de pinheiros, mas ele foi derrubado e ficamos sem sombra.

Prossegui sempre em leve aclividade até atingir, após ultrapassar a Fazenda Pinheirinho, a altitude de 1.400 metros, o ponto de maior altimetria nessa etapa.

E logo cheguei à Pousada Pico do Gavião, instalada num local privilegiado, e que oferece excelentes serviços aos turistas. 


Área interna da Pousada Pico do Gavião, onde fiz uma pausa para carimbar minha credencial e comprar a água.

Porém seu foco principal está voltado para a comunidade do voo livre, vez que ela dista apenas 5 quilômetros da rampa de decolagem do pico homônimo.

Embora a Pousada não faça mais parte da relação de estabelecimentos credenciados pelo Caminho da Fé, seu proprietário ainda conserva o carimbo pertinente, de maneira que fiz ali uma parada para “sellar” minha credencial.

Como o sol já estava forte e o clima extremamente seco e com baixa umidade, aproveitei para adquirir uma garrafa d'água, bem como matar a sede.

Então, reiniciei meu périplo, agora por um caminho levemente ascendente.

Após uns 500 metros, se tanto, girei à direita e principiei a descender por uma estrada pedregosa e com fina camada de pó em seu piso, o que deixava tudo muito perigoso, pois um tombo poderia causar danos irreparáveis em termos físicos. 


Início de fortíssima aclividade, podendo se avistar a cidade de Andradas, ao fundo e abaixo.

Dali eu já avistava, ao longe, no horizonte, a cidade de Andradas, esparramada sobre um planalto, minha meta para aquele dia.

Foram vários declives, em meio a muito verde e extensas plantações de café, sempre ladeado por duas grandes montanhas, onde estão instaladas várias torres de captação de sinais de telefonia e TV.

Em determinado local, alcancei um senhor que, cabisbaixo e introspectivo, retornava de sua roça para almoçar.

Trocamos cumprimentos, depois seguimos conversando.

Dentre outras queixas, ele me contou que sua lavoura de café não produzira o esperado. 


Muitos cafezais no entorno.

E, pior, uma pequena plantação de tomates que possuía, também fora alvo do ataque de insetos, por falta de pulverização adequada, já que se encontrava descapitalizado e não pudera adquirir os pesticidas recomendados pelo engenheiro agrônomo.

Quando soube que eu estava me dirigindo a Aparecida, pediu-me encarecidamente que orasse por sua família pois, conforme me contou, dois de seus filhos que trabalhavam no comércio da cidade, haviam ficado desempregados recentemente.

E, possuíam mulher e filhos para sustentar.

Um deles, por sinal, estava passando dificuldades e já não tinha o que colocar na mesa para alimentar os filhos. 

Duzentos metros adiante, ele adentrou em uma humilde casa à direita e eu segui em frente, com o coração constrito, pesaroso por aquela desdita, que acabou por afligir meu dia.

Que país é esse, pensava, onde políticos chafurdam com o nosso dinheiro público, enquanto trabalhadores honrados não conseguem adquirir, nem ao menos, arroz e feijão, para ingerir uma refeição decente e saudável. 


A cidade de Andradas está a apenas 2 quilômetros de distância desse local.

Bem, seguindo adiante, depois de muitas voltas, finalmente venci mais uma pedregosa ladeira e, já no plano, atingi a zona urbana da cidade. 


Chegada ao Palace Hotel, local de pernoite.

Gastei, ainda, meia hora caminhando por calçadas entre os transeuntes, disputando espaço, para, finalmente, alcançar o Palace Hotel, onde fiquei hospedado.

De se ressaltar que esse estabelecimento oferece uma estrutura invejável para o peregrino, pois dispõe de comodidade, conforto e preço baixo para quem está no Caminho da Fé.

Sem dúvida, deveria servir de exemplo para muitos, pois, para se ter uma ideia, paguei apenas R$50,00 pelo pernoite, com direito a ar-condicionado, banheiro privativo, frigobar, cama de casal, café da manhã, silêncio, etc..

Conforme me informou o gerente do estabelecimento, para um cidadão comum ou turista, o mesmo apartamento sairia por R$186,00.


Restaurante Styllus, onde almocei nesse dia. Recomendo!

Andradas, atualmente, com quase 40.000 habitantes, oferece excelsas belezas naturais, muito verde e um agradável clima de montanha, pois se encontra emoldurada junto à belíssima serra do Caracol.

Seu nome é uma homenagem a Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, ex-governador de Minas Gerais.

Vinho, café, doces, laticínios, confecções, cerâmicas e móveis são produzidos de acordo com os mais altos padrões de qualidade, diversificando o comércio local.

Sua altitude média é de 898 metros. 


Fonte e coreto localizados na praça principal da cidade de Andradas/MG

Por sugestão do gerente do hotel, fiz minhas refeições no Restaurante Styllus, onde a comida é farta e de qualidade, a preço convidativo.

Porquanto, por R$16,90, pode-se comer à vontade no Self-Service.

Na hora de pagar a conta, conversei com um ciclista peregrino que estava na fila, o Richard, de Sorocaba, que também iniciara o Caminho naquela data.

Trocamos informações sobre o trajeto sequente, depois ele seguiu adiante, pois pretendia pernoitar em Ouro Fino. 


Igreja Matriz da cidade de Andradas/MG, ao fundo, dedicada a São Sebastião.

Isto se fosse possível, pois sua bicicleta estava por demais pesada em face dos alforjes que ele levava, já que estava sozinho e era marinheiro de primeira viagem.

Por incrível que possa parecer, quis o destino que nos encontrássemos ainda outras vezes no roteiro face a problemas em sua “bike” e, por obra do acaso, finalizamos nossa peregrinação no mesmo dia.

Qual seja, como eu, ele também gastou oito dias para aportar a Aparecida.

Outro fato importante a salientar, que me deixou eufórico: nessa cidade eu ultrapassei a placa dos 286 quilômetros restantes até minha meta final, qual seja, eu já havia concluído metade de minha peregrinação, vez que a distância entre Sertãozinho e a Basílica da Mãe Maior está mensurada em 571 quilômetros.

Bem, após um sono reconfortante e assim que a temperatura decaiu, fui visitar a igreja matriz da cidade, cujo padroeiro é São Sebastião.

Depois, passei num supermercado e, mais tarde, fui até o banco me prover de numerário.

Prudentemente, me recolhi cedo, após singelo lanche que ingeri num bar próximo ao local de pernoite.

E logo fui dormir, pois a jornada seguinte seria longa e acidentada. 


Igreja Matriz da cidade de Andradas/MG, dedicada a São Sebastião.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto: 6 h 45 min – Clima: frio e ensolarado, com temperatura variando entre 10 e 20 graus.

Pernoite no Pálace Hotel – apartamento individual excelente – Preço: R$50,00

Almoço no Restaurante Styllus: Excelente – Preço: R$16,90, pode-se comer à vontade no Self-Service.
 

IMPRESSÃO PESSOAL – Uma jornada de excelsa beleza, entretanto, de expressiva dificuldade, mormente, para aqueles que estão iniciando o Caminho, por ser uma jornada relativamente longa e acidentada. No meu caso específico, agravada pelo clima seco e baixa umidade. Porém, o local de pernoite e a cidade de Andradas, considerada por muitos como aquela que melhor recebe os peregrinos, compensa todo o esforço despendido no percurso.