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3º dia – DIVINOLÂNDIA a SÃO ROQUE DA FARTURA – 34 quilômetros


3º dia – DIVINOLÂNDIA a SÃO ROQUE DA FARTURA – 34 quilômetros


Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.” (Fiódor Dostoiévski)


A jornada seria de razoável extensão, agravada pelo fato de que não havia previsão de chuvas.

Inicialmente, eu pretendia pernoitar em São Roque da Fartura, e no dia seguinte seguir até Águas da Prata/SP, para então retornar ao meu lar.

Porém, um telefonema recebido na noite anterior, cobrava minha presença em casa, com urgência, por motivos familiares.

Assim, resolvi sair bem cedo, como forma de agilizar o retorno à minha residência.

Isto posto, deixei o local de pernoite ainda no escuro, quando meu relógio marcava 5 h 15 min.


Em Divinolândia. Primeira placa do Caminho: restam 368 quilômetros até Aparecida.

Uma placa do Caminho da Fé afixada num poste, fincado defronte ao hotel, me informava que dali até Aparecida restavam 368 quilômetros.

Segui por ruas escuras e silenciosas em direção ao cemitério da cidade e, quando a iluminação urbana se findou, prossegui com minha lanterna ligada.

Fazia frio, o entorno se apresentava brumoso, e um vento gelado varria a estrada deserta que se estendia à minha frente.

Eu estava solitário no caminho, no meio do mato e, sem quase perceber, aflorou em minha mente uma reflexão escrita por um peregrino, que lera recentemente, e com a qual me identifiquei plenamente:

Às vezes, eu ainda me faço a mesma pergunta: O que me leva a acordar de madrugada, colocar a mochila nas costas e caminhar o dia inteiro no meio do mato, ouvindo apenas pássaros, cachoeiras e o vento? Ao mesmo tempo evito buscar as respostas... com elas poderia vir o raciocínio lógico dos "normais" e levar embora todo encanto. Prefiro continuar me submetendo apenas ao julgamento de Deus, pedindo sua imprescindível proteção pelos caminhos afora e tomando a doce e saudável dose diária de insanidade que me cabe.” (João Luiz Germano de Moraes)

Após relembrar esse escrito, confirmei: este sou eu, literalmente!

Bem, depois de percorrer 1.500 metros por asfalto, no topo de uma elevação as flechas me remeteram à direita, onde teve início um largo caminho de terra, em franco descenso.


Caminho arejado e piso socado, sem poeira.

Com o dia clareando, pude ver que eu estava transitando entre grandes plantações de café, cuja safra já se encerrara.

Também observei, no fundo do vale, culturas de cana e milho.


Entrada do Sítio Santa Luzia.

Mais adiante, passei diante da entrada do Sítio Santa Luzia, um local onde pude visualizar belas residências, além de extensas lavouras.

Depois de percorrer 4 quilômetros, diante de uma singela igrejinha, o caminho se bifurcou e, observando a sinalização, prossegui à direta.


Nessa bifurcação, o caminho segue à direita.

Então principiei a descender em meio a muito verde.


Descendendo em meio a muito verde.

O clima se apresentava frio e o céu nublado, de maneira que eu seguia em ritmo confortável, em feliz comunhão com a natureza.


Ainda em descenso, em meio a pequenas propriedades.

Durante esse primeiro trecho, não vi pessoas e nem fui ultrapassado por automóveis ou motos.


O caminho segue abaixo, em direção à montanha.

A paisagem que ia se delineando perante meus olhos era de excelsa beleza, plena de muito verde.

Mais abaixo, já no plano, passei diante de outra capela, esta situada num local ermo e vazio, algo difícil de entender.


Igrejinha solitária.

A única casa, que existe nas proximidades, estava abandonada e quase em ruínas.


Logo adiante, ponte sobre o rio do Peixe.

Prosseguindo, caminhei entre grandes pastagens, até que, depois de ultrapassar o rio do Peixe por uma ponte, acessei uma estrada maior.

Esta sim, com intenso tráfego de veículos, possivelmente em face do horário.


No caminho em direção à São Roque da Fartura. Caminho silencioso e deserto.

Ali virei à esquerda e prossegui estoicamente em frente, apesar de, no início, aspirar bastante poeira.

Porquanto, o piso fora revolvido em alguns trechos e as chuvas recentes não haviam sido suficientes para compactar a terra solta.

Mais tarde, conversando com um morador que aguardava condução, ele me confirmou que essa estrada vicinal faz a ligação entre as cidades de São Sebastião da Grama e Poços de Caldas/MG, daí a razão do tráfego intenso.

Cruzei com vários caminhões, motocicletas, fuscas e, principalmente, ônibus que levavam os “rurais” para a liça diária.


Estrada plana e retilínea.

O trajeto prosseguiu indefinidamente, por uma estrada retilínea, situada num vale, tendo um rio correndo à minha esquerda.

Não encontrei sombras nesse intermeio, contudo, por sorte, o dia se mantinha nublado.


Um belo vale do lado esquerdo.

O forte nesse trecho eram os cafezais, no alto dos morros e, no vale, observei grandes pastagens, que abrigavam centenas de cabeças de gado.


Estrada plana e retilínea. Retão sem fim...

Mais tarde, o tráfego de veículos se reduziu drasticamente e pude prosseguir em grande introspecção, repensando fatos e comungando com o exuberante entorno que me rodeava.

E, por conta disso, elucubrações me invadiram e fiquei a repensar o meu périplo em termos espirituais.

Na verdade, eu estava transitando por uma estrada e, ao mesmo tempo, percorrendo um Caminho.


Pequeno ascenso, em meio a muito verde.

Qual a diferença de conceitos quanto a essas duas vias que nos levam de um lugar para o outro?

Para melhor ilustrar a diferença na composição do trajeto que eu fazia, Millan Kundera, genial escritor tcheco, fez a distinção do que seja percorrer um caminho, em comparação a uma estrada:

A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma linha simples ligando um ponto a outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só tem sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada trecho do caminho é, em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje já não passa de um entrave aos movimentos do homem, de uma perda de tempo. (...) E também a sua vida, ele já não a vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa a seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver-se reduziu a um simples obstáculo, que é preciso ultrapassar a uma velocidade crescente.”


Paisagens belíssimas nesse trecho.

Essas reflexões eram interrompidas momentaneamente, quando eu precisava desviar de algum trator ou mesmo de algum veículo que, quase sempre, vinha na minha direção em grande velocidade.


Muita beleza no entorno.

Mais adiante, a vegetação voltou a margear a via por onde eu seguia, e pude apreciar flores e respirar com mais desenvoltura.

Quase no final de grande reta, passei diante da Pousada e Restaurante Vale San Juan, localizada num local de expressiva beleza.


Pousada Vale San Juan, à esquerda.

Ali, obras estavam em andamento no acesso ao complexo, e pude conversar rapidamente com dois funcionários.

Conforme me relataram, fato que confirmei posteriormente no site do estabelecimento (www.valesanjuan.com.br), eles também oferecem aos peregrinos do Caminho da Fé, “um atendimento especial e diferenciado, com um ambiente tranquilo, agradável, confortável e familiar, com a paz e o sossego que buscam em suas caminhadas”.


"Duas Pontes", sobre o rio do Peixe.

Então, logo adiante, iniciou-se uma leve declividade que, mais abaixo, me levou a ultrapassar o rio do Peixe, por uma ponte de concreto, num local conhecido por “Duas Pontes”.

Imediatamente, uma seta amarela, colocada em local estratégico, me remeteu à direita, onde acessei uma estrada plana e reta, orlada por um renque de eucaliptos.


Frondoso eucaliptal do lado direito. Estrada plana e retilínea.

Até aquele local eu já havia percorrido 16 quilômetros, sendo 9 pela rodovia que segue em direção à cidade de Poços de Caldas/MG.

Fiz, então, uma parada para descanso, hidratação e ingestão de uma banana.


Estrada bucólica e silenciosa.

Depois, revigorado, prossegui adiante por locais de marcante beleza, situados dentro de imenso vale, em meio a grandes pastagens.

O trajeto seguiu sem alterações, mas eu sabia que em breve eu principiaria a ascender, sem tréguas.


No caminho em direção à São Roque da Fartura. A Mantiqueira no horizonte.

Por sinal, observando o horizonte, já podia ver um maciço rochoso, representado pela serra da Mantiqueira, por onde eu transitaria em seguida.


Início de forte ascenso.

Então, após percorrer 18 quilômetros, teve início um rude ascenso, por uma estrada pedregulhada, localizada entre pastagens a perder de vista.


Caminho arejado, com belas vistas.

Já no topo, passei a caminhar entre imensos cafezais, ainda em leve aclividade.


Início de outro ascenso.

Seguiu-se brusco descenso, depois o caminho empinou-se, quando fleti à esquerda.


Muito café no horizonte.

No topo do morro, passei ao lado de singela capelinha, vestida de verde, que me fez bem, ao retemperar a minha fé.


Capelinha solitária.

Meu estoque de água já estava pela metade e atento, buscava alguma habitação que pudesse repor o precioso líquido.

Porém as casas existentes ao lado da estrada quando não mostravam sinais de abandono, estavam fechadas e silenciosas.


Sozinho na trilha, curtindo o momento..

Depois de uma bifurcação, segui penosamente à esquerda e no topo do morro fiz outra pausa para descanso e ingestão de um chocolate.


Neste local eu fiz breve pausa para descanso.

Aproveitei o local tranquilo e bucólico, para registrar uma foto minha, porque vivenciava um momento de grande alegria.


Cafezais a perder de vista.

Na sequência, embora eu estivesse no topo de um outeiro, como por mágica, o caminho voltou a descender com violência, sempre em meio a inúmeros cafezais.

Eu carregava uma planilha contendo a altimetria dessa etapa, de forma que sabia que em breve ainda enfrentaria outros ríspidos aclives.


Descendendo entre extensos cafezais.

Esse trecho em declive estava bastante fresco, pois o sol ainda não dera o ar de sua graça.

Também não avistei vivalma no entorno, pois a safra do café já estava encerrada, e inexistem moradias próximas.


Ainda em forte descenso..

No final da descida, numa bifurcação, adentrei à esquerda, e aí as escarpadas faldas da serra voltaram com intensidade.


Pausa para novo descanso.

Depois de vencer outra dura e longa aclividade, fiz outra parada para descanso e fotos.


Ao fundo, o caminho por onde eu viera caminhando.

Naquele local, sobre uma pedra, eu tinha uma visão privilegiada de todo horizonte ao redor, bem como conseguia avistar a estrada por onde eu viera caminhando.

O entorno se mostrava verdejante, apenas a iminente falta de água me preocupava, pois as únicas casas que encontrei nesse tramo, se encontravam abandonadas.


Subindo sempre...

Prossegui ainda sempre em forte ascendência, porém, sempre em meio a muito verde.


Pés de araucária no alto da serra.

Eu estava a quase 1.300 m de altura e, em determinados patamares, sentia uma brisa fresca no rosto, bem como notei a presença de inúmeros pés de enormes araucárias, que são árvores típicas dessa altitude.


Flores para alegrar o dia.

Para meu desespero, o roteiro seguiu em ascendência contínua e, a cada estágio superado, outro se apresentava mais rude.


A ascensão prossegue sem trégua.

Finalmente, a 1.418 m de altimetria, alcancei o ápice dessa etapa, num local rodeado por verdejantes pastagens, um colírio para meus olhos extasiados.


Finalmente, início de grande descenso.

Então, principiei a descender, por um caminho onde a tônica eram as pedras soltas.

Por isso, segui com muito cuidado, pois o mais leve escorregão poderia redundar numa queda espetacular.

E nessas horas, o cajado é de importância fundamental, pois atua como freio e apoio para os nossos pés.


Paisagens belíssimas no entorno.

O trajeto seguiu sempre entre muito verde, propiciando ainda em seu traçado pequenos ascensos, entremeados com leves declividades.

Eu me encontrava desidratado, pois o litro de água que levara eu já consumira.


Ainda descendendo.

Contudo, ainda não encontrara locais onde pudesse aplacar a minha sede.


Estrada deserta.

Por sorte, quando ainda restavam uns 4 quilômetros para o final da jornada, consegui me abastecer na residência do Sr. Antônio, pois ali cheguei exatamente no momento em que ele adentrava em sua residência para almoçar.

Conversamos um pouco, enquanto em ingeria o precioso líquido, de que tanto meu corpo necessitava.


Quase chegando, passagem por plantações de hortaliças.

Após agradecimentos e despedidas, segui adiante, e o novo trecho me proporcionou transitar entre extensas culturas de hortaliças, onde o forte era as plantações de repolho.


Finalmente, um pouco de sombra, nesse trecho boscoso.

No tramo derradeiro, encontrei frondoso bosque que me proporcionou alento e a oxigenação necessária para prosseguir com denodo.


A cidade de  São Roque da Fartura ao longe e abaixo.

Finalmente, quando a mata se abriu do meu lado direito, pude ver ao longe e abaixo, o pequeno distrito de São Roque da Fartura, cuja sede é Águas da Prata.


Chegada à Pousada Cachoeira em São Roque da Fartura, final do Caminho.

Mais um quilômetro vencido, e aportei à Pousada Cachoeira, onde fui muito bem recebido pela Dona Cida e o Sr. José Luís, pessoas que eu já conhecia desde 2005, pois já me hospedara por 4 vezes em seu estabelecimento.

Depois de demorado e reconfortador banho, almocei e pude degustar uma fantástica refeição, regada à merecida cerveja.


Dona Cida, que foi me levar em Poços de Caldas/MG.

Bem, eu necessitava retornar ao meu lar ainda naquele dia, de maneira que Dona Cida, por módica quantia, me levou até a cidade de Poços de Caldas/MG, onde tomei o ônibus e regressei ao meu lar.

Infelizmente, vira obstado meu projeto de prosseguir até Águas da Prata, como havia planejado, mas essa etapa (São Roque da Fartura/Prata) eu já havia percorrido por 4 vezes, então ela já me era conhecida.


Portal da cidade de Poços de Caldas/MG, ao fundo.

Dessa forma, feliz e realizado, dei por encerrada mais uma incursão por esse maravilhoso roteiro nominado Caminho da Fé, pelo qual tenho grande empatia e admiração.



Resumo da Etapa: Caminhados 34,08 quilômetros em 7 h 2 m 11 s.

AVALIAÇÃO PESSOAL: Uma jornada de grande extensão, extremamente erma e silenciosa em seus primeiros 7 quilômetros. A passagem pela rodovia que vai em direção à cidade Poços de Caldas/MG é um tanto conturbada, pelo expressivo trânsito de veículos. No entanto, a partir do 16º quilômetro, tudo volta à paz novamente. Ocorre que a partir do 18º quilômetro, até o final da jornada, existe uma enorme maciço montanhoso a ser vencido, que exaure o caminhante, ao extremo. Lembrando sempre, que foi bastante difícil conseguir água nesse trecho derradeiro, porque inexistem moradias habitadas à beira do caminho. No geral, uma etapa belíssima, plena de muito verde e pastagens, além de inúmeras plantações de café e hortaliças.


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