8º dia – CAMPOS DO JORDÃO/SP a APARECIDA/SP – 49 quilômetros


8º dia – CAMPOS DO JORDÃO/SP a APARECIDA/SP – 49 quilômetros


O importante não é apenas a chegada, e sim viver o Caminho.” (A. Fergunson)


Mãe Aparecida, peço a vossa benção e proteção, sempre!

Eu combinei com um motorista de táxi para ele me pegar às 4 h 30 min, de forma que um pouco antes do horário aprazado eu deixei o local de pernoite e me dirigi à Avenida principal da cidade.

Ali me postei ao lado de um restaurante, num cruzamento, e aguardei pela chegada da condução.

Estávamos no inverno, e um frio desconfortável grassava nas ruas adjacentes.

O vento cortante vergastava a cidade, que mal amanhecia para o trabalho.

As pouquíssimas pessoas que transitavam naquele horário tinham as mãos enfiadas até o fundo dos bolsos, e andavam apressadas para esquentar o corpo, com os ombros erguidos e tesos.

Conforme a hora ajustada, no dia anterior, eis que o veículo contratado estacionou do meu lado.

Depois de lhe desejar bom dia, pedi ao condutor, o Sr. Benedito, para zerar o odômetro do automóvel, para que eu pudesse reconfirmar a distância a ser percorrida até meu objetivo.

Exatamente 15 quilômetros rodados em baixa velocidade, sempre por avenidas bem conservadas, vazias e profusamente iluminadas, nós chegamos ao ponto adredemente demarcado: a portaria do Parque Estadual de Campos do Jordão.

Prontamente eu desci, paguei a corrida e me despedi do motorista.

Bem em frente ao portão de entrada do Horto Florestal, nasce uma estrada de terra larga e bastante arborizada.


No portão do Horto Florestal de Campos do Jordão. Início do derradeiro dia.

Que, em seu início, mostra uma pequena placa pelo lado direito, informando várias distâncias mensuradas a partir daquele marco, sendo que a cidade de Aparecida aparece distante 45 quilômetros daquele local.

Contudo, eu já medira essa distância com o GPS instalado em meu celular em 2015, e sabia que essa longitude correspondia a, exatos, 49 quilômetros.

Mas, me encontrava preparado, embora cônscio de que seria um grande desafio a ser suplantado.

O clima se apresentava frio e levemente neblinoso, assim, eu lancei mão da lanterna e, após fazer uma rápida oração, iniciei minha solitária caminhada.

O roteiro seguiu levemente ascendente, por uma larga estrada de terra cheia de sulcos e pedras, sempre em meio a muito verde, sendo que nesse primeiro trecho, encontrei muitas construções e até alguns condomínios.

Mais adiante, eu passei diante de uma pequena vila, constituída por casas de madeira, onde residem os funcionários do horto, e na sequência, comecei a ascender em tortuosidade pelo meio de espesso bosque.

E me sentia imensamente feliz, pois estava ao ar livre, embaixo de todo aquele céu e, no abraço do vento, encontrava a solidão pela qual tanto ansiava, sem me sentir sozinho.

Porém, o silêncio e a solidão dentro do bosque eram quase sufocantes.

Nada se movia no entorno além de mim.

Nem o vento balançava o dossel das árvores mais altas.

Parei diversas vezes para escutar com todos os poros.

O silêncio e a estagnação geral eram quase opressivos.

Mirante São José dos Alpes; tudo escuro na hora que lá passei.

Eu admirava a pujança da mata que se estendia às margens do caminho, praticamente sem clareiras, quase um túnel verde, rasgado entre sólidos troncos e ramagens.

Contudo, meia hora depois, em determinados locais, mais adiante, ouvi barulhos provindos das bordas lindeiras da floresta, certamente, animais noturnos se movimentando pelo entorno.

Nada anormal, porquanto eu estava transitando por um local de preservação ambiental, que contém 8.341 hectares onde, além de 843 espécies de plantas nativas, aves e peixes, habitam ali 63 espécies de mamíferos, dentre eles, a suçuarana.

Por essa razão, o esmigalhar de folhas secas no piso da mata aguçava meu imaginário e eu torcia para que não houvesse onças famintas nas imediações.

É normal sentir medo quando abandonamos nossas referências, mesmo se forem sutis e subjetivas, como mapas rabiscados em pedaços de papel.

Porém, o temor nos faz mais atentos, porque nos permite enxergar com nitidez despudorada nossas próprias limitações.

Assim, quem não consegue lidar com o medo entra em pânico e perde todo controle.

Na verdade, ele é como a régua d'água desenhada nas proas dos navios: marca o limite de segurança, mas não a fronteira da ação.

Então, para me acalmar, salmodiava orações e rogava proteção ao meu Anjo da Guarda, orando: “Santo Anjo do Senhor, Meu zeloso guardador, Se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege me guarde me governe e me ilumine. Amém. Santo Anjo da guarda, guardai-me!”

Contudo e por sorte, não sentia um medo histérico que trava os movimentos e seca a garganta, mas um temor incômodo, sempre presente, como um sapato apertado ou um casaco quente demais.


Outro dia nascendo..

Uma hora depois, lentamente o céu começou a se iluminar à minha esquerda e logo pude desligar minha lanterna, pois a visibilidade aumentava gradativamente, sepultando meus temores e irradiando bons augúrios.


Trecho aberto e arejado.

Passei, então, a caminhar por locais abertos, com ampla visão do horizonte que se estendia à minha frente.

O sol finalmente deu as caras quando, depois de percorrer 9 quilômetros e passar diante de algumas casas esparsas, à esquerda, cheguei numa importante bifurcação.


O sol finalmente apareceu.

Nesse exato local se unem as duas variantes do Caminho de Aparecida, cujas marcações, representadas por setas verdes, eu já vinha encontrando, ainda que de forma um tanto tímida, desde a minha saída defronte ao Horto Florestal.


Local do encontro dos dois ramais do Caminho de Aparecida.

Assim, se eu seguisse à esquerda, aportaria à cidade de Wenceslau Brás.

Porém, meu objetivo era outro, então, prossegui à direita, e um quilômetro depois, eu passei diante da Pousada Santa Maria da Serra, um local belíssimo e privilegiado, localizado a 1.964 metros de altitude, que também acolhe peregrinos e romeiros.


Pousada Santa Maria da Serra.

Andei ainda uns quinhentos metros no plano e, na sequência, eu principiei a descender, em alguns trechos, de forma brusca e violenta.


Bosques hidratados e silenciosos.

Os primeiros quilômetros forma trilhados em meio a espesso bosque, depois, já mais abaixo o panorama se abriu e pude visualizar um grande vale, em meio a bosques nativos, por onde eu prosseguiria meu périplo.


À frente, o morro do Pedrão.

Em alguns locais parei para fotos, porque a paisagem que se descortinava à minha frente e abaixo, era simplesmente deslumbrante, plena de ondulações e muito verde.

A estrada descendia a encosta íngreme da montanha em zigue-zague e, a cada curva, oferecia uma vista mais bonita da região.


Bairro Gomeral, abaixo.

Mais oito quilômetros vencidos em perene declive, passei pelo distrito de Gomeral, cuja sede é Guaratinguetá, um bairro rural que ainda preserva sua história e cultura.

Ele se localiza num região rica em recursos naturais, como rios, cachoeiras, florestas de altitude e remanescentes da Mata Atlântica, propiciando a existência de diversas trilhas e observação de flora e fauna.


Ainda o Bairro Gomeral, abaixo e à direita.

Situada em meio à Área de Proteção Ambiental Federal da Serra da Mantiqueira, é região estratégica para a conservação dos recursos hídricos, florestais e turísticos de todo o Vale do Paraíba.

Ali existem algumas casas, uma igrejinha dedicada a São Lázaro, um restaurante e, mais importante, uma cachoeira situada à beira da estrada, onde avistei uma providencial bica d’água, que utilizei para matar minha sede.


Restaurante Tao, situado no Bairro Gomeral.

O simpático local é recheado de trilhas que levam a locais interessantes, com destaque para o morro do Pedrão, que além de ser o ponto culminante da região, é também o cartão-postal do vilarejo.

Prossegui em forte declive, e mais abaixo passei pelo distrito de Taquaral, onde avistei algumas poucas e esparsas casas, situadas à beira da estrada.


O caminho prossegue abaixo e em meio a muito verde.

A paisagem neste trecho prossegue com contornos de uma região serrana, pois é marcada pela presença de altos picos e colinas com mata exuberante.

Na sequência, iniciou-se o asfalto, que me levou, depois de mais 4 quilômetros, a passar diante da Pousada do Senhor Agenor.

Ali, junto a uma longa mesa, adultos e crianças faziam um grande mutirão, descascando abóboras, para a feitura de doces, que seriam consumidos na Festa de São Benedito, a ser comemorada dali a dois dias, no sábado próximo.


Pousada do Sr. Agenor. Grande mutirão, muitas pessoas trabalhando.

Conversei rapidamente com meu anfitrião e ele me convidou para ficar hospedado, como eu já fizera em outras 5 ocasiões.

Porém, ainda era muito cedo, o clima se apresentava fresco e eu estava animado em prosseguir até a Casa da Mãe Aparecida.


Pousada do Sr. Agenor. Onde a união fez o doce de abóbora.

Assim, adquiri um litro d'água e um lanche preparado pela Dona Maria, para ser degustado mais tarde no caminho.

Aproveitei a pausa para descansar, dialogar com o Sr. Agenor, tomar café e bater fotos.

Quinze minutos depois, reanimado outra vez, após efusivas despedidas, prossegui adiante, e mais um quilômetro percorrido, eu passei pelo distrito de Pedrinhas, cuja sede também é Guaratinguetá.


Igreja situada no bairro de Pedrinhas.

Nesse pequeno núcleo rural com infraestrutura básica para a comunidade existem alguns bares, mercearias, escola municipal, farmácia, além de uma pracinha onde avistei e fotografei uma simpática igrejinha.

Ali também estão instalados o Clube de Campo Pedrinhas e o Balneário “Parque Águas da Mantiqueira”.

Eu estava bem abastecido de maneira que segui adiante, porém sentia que descer da altitude fresca da montanha à planície, fora como entrar em um forno de micro-ondas.

Dali até a Basílica de Aparecida restavam ainda 20 quilômetros ou, aproximadamente, 4 horas de caminhada.


Grandes retões no trecho final. Mas, nenhuma sombra.

Prosseguindo, uns trezentos metros depois, assim que deixei a povoação e obedecendo às flechas sinalizadoras, eu abandonei o asfalto e adentrei à direita, em larga e plana estrada de terra, nominada Estrada Municipal Manoel Meirelles Freire.

A paisagem circundante se tornou agradável, marcada, agora, por antigos casarões de fazendas, pequenos sítios, criação de gado, áreas de pastagens entremeadas por pequenas matas, e a presença de bares e raras pousadas.


Enfim, flores...

Nesse derradeiro trecho, encontrei bastante trânsito de veículos, quase sempre de caminhões, e face à seca prolongada que ali grassava, sofri bastante com a poeira e a baixa umidade.

O sol em seu zênite, também chamuscava e irradiava calor, mas eu levava a garrafa d'água no bolso do casaco e me hidratava com frequência.

Dores cruciantes recrudesciam, amiúde, na panturrilha, depois migravam para a sola dos pés, reacendiam no joelho direito, numa sucessão de dissabores que, desanimado, em determinado local, encontrei uma providencial árvore com sombra, onde fiz uma pausa para ingerir um analgésico.

Tudo plano e muita poeira nesse trecho.

Inferi, naquele momento, que talvez devesse ter ficado hospedado na Pousada do Senhor Agenor, como forma me poupar fisicamente.

Mas, por outro lado, eu estava em paz comigo mesmo, algo efetivamente volátil e passageiro, eu sabia, mas, mesmo assim, reconfortante.


Já próximo de Potim, finalmente, encontrei sombra.

Refeito, prossegui com o rádio ligado, ouvindo à estação do Santuário de Aparecida, e as músicas sacras que lá eram difundidas me incutiram novo ânimo, retemperando minhas forças.

Desse modo, compenetrado e com muita fé, lentamente as distâncias foram decaindo, e após mais cinco quilômetros percorridos, sobrepujados com extrema dificuldade, adentrei em zona urbana, já na cidade de Potim.

Foram mais alguns quilômetros por ruas movimentadas e com intenso tráfego de veículos, até que acessei uma antiga ponte de concreto, por onde transpus o rio Paraíba do Sul, com bastante tranquilidade, pois nela só trafegam pedestres.


A Basílica de Aparecida aparece no horizonte.

Dali eu pude avistar no horizonte, à frente, a Basílica da Mãe Aparecida.

Sentia cada vez mais próximo de meu objetivo, e ao ver aquele maravilhoso conjunto, eu não me contive, e fui tomado de intensa comoção.

Afinal, eu estava reprisando naquele solo sagrado, com suor e lágrimas, os passos de milhões de peregrinos que ali passaram também emocionados pela eminente chegada, algo que me fez vibrar de alegria.

Prossegui por uma larga avenida e, mais adiante, para agradável surpresa, alcancei duas peregrinas, que provinham do roteiro oficial do Caminho da Fé.

Seguimos juntos caminhando, trocando experiências e, por incrível que possa parecer, todo o meu cansaço se esvaneceu, pela emoção da chegada.


Mais uma vitória, sob as bençãos divinas.


Próximo a rampa do santuário fizemos uma pausa para fotos, depois, seguimos visitar à imagem da Mãe Maior.

Na sequência, nós contornamos o templo pelo lado leste, subimos uma escadaria e adentramos num enorme mezanino dividido longitudinalmente por corrimões de metal.

Naquele local, as pessoas se apoiam, e dirigem o olhar para cima, em direção a uma enorme redoma de vidro temperado.

E, então, me deparei com a imagem de Nossa Senhora Aparecida.


Obrigado Mãe Aparecida, por todas as graças alcançadas!

Foram momentos deliciosos, e sob forte emoção, pois ali pude expressar toda a minha gratidão pela jornada realizada, bem como encaminhar, pessoalmente, os pleitos que levava elencados em meu coração, desde a minha partida em direção ao Caminho.

Na sequência, passei pela Secretaria da Catedral onde, extremamente feliz, recebi mais um Certificado Mariano, relativo à conclusão do Caminho da Fé.

Em seguida, me hospedei no Minoru's Hotel e, após um revigorante banho, me dirigi ao Centro de Apoio aos Romeiros, com a finalidade de ingerir um lanche, em face do adiantado da hora, pois me encontrava “varado de fome”.

Após a profícua refeição, aproveitei minha estada ali para adquirir algumas lembranças com a finalidade de presentear meus familiares.

No retorno, com as mãos nos bolsos, integralmente absorto, caminhei a esmo pelas enormes dependências do Santuário em busca do eixo original da minha vida, tão insignificante diante da extraordinária sensação de vitória que acabara por experienciar na chegada.


Visita ao Morro do Cruzeiro. Vale a pena!

No dia seguinte, eufórico, assisti as missas das 7, 9 e 10 h 30 min e, em seguida, de bondinho, fui conhecer o Morro do Cruzeiro, que oferece uma bela vista de Aparecida e regiões circunvizinhas.

E, à tarde, coração opresso de saudades e com a fé reavivada, retornei ao meu lar.


Mais um Diploma do Caminho da Fé, que guardarei com muito orgulho.

RESUMO DO DIA - Tempo gasto: 9 h 30 min - Clima: frio e úmido, quase o tempo todo, até a Pousada do Sr. Agenor. Depois, ensolarado, com temperatura variando entre 7 e 22 graus.

Pernoite no Minoru's Hotel – Apartamento individual razoável – Preço: R$80,00


AVALIAÇÃO PESSOAL – Uma etapa longa e difícil, porém a alegria da chegada compensa o esforço dispendido. Todo o trajeto inicial é feito em meio a exuberante natureza, com preciosas vistas, para qualquer lado que se olhe. No global, uma jornada inédita, plena de gratas surpresas, embora o desgaste físico, por conta das dificuldades já relatadas, seja bastante expressivo. Mas, o reencontro com Nossa Senhora Aparecida, tem o dom de amenizar nossas querelas e oportuniza esperanças num amanhã mais aprazível.