7º dia – LUMINOSA/MG a CAMPOS DO JORDÃO/SP – 37 quilômetros


7º dia – LUMINOSA/MG a CAMPOS DO JORDÃO/SP – 37 quilômetros


A vida é uma viagem a três estações: ação, experiência e recordação.” (Júlio Camargo)



Mãe Aparecida, peço a vossa benção e proteção, sempre!

Levantei às 4 h e um tanto preocupado, pois sabia da rudeza do percurso, assim, eu tinha minhas dúvidas se conseguiria finalizá-lo a contento.

Ocorre que no dia anterior, quando do forte declive em direção a Luminosa, minha unha inflamada caiu, e deixou o dedo correspondente bastante dolorido e sensível.


Antes de partir, na Pousada das Candeias, pausa para orações na grutinha existente dentro da casa de Dona Ditinha.

E, conquanto o primeiro trecho do dia fosse em íngreme ascenso, depois da Pousada Barão Montês eu enfrentaria outro duríssimo declive.

Eu já conhecia todo o trajeto de cor, sabia de seu rigor, e em 2.011 cumpri o trecho em duas etapas, tal qual o mapa do Caminho da Fé sugere, então tudo ficou mais suportável.

De qualquer maneira, conforme havia combinado no dia anterior com o Sr. Nílton, às 4 h 45 min eu já estava tomando o café da manhã na cozinha da Pousada.

Bem disposto e animado, eu deixei o local de pernoite às 5 h, quando a povoação ainda dormia a sono solto.

Logo acessei a estrada de terra à direita, transpus um pequeno córrego por uma ponte e, assim que a iluminação urbana findou, minha lanterna entrou em ação, pois o entorno era puro breu.

A nebulosidade existente estava tão forte, que apesar de conhecer o roteiro, tive dúvidas em duas bifurcações.

Logo adiante, por sorte, eu me encontrei com um trabalhador rural que descia a serra em direção ao seu trabalho, também com uma lanterna na mão.

Cumprimentei-o, depois perguntei sobre o restante do trecho, porquanto eu estava me sentido um tanto inseguro, em face da escuridão reinante.


No caminho para Campos do Jordão: Com Glauco, Pedro e Dona Inês, em sua Pousada.

Ele me clarificou as dúvidas, assim, mais tranquilo, depois de sobrepujar algumas ladeiras, às 5 h 45 min, eu aportava à Pousada de Dona Inês que, por sinal, já estava acordada e com as portas da casa aberta.

Sua residência, imprescindível clarificar, foi construída a cavaleiro de uma encosta, num local extremamente arborizado, fresco e aprazível.

Para minha agradável surpresa, encontrei o Glauco e o Pedro, cajado nas mãos, prontos para sair.

E eu que pensei que somente os reencontraria em Campos do Jordão, me senti mais otimista, pois teria companhia na viagem, ao menos na primeira parte da escalada.

Fizemos fotos com Dona Inês, depois partimos serra acima, agora por um caminho empedrado, que lentamente foi se encrespando.

Por sorte, o clima permaneceu frio, tempo nublado, assim, com determinação e em ritmo constante, fomos superando os obstáculos que iam se sucedendo pela frente, porquanto todo o roteiro nesse trecho se desenrola sempre em perene e íngreme ascensão.


Um novo dia amanhecendo,..

Com o dia clareando, fizemos fotos de diversos patamares desse alcantilado trecho.

Infelizmente, Luminosa aparecia lá embaixo, afogada sob um mar de nebulosidade.


Ainda em ascenso...

O Pedro estava no roteiro pela segunda vez, enquanto o Glauco era neófito no trecho, de maneira que queria fotografar a paisagem dos mais diversos ângulos.

Com isso, eles me liberaram para seguir em meu ritmo e, lentamente, foram ficando à minha retaguarda.


Ao fundo e ao longe, Luminosa aparece sob um mar de nuvens.

Depois de passar pelo bairro Quilombo, situado a 1.300 metros de altitude, eu prossegui subindo e às 7 h, já no topo do morro, adentrei num espesso bosque de eucaliptos.


No caminho para Campos do Jordão. A fabulosa serra de Luminosa vai ficando para trás.

Ali existe um mirante, de onde pude fotografar Luminosa novamente, bem como o trecho sequente por onde viera caminhando.

Seguindo adiante, o caminho prosseguiu em constante aclividade, que agora cobrava seu tributo nas minhas pernas dormentes e já um tanto doloridas.


No caminho para Campos do Jordão. Divisa dos Estados.

Meia hora depois e ainda em ascensão, atingi o local da divisa dos Estados e, após girar à esquerda, retornei definitivamente às terras paulistas.

Ali, percorridos 9 quilômetros em perene ascensão, fiz uma pausa para hidratação e ingestão de uma banana.


Hora de comemorar...

Sozinho no local, reprogramei a câmera fotográfica, acionei o temporizador e eternizei mais aquele inolvidável momento.

A partir dali iniciou-se um gradativo descenso, por um caminho que proporcionava vistas preciosas pelo seu lado esquerdo.

Porquanto, esse trecho específico, reveste-se de uma beleza natural indescritível, que nos possibilita viver momentos deliciosos, dando liberdade a nossa alma e fantasia, longe das angústias, lutas e sórdidas competições das cidades.

Não havia vestígios humanos à minha volta, embora a humanidade superlotasse o planeta com sete bilhões de indivíduos espalhados por todos os cantos do globo.

Dessa forma, o valor do momento era inestimável!


Agora restam, apenas, 100 quilômetros...

Mais abaixo, já descendo, encontrei altaneiro um marco do Caminho da Fé, em meio à espessa mata, num local místico e soturno, me avisando que daquele ponto faltava exatamente 100 quilômetros para eu chegar a minha meta maior: a Basílica de Nossa Senhora, em Aparecida.

Logo em seguida, como se referendando a comemoração pela marca que eu havia atingido, uma revoada de maritacas passou sobre minha cabeça e quebrou o silêncio reinante de forma espetacular.

Ainda descendo lentamente, transitei por um grande bosque de pinheiros, em meio a muita umidade e espessa neblina, até atingir o asfalto, quando meu relógio marcava exatamente 8 horas.

Então, prossegui subindo até que, entre as placas que demarcam os quilômetros 96 e 94, eu cheguei a 1.804 metros de altura, o ponto culminante dessa etapa.

A partir desse marco, principiei a descender e logo cheguei à Pousada Barão Montês.


Pousada Barão Montês, onde carimbei minha credencial.

Fiz ali uma pausa reparadora para carimbar minha credencial, tomar café e comprar um isotônico.

Ainda descansei um pouco na esperança de que o Glauco e o Pedro chegassem ao local.

Porém, transcorridos 15 minutos sem ocorrer o ansiado aporte, resolvi seguir adiante, pois sentia minhas pernas desaquecendo.


Casa de Latas, em Campista.

Prossegui em frente, agora em desabalado descenso e, seis quilômetros depois, já no bairro Campista, eu adentrei à direita e, mais à frente, passei diante da famosa “casa de latas”, onde parei para fotos.

Logo adiante, próximo de um campo de futebol, eu fleti à esquerda, e logo acessei larga estrada de terra, localizada em meio a frondoso bosque.

Por ela segui solitário, em meio ao pipilar dos pássaros e sob muita sombra, pois o sol finalmente dera o ar da graça.


Trecho sombreado e fresco.

Prossegui em perene ascenso e em alguns trechos o silêncio era tão forte, que pude novamente me reconectar com o infinito.

Em compensação, pela rudeza dessa etapa, a intervalos regulares, a musculatura das coxas chegava à exaustão e eu sentia uma súbita onda de ardor percorrer meus músculos como um choque.

Minhas costas também estavam doloridas na altura da escápula direita, mas nada grave. 


Caminho em ascenso, silencioso e ermo.

Descansei 10 minutos, comi uma barra de cereal e segui montanha acima pela trilha bem marcada.

O céu estava limpo de nuvens, o sol aquecia sem fritar e um vento empurrava forte às minhas costas.

Nesse pique, caminhei, aproximadamente, mais cinco quilômetros, até atingir o cimo do outeiro.


No topo do morro, caminho arejado.

Dali, já no plano, eu avistava a cidade de Campos do Jordão, minha meta para aquele dia.

Contudo, ainda restavam 10 duríssimos quilômetros para aportar ao meu destino.


Quase adentrando em zona urbana.

Foi um percurso urbano, cheio de curvas e nuances, pois primeiramente caminhei em terra, depois em asfalto, mais abaixo retornei a pisar em terreno empedrado até, finalmente, atingir o centro da cidade, quando meu relógio marcava 13 horas.

Bem alojado num hostel, rapidamente me hidratei, pois estava realmente exausto, em face da longa jornada sobrepujada.

Mais tarde, depois de um reconfortante banho, fui almoçar próximo dali, no Sergio's Restaurante, de excelente qualidade.


Refúgio dos Peregrinos, em Campos do Jordão/SP.

Finda a refeição, cochilei por uma hora, depois segui até o Refúgio dos Peregrinos, onde reencontrei os amigos Glauco e Pedro descansando, após a sofrida jornada.

Ali fiz fotos com a Marilda, revi o ambiente, tomei café, carimbei minha credencial e, como de praxe, me senti em casa.


Em Campos do Jordão, com a simpática Marilda.

Na saída, emocionado, despedi dos meus bravos companheiros pois, na etapa seguinte, eles tinham a intenção de ir a pé até a Pousada Santa Maria, onde pernoitariam, prosseguindo em direção a Aparecida no dia sequente.

Esses peregrinos de Fé também farão parte dos amigos inesquecíveis que fiz no Caminho, e não fosse a companhia desses indômitos guerreiros, generosos de coração, minha jornada desse dia e do anterior não teria sido tão alegre e abençoada.

Obrigado Glauco e Pedro pela amizade, prossigo na esperança de um dia poder abraçá-los novamente.


Obrigado Pedro e Glauco! Inesquecíveis companheiros, vocês foram nota dez !

Mais tarde, fiz contato com o mesmo taxista que me levara até o Horto Florestal no ano anterior, e combinamos de ele me apanhar às 4 h 30 min, vez que tinha a intenção de seguir direto até Aparecida no dia seguinte.

Tudo resolvido, tomei um lanche e depois me recolhi, pois fazia bastante frio naquela noite.



RESUMO DO DIA - Tempo gasto: 8 h - Clima: frio, úmido e nublado no início, depois ensolarado, variando a temperatura entre 9 e 18 graus, agradável para caminhar.

Pernoite: Campos de Jordão Hostel, em Campos do Jordão: Excelente! – Preço: R$70,00, com café da manhã, em ambiente compartilhado.

Almoço no Sérgio's Restaurante: Excelente! Um dos melhores do Caminho – Refeição por peso no Self-Service – R$39,00 o quilo.


AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma etapa duríssima, mormente se você estiver carregando uma mochila com 8 quilos nas costas, como eu, durante todo o trajeto. Entretanto, transita-se por locais belíssimos, ermos, extremamente arborizados e, quase sempre, sobre piso em terra. No geral, um dos percursos mais difíceis dentre todos os que cumpri no Caminho, pela extrema variação altimétrica que necessita ser sobrepujada durante o trajeto.



8º dia – CAMPOS DO JORDÃO/SP a APARECIDA/SP – 49 quilômetros