3º dia: SANTA ROSA DO VITERBO/SP a ESTALAGEM SOBREIRA (TAMBAÚ/SP) – 18 quilômetros


3º dia: SANTA ROSA DO VITERBO/SP a ESTALAGEM SOBREIRA (TAMBAÚ/SP) – 18 quilômetros

"Querido Deus, por favor, guia meus passos no caminho da bondade, da justiça e da verdade."


Seria um percurso de pequena extensão, por isso não havia urgência na partida.

Dessa forma, optamos por tomar o café da manhã, o que muito nos refortaleceu e animou.

Os primeiros 6 quilômetros do percurso foram feitos em estrada municipal, a SRV-030 Hani Moussa Debi, um largo e plano caminho em terra batida. 


Igreja no bairro do Nhumirim.

Uma hora mais tarde, passamos pelo bairro do Nhumirim, onde fizemos uma pausa para orar diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que está colocada sobre um pedestal, edificado diante de igrejinha dedicada à “Mãe” homônima.

Mais alguns metros caminhados e acessamos a zona rural onde, rapidamente, tudo ficou ermo e silencioso. 


Estrada plana e sem sombras.

Aproveitamos esse trecho inicial para rezar o terço, como nos dias anteriores.

Seguimos sempre rodeamos por imensos canaviais, com amplas vistas do entorno, onde o verde intenso se sobressaía em todas as suas tonalidades. 


Firmes na trilha... 
(Créditos da foto: peregrina Marlene Santos)

Mais à frente, adentramos a um frondoso bosque de eucaliptos, local propício para aspirar oxigênio em seu mais alto grau de pureza, visto não existir poluição num raio de muitos quilômetros ao nosso redor. 


Caminho entre um fantástico renque de eucaliptos. 
(Créditos da foto: peregrina Marlene Santos)

Sem maiores dificuldades seguimos vencendo os obstáculos, enquanto uma brisa refrescante soprava à nossa retaguarda.

O sol não dardejava com força, de maneira que, sem maiores obstáculos, acessamos um trecho em íngreme descenso. 


Caminho em franco descenso...

Em determinado ponto, fizemos breve parada para conversar com o Sr. João, um sitiante local, que cuidava de seu rebanho de vacas leiteiras. 


Marlene e o Sr. João, fazendeiro local. (Créditos da foto: peregrina Marlene Santos)

Ele nos contou alguns dos problemas que estava passando em termos de saúde e a Marlene se comprometeu em orar pela cura de sua enfermidade, quando aportasse à Basílica de Aparecida.

Já no plano, num local pleno de exuberante vegetação, passamos próximo da sede da Fazenda Santa Rita, situada numa área belíssima, integralmente cercada por matas nativas e banhada por um cristalino ribeirão. 


Quase chegando ao local de pernoite. A Marlene segue à minha retaguarda.

Já em ascendência, a Marlene, orgulhosa, pousou para uma foto diante da placa afixada pelo Caminho da Fé, que nos lembrava restarem, exatos, 444 quilômetros até a Casa da Mãe Maior.

Pouco depois adentramos em agudo descenso que culminou por nos levar até a Estalagem do Sobreira, localizada na Fazenda São José, município de Tambaú/SP. 


A casa sede da Estalagem Sobreira, onde ficamos hospedados nesse dia.

Ali fomos recebidos pela Dona Maria José, uma das proprietárias da imensa propriedade.

O local pode abrigar vários peregrinos, sendo que a Marlene pernoitou na ala feminina e eu no quarto destinado aos homens.

A casa que abriga a Pousada é bastante antiga, porém está muito bem conservada e limpa.

Dona Maria José acolhia, na ocasião, alguns parentes que passavam o tríduo carnavalesco em sua propriedade, assim, o almoço foi comunitário e nele nos sentimos à vontade, tamanho o calor humano emanado em nossa recepção. 


Até a piscina foi nos colocada à disposição nesse dia.

O ciclo do café no Estado de São Paulo foi fortíssimo nos anos de 1870 até meados de 1960. Abriu ferrovias, estradas, gerou riquezas no meio rural, dando à quem vivia naquela época nas fazendas produtivas, condição digna de vida, escolas localizadas nas comunidades, as "vendas" - que desenhavam os atuais supermercados - caracterizando um comércio para satisfazer as necessidades básicas dos moradores do meio rural, muita diversão, muita história e muita estória contadas aos pés dos fornos e fogões a lenha, mornos e aconchegantes, onde todos se juntavam para ouvi-las.

A Fazenda São José, no município de Tambaú, Estado de São Paulo, viveu momentos de grande atividade em função do plantio e comercialização do café. Chegou a ter, cerca de 50 famílias vivendo na fazenda e trabalhando nesta lavoura. Se imaginarmos que cada família era constituída de, no mínimo 4 pessoas cada, podemos entender a importância da comunidade de cerca de 200 pessoas, a estrutura que era necessária ter para manter a vida de todos e a produção.

Iniciada por imigrantes espanhóis, originários de Goyan, na Galícia, norte da Espanha, o Sr. Castor Sobreira, na época com 18 anos, saiu da Espanha para o Brasil, para evitar sua ida para as Filipinas, onde o seu País procurava manter o domínio colonial nas ilhas e, poucos voltavam à sua terra. Seu caminho imigratório passou pelos municípios de Santos, São Carlos, onde trabalhou como pedreiro, Santa Cruz da Estrela - hoje distrito de Santa Rita do Passa Quatro e finalmente Tambaú, todos no Estado de São Paulo. Casado duas vezes, teve 12 filhos e com eles, iniciou a fazenda adquirindo um pequeno pedaço de terra, que foi sendo ampliada com novas aquisições. Toda a história vivida pelas pessoas, nesta pequena comunidade, é representativa da história vivida pela maioria das pessoas do nosso Estado e do nosso País naquela época e não pode ser perdida no tempo, devendo ser resgatada, registrada e preservada, com o objetivo de não perdermos a memória cultural da nossa sociedade e a origem da nossa própria existência.

A sede atual da fazenda foi construída no início dos anos 60, em substituição ao antigo casarão que não foi possível restaurar, e abrigou a família Sobreira. Foi construída em um plano mais alto em relação as demais construções da fazenda, favorecendo a visto do grande vale a sua frente, por onde corre o Córrego Ribeirão do Meio. 


Acima, no topo do morro, a igrejinha da fazenda São José.

O clima é temperado. No inverno o frio é intenso no vale, ocorrendo geadas com frequência. O verão e quente e as chuvas são frequentes. Estas são as duas estações do ano bem definidas, sendo que a primavera e o outono apresentam um clima ameno e seco. No outono florescem as paineiras e as quaresmeiras dando um colorido cor-de-rosa à paisagem. No final do inverno florescem os ipê brancos, amarelos e roxos. Vale a pena ver a força e o encanto da natureza traduzidos nessas floradas.

Sempre foi uma preocupação a preservação do meio ambiente na fazenda e sempre foram tomadas medidas no sentido de não agredi-lo. Existem várias áreas de reserva e é feito constantemente, um trabalho de reflorestamento.

É mágico e rápido e efeito da preservação adequada das matas e do reflorestamento. Espécies de pássaros que haviam desaparecidos, voltam a este habitat, e o ciclo migratórios das aves é muito mais pujante e muitos, felizmente, escolhem a nossa área para deitar seus ninhos e procriar. Nos lagos aparecem diferentes espécies de patos selvagens, de diferentes tamanhos e multicoloridos.

As garças fazem revoadas em grandes bandos. Ao alvorecer, podemos ouvir a algazarra dos macacos nas matas. Podemos nos deparar com as capivaras e seus filhotes, tatus, gambás e outras espécies que se sentem seguros conosco. 


A capelinha de outro ângulo.

“Causos” 

Seu Silvestrino foi um colono da fazenda que morou no Roção. Sua casa já não existe mais, ele foi o último morador daquele lugar.

O Roção é o ponto mais alto da fazenda, é a montanha onde o sol se põe. De lá é possível ver toda a fazenda, com a sua sede, a colônia, o estábulo, as oficinas, enfim, tudo.

Seu Silvestrino era um homem que se dizia feliz, riso fácil, alegre sempre, de bem com a vida. Ele nunca ria, só gargalhava. Tudo era motivo de muita alegria. Da casa dele até a sede, ou até a colônia, eram uns 300 metros. Podíamos ouvir quando ele gargalhava na sua casa. Dizia ele que era feliz porque morava naquele lugar, bonito, gostoso, na porta por onde o sol ia dormir. Para nós crianças dizia que ele ia e voltava com o sol. Dizia que da fazenda não sairia nunca, só quando morresse.

E foi assim. Um dia, silêncio total já pela manhã. Seu Sivestrino tinha morrido durante a noite. Feliz dizia sua mulher. Sorriso nos lábios. Eu acreditei por muito tempo que ele tinha ido com o sol e tinha se perdido, por isso não voltou. Acho que foi assim mesmo.

Ninguém mais morou naquela casa que com o tempo se estragou, caiu, desapareceu. Ficou somente a enorme recordação daquele homem feliz. Muitas vezes podemos ainda ouvir o seu riso, agora misturado um pouco com o som do vento soprando na montanha, fazendo barulho nas árvores.

Fonte: http://estalagemdosobreira.com.br


Essa igrejinha têm histórias lindas..

Mais tarde, após um breve descanso fomos, a Marlene e eu, visitar a igrejinha instalada num morro fronteiriço, de onde detínhamos ampla vista de toda a região.

O site da Estalagem diz o seguinte sobre ela:

“A capela foi erguida em 08/07/1951. Foi inaugurada pelo Padre Donizetti Tavares de Lima em uma cerimônia simples mas complementada por uma churrascada.

O projeto de arquitetura, se assim podemos chamar, foi executado pelo Tio Zezé que era dentista e a pessoa da maior habilidade manual já conhecida.

Foi construída pelo José Menegatti, o pedreiro oficial da fazenda, juntamente com o Tio Mauro. Os tijolos eram feitos na olaria da fazenda. A madeira foi tirada das matas e trabalhada na serraria da fazenda, também pelo Tio Mauro.

Decidiu-se colocar no alicerce da igreja, muito bem lacrada, uma caixa contendo jornais da época, dinheiro papel, moeda e documentos mostrando fatos importantes daqueles tempos.

Sábios aqueles homens quando decidiram isso. Já pensaram daqui a 300 anos o que poderá ter acontecido neste lugar? Se alguém decidir escavar ruínas neste lugar e encontrar estas informações, terá encontrado um tesouro. Se existir até lá, todos saberão do tesouro guardado no alicerce dessa preciosidade construída há tanto tempo.”
 


Vista da Fazenda São José, desde o alto do morro, junto à igrejinha.

O jantar, servido nos moldes costumeiros, contou com a presença de todos que visitavam o local.

Finda a lauta e agradável refeição, ficamos conversando à mesa, enquanto era servido café e sobremesa caseira para quem desejasse.

Havia a vaga promessa de um jogo de baralho, para o qual eu fui convidado, mas com a hora avançando, preferi desistir do intento e logo me recolhi, já prelibando a etapa derradeira, seguido de imediato retorno à minha residência, de onde eu já me encontrava saudoso.