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FINAL


FINAL


"Aquele que viaja tem histórias para contar." (Provérbio celta)


Trecho do Caminho entre Aguaí e São João da Boa Vista.


A ARTE DE PEREGRINAR

Autor: Phil Cousineau


Todas as nossas jornadas são rapsódias sob o mesmo tema da descoberta.

Viajamos como quem busca respostas que não podem ser encontradas em casa; e logo descobrimos que uma mudança de clima é mais acessível que uma mudança de coração.

A verdade agridoce sobre o verbo viajar está contida na derivação da mais antiga palavra viandar, peregrinar.

Em inglês, travel vem de travail, originada do latim tripalium, uma roda medieval de tortura.

Como os viajantes de longos percursos e estranhos lugares sabem, as vezes as viagens são "muito penosas".

Para os beduínos errantes, viajar é penar.

Os gregos antigos ensinavam que os obstáculos eram formas dos deuses nos testarem.


Trecho do Caminho entre São João da Boa Vista e Águas da Prata.

Na idade média, no Japão, acreditava-se que as dificuldades de uma viagem eram desafios que se transformavam em poesia e canção.

Se estivermos em férias, viajando a negócios ou numa excursão prolongada, poderemos associar os momentos de provação que surgem, como sofrimento ou como oportunidades para nos pôr à prova.

Mas o que faremos se sentirmos a necessidade de algo mais em nossas viagens, além dos desafios encontrados e dos prazeres conhecidos? O que acontece quando a busca do novo já não basta? O que ocorre quando nosso coração quer algo de uma viagem que desafia uma explicação?

Séculos de sabedoria a respeito de viagens sugerem que quando já não sabemos mais para onde nos voltar, nossa jornada verdadeira mal está começando.

Nesse momento, nessa encruzilhada, uma voz apela para a nossa alma de peregrino.

É chegado o tempo de nos preparamos para pisar o chão sagrado - a montanha, o templo, o lar ancestral - que vai agitar nosso coração e restaurar nossa capacidade de nos maravilhar.

É na trilha para o profundamente real que o tempo pára e somos surpreendidos pelos mistérios.

Essa é a viagem que não podemos deixar de fazer.

Nessa tortuosa e longa estrada, é fácil perder-se no caminho.

Ouça! O velho eremita na beira da estrada sussurra: Estranho, passe indiferente pelo que você não ama!


Trecho do Caminho entre São João da Boa Vista e Águas da Prata.


EPÍLOGO


A vitória sobre as dificuldades é a grande descoberta do homem a respeito de si mesmo. A felicidade não lhe foi prometida como dádiva. Ela é, essencialmente, uma conquista. Mas para chegar a ela é necessário lutar, transpor obstáculos, ser obstinado, ter 

paciência, esperar. A felicidade é como uma obra de artesanato: fio por fio, fibra por fibra.

Ela não nasce feita, ela se faz, minuto a minuto na prática do bem e na paz da consciência. Mas, quando ela chega, é para ficar, é sua, definitivamente sua!” (Autor desconhecido)


Trecho do Caminho entre Divinolândia e São Roque da Fartura.

A peregrinação, como um todo, propicia uma experiência única e individual.

Única porque, mesmo que se volte a um lugar no espaço, a gente o faz em um período diferente de tempo, e isso altera cenários, pessoas, situações, tendências e estilos de vida.

Individual porque todo um conhecimento aprendido em tradições orais, livros, filmes ou telas de computadores só se consolida de maneira indelével em nossa vida, quando submetido à experiência.

Desta vez, embora eu não estivesse seguindo diretamente para a Basílica de Aparecida, percorria mais um dos ramais do Caminho da Fé que, se eu desse prosseguimento após Águas da Prata, certamente encerraria meu périplo na Casa da Mãe Maria.

Infelizmente, por problemas de tempo e compromissos familiares, isto não foi possível neste ano.

Óbice que pretendo sanar em 2016, quanto tenho planos de iniciar a caminhada em Sertãozinho, desbravando, então, o único trecho que ainda não conheço.

Posso dizer, no entanto, que os percursos vencidos nessas etapas são belíssimos e, alguns até, de selvagem rudeza, mormente aquele compreendido entre São João da Boa Vista e Águas da Prata.

Acresça-se que o roteiro é seguro, está muito bem sinalizado e, possui um diferencial importante e fundamental, porquanto, 95% de seu trajeto é percorrido sobre terra.

Foi, por isso mesmo, gratificante devassar verdes horizontes, fazer novas amizades, interagir com aqueles que residem ao longo do caminho, desfrutar de bons acolhimentos nos locais de pernoite e refeições, bem como conhecer novas cidades, com seu povo, história e templos cristãos.


Trecho do Caminho entre Divinolândia e São Roque da Fartura.

Ao mesmo tempo, pude me conectar com o sagrado, observar com calma as obras do Criador, admirar a natureza intacta e renovar meus Votos Marianos, ainda que mentalmente.

Por derradeiro, transcrevo dois pensamentos que cogito, refletem um pouco daquilo que imaginei, vi, vivi e senti durante minha jornada:

"Estamos acostumados a identificar o valor das coisas pelo seu preço. As maravilhas que descobrimos no caminho, como: a natureza, os povos e sua gente, a arte, a história, os outros peregrinos, todos escapam a lógica do intercâmbio. Um dia cruzaram pela sua vida e se foram. Essa é a beleza! Não pretendem outra coisa além de existir. As coisas gratuitas são pagas por si mesmo." (Anônimo.)


Trecho do Caminho entre Divinolândia e São Roque da Fartura.

E há uma lição aqui para todos os peregrinos, afinal, caminhar é um microcosmo da vida. As lições aprendidas e os progressos que fazemos como caminhantes, têm uma forma de afetar a pessoas por completo. Ao desafiar a superar nossas limitações, é possível cultivar as qualidades internas de determinação, concentração e perseverança, que o ajudarão a vencer as limitações em todas as etapas da viva. Viva como se cada passo, cada respiração, fosse uma dádiva preciosa. Exija-se incansavelmente e aprenda a tolerar uma tremenda dor. Morra tentando. Vale a pena!” (Dean Karnazes)


Bom Caminho a todos!

Outubro/2015

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