3º dia – OURO FINO/MG a BORDA DA MATA/MG – 30 quilômetros


3º dia – OURO FINO/MG a BORDA DA MATA/MG – 30 quilômetros


Toda caminhada é de descoberta. A pé, nos damos tempo de ver as coisas por inteiro.” (Hal Borland)



Mãe Aparecida, peço a vossa benção e proteção, sempre!

A jornada seria de média extensão e eu já a conhecia a fundo, então, não havia pressa em partir.

Assim, tomei o café da manhã com calma, depois, por volta das 6 horas, animado e bem nutrido, iniciei minha jornada.

A temperatura do lado externo se encontrava na casa dos 8 graus, fresca e agradável para caminhar.


Só restam 244 quilômetros até Aparecida.

Uma placa do Caminho da Fé, amarrada num poste, me informava que restavam 244 quilômetros até Aparecida.

Estava escuro ainda, o sol demoraria a nascer, mas muitas pessoas já circulavam pelas ruas, a maior parte constituída de trabalhadores rurais, que portavam picuás ou mochilas às costas.

Alguns aguardavam condução em pontos determinados e responderam prontamente à minha saudação de bom dia.

Sem maiores novidades, transitei defronte à igreja matriz, depois principiei a descer por uma rua calçada por paralelepípedos.

Dois quilômetros depois o asfalto findou e iniciou-se uma agradável estrada de terra.

Esse primeiro trecho, que corresponde à antiga “Estrada Velha”, foi denominada de “Estrada dos Santos Negros” por decreto municipal, e sua inauguração ocorreu em 13 de maio de 2.009.

Nela foram imortalizados São Benedito, Santa Ifigênia, Santa Bakita, Santo Antônio de Categeró, dentre outros menos conhecidos, com a colocação de estátuas e histórias do homenageado, a cada trezentos metros.

Esse percurso é extremamente agradável, por ser todo arborizado, e propiciar vistas preciosas da paisagem circundante.


Mais um dia amanhece..

Do meu lado esquerdo, o dia principiou lentamente a nascer, deixando o céu claro e colorido.

Uma longa e prazerosa ascensão me levou até o topo de um morro, enquanto lentamente minha musculatura se aquecia.


Caminho deserto e silencioso.

A partir dali, o caminho bastante largo conduziu-me, em suave descenso, em meio a bosques de eucaliptos e outras árvores, rodeado por bucólicos cenários de belezas indescritíveis.

Infelizmente, pela nebulosidade existente na atmosfera, parte do encanto foi desperdiçado, porém, em compensação, a manhã se mostrava maravilhosa, hidratada e fresca.


Placa fincada na divisa das cidades de Ouro Fino e Inconfidentes.

Cinco quilômetros percorridos e eu passei pela divisa dos municípios.

E, às 7 h 30 min, após transpor a ponte sobre o rio Mogi Guaçu, cheguei à cidade de Inconfidentes.


Igreja matriz de Inconfidentes, cujo padroeiro é São Geraldo Majela.

Esse Município, com 6.500 habitantes, situa-se numa altitude de 869 metros, e é repleto de atrações naturais.

A cidade é conhecida, também, como a “terra do crochê e do alho” e sua Igreja Matriz tem como padroeiro São Geraldo Magela.


Bar do Maurão, em Inconfidentes. Uma visita sempre alegre, prazerosa e inesquecível!

E logo adentrei ao famoso Bar do Maurão, um dos locais mais famosos de todo o Caminho da Fé.

Ele já estava a postos, trabalhando, e pudemos conversar descontraidamente por um bom tempo.

Ali comprei isotônico e uma barra de chocolate, além de provar do delicioso café feito na hora.

Depois de fotos e despedidas efusivas, segui adiante.


Deixando a cidade de Inconfidentes, através de sua avenida principal.

Deixei a cidade, caminhando pelo acostamento da rodovia que liga Inconfidentes à cidade de Pouso Alegre.

Depois de uns três quilômetros, finalmente, eu adentrei à esquerda, numa via vicinal de terra, larga e arborizada.

A estrada por onde segui estava bastante movimentada, com intenso tráfego de veículos, obviamente, por conta do horário matutino.


Caminho fresco, belo e silencioso.

Em suas margens pude verificar que há inúmeras residências e alguns bares.

Seis quilômetros depois, passei defronte ao Albergue Águas Livres, mas não entrei para carimbar minha credencial, porque o portão da chácara se encontrava fechado com um cadeado, e o silêncio naquele lugar me fez deduzir que não havia ninguém ali no momento.


 Acesso à Pousada Águas Livres.

O Caminho, a partir dali, é bastante agradável e solitário, com muitas árvores, alguns cafezais, e enormes fazendas de gado leiteiro.

Quinze quilômetros percorridos, eu cheguei a uma bifurcação e, obedecendo à sinalização, segui à direita e logo enfrentei a primeira grande serra do dia. 


Trecho arejado e em ascenso.

Quando aportei em seu cume, descortinou-se uma paisagem deslumbrante, em razão da beleza das pastagens de verde vibrante, entrecortadas de frondosas árvores.

A partir dali, já descendo, entrei numa estrada bucólica, cercada por altos pés de eucaliptos, que aos poucos se transformou numa cerrada mata.

De repente se abriu em minha frente outra bela paisagem, constituída por um campo verde, com pequenas colinas, pleno de frondosas árvores.

Na verdade, eu estava atravessando um local nominado "Córrego da Onça", onde pude curtir a natureza em toda a sua plenitude, ouvindo o barulho das águas e inúmeros pássaros a cantar.

Nesse trecho, alcancei 4 peregrinos paulistanos, cumprimentei-os, depois seguimos juntos conversando.


 Paisagem bucólica e sombreada. Peregrinos marcham à frente.

Tratava-se do Jorge, Joel, Desidério e José, velhos amigos, que percorriam o Caminho da Fé pela primeira vez.

Ao saberem de minha experiência no roteiro, neófitos no assunto, fizeram-me inúmeras perguntas e me foi gratificante solucionar algumas de suas dúvidas e pendências.

Logo à frente, tivemos uma agradável surpresa ao encontrar, num local arborizado, uma bica d’água com uma torneira jorrando, onde existia uma placa indicativa, ao lado, explicando: “Água potável, gentileza do Sr. Joaquim”.


Local de descanso oferecido pelo Sr. Joaquim, onde há oferta de água potável.

Outra placa ainda oferecia duchas e sanitários, exclusivamente para peregrinos, distante 60 metros, à esquerda.

O líquido transparente e gelado proporcionou-nos dessedentar com avidez.

O Sr. Joaquim Moreira mora numa chácara em frente ao local, e foi quem construiu a “fonte” naquele aprazível lugar.


O Sr. Joaquim, à esquerda, que oferece água potável aos peregrinos nesse trecho.

E, desta vez, tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, porquanto, soube pelo próprio Maurão, quando de minha peregrinação em 2.005, que ele, além de grande benfeitor é, também, um dos maiores aficionados do Caminho da Fé.

Os peregrinos paulistas resolveram fazer uma pausa para descanso, assim, após despedidas, segui em frente novamente solitário.

Mas, com a promessa de fazer uma reserva em nomes deles no hotel San Diego, onde eu também pernoitaria.


Início de forte descenso.

O roteiro prosseguiu bucólico, rico em belas paisagens.

O clima prosseguia fresco e agradável, proporcionando uma caminhada tranquila.


Ainda em descenso, com grande mata à frente.

Nesse trecho específico, existem vários ascensos e descensos, mas todos de pequena altimetria.

Aproximadamente, 20 quilômetros percorridos, teve início uma forte aclividade e, no topo do morro, eu caminhei a 1085 metros, o ponto de maior altimetria nessa etapa.


Sombras, sempre bem-vindas.

Mais abaixo, num local plano, eu atravessei a divisa dos municípios, deixando Inconfidentes, para adentrar ao de Borda da Mata.

Depois de caminhar pelo cume do morro por um bom tempo, num local pleno de árvores, iniciou-se violento descenso, que se prolongou por uns dois quilômetros, sempre em meio a inúmeras fazendas de gado.


Tem início um terrível declive: haja joelhos!

A natureza também foi pródiga com este trecho, pois avistei belas colinas, matas nativas e pequenos riachos.

Já no plano, andei por uns duzentos metros, depois teve início outra ríspida ascensão, que fui vencendo lentamente, porquanto o clima persistia frio e aprazível.

Ao atingir o topo, pude avistar ao longe a cidade de Borda da Mata, meu objetivo naquele dia.


Borda da Mata já aparece no horizonte.

Enfrentei, então, brusca descida, e ao final desta, depois de leve ascensão e mais uma grande subida, adentrei a zona urbana da cidade, trilhando em meio a pequenas chácaras e sofisticadas construções.

Após atravessar uma larga avenida asfaltada, segui por uma rua secundária até o Hotel San Diego, onde me hospedei.


Falta 1 quilômetro para o "ponto zero" do Caminho da Prece; nesse local residem os pais do grande peregrino Polly!

Ali, por um excelente quarto individual, paguei R$50,00.

Após um banho quente, saí para almoçar e o fiz no térreo do estabelecimento, no Restaurante Sal e Pimenta, cuja comida é de excelente qualidade.

Nele paguei R$29,90 o quilo da refeição, servida no sistema Self-Service.


Praça principal da cidade de Borda da Mata.


A cidade de Borda da Mata, atualmente com 18.000 habitantes, é também conhecida como a “Capital Nacional do Pijama”.

Porquanto, há 10 anos deixou de ser uma cidade prioritariamente agropecuária e voltou sua economia para a produção desse vestuário.

Hoje uma grande responsável pela geração de empregos e renda no Município, ao lado dos teares, malharias, artesanatos em madeira e decoração.

Outro atrativo é a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, uma das mais belas que conheci em todo o trajeto.


Igreja matriz da cidade de Borda da Mata, cuja padroeira é Nossa Senhora do Carmo.

Depois de lavar as roupas e descansar, fui visitar a igreja matriz da cidade, dedicada à Nossa Senhora do Carmo.

Em seu belíssimo interior, pude fazer minhas orações com calma e tranquilidade.


Interior da igreja matriz.

A praça central de Borda se encontrava em intensa atividade, com pessoas montando barracas e parque de diversões, pois naquele dia teriam início as festividades de sua padroeira, que se comemora no dia 16 de julho.

No retorno, me reencontrei com os peregrinos paulistanos que saíam para tomar um lanche.

Antes, fizemos uma foto do grupo, vez que, no dia seguinte eles pernoitariam em Tocos do Moji, enquanto eu seguiria até Estiva.


Em 
Borda da Mata, hotel San Diego, peregrinos paulistanos: Jorge, Joel, Desidério e José.

Assim, não iríamos mais nos ver e fizemos questão de registrar para a posteridade a nossa amizade e união.

À noite, ingeri frugal lanche no quarto, me preparando para a jornada sequente.

Exatamente, aquela que considero a mais difícil de todas que percorri no Caminho da Fé, não só por sua extensão mas, principalmente, pela intensa variação altimétrica em seu percurso.


Marco "ZERO" do Caminho da Prece, localizado diante da igreja matriz da cidade de Borda da Mata.

RESUMO DO DIA: Tempo gasto: 6 h – Clima: frio de manhã, depois sol e calor, variando a temperatura entre 8 e 20 graus.

Pernoite no Hotel San Diego: Muito Bom, Excelente! Apartamento individual – Preço: R$50,00

Almoço no Restaurante Sal e Pimenta: Excelente – Refeição por peso no Self-Service: R$29,90 o quilo.


AVALIAÇÃO PESSOAL - Uma etapa muito agradável, uma das mais belas de todo o trajeto, todavia, um tanto extensa e cansativa no final, porque deixa o peregrino exaurido nos derradeiros quilômetros face à sucessão interminável de aclives e declives, exatamente quando ele já se encontra desgastado pela longa jornada cumprida.