6º dia – PARAISÓPOLIS/MG a LUMINOSA/MG – 24 quilômetros


6º dia – PARAISÓPOLIS/MG a LUMINOSA/MG – 24 quilômetros


O mundo é livro, e quem fica sentado em casa lê somente uma página.” (Santo Agostinho)



Mãe Aparecida, peço a vossa benção e proteção, sempre!

Seria uma jornada de curta dimensão, a mais tranquila de todas, de quilometragem ínfima, se comparada às demais já superadas.

Porém, a noite fora um tanto tumultuada, visto que os peregrinos provindos de Pouso Alegre haviam sido acordados à meia-noite para tomar café e fazer os aprestos necessários, visando à sua iminente partida.

Depois de muita conversa, intensa movimentação e persistente alarido, eles zarparam às 2 h da madrugada quando, então, consegui dormir novamente.


Fazendo minhas orações matinais diante de um altar existente na Pousada da Praça, em Paraisópolis/MG.

Bem humorado e sem pressa, tomei café da manhã às 6 horas, depois conversei com a peregrina Cristiane Castro, que iniciaria sua jornada em direção à cidade de Aparecida naquele dia.

Parti animado, seguindo tranquilo por ruas frígidas e movimentadas, posto que estávamos numa segunda-feira, dia em que todos retornam ao labor.

Por uma movimentada avenida eu deixei a zona urbana e, quase chegando ao asfalto, pude observar um casal de tucanos, que se alimentava numa bananeira.


Muita neblina na paisagem.

Depois de transitar um quilômetro pela rodovia que vai em direção a Brazópolis/MG, eu entrei à direita e acessei larga estrada de terra, minha velha conhecida, desde tempos passados.

O clima continuava frio e nublado, com muita cerração no entorno, propício para caminhar, de forma que marchei num ritmo confortável, enquanto observava a natureza acordando para o novo dia.

Pássaros, em bandos, gritavam a euforia da nova manhã.


Muita neblina e poeira na estrada.

Eu estava um tanto apreensivo, porque havia muita terra solta no piso da estrada, promessa certa de poeira quando da passagem de algum veículo.

Que, felizmente, não deram o ar da graça nesse primeiro trecho, a não ser uma motocicleta.


Um mar de nuvens a minha frente.

Mais adiante, já descendendo, avistei um mar de nuvens a minha frente, algo inusitado e belo para quem aprecia a natureza em sua constante mutação.


Pousada Casa da Fazenda.

Quase no plano, passei diante da Pousada Casa da Fazenda, onde tudo era silêncio e não avistei vivalma se movimentando pelas imediações.

Prosseguindo, acessei uma estrada plana e brumosa, onde a tônica era a serenidade, e o único barulho que eu ouvia provinha das aves no seu agito, em busca do alimento matutino.

Foram momentos únicos, de intensa introspecção, onde aproveitei para agradecer a Deus pelo dom da vida e pela liberdade que eu experienciava.


Uma solitária capelinha...

Afinal, quantos não estariam se digladiando no estressante trânsito das metrópoles?

Eu, ao revés, curtia intensamente minha “viagem”, respirava o ar puro, observava o entorno e tentava me conectar com o sagrado que existe em todas as coisas que fazem parte da natureza.

A cada curva da estrada, uma nova surpresa surgia.

Ou era uma árvore solitária, ou uma casinha abandonada, ou ainda, uma igrejinha solitária, localizada em local ermo, longe de tudo.


O sol luta para sair...

O sol lutava bravamente para perfurar uma barreira de nuvens, de forma que o clima prosseguia úmido e frio.

Depois de aproximadamente 10 quilômetros percorridos, finalmente, o astro-rei deu as caras e tudo ficou mais claro e nítido.


Trecho agradável e sombreado.
No trecho sequente, caminhei um bom tempo sob a sombra de frondoso eucaliptal.

Seguiram-se longos estirões retilíneos, mas o silêncio prosseguia imutável, só quebrado, de quando em vez, pelo alvoroçado pipilar das maritacas que amiúde cruzavam o céu sob minha cabeça.


Paisagens lindas.

Por sorte, o trânsito de veículos automotores permaneceu irrisório, e cruzei com apenas 2 caminhões nesse trecho.


Grande árvore, testemunha silenciosa desse local. Ao fundo, lado esquerdo, a igreja de São Benedito, no bairro de Áreas.

Quase no final de longa reta, pude fotografar uma majestosa árvore, testemunha silenciosa da passagem de peregrinos por aquele local.

Às 8 h 30 min, já próximo de uma igrejinha vestida de verde, cujo padroeiro é São Benedito, 10 quilômetros percorridos, fiz uma pausa para hidratação e aproveitei para renovar meu protetor solar, pois o sol já brilhava forte.


Paisagens surreais.

Eu estava transitando pelo bairro Áreas, ainda dentro de Minas Gerais, porém mais adiante, eu encontrei um grande poste colorido, exatamente no local que assinala a divisa dos Estados, adentrando eu, então, novamente em terras paulistas, mais especificamente, no Município de São Bento do Sapucaí.


Uma grutinha e água potável.

Mais à frente eu parei para orar à beira da estrada, diante de uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, que estava incrustada dentro de um nicho, junto a uma fonte de água.


A famosa “Casa Branca”, à esquerda e acima, fincada no morro.

Prosseguindo, a paisagem se fez deslumbrante e pude visualizar no topo de um morro imponente casarão, cuja construção remonta à época áurea do café, sede da Fazenda da Pedra, propriedade atualmente da família Goulart.

Então, depois de atravessar um ribeirão por uma ponte de madeira, teve início a serra do Cantagalo, que fui vencendo com tranquilidade, enquanto admirava a paisagem que ia se descortinando pelo meu lado esquerdo.


No caminho para 
Luminosa
. Subindo a Serra do Cantagalo.

Pude observar, como no ano anterior, o riacho Cantagalo que desce a montanha formando pequenas cachoeiras.

E ainda apreciei a beleza em todo o entorno, emocionado pelo alegre saltitar da água cristalina nas pedras lisas.


No caminho para 
Luminosa
. Cachoeira..

Contudo, neste ano, em face da estiagem que vivenciávamos no inverno, ela tinha seu volume de água bastante diminuído.

Quando enfrentava o derradeiro ascenso, alcancei os peregrinos Glauco e Pedro que seguiam à minha dianteira.


Peregrinos Pedro e o Glauco, que alcancei nesse trecho.

Foi um reencontro alegre e inesperado, por isso mesmo, bastante festejado.

Então, fizemos fotos, depois prosseguimos em frente conversando animadamente.

E, depois de vencer a derradeira elevação, aportamos no bairro Cantagalo, pertencente ao Município de São Bento do Sapucaí, um local bucólico e fresco, situado a 1.200 metros de altitude, e rodeado de muito verde.


Hospedaria do Jucemar, local onde o peregrino é muito bem acolhido.

Seguindo adiante, fizemos uma parada na Hospedaria Jucemar, agora em casa nova, recentemente inaugurada.

Ali fomos muito bem recebidos por seu proprietário que, como todo bom hospedeiro, nos serviu café, além de bolachas e geleias para degustação.


Peregrino Janderson, uma simpatia de pessoa.

Conversamos amenidades, fizemos fotos, descansamos e ficamos sabendo das novidades do Caminho.

Momentos de grande descontração, onde colocamos o papo em dia antes de prosseguir nossa jornada.


Com o Glauco, Pedro e Jucemar.

Deixo aqui consignado meu agradecimento especial ao Jucemar que, efetivamente, sabe receber e cativar os peregrinos da Fé.

Seguindo adiante, transitamos algum tempo por uma via plana, depois voltamos a ascender levemente, por uma estrada fresca e sombreada.


Nesse trecho eu sigo conversando com o Glauco.

Mais acima, após suplantar pequena elevação, ultrapassamos o ponto culminante dessa etapa, a 1.280 metros, exatamente no local em que voltamos a adentrar no Estado de Minas Gerais.

A partir desse patamar, enfrentamos forte declive, em meio a frondoso bananal e, depois de uns 100 metros, pudemos avistar e fotografar Luminosa, lá embaixo, no fundo de um vale, minha meta para aquele dia.


No caminho para 
Luminosa
. A povoação aparece..

Depois, foram mais 3 quilômetros em descenso, com extremo grau de declividade, até que aportamos em Luminosa, um povoado encravado no meio de serras abruptas que a circundam por todos os lados, sendo que sua sede é Brazópolis/MG.

O lugar me parece perfeito para um retiro, pois se encontra afastado, escondido entre gargantas e profundos desfiladeiros e, definitivamente, quase esquecida no meio da serra.


Forte descenso.. quase chegando.

Ali, fiquei hospedado na Pousada Nossa Senhora das Candeias e, como de praxe, fomos muito bem recebidos pelos seus proprietários, a Dona Ditinha e o Sr. Nilton, pessoas especiais e carinhosas que tudo fazem para que o peregrino se sinta em casa, naquele ambiente abençoado.

O Pedro e o Glauco assinaram o Livro de Visitas, tomaram água e prosseguiram em frente, já que pernoitariam na Pousada de Dona Inês, 4 quilômetros à frente, já no alto da serra, pois pretendiam sair bem cedo na manhã seguinte.

De minha parte, tomei banho, lavei roupas, depois desci para almoçar.


Peregrinos de Santa Bárbara d'Oeste, que estavam percorrendo o Caminho de Frei Galvão. Grandes amigos!

Após a refeição, por volta das 14 horas, quando eu me preparava para descansar, chegaram na pousada 12 peregrinos residentes em Santa Bárbara d'Oeste, entre caminhantes e apoio, que estavam percorrendo o Caminho de Frei Galvão.

Haviam partido de São Bento do Sapucaí e, em face de Luminosa também fazer parte desse roteiro, todos pernoitariam ali naquele dia.

Depois de uma boa soneca e quando o sol amainou, fui fotografar a igreja local, cuja padroeira é Nossa Senhora das Candeias.


A pracinha de 
Luminosa
.

Depois, sentei num banco localizado na pracinha do lugarejo e fiquei a observar calmamente o entorno.

Sem me aperceber, uma tranquilidade gostosa foi descendo sobre minha alma inquieta e soturna.


Pousada das Candeias, em 
Luminosa
. Dr. Xavier e a Cristiane.

Mais tarde, aliviado e com o coração em paz, calmamente eu retornei ao local de pernoite.


Pousada das Candeias, em 
Luminosa
. O peregrino Julio Morata, à direita.

Na pousada encontrei mais três peregrinos: o Dr. Xavier, seu parceiro, o Júlio Morata, bem como a Cristiane, com quem havia conversado de manhã.

Chegaram ainda mais dois ciclistas: o Richard, de Sorocaba, e o Fernando, “carioca da gema”.


Pousada das Candeias, em 
Luminosa
. Richard e Fernando, ciclistas e amigos.

Qual seja, nesse dia pernoitamos em 18 pessoas na Pousada de Dona Ditinha e, face sua excelente estrutura, ainda sobrou bastante espaço nos alojamentos.

À noite, jantei com os demais peregrinos, mas algo bem leve, porque do grupo todo eu era o único que almoçara.

E rapidamente me recolhi, porque fazia bastante frio e a jornada sequente seria bastante exigente.


Igreja de  
Luminosa
.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto: 5 h 30 min - Clima: frio e nebuloso, variando a temperatura entre 10 e 23 graus.

Pernoite: Pousada Nossa Senhora das Candeias, de Dona Ditinha: Excelente! – Apartamento, com café da manhã e mais 2 refeições - Preço: R$75,00.


AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma etapa tranquila, quase toda plana, à exceção da forte aclividade a ser enfrentada na serra do Cantagalo, além do desenfreado descenso até Luminosa. Porém, sempre em meio a exuberantes paisagens, rodeadas de muito verde. No geral, a jornada mais fácil e bela que enfrentei no Caminho. Não se esquecendo de ressaltar o especial acolhimento que o peregrino recebe em Luminosa, na Pousada de Dona Ditinha.