5º dia – ESTIVA/MG a PARAISÓPOLIS/MG – 42 quilômetros


5º dia – ESTIVA/MG a PARAISÓPOLIS/MG – 42 quilômetros


Na minha opinião existem dois tipos de viajantes: os que viajam para fugir e os que viajam para buscar.” (Érico Veríssimo)


Mãe Aparecida, peço a vossa benção e proteção, sempre!

O domingo afigurava-se novamente difícil, pois eu tinha a intenção de pernoitar em Paraisópolis.

Ademais, o esforço dispendido na jornada anterior, poderia fazer a diferença, assim, me preparei para conseguir aportar, primeiramente, em Consolação, depois eu decidiria se prosseguiria adiante ou não.


Placa existente na Pousada do Poka, em Estiva/MG,

Então, como o sol somente apareceria ao redor das 6 h 30 min, deixei a Pousada do Poka às 5 h, seguindo por ruas silenciosas, onde um vento provindo do norte deixava tudo frio ao meu redor.

Mais acima eu atravessei a rodovia Fernão Dias pela passarela, acessei uma larga estrada de terra e segui confiante e animado em direção ao objetivo do dia, com a lanterna acesa na mão.

Logo ultrapassei o rio Itaí, passei pelo bairro rural Boa Vista, e após vencer mais dois quilômetros em lenta ascensão, aportei às faldas da temida serra do Caçador.


Mais um dia chegando...

Até aquele patamar o dia se mantinha frio e neblinoso, deixando o entorno por onde caminhava envolvido em forte cerração, sinal de que o sol viria, com certeza, mais tarde.

Como já conhecido, nesta parte de Minas o relevo é rude e acidentado, exigindo esforço e determinação do caminhante.


Muita nebulosidade, desde o Morro do Caçador.

Prossegui observando o cultivo do morango em larga escala, além de hortaliças e criação de gado de leite.

Na verdade, eu caminhava por um cenário campestre, onde a paisagem se tornava mais verde à medida que eu ascendia à montanha.


Vista desde o topo da serra do Caçador.

Podia, pelo outro lado, divisar os contornos da serra imersa em brumas, que se dissipariam com o raiar ainda incerto do dia.


O sol finalmente dá o ar da graça...

Com relação à altitude, deixei Estiva a 944 metros, iniciei uma subida longa e perene da encosta da montanha, atingindo 1.300 metros, em seu ponto culminante.

Estiva já ficou na saudade, ao longe e à esquerda.

Estava eu no bairro Caçador, um local de clima ameno, vegetação densa e luxuriante, com paisagens de belezas indescritíveis.

Caminhei aproximadamente 5 quilômetros pelo topo da serra, sempre em meio a grandes fazendas de gado leiteiro, extensas plantações de milho, e alguns cafezais.

Nesse trajeto, visualizei incontáveis pés de araucárias, também chamada de pinheiro-brasileiro, majestosas árvores que proliferam com facilidade em regiões de temperaturas amenas e mais de 1.000 metros de altitude.


Cem metros após ultrapassar esse pinheiro, a 1.300 m de altitude, situa-se o ponto de maior altimetria dessa etapa.

Depois de ultrapassar um bosquejo, iniciou-se leve ascenso que, em seu final, a 1.300 m de altitude, me colocou no ponto de maior altimetria dessa etapa.

Então, após caminhar numa estrada plana por uns 300 metros, iniciou-se desabalado declive.

Já descendendo, passei novamente pelo local que assinala onde ocorreu o “acidente” com o peregrino Luiz Fernando Marques, que faleceu em 03 de abril de 2.010.


Local onde faleceu o médico em 2010.

Numa das curvas, em vertiginosa descida, avistei a cidade de Consolação, mas ainda me restavam 5 quilômetros para lá aportar.

Já, no planalto, em uma bifurcação, encontrei uma placa indicando a cidade de Cambuí à direita.

Fleti, então, à esquerda, e logo abaixo, continuei a caminhar, agora por larga e movimentada estrada de terra, que passava defronte à Fábrica Artesanal de Polvilho, uma grande e esparramada construção, pintada em azul e branco.

Algum tempo depois, alcançava a área urbana.

Meu relógio assinalava 8 h 45 min, o dia persistia fresco e eu não me sentia desgastado.

Ainda assim, parei num bar próximo da pracinha central da cidade, para ingerir um gatorade e aproveitar para verificar como estava se comportando meu pé direito, onde uma unha inflamada desde a jornada anterior, mostrava-se terrivelmente dolorida.


Igreja matriz de Consolação.

Enquanto refazia as ataduras protetoras, conversei alegremente com um senhor idoso que ia à missa dominical, mas que, ao me reconhecer peregrino, parou para incentivar minha jornada e pedir bençãos em Aparecida.

Bem disposto e hidratado, prossegui em meu périplo.

Para tanto, passei ao lado da igreja dedicada à Nossa Senhora da Consolação e principiei a descender, até chegar em asfalto, por onde caminhei quatro quilômetros, antes de adentrar definitivamente em terra.


Depois de caminhar em asfalto, de volta à terra.

Esse caminho já era meu velho conhecido, assim segui transpondo primeiramente a divisa dos municípios, para adentrar no de Paraisópolis.


Ponte sobre o rio Capivari, que separa os municípios de Consolação e Paraisópolis.

Em determinado local, sozinho na trilha, coloquei a máquina fotográfica sobre uma grande pedra, ajustei o temporizador e pude eternizar mais aquele momento.


No caminho para Paraisópolis. Sozinho na trilha, hora de comemorar.

Logo adiante, uma placa do Caminho da Fé me avisava que restavam 150 quilômetros até a Casa da Mãe Aparecida.


Restam 150 quilômetros... Placa à direita.

Na sequência, eu transitei pelo bairro dos Jacintos, onde visualizei 3 bares em funcionamento, por ser um domingo, evidentemente.

O sol iluminava tudo à minha volta, brilhando forte num céu azul e sem nuvens.

Porém, a temperatura se mantinha agradável, próxima de 15 graus.


À frente, o Maciço da Pedra Branca.

Depois de sobrepujar uma dura, mas curta aclividade, transitei pelo bairro de Pedra Branca.

Assim, defronte à igrejinha que existe nesse bairro, eu fiz uma parada necessária para hidratação e reposição do protetor solar.


Trecho plano do caminho, situado ao lado de bela e verde montanha.

Andei, na sequência, um bom tempo numa estrada larga, tendo a me ladear pelo lado esquerdo uma belíssima serra, integralmente verde e matosa.


Deixando a estrada principal e adentrando à direita, em direção à Paraisópolis.

Depois, adentrei à direita, numa estrada de terra, e enfrentei grandes estirões, entremeados com aclives e declives, mais íngremes que amenos.

Trata-se de um percurso extremamente deserto, onde cruzei apenas com um veículo, cujo condutor me pediu informações para chegar até a cidade de Gonçalves/MG.


Após essa capelinha, o caminho se torna ríspido e íngreme.

Esse derradeiro trecho é bastante árduo, pois se faz necessário sobrepujar duas grandes aclividades, sendo que a derradeira me exigiu bastante esforço, em face do adiantado da hora e pelo cansaço acumulado na jornada até aquele patamar.


Flores de São João.

Vencido esse último obstáculo, seguiu-se um trecho relativamente plano e, mais adiante, pude fotografar a famosa Pedra do Baú, pelo meu lado direito.


O caminho serpeia em minha frente.

Depois de sobrepujar outra íngreme, contudo curta elevação, acabei por sair em zona urbana e principiei a descender, agora sobre piso empedrado, em direção ao centro da urbe.


Última subida à frente.

E, depois de vencer um acidentado calçamento de pedras, quando o cansaço já debilitava minha coordenação motora, extremamente fatigado, eu adentrei a espetacular Pousada da Praça, local em que havia feito reserva.

Ali, fui recebido pela gerente, a Jandira, uma pessoa competente, simpática e que trata muito bem os hóspedes.

Ela me contou que seu estabelecimento se encontrava integralmente lotado naquela data, por conta de acolher um grupo de romeiros, cujo ônibus de apoio eu vira estacionado na rua em frente.

Alguns retardatários estavam adentrando ao ambiente e conversei rapidamente com um deles, de origem nipônica.

Disse-me que haviam partido às 18 horas do dia anterior de Pouso Alegre, tinham caminhado a noite toda e estavam finalizando a jornada naquele momento, depois de percorrer 60 quilômetros.

Mostravam-se cansados, mas já estavam pensando na próxima etapa, que também seria de longa extensão.

Chegada a confortável Pousada da Praça, local onde fiquei hospedado.

Paraíso, como a cidade é chamada, faz jus ao seu nome, pois está situada entre montanhas e rios, onde a natureza é belíssima, com cachoeiras e muito verde.

Oferece várias opções de passeios, como “rafting”, “bóia-cross”, rapel e voo livre.

O povoado teve início no ano de 1.820 e sua história tem assento no ciclo do café. 


Igreja matriz de Paraisópolis, dedicada à São José.

É, ainda, uma região cafeeira e conta com fazendas centenárias, onde é possível o turismo rural.

Ela possui atualmente 20 mil habitantes, e está situada numa altitude média de 1.090 metros.


Restaurante Cantina Mineira, local onde almocei esse dia em Paraisópolis: além de barato, oferece excelente qualidade. Recomendo com efusão!

Mais tarde, depois de reconfortante banho e lavagem de roupas, fui almoçar no Restaurante Cantina Mineira, localizado na praça central da cidade, onde, por R$12,00, pude degustar, à vontade, um saudável alimento preparado nos moldes da típica cozinha mineira.

Depois de merecido descanso, saí para dar uma volta pelas imediações e, no retorno, pude visitar e orar na igreja matriz da cidade, cujo padroeiro é São José.

Estava sendo realizada uma missa e pude assisti-la integralmente, bem como participar da comunhão, ato que me deixou bastante feliz porque estávamos num domingo: “O Dia do Senhor”.


Praça central de Paraisópolis/MG

Mais tarde, quando me dirigia ao banco para fazer um saque, me reencontrei com dois peregrinos que havia conhecido em Estiva: o Pedro, de Caraguatatuba, e seu parceiro, o Glauco, de Piracicaba, que estavam hospedados no hotel Central.

Cotejamos nossos roteiros para o dia seguinte e eles me afirmaram que partiriam bem cedo, pois pernoitariam na Pousada de Dona Inês, no alto da serra.

De minha parte, sairia mais tarde, por ser uma jornada bastante tranquila, já que ficaria na Pousada de Dona Ditinha, em Luminosa, onde havia feito reserva.

Lanchamos alegremente numa padaria existente na praça central da simpática urbe, porém, assim que anoiteceu, o clima esfriou repentinamente, o que me encorajou a me recolher cedo.

Assim, despedi-me deles, inferindo que não os veria mais.


Estátua existente defronte à igreja matriz.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto: 8 h 30 min - Clima: frio e ensolarado, com temperatura variando entre 9 e 23 graus.

Pernoite: Pousada da Praça: Excelente! – Apartamento individual – Preço: R$66,00.

Almoço: Restaurante Cantina Mineira: Excelente! – Preço: R$12,00, pode-se comer à vontade no Self-Service.


AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma etapa bastante longa, com alguns acidentes geográficos importantes, como a escalada da Serra do Caçador. Todavia, de extrema beleza, a começar pela travessia no topo da cordilheira. A última parte do trajeto, após o bairro da Pedra Branca, por ser desabitada e solitária, propicia, também, momentos de intensa introspecção pessoal, além de sublime comunhão com a deslumbrante natureza viva que nos rodeia.