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2º dia: SÃO JOÃO DA BOA VISTA à ÁGUAS DA PRATA – 19,4 quilômetros


2º dia: SÃO JOÃO DA BOA VISTA à ÁGUAS DA PRATA – 19,4 quilômetros


"O movimento é um medicamento que provoca mudanças no estado físico, emocional e mental de uma pessoa." (Carol Welch)


Essa etapa, aparentemente, se apresentava fácil, porque de pequena extensão.

No entanto, eu tinha a intenção de aportar à Águas da Prata cedo, e depois retornar ao Terminal Rodoviário de São João da Boa Vista, para embarcar num ônibus em direção à Divinolândia, pois, no dia sequente, pretendia conhecer o ramal Oeste do Caminho da Fé.

Por isso, como de costume, às 4 horas já estava em pé, me preparando para a jornada do dia.

Ocorre que a chuva tanto aguardada durante a noite, acabou por desabar com forte intensidade no final da madrugada.


Deixando o hotel em São João da Boa Vista, debaixo de chuva.

Assim, pacientemente, aguardei que ela amainasse, e deixei o local de pernoite às 5 h 30 min.

Caía ainda uma fina garoa, por isso, além de proteger a mochila, levava a capa de chuva nas mãos, para vesti-la em caso de extrema necessidade.

Eu contornei a igreja matriz da cidade, acessei a rua Marechal Deodoro e me reencontrei com as benfazejas flechas amarelas.

O trajeto urbano está muito bem sinalizado, de maneira que embora o dia se mostrasse escuro e carrancudo, pude seguir sem maiores atropelos por ruas molhadas e desertas.

Mais abaixo, passei diante da Estação Ferroviária da cidade, depois transitei diante do Magnólia Hotel, seguindo firme em direção à saída da cidade.

Meia hora depois, aproximadamente 3 quilômetros percorridos, eu deixei a zona urbana e passei a caminhar sobre piso asfaltado.


Acessando a Estrada da Serra da Paulista.

Na verdade, eu estava adentrando à histórica “Estrada da Serra da Paulista” ou “Serra do Deus me Livre”, um trecho que liga São João da Boa Vista à São Roque da Fartura, uma via de grande tradição, cuja história pode ser resumida pelo texto que abaixo reproduzo.

Logo em seu início a chuva voltou com força, de maneira que fiz uma pausa para vestir a capa que levava à mão, exatamente para o caso de intempéries.

Ocorre que como ela é feita com material sintético, eu transpiro muito quanto a coloco e, por isso mesmo, lanço mão de sua utilização só em último caso.

Assim, bem protegido, segui adiante por um caminho que, primeiramente, empinou levemente, depois, seguiu em franca descendência.

Com o dia clareando, podia ver delineando-se à minha frente, a maviosa serra da Mantiqueira, a quem afrontaria ainda naquele dia.


HISTÓRIA DA ESTRADA DA SERRA DA PAULISTA


A famosa Estrada da Serra da Paulista.

A Serra da Mantiqueira que emoldura São João da Boa Vista, ora apresenta-se feérica, plena de luz, majestosa, ora mostra-se nebulosa, diáfana, longínqua, mas sempre extremamente bela e azul, a quem tem olhos para vê-la. O nome local desta muralha, que se constitui em divisa natural entre São Paulo e Minas Gerais, é Serra da Paulista. A origem deste nome parece perdida nas brumas da história. Dizem alguns que por ser a vertente paulista da Serra da Mantiqueira, recebe esta denominação para diferenciar da vertente mineira voltada para as Minas Gerais.

Porém, se é para nomear a localização geográfica bastaria ser chamada Serra Paulista e não da Paulista, que indica posse, pertencimento. Pesquisando este fato foi dito que ali morava uma mulher, presumivelmente paulista, que era muito importante, famosa – mas não souberam dizer porque era importante, famosa, e passaram então a chamar de ‘Serra da Paulista’, querendo dizer Serra em que mora a Paulista’.

Indo-se além, nas indagações sobre qual mulher ‘famosa’ que morou na Serra, soube-se que na região de São Roque da Fartura existiu uma de nome Carmem Maldonado, dinâmica com participação ativa no povoado. Pelo menos uma vez por ano vinha, a cavalo, até São João, era muito alta, físico volumoso. Mudou menina para lá, veio da Espanha, enviuvou cedo, possuía veia política e era muito respeitada, sendo consultada em casos de conflitos ou problemas. Possuía habilidade em conduzir os entreveros surgidos, sendo uma espécie de conselheira. Promovia festas religiosas e liderava a população do bairro. Mas qual a relação dela como sendo “a paulista” de onde se deriva a palavra da Paulista? Em conversas informais havidas com pessoas ligadas à história de São João, ninguém soube dizer mais nada sobre este fato. A Serra da Paulista sempre foi conhecida também pelo nome de Serra da Fartura, devido às terras férteis de que é possuidora, havendo inclusive em seu alto o Bairro São Roque da Fartura.

Quanto à ocupação desse espaço, conta a história oral que primitivamente o “Mirante da Fartura” foi habitado pelos ‘Índios Caiapós’, os quais, com a chegada do homem branco, viram-se forçados a se retirar para as barrancas do Rio Pardo. O grande problema, porém era que a Serra da Paulista, de modo geral, e São Roque da Fartura, em específico, apesar de possuírem terras férteis e clima invejável, eram locais de difícil acesso, ficando sua população, muita vezes isolada. “Descer ou subir a montanha era empreitada difícil. No tempo das chuvas, então, as próprias carroças puxadas por oito burros bem alimentados, dormiam, às vezes, enterradas em profundos buracos de lama”. (História de São João; Salomão; 178).


Mirante Vista da Serra, na Estrada da Serra da Paulista.

A população ali segregada pela dificuldade de comunicação sofria imensos problemas, inclusive o de enterrar os mortos no tempo das chuvas. Padre Josué, no início do século XX, empenhou-se junto à Câmara Municipal de SJBVista, e conseguiu que fosse criado, para a população serrana, um cemitério no povoado de São Roque da Fartura.

A Serra, no entanto, possuía incontáveis atrativos e potencialidades maravilhosas. Além do solo fértil e clima excelente, possuía magníficas águas correntes e cristalinas com inúmeras cachoeiras, ar puríssimo, matas exuberantes, fauna riquíssima, sem contar a grande beleza topográfica e visão panorâmica de uma boniteza estonteante. Era uma região possuidora de profundo encantamento e grandes potencialidades econômicas. Isto atraiu, para ali, a colônia espanhola, que começa a chegar no final do século XIX e, já na primeira metade do século XX, constituía mais de 90% dos moradores serranos, que se especializaram na produção da batata. A produtividade era um saco de semente para 20 sacos colhidos. Tudo isto sem adubo e sem inseticidas o que, aliás, nem existiam. Colhiam duas safras de batata por ano: a da seca e a das águas.

Além da produção da batata praticavam também a agricultura de subsistência: milho, cebola, feijão, alho, verdura e um capão de café para o uso, além da criação de animais para a carne, leite e ovos. Era uma região de grande produtividade, literalmente uma região de ‘Fartura’. A produção era escoada através dos carros de boi e carroças puxadas por burros. O caminho carroçável era muito precário e em certos trechos não passava de um simples trilho. A viagem do alto da Serra até São João podia demorar, conforme a época do ano, até 20 horas. Era uma epopeia. Vários trechos desse caminho receberam nomes próprios, entre eles: Serra do Deus me livre, devido o perigo e dificuldade de ali trafegar. Serra do Padre, porque o Padre Valeriano tinha ali uma gleba de terra, onde viveu com sua mulher e seus sete filhos. Serra dos Arcuri, italianos que ali tinham propriedade.

Várias grandes fazendas de café passaram a coexistir na Serra da Paulista, junto com os espanhóis batateiros: a Fazenda Fortaleza, Santa Tereza, Santa Inês, Rio Claro, entre outras. Os caminhos vieram melhorando aos poucos Com o tempo, a prefeitura adotou para si a responsabilidade de cuidar da estrada da Paulista, para que o escoamento da riqueza, aí produzida, fosse menos dificultoso. A melhoria da estrada aconteceu, mas suas condições continuaram precárias por muito tempo, dificultando inclusive a ida diária das professoras, para as escolas ali existentes.


Estrada da Serra da Paulista. Ao fundo a serra da Mantiqueira.

Com o passar dos anos, mais precisamente segunda metade do século XX, a ‘Paulista’ não era mais um pólo agrícola tão importante como fora. Junto com o terceiro milênio, veio a reativação da região, pode-se dizer que a tomamos de “assalto”. O progresso chegou representado pela estrada asfaltada. Tornou-se inclusive uma região com forte vocação turística.

Esta nova realidade pode ser, ou não, uma benção para a região. Almejamos que com ela não venha a degradação da Serra como um todo, que haja preservação paisagística, ausência de vandalismos e nada de destruição ambiental e cultural. É um sacrário e como tal deve ser encarada. Não se pode, não se deve profaná-la. Esta preocupação é necessária, pois onde o ser humano toca, com visão mercantilista, via de regra, ele degrada, desarmoniza e polui. Conheça mais sobre as riquezas e histórias da Serra da Paulista.”

Fonte: http://ctur.org.br/


Depois de 7 quilômetros em asfalto, início da estrada de terra, à direita.

Bem, após exatos 7 quilômetros percorridos, defronte a um quebra-molas, as flechas me remeteram à direita onde, finalmente, acessei uma estrada de terra, larga e com piso compactado, que meus pés agradeceram.

Porquanto, até aquele local, eu viera caminhando sobre um duro piso asfáltico.

Sempre lembrando que botas não contém amortecedores de passos em seu solado, como ocorre com os tênis de caminhada ou corrida.

Como a chuva havia enfim cessado, fiz uma pausa naquele local para retirar a capa protetora, bem como me hidratar, pois eu havia transpirado bastante no trecho até ali vencido.


No Caminho em direção à Águas da Prata. Depois de 7 quilômetros em asfalto, início da estrada de terra.

Teve início, então, uma larga estrada levemente ascendente que segue em direção à Fazenda e Restaurante Fortaleza, e que pode servir de referência, em caso de dúvida quanto à sinalização.

Como de praxe, o caminho se encontrava deserto e silencioso em termos de ruídos urbanos.

O único som provinha do gorjeio dos pássaros ou da brisa quando balançavam os galhos das árvores existentes no entorno.

Segui tranquilo, pois o clima fresco e arejado favorecia sobremaneira minha aprazível caminhada.


Caminho arejado e solitário.

Nesse trecho o forte são as fazendas de criação de gado e existem muitos trechos de mata nativa, pois se trata de área de preservação ambiental.

Em determinados locais, quase sempre em mourões de cerca, passei a visualizar pequenos pedaços de plástico da cor abóbora, que à noite se tornam fosforescentes.

Na verdade, em janeiro ocorreu a 11ª Ultramaratona - 2015, com percurso de 281 quilômetros, desde São João da Boa Vista a Campos do Jordão.


Muito verde no entorno.

E como a largada foi dada às 20 horas, os atletas que passaram correndo por esse local contavam com esses adesivos luminosos para fins de orientação.

Na maioria dos locais esses marcadores foram removidos, porém os resquícios que restaram foram, para mim, de grande utilidade como auxiliar na sinalização desse trecho.

Mormente, no interior da trilha que encontrei no topo do morro, onde eles me deram segurança e tranquilidade no rumo a seguir.

Bem, em determinado local, feliz pela tranquilidade que vivenciava junto à natureza, resolvi eternizar o momento.


No Caminho em direção à Águas da Prata. Sozinho na trilha, em franco ascenso.

Assim, novamente, finquei o cajado na terra lamacenta, posicionei a câmera fotográfica em seu topo, acionei o temporizador e registrei mais um instante mágico na trilha.

O caminho seguiu arborizado e eu curtia o maravilhoso entorno que me rodeava, enquanto seguia célere em direção ao alto da serra.


Vegetação exuberante no entorno.

Em determinado local, fui surpreendido com uma cena rara: uma pedra se posiciona sobre outra, uma ocorrência inusitada.

Afinal, quem as colocou dessa forma, a quanto tempo, dúvida cruel?


Uma pedra sobre a outra, algo marcante e inusitado nesse trecho.

Incongruências da natureza?

Mas, como estão ali há muito tempo, sem que haja qualquer interferência humana, raciocinei compenetrado, já pensando na mão do Criador.


Entrada para o Sítio Fortaleza, à esquerda.

Prosseguindo, logo passei diante da entrada do Sítio Fortaleza, onde funciona um restaurante que oferece comida caseira e excelente panorama da serra onde está situada.

Até ali eu havia caminhado 9,6 quilômetros, segundo o GPS inserido em meu celular.


Ar puro e mata nativa.

A partir desse local, o caminho se empinou indefinidamente, sempre protegido pela mata lateral e, embora nesse dia o sol estivesse oculto pela intensa cerração que cobria o céu nublado, o clima permanecia estafante.

Em determinados trechos, encontrei muitos pés de ipês, todos floridos, que davam um toque bucólico à paisagem.


Adentrando à Fazenda Boa Vista.

Ainda em ascendência, adentrei à Fazenda Boa Vista, posto que o Caminho da Fé a atravessa em toda a sua extensão.


Fonte onde matei a sede na Fazenda Boa Vista.

O local é de paradisíaca beleza e, após passar pela portaria, localizei uma fonte de água potável, onde pude dessedentar à larga.


O Caminho da Fé atravessa pelo interior da Fazenda Boa Vista.

Conversei rapidamente com os funcionários da propriedade, e eles se mostraram educados e orgulhosos em contar com minha presença no Caminho da Fé que, segundo eles, muito engrandece o exuberante lugar.


Fazenda Boa Vista, local belíssimo e muito bem cuidado.

Prosseguindo, mais acima transitei diante da Estância Vale dos Bois, onde a tônica era, como lógico, a criação de gado bovino.

A trilha seguiu à direita e, a partir desse patamar, até o final do roteiro, não cruzei ou vi nenhuma presença humana.


Início de forte ascenso em direção ao topo da serra.

Como era de se esperar, a estrada seguiu sempre em forte ascenso, que fui vencendo em meu ritmo cadenciado.

Arfante, em alguns patamares, fazia pequenas pausas para apreciar o entorno verdejante, enquanto aguardava meus batimentos cardíacos retornarem ao normal.


Nesse local, o caminho segure à direita.

Mais acima, eu deixei a estrada principal, para atravessar um “quebra-corpo” situado junto a uma porteira, localizada à direita da estrada.


Vista de São João da Boa Vista, desde o alto da serra.

Observando dali, podia visualizar ao longe a cidade de São João da Boa Vista, situada a aproximadamente 10 quilômetros de distância em linha reta.


Entorno belo e verdejante.

Fiquei um bom tempo contemplando e curtindo a paisagem que se descortinava, depois segui adiante.


Caminho silencioso e ermo.

Então, ultrapassei outra porteira e o ascenso se empinou de vez.

Uns 100 metros depois, as flechas me remeteram para a direita, em direção a mata fechada.


Início da trilha de 1 quilômetro sob mata fechada, à direita.

Naquele local, tinha início a trilha bruta, pela qual eu atravessaria o topo da serra.

Essa vereda, que está muito limpa e bem sinalizada, é mantida por um grupo de voluntários, “Os amigos da Serra”, que reside em São João da Boa Vista.


Na trilha, sozinho e curtindo o visual.

Porém eu estava sozinho no caminho e a bruma existente no local no momento em que por ali transitei, acabou por me deixar temeroso e inseguro, pois se algum mal me acontecesse, não saberia como safar do imbróglio.

Para me acalmar, dialoguei comigo mesmo, ponderei que a intranquilidade que sentia era uma projeção da minha mente, e que nada à minha volta tinha características ameaçadoras.

A sensação de sobressalto era fruto da solidão e do isolamento, da crença herdada de que aquilo que foge ao nosso controle é perigoso.


Na trilha, sozinho e curtindo o visual.

Desejamos autonomia e segurança acima da razão, mesmo sabendo que esses conceitos são abstratos e ilusórios.

A mente é plástica e flexível, capaz de ser moldada em diferentes formas e padrões.

Se alimentada com medo, torna-se insegura e retraída; se nutrida com curiosidade, torna-se investigativa e audaciosa; se tratada com bom senso, escapa com mais facilidade das armadilhas da dúvida.

Passo a passo, fui ficando mais calmo e logo comecei a saborear o raro privilégio de caminhar sozinho pela velha serra, silenciosa e plena de vida selvagem.


Uma das três porteiras que abri, depois fechei.

Durante o sombrio percurso, eu atravessei por 3 porteiras que, na sequência fechei, como deve ser feito por todo peregrino.

Qual seja, deixar tudo tal qual encontrou.


Na trilha, sozinho e curtindo o visual.

A trilha se encontrava escorregadia, fruto das fortes chuvas que haviam desabado recentemente.

E como praticamente o sol não consegue se infiltrar pela copa do arvoredo, a umidade no local era expressiva.


Uma das pinguelas existentes na trilha.

Também, por duas singelas pinguelas, ultrapassei um regato que nasce no alto da serra.

Em determinado trecho, topei com vários macacos regougando no alto de frondosa árvore e que, assustados com minha presença, debandaram pelos galhos adjacentes e logo desapareceram.

Eu seguia um tanto ensimesmado pela repentina quietude do ambiente, e logo sofri um pequeno susto, seguido por largo sorriso, quando vi a foto de uma onça-pintada pregada no tronco de uma árvore.


Ufa! Que susto!

Este fato mostrou o bom humor do pessoal que cuida dessa trilha, pois nela estava escrito: “Pintada viu!!”

Prosseguindo, em determinado ponto, o ascenso se tornou extramente íngreme, quase na vertical, e precisei fazer um esforço concentrado para vencer a ribanceira.

Pelo que li, anteriormente havia em dois locais, um corrimão feito por cordas, como forma de auxiliar os caminhantes.


A partir desse patamar, a trilha se torna extremamente íngreme.

Porém, não notei sua existência atualmente, então, quero crer que ele foi eliminado ou sucumbiu com o tempo.

O percurso pela mata têm aproximadamente 700 metros, que superei com muita persistência, obstinação e, confesso, um pouco de ousadia.

Pela experiência ali vivida, quero acreditar que se estivesse chovendo, seria impossível essa escalada, pelo seu rude perfil.

Bem, finalmente, já no cume do morro, ultrapassei outro quebra corpo, e deixei a mata, para sair numa área descoberta.


Final da trilha e divisa de municípios.

Naquele ponto estratégico também está situada a divisa dos municípios, porquanto ao suplantar aquele marco, eu deixei São João da Boa Vista para adentrar em terras pertencentes à Águas da Prata.


Depois da trilha, caminho arejado e matoso.

Então, vinte metros adiante, encontrei uma estrada de terra, cuja sinalização me mandava virar à direita.


Trecho florido.

Segui então pelo serpenteante e bucólico caminho, onde pude ver, em alguns trechos, inúmeros pés de manacás floridos.


Trecho florido. Confluência com caminho maior.

Quatrocentos metros depois, acessei outra estrada mais larga e, a partir daí, principiei a caminhar em franca descendência.


Caminhando por extenso eucaliptal.

Eu abri e fechei mais 3 porteiras, depois transitei bom tempo por um extenso eucaliptal.

Em determinado patamar, assim que a vegetação se abriu, pude contemplar, abaixo e ao longe, a cidade de Águas da Prata, minha meta para aquele dia.


Primeira visão da cidade de Águas da Prata, desde o alto do morro.

O caminho prosseguiu em desabalada declividade e, sem maiores ocorrências, aportei à Pousada do Peregrino onde, como de praxe, fui muito bem recebido pela Tina.

Eu estava com tempo contado, de forma que após ser autorizado, eu tomei um banho e troquei de roupas.


Chegada à Pousada do Peregrino, em Águas da Prata.

Depois, embarquei num ônibus da Viação Cometa e desci na rodoviária de São João da Boa Vista.

Na sequência, embarquei em outro coletivo da Viação Nasser que, após 1 h 30 min de viagem, me deixou na rodoviária de Divinolândia.

Rapidamente, me hospedei no Lunayama Hotel, onde havia feito reserva.


Hotel onde me hospedei em Divinolândia.

Ali, R$40,00, pude dispor de um apartamento individual de razoável qualidade.

Em face do horário adiantado e pela fome acumulada, rapidamente fui almoçar no Restaurante Popular.

Ali, por R$18,00, pude degustar à vontade uma refeição saudável e leve, sem a preocupação de pesar o prato.

Depois, retornei ao local de pernoite, lavei roupas e deitei para descansar.


Praça central de Divinolândia.

Antes do surgimento da primeira capela nas terras da atual Divinolândia, toda a região se cobria de intrincadas matas que se estendiam por serras, vales e planícies, intermináveis, perdendo-se no horizonte distante.

Os homens passavam, em viagem, cavalgando pelos caminhos estreitos que avançavam para dentro das selvas, cortando-as com um golpe de adaga nas ondas do oceano.

Os primeiros aventureiros iam chegando, ressabiados, para ficar.


Praça central de Divinolândia.

Erguiam ranchos e choças e demarcavam as terras, que eram de ninguém, desmatavam-nas e exploravam-nas, praticando a agricultura de subsistência.

Outras famílias iam chegando, estabelecendo-se, deitando raízes pela terra generosa, encorajada pela presença bem-sucedida dos outros agricultores assentados nas terras já há muito tempo.

Por volta de 1850, Divinolândia se resumia na referida capela e num pequeno rancho à margem do Rio do Peixe, que servia de abrigo aos tropeiros que por ali pernoitavam, provenientes de Caconde, com destino à vila de Casa Branca.

De repente, um incêndio de causa ignorada, provavelmente causado por fogo caseiro esquecido a um canto do rancho, por um tição qualquer que ficou aguardando um sopro do vento após a partida dos tropeiros.


Praça central de Divinolândia.

E o rancho foi consumido, alastrando-se o fogo por toda a área circulante.

Novo rancho foi erguido e o local recebeu a denominação de POUSO DO SAPECADO.

Em 1881, Joaquim Pio de Andrade e sua esposa, D. Francisca Maximiniana da Costa, também doaram duas partes de terras à Capela Nossa Senhora do Rosário, fundada em 1879 por Manoel Pereira da Silva.

O Sr. Manoel Pereira da Silva, fundador da Capela, também fez importante doação de terras ao Divino Espírito Santo.

Doou terras à margem do Rio do Peixe, numa extensão de 20 e tantos alqueires.

Quanto à economia o Distrito produzia uvas, pêssegos, maçãs e marmelos, que era natural do Distrito, daí ficando conhecido como “Terra do Marmelo” em 1929.

Essas terras produziam muito café devido ao clima, relevo e a mão de obra era escrava.


Igreja matriz de Divinolândia.

O negro escravo produzia o máximo entre 18 e 30 anos, após era considerado velho, pela péssima alimentação que recebia e trabalho altamente pesado.

A 30 de novembro de 1938, pelo decreto 9.775, o distrito recebeu a denominação oficial de SAPECADO, nome pelo qual já era conhecido há muito tempo, desde o incêndio do primeiro rancho, quando o local recebeu o nome de Pouso do Sapecado.

Por volta de 1950, famílias espanholas iniciaram o plantio de batatas, que se tornou o principal produto em virtude de terras boas para esse plantio e também da decadência da lavoura cafeeira, em termos de mercado e relevo muito acidentado, que dificultava o seu plantio e sua colheita.

Divinolândia ficou conhecida como “Capital da Batata”.

Politicamente emancipado SAPECADO recebeu o nome de Divinolândia, na comarca de São José do Rio Pardo (Comarca com sede na vila de igual nome), pela Lei 2.456, de 30 de dezembro de 1953.

Por que Divinolândia?


Prefeitura de Divinolândia.

A harmoniosa denominação Divinolândia em um equilíbrio fônico admirável e pode-se dizer, sem espírito bairrista, que é um nome bonito.

Seu significado é TERRA DO DIVINO (ESPÍRITO SANTO) e corresponde à denominação anterior “ESPÍRITO SANTO DO RIO DO PEIXE”, surgida em consequência da ereção da primeira capela nas nossas terras, sob a invocação do Divino Espírito Santo.

LÂNDIA é o aportuguesamento do vocábulo LAND (“terra”, em alemão, cuja pronúncia é “láand”). DIVINO vem do latin DIVINUS e significa “pertencente à divindade, de Deus”.


Imagem colocada na entrada da igreja matriz de Divinolândia.

Poder-se-ia, também, atribuir a essa denominação DIVINOLÂNDIA o significado de TERRA DE DEUS.

Gostaria de chamar a atenção do internauta para um fato interessantíssimo: A primeira capela erigiu-se sob a invocação do Espírito Santo; o povoado passou a denominar-se ESPÍRITO SANTO DO RIO DO PEIXE; mais tarde, com a emancipação política do distrito de Sapecado, recebeu ele o nome de Divinolândia, que é TERRA DO DIVINO (ESPÍRITO SANTO).

Hoje é uma grande produtora de café de qualidade.

População atual: 12 mil habitantes

Fonte: http://www.divinolandia.com.br/


Em Divinolândia. Placa explicativa existente no início do Caminho.Os números falam por si só...

Depois de uma proveitosa e salutar soneca, fui conhecer e fotografar a praça central da simpática cidadezinha.

Nela, um grande cartaz nominava as caraterísticas da povoação, bem como mensurava sua população em 12.106 pessoas.


Outra vista da igreja matriz de Divinolândia.

Adentrei em sua igreja matriz e, para minha surpresa, uma missa estava se iniciando e pude participar da celebração.


Interior do templo.

Finda a cerimônia, calmamente percorri e fotografei o interior do templo e ainda aproveitei o momento para colocar em dia minhas orações.


Assistindo à missa.

Mais tarde, segui as flechas amarelas por um bom tempo, como forma de me inteirar do percurso citadino que enfrentaria na manhã seguinte.

À noite, optei por ingerir um frugal lanche.


Imagem de Nossa Senhora Aparecida, existente no interior do templo.

E o fiz na Lanchonete Ponto de Encontro, local onde fui muito bem atendido e que recomendo a todos.

Em seguida, me recolhi, pois o dia fora bastante movimentado e a etapa sequente também prometia grandes desafios.


Resumo da etapa: Caminhados 19,41 km, em 4 h 24 m 58 s.

AVALIAÇÃO PESSOAL: Uma jornada de pequena extensão, extremamente bela, mas dotada de uma incrível rudeza, mormente quando da transposição da serra da Mantiqueira, pela trilha situada em meio a mata virgem. Não creio que nela existam animais selvagens que possam oferecer perigo ao caminhante, mas se eu encontrasse uma cobra nessa senda, certamente, passaria por apuros. O prosseguimento do caminho pelo cume do morro, também se mostrou integralmente deserto e matoso. Assim, não recomendo que essa etapa seja percorrida por peregrinos inexperientes ou desacompanhados. No global, trata-se de um percurso fenomenal, e que vale a pena ser conhecido pelos caminhantes, pela excelsa beleza que suas paisagens oferecem, além de desfrutar, talvez, do local mais ermo e bucólico do Caminho da Fé: a selvagem trilha, cuja manutenção é feita pelos “Amigos da Serra da Paulista, de São João da Boa Vista”, a quem os peregrinos agradecem!


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