Home‎ > ‎Caminho da Fé‎ > ‎CAMINHO DA FÉ - 2015‎ > ‎

1º dia: AGUAÍ à SÃO JOÃO DA BOA VISTA – 28 quilômetros


1º dia: AGUAÍ à SÃO JOÃO DA BOA VISTA – 28 quilômetros


O céu mesmo gira continuamente em círculos, o Sol nasce e se põe, as estrelas e os planetas mantêm constantes o seu movimento, o ar ainda é levado pelos ventos, as águas fluem e refluem, ensinando-nos que devemos estar sempre em movimento.”

 (Robert Burton)


A jornada seria de razoável extensão, de forma que resolvi partir assim que o dia clareasse.

Dessa forma, levantei-me às 4 h 30 min, fiz as abluções matinais, depois ingeri frutas e chocolate, posto que o café da manhã somente seria servido após as 6 h 30 minutos.

Muito tarde, convenhamos, para um peregrino que iria enfrentar longas distâncias.

Bem, depois de intensos alongamentos, deixei o local de pernoite, quando meu relógio marcava exatamente 6 h.


Placa anunciando que restam 364 quilômetros até Aparecida/SP.

Uma placa afixada num poste localizado defronte à Pousada, me informava que daquele local até Aparecida, restavam 364 quilômetros.

Segui tranquilamente em direção ao centro da cidade, transitando por ruas silenciosas, onde já circulavam alguns sonolentos trabalhadores extemporâneos, que se dirigiam à sua faina diária.


Passagem pela rua XV de Novembro, junto à praça central de Aguaí.

Junto à praça central, eu acessei a rua XV de Novembro e por ela segui indefinidamente até que, mais acima, ela acabou por desaguar na Avenida Miguel Biazzo.

Então, observando a sinalização, girei à esquerda e prossegui por um calçadão lateral.


Avenida Miguel Biazzo, hora de virar à esquerda.

Nesse local, pude observar inúmeros “rurais”, todos com a matula a tiracolo, que aguardavam condução que os levaria ao local de trabalho.

Quinhentos metros depois, eu girei à direita, e logo adentrei em larga e retilínea estrada de terra.


Início da estrada de terra, com muito entulho nas laterais.

Uma grande placa do Caminho da Fé, fincada do lado esquerdo da vereda, desejava boa viagem ao peregrino, e agradecia por sua visita à cidade.


Lentamente, a estrada de terra se transforma e fica maravilhosa..

Logo cessou o tráfego de veículos e, sozinho no trajeto, pude curtir o silêncio e o cantar dos pássaros, enquanto lentamente o sol ia iluminando o ambiente.


Caminho em direção à São João da Boa Vista. Caminho retilíneo, com piso socado.

Esse trecho, de piso socado, e ainda bastante úmido, me proporcionou uma caminhada prazerosa e hidratada, pois ainda havia focos de neblina no entorno.

Nesse primeiro tramo, segui tendo de um lado imensos laranjais e, do outro, fartas pastagens.


Nesse local, segui à esquerda.

Depois de aproximadamente 5 quilômetros percorridos, uma flecha me remeteu à esquerda, por onde prossegui indefinidamente entre grandes plantações de laranja.


Nesse trecho, abundam infinitos laranjais.

A maior parte da safra já havia sido colhida, porém alguns pés ainda exibiam frutos maduros e retardatários.

Mais adiante, eu atravessei pela primeira vez a linha férrea e logo a estrada se trifurcou.


Giro à direita, seguindo paralelo à estrada de ferro.

Porém, esse ramal está muito bem sinalizado, de forma que, obedecendo as flechas amarelas, eu girei à direita, prosseguindo paralelo aos trilhos do trem.

Do meu lado esquerdo havia uma imensa plantação de mandioca, ao que me pareceu uma cultura um tanta rara nessa região, mormente em grandes extensões.

Porque, via de regra, são cultivadas apenas para consumo próprio.


Agradável trecho em mata nativa. Meus pulmões agradeceram..

O caminho, belíssimo, logo adentrou em um fresco trecho de mata nativa.

Eu seguia solitário e, até aquele momento, ainda não havia encontrado com nenhum ser humano.


Caminho bucólico e silencioso.

Ouvia apenas a voz do vento nas árvores e, a todo instante, o mavioso cantar dos pássaros.


Nessa bifurcação, girei à esquerda.

Depois de oito quilômetros percorridos, diante da placa de 356 quilômetros restantes, numa bifurcação, eu segui à esquerda.

Então, passei a caminhar num trecho onde a cana-de-açúcar fora recentemente colhida e o terreno já estava sendo preparado para novo plantio.

Do meu lado direito, a tônica prosseguia imutável: um imenso laranjal.


Extenso laranjal do lado direito. Nesse trecho encontrei poucas flechas.

Nesse trajeto, pela dificuldade em se colocar marcos, segui um bom tempo sem encontrar sinalização.

Mas, logo abaixo, depois de fazer uma curva à direita, me reencontrei com as benfazejas flechas amarelas.


Caminhando entre laranjais que, nesse entremeio, estão protegidos por cercas vivas.

Prossegui, então, agora ladeado por extensas culturas de laranjas, algumas no ponto de colheita.

Eu estava sozinho no caminho e curtindo muito o entorno e o visual.

Em determinado local, fiz uma pausa, finquei meu cajado num local lamacento, posicionei a câmera fotográfica e acionei o temporizar.


Momento de alegria e comemoração!

Pude, então, eternizar o momento mágico que vivia no Caminho da Fé.

Por um bom tempo prossegui eu por um corredor verde, representado por cercas vivas que protegiam os laranjais, tendo Deus e o céu azul por companhia.


O caminho prossegue ermo e bem hidratado.

Mais à frente, voltei a ultrapassar a via férrea em nível e, já do outro lado, prossegui indefinidamente por uma estrada plana e extremamente arborizada.

Foram momentos de grande introspecção, onde pude externar agradecimentos ao Criador e refazer minhas orações diárias.


A mata nativa dá o tom nesse tramo..

A todo momento eu agradecia a Deus por minha saúde e pela beleza que me era oferecida pela paisagem circundante.

Além disso, o clima fresco e úmido, proporcionava um caminhar seguro e agradável.


Caminho silencioso e pleno de verde.

Mas, o sol que estava imerso em um colchão de nuvens, prometia em breve dar seu ar da graça.

Depois de emergir do fresco bosque, enfrentei pequeno ascenso, localizado em meio a uma grande extensão de terras, onde o milho havia sido recentemente colhido.


Caminho em direção à São João da Boa Vista. Pausa para descanso após percorrer 11 quilômetros.

Uma árvore solitária dava o tom nesse trecho e, debaixo de sua copa, fiz uma pausa para descanso, hidratação e ingestão de uma banana.


Caminho retilíneo e com sombra.

Na sequência, adentrei em outra larga e retilínea estrada, tendo por um lado uma cerca viva e, à esquerda, uma grande área estava sendo preparada para o plantio de cana-de-açúcar.

Então começaram a surgir os cafezais em ambos os lados da estrada, em grande extensão.

Observando o horizonte que se abria a cada aclive nesse bucólico entremeio, pude avistar um grande maciço montanhoso ao fundo.


M
Muito café no entorno.

E que, além embelezar a paisagem, demonstravam o que eu encontraria no dia seguinte.

Tratava-se da serra da Mantiqueira, que eu afrontaria no trajeto sequente.


Igrejinha ao fundo!

Em determinado ponto, ainda ladeado por cafezais, avistei ao longe e do lado direito, um pequeno bairro, com algumas casas, onde sobressaia uma igrejinha com pintura amarela e recente.

Na sequência, passei por vários bambuzais, que me proporcionavam sombra e frescor, porquanto o sol já abrasava.


Natureza exuberante!

A mata nativa dava o tom em alguns locais, com árvores exibindo folhagem nova e muitas flores.


Extensos cafezais nesse trecho, onde a terra vermelha é a tônica.

A terra, de coloração avermelhada, atestava sua fecundidade pela exuberância dos pés de café que me ladeavam na trilha.

Até que cheguei a um grande e movimentado cruzamento, quando as flechas me remeteram para um caminho deserto, situado à esquerda.

Nesse local emblemático, se cruzam vários caminhos que se dirigem a diversas localidades e fazendas da região.


Cruzamento emblemático..

Enquanto eu permanecia observando o entorno e fotografando o lugar, passaram por mim dois enormes treminhões, carregados de cana que, por certo, se dirigiam a alguma usina açucareira.


Paisagens paradisíacas. Alguém duvida?

Depois segui pelo caminho sinalizado e, logo acima, debaixo de frondente bambuzal, num local fresco e arejado, fiz a segunda pausa do dia, para descanso e hidratação, vez que o clima já se fazia hostil.

Na sequência prossegui por caminhos bem delineados, quase sempre planos e retilíneos.

Nesse trecho, as plantações de cana-de-açúcar retornaram com força e em grande extensão.


Trecho descampado, grande plantação de cana.

Eu prosseguia praticamente sozinho na senda, porque nesse dia cruzei com pouquíssimas pessoas e como a safra da cana e do café, praticamente já estavam encerradas, não vi nenhum trabalhador em atividade nessas culturas.


A cana-de-açúcar dá o tom nesse entremeio.

Eu levara apenas uma garrafa de 500 ml com água, pois a meteorologia previra chuva e clima fresco para esse dia.

No entanto, o que acontecia era tempo aberto, com o sol crestando para valer.


Caminho retilíneo e plano: uma delícia!

Meu estoque de água estava no fim, porém é quase impossível a obtenção desse precioso líquido, vez que inexistem nascentes ou fontes, e as casas sedes das fazendas que compõem esse trajeto, estão situadas a longa distância do caminho.


Em alguns trechos a mata nativa retorna à estrada..

Em algumas residências onde tentei contato, permaneciam fechadas e silenciosas, sinal de que seus moradores estavam na cidade ou trabalhando na roça.


Mais cana no entorno..

Para piorar, a baixa umidade na atmosfera contribuía para que eu desidratasse rapidamente, além de me deixar com a garganta seca e raspante.


Caminho plano e agradável..

Assim, nada podia fazer a não ser prosseguir estoicamente em frente, com muita fé e coragem.

Numa determinada fazenda, curiosamente, encontrei uma cultura de pés de mangas, quero crer, da espécie Adem (ou Haden), todos floridos, algo inusitado para mim.


Uma plantação de pés de manga.

Ademais, debaixo de cada árvore havia inúmeras varas de bambu que, com certeza, seriam utilizadas para escorar os galhos quando estes frutificassem.

Prosseguindo, enfrentei novamente grandes estirões silenciosos, onde o único som era proveniente dos pássaros, quase sempre, de maritacas.


Outro belíssimo trecho do caminho.

A cana-de-açúcar dava o tom nesse tramo, com plantações a perder de vista.

O piso da estrada, bem compactado, me permitia seguir num ritmo bom e uniforme.

Apesar do entorno maravilhoso e do céu sem nuvens, minha única preocupação era com minha sede crescente.


Caminho em direção à São João da Boa Vista. Muita cana no entorno.

Eu transpirava abundantemente e, com prudência, ingeria pequenos goles de água, sempre reservando um pouco para futuras eventualidades.

Finalmente, depois de percorridos aproximadamente 19 quilômetros, iniciou-se destacada declividade, sempre em meio a grandes fazendas.


Finalmente, descendendo..

Inesperadamente, surgiu uma bifurcação à frente, onde havia um poste inclinado, e nele, nenhuma informação quanto ao ramal a seguir.

Fato um tanto estranho, porquanto até aquele local não tivera dúvidas quanto ao rumo a tomar.

Indeciso, busquei marcas no início de ambos os braços que me clarificassem por onde eu deveria prosseguir meu périplo, porém, não visualizei nenhum tipo de sinalização ou flechas amarelas.


O caminho prossegue belíssimo...

Fazia quase duas horas que não avistava vivalma no Caminho, de forma que, a quem indagar o rumo certo?

Depois de analisar detidamente a situação, resolvi prosseguir pelo ramal situado à minha esquerda.

Como um milagre, um anjo se materializou no ambiente, quando um carro apareceu na estrada e eu, estabanadamente, fiz sinal para que ele parasse, no que fui prontamente atendido.


Ainda em leve descenso..

O Sr. Juvenal me informou, então, que o correto seria seguir à direita, pois ele conhecia o roteiro e aventou a possibilidade de que alguém pudesse ter removido a sinalização existente naquele local estratégico.

Depois de lhe agradecer efusivamente, retornei sobre meus passos uns duzentos metros e, ainda um tanto apreensivo, prossegui à direita.

Cem metros depois, localizei as tranquilizadoras flechas amarelas pintadas num mourão de uma cerca e pude seguir novamente despreocupado.


Trecho belíssimo, mas sem sombras.

Porém, para variar, nesse trecho também as casas à beira do caminho eram raras e, a grande maioria estava fechada.

Naquelas que observei algum movimento, estavam situadas a razoável distância do Caminho e protegidas por vários cães.

Desanimado, por uma ponte de concreto eu ultrapassei um riacho e prossegui em ascendência.

Logo visualizei à esquerda, numa estrada lateral, o acesso à Comunidade Terapêutica Luz Para Vida, que cuida de dependentes químicos.

Trata-se de uma clínica de recuperação e tratamento para viciados em drogas e álcool.


Em ascenso e sofrendo muita sede.

Seguindo em frente, eu pude verificar que o aclive não era tão forte, porém, senti a boca seca e o peito arfante, em face da quilometragem acumulada até aquele patamar e o estafante calor que grassava o ambiente sem nenhuma brisa.

O sol castigava sem dó, fazia um calor infernal, e meus pés ardiam pelo esforço dispendido, nesse trecho derradeiro, embora em determinados locais, houvesse sombras.

Eu sustentava meu sofrimento com resignação inabalável e, ainda assim, precisei de muita energia e fé para cumprir até o final a jornada desse dia, pois cada fibra cansada, cada músculo alongado, implorava por descanso.


Caminho belíssimo, mas quase sem sombras.

Porém, nesses momentos nebulosos, a oração é um poderoso lenitivo, assim prossegui adiante pedindo luz e forças.

E meu anjo da guarda se materializou novamente logo adiante, quando eu vi uma senhora à porta de sua humilde residência, observando a estrada.

Tratava-se da dona Márcia, que aguardava a passagem do ônibus escolar, que levaria seu filho para estudar em São João.

Expliquei-lhe minha situação e humildemente roguei por um copo de água, no que fui prontamente atendido.

Nessas horas amargas, é que se valoriza tão bons e perfeitos gestos, a que muito agradeci, pois pude também encher a garrafa plástica que levava, com o precioso líquido que, segundo ela, era proveniente de uma fonte existente em sua propriedade.


Pela quarta vez, ultrapassando a via férrea.

Novamente hidratado e depois de fraternas despedidas, prossegui animado e, logo acima, no final da ascendência, ultrapassei novamente a linha férrea.


No final da aclividade, quase chegando ao asfalto.

Depois, ainda segui por uns 500 metros, desta vez por um caminho fresco e sombreado.


Muita sombra nesse tramo final.

Que culminou numa estrada asfaltada, pela qual prossegui já em zona urbana.


Adentrando ao asfalto, já em zona urbana.

Por sinal, nesse trajeto derradeiro, por uma ponte, ultrapassei o encorpado rio Jaguari-Mirim, que vai desaguar mais abaixo no rio Mogi-Guaçu, já próximo da Cachoeira das Emas, em Pirassununga, e cuja existência eu desconhecia.

Nesse tramo final, caminhei aproximadamente 3 quilômetros por avenidas e ruas muito bem sinalizadas, até aportar no centro de São João da Boa Vista, meu destino naquele dia.

Numa movimentada avenida, tomei informações com transeuntes e logo me hospedava no Hotel Libero que, embora não seja credenciado pelo Caminho da Fé, também oferece descontos a peregrinos.

Por sinal, ele está estupendamente bem localizado, a 30 metros da praça central, que abriga a igreja matriz da cidade.

Ali paguei R$78,00 por um excelente quarto, que continha todas as comodidades que um caminhante necessita após uma exaustiva jornada.

Depois de um banho reconfortador e a necessária lavagem de roupas, fui almoçar no restaurante Panela Velha, localizado a duas quadras dali, onde ingeri uma refeição saudável e deliciosa, por um preço justo.

No retorno, adquiri água num supermercado, depois, deitei para descansar.


Praça central de São João da Boa Vista.

As origens de São João da Boa Vista, “A Cidade dos Crepúsculos Maravilhosos”, apresentam pontos controversos que jamais serão perfeitamente esclarecidos, pois não há documentação fidedigna que traga prova irrefutável de como se deu sua fundação.

Aceita-se, no entanto, como fato comprovado que as terras que formam hoje o município pertenciam a Mogi Mirim e foram ocupadas por Antônio Manuel de Oliveira (vulgo Antônio Machado) que, juntamente com seus cunhados Ignácio e Francisco, chegou às margens do rio Jaguari-Mirim, vindos de Itajubá, em 24 de junho de 1821.

Antônio Machado doou o terreno para o patrimônio da futura população e, desde quando fora erguida a capela sob o patrocínio do monsenhor João José Vieira Ramalho, vinha o eclesiástico a ela, de sua Fazenda Pinheiros, a fim de celebrar missa aos domingos e, possivelmente, celebrar batismos e matrimônios.

Nessas viagens, monsenhor tomou-se de amores pelo povoado incipiente, acabando por mudar-se para lá, adquirindo propriedades rurais e casas na parte povoada.

Padre Ramalho deve ter sido um interessante tipo de pioneiro, destemido e que sabia batalhar pelas suas opiniões políticas, vez que sabe-se que tomou parte da revolução de 1842.

Ainda hoje existem na Estação da Prata os córregos do Quartel e do Polvarinho, assim como a Serra do Paiol, que devem ser remanescentes dos nomes dados a pontos estratégicos utilizados nas empreitadas bélicas do ativo sacerdote.

O nome da cidade deriva do fato seguinte: os Machado chegaram aqui em vésperas de São João e resolveram dar o nome do santo festejado ao pouso onde se instalaram.

Quanto ao resto do nome da cidade (da Boa Vista), explica-se pelas paisagens encantadoras que se descortinam das serras e da maravilhosa mutação de cores que apresentam aos que a admiram da cidade.

Em 28 de fevereiro de 1838, o pequeno povoado foi elevado à freguesia e, em 24 de março de 1859, lei provincial elevou a freguesia a vila. Existe ainda nos arquivos da Prefeitura a ata da instalação da nova vila, em cerimônia realizada em 7 de setembro de 1859.

O verdadeiro patrono do município foi Monsenhor João José Vieira Ramalho, pois sem seu interesse e sua proteção não se desenvolveria o pequenino burgo; o povo queria ser assistido por padre e sentia a necessidade de uma capelinha para a celebração da missa dominical e dos sacramentos.

Padre Ramalho incentivou o aumento de população propiciando aos moradores aquilo que mais desejavam; estabelecendo-se depois aqui, deu ao município o impulso necessário para progredir.

Com os trilhos da Mogiana, chegou mais tarde um novo estímulo para o progresso pois facilitavam o intercâmbio econômico e cultural com cidades mais adiantadas e com a capital da então Província de São Paulo.

O município compreendia a própria sede e as vilas de Aguaí (então Cascavel), Vargem Grande e Prata que, com o decorrer do tempo, foram conseguindo sua autonomia, erigindo-se em cidades progressistas dignos rebentos de sua laboriosa cidade mãe.

Surgiu então a primeira escola municipal, sendo primeiros professores registrados o casal Sandeville; a Prefeitura recebeu de Joaquim José de Oliveira, um prédio onde pudesse funcionar e a cidade foi crescendo devagar, espalhando-se pelos terrenos que margeiam o Jaguari, o rio da Prata e o córrego São João.

As casas foram surgindo em depressões e colinas formando com os anos um aglomerado bastante denso.

Patrocinada por um sacerdote, como a cidade de São Paulo, São João da Boa Vista constituiu uma população extremamente religiosa. Em 1848 foi construída a primeira Igreja Matriz, em 1890 foi construída a nova igreja e, em 1912, ela foi ampliada, e quase toda reconstruída; a torre foi aumentada, foram edificadas duas capelas laterais e foi instalado o altar-mor, todo de mármore importado da Itália.

População atual: 85 mil habitantes.

Fonte: Wikipédia


Igreja matriz São João da Boa Vista.

Depois da necessária soneca, já retemperado, dei um grande giro pelo centro da cidade, aproveitando para fotografar e conhecer o interior da igreja matriz da cidade, cujo padroeiro, como não poderia deixar de ser, é São João.

Pude visitar e orar em seu maravilhoso interior e, sobre ela, nada melhor que um artigo que dignifica sua origem e peculiaridade:


Interior da igreja matriz São João da Boa Vista.


Presente de Natal: tocam os sinos da Catedral – 1/1/2005

Um dos maiores monumentos da cidade é a Igreja Catedral de São João Batista. Imponente no centro da cidade, é um símbolo de respeito, de fé. Já foi capela, Igreja Matriz e há mais de 40 anos é a Igreja Catedral da Diocese de São João da Boa Vista.

A Catedral em sua longa história passou por várias reformas, a última terminou em 1995. A restauração da Igreja Catedral em sua história recente foi idealizada pelo saudoso engenheiro João Batista Merlin. Recuperar o templo era seu sonho e seu trabalho. Com seu dinamismo envolveu a cidade, empresas, empresários, jovens, enfim todos os segmentos da sociedade com um único objetivo: Igreja Catedral. Infelizmente o destino não deixou nosso saudoso João terminar seu trabalho, que foi concluido pelo Monsenhor Denizar Coelho.

Em 1995, Dom Dadeus Grings, então Bispo Diocesano, presidiu a solenidade de Sagração da Igreja Catedral. Tudo novo: torres recuperadas, reformas, novo piso, nova pintura, novos bancos. E o mais importante: fé renovada.

OS SINOS: O relógio da Catedral data de 1890. De procedência alemã, o velho equipamento foi substituído por um novo e mais sonoro. Não deu certo. E durante anos as torres da Catedral estiveram mudas, caladas, sem os badalos das horas. Durante anos olhar para as torres para confirmar o horário era um gesto inútil. O relógio estava parado, ou melhor, só se via o mostruário. Nada mais.


Igreja matriz de São João da Boa Vista.

O velho relógio alemão não estava na torre, mas depositado no Salão Diocesano, bem defronte a lateral da Catedral. Guardado.

DEDICAÇÃO: Se o mostruário frio no alto da torre, sem ponteiros girando era muitas vezes observado pelas pessoas, isso incomodava muito um sanjoanense simples e trabalhador: João Batista Ferreira, o “João da Praia”.

João é mecânico de carro por profissão. Mas um curioso na arte da eletrônica: trabalhou até com o Rosário Mazzi. Mesmo trabalhando na guincho do Adilson Reck ou do Gélsio Grespan, há dezesseis anos fez sua primeira restauração em relógios de igreja. Foi na da Capela de São Benedito. Juntou as peças do velho relógio, limpou, organizou, restaurou e montou. Há dezesseis anos o Bairro do São Benedito ouve as batidas do relógio de sua igreja. Nunca mais deus problemas.

NO LOMBO”: No dia 1º de novembro deste ano, João da Praia encontrou-se com Monsenhor Denizar na Igreja de S.Benedito e lhe fez uma proposta: deixá-lo tentar recuperar o relógio da Catedral. Depois deste dia foram muitos outros de conversa com o Padre, com Pílade, com Lindão Garcia. João da Praia não desanimou, voltava todos os dias, até que já no início da segunda quinzena de novembro ouviu o que tanto esperava: “o relógio está em suas mãos”.

A velha engrenagem, de mais de 250 quilos estava no Salão Diocesano. Começava ali a restauração do relógio, que voltou à torre: “carreguei o relógio em partes para a torre, subindo degrau por degrau levando o relógio no lombo”.

A RESTAURAÇÃO: Com o consentimento para tentar colocar o velho relógio em funcionamento, João da Praia pediu ajuda ao comerciante Grulli (Xarazinho): na camionete de Grulli carregou o relógio que ele desmontou em duas partes. Tudo foi levado para a oficina do Adilson, no bairro do Pratinha. Lá, conta João da Praia, que desdobrou as partes do relógio em seis e tudo foi lavado e lubrificado. As peças quebradas foram restauradas em várias oficinas a quem pediu ajuda: ao William Blasi, na empresa Tavimac, na oficina do Adilson e na oficina do Teté.


Interior da igreja matriz São João da Boa Vista.

A VOLTA PARA TORRE: Com tudo pronto, restaurado e engrenagens funcionando desmontadas, o próximo passo de João da Praia foi levar o relógio de 250 quilos para a torre.

Primeiro trabalhou sozinho na torre: conseguiu vigas com a empresa Tavimac e construiu uma nova base para o relógio.

O segundo passo foi levar o relógio desmontado em seis partes para o pé da escada da torre na Catedral.

CARREGOU A CRUZ: “Aí eu tinha que levar tudo para a torre e montar o relógio e torcer para que tudo funcionasse. Mas antes tinha que vencer 90 degraus.


Igreja matriz de São João da Boa Vista; outro ângulo.

Então fiz uma oração antes de começar a subir, pedi a Jesus e disse a Ele que o relógio não era mais pesado que a Cruz que Ele tinha carregado, e portanto que me ajudasse”. João da Praia disse que levou os mais de 250 quilos nas costas, degrau por degrau, sozinho: “enquanto alguns diziam que iam pedir auxílio ao Paulo Merlin para subir o relógio com guindaste, eu terminei o serviço.

O mais difícil e pesado foi carregar os carretéis. Mas nem nesta subida eu senti cansaço. Jesus me ajudava e comigo subia com todo o peso, e descia descansando. Queria ver o sino tocar no Natal, e consegui.”

REGULAGEM: Com as seis partes do relógio na torre, João da Praia começou a montá-lo, e depois a restaurar os ponteiros originais e a regulá-los. Vez ou outra o relógio badalava no alto da torre e chamava a atenção das pessoas acostumadas a vê-lo mudo. Era o serviço de regulagem e finalmente o funcionamento experimental.

Tudo acompanhado de perto pelo Monsenhor Denizar e pelo Padre Claudemir. Tudo testado, tudo funcionando, e no Dia de Natal, o relógio alemão começou a funcionar, definitivamente.

E está lá, no alto da torre, badalando as horas e meias horas.

Fonte: http://www.guiasaojoao.com.br/


Teatro Municipal de São João da Boa Vista.

Depois, fui fotografar o Teatro Municipal, outro símbolo dessa progressista urbe.

Que, por sinal, foi inaugurado em 1914, e permaneceu fechado por diversos anos.

Após tempos de abandono, sofreu uma reforma completa, mas continua mantendo suas características originais da época áurea do café.

Hoje o Teatro Municipal recebe dezenas de peças além de shows e eventos realizados pela Prefeitura Municipal, sendo considerado como ponto de referência da cidade, e um dos mais belos teatros brasileiros.


Paço Municipal de São João da Boa Vista.

Próximo dali, se localiza o prédio onde está instalado o Paço Municipal, que também pude admirar e fotografar.

O prédio em tema, trata-se de um antigo palacete, que agora abriga o Gabinete do Prefeito e alguns setores administrativos da Prefeitura Municipal.

Construído na década de 1930, o edifício foi por muito tempo um dos mais importantes e imponentes palacetes da cidade, pertencente a um dos barões do café.

Após o declínio dessa cultura, o imóvel foi então vendido, e acabou nas mãos da Prefeitura.


Escola Estadual “Cel. Joaquim José”.

Minha visita seguinte foi a entrada da Escola Estadual “Cel. Joaquim José”.

Fundado em 1903, o então Grupo Escolar, foi uma das primeiras escolas de São João da Boa Vista.

O prédio foi tombado pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Artístico do Município – CONDEPHAT.

Hoje, o prédio continua recebendo alunos da rede pública de ensino, e abriga também um museu que conta a história das escolas no começo do século passado, e também a história do município.


Escola Estadual “Cel. Joaquim José”.

A cidade, como um todo, transpira progresso, educação e um salutar ambiente de cultura.

Em suas ruas, quando ultrapassava as faixas de pedestres, fui respeitado e senti que o povo dessa magnânima cidade é ordeiro e educado.


São João da Boa Vista, uma cidade que me impressionou favoravelmente, em todos os aspectos.

Também, as praças muito bem cuidadas, assim como seus prédios principais que, com pintura recente ou revitalizada, denotam o cuidado do poder público para com suas tradições.

Por fim, diria que senti nessa progressista urbe uma estima muito grande pelo turista e peregrino, pois fui muito bem tratado e respeitado em todos os locais por onde transitei.


Praça central de São João da Boa Vista.

Já conhecia filhos dessa terra que foram meus colegas de trabalho, mas foi, sem dúvida, um prazer incomensurável pernoitar e transitar por essa maravilhosa cidade que tanto ansiava em conhecer.

Para fechar o dia, fui lanchar no restaurante e pizaria Casarão onde, além dos preços praticados, me impressionou favoravelmente a qualidade dos serviços que me foram ofertados.

O tempo estava se fechando e havia previsão de chuva para a próxima madrugada.


Imagem de N S Aparecida, existente no interior de sua igreja matriz.

Eu me encontrava exausto em face da estafante jornada do dia, de forma de me recolhi cedo.


Maura, a bela e prestativa atendente do Hotel Libero, onde me hospedei em São João da Boa Vista.

E, por conta disso, meu sono foi altamente reparador.


Resumo da etapa: Caminhados 28.120 metros em 6 h 4 m 19 s.

AVALIAÇÃO PESSOAL: Uma jornada de média extensão e excelsa beleza, cuja tônica ambiente são as culturas da laranja, café e cana-de-açúcar. O trajeto é ermo e silencioso e, quase sempre, localizado em meio a grandes plantações agrícolas, de incomensurável beleza paisagística. Importante se precaver com a água a ser levada nesse percurso, pois em grande parte do trajeto ela é impossível de ser conseguida, em face da ausência de residências à beira do Caminho. A etapa é praticamente plana, utilizando estradas rurais de piso socado, e está muito bem sinalizada. Foi, sem dúvida, uma das mais belas e tranquilas jornadas que vivenciei ao longo desse abençoado roteiro, nominado Caminho da Fé, e que recomendo com efusão.

 ‎VOLTAR‎    -   2º dia: SÃO JOÃO DA BOA VISTA à ÁGUAS DA PRATA – 19,4 quilômetros