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1º dia: JACUTINGA/MG à INCONFIDENTES/MG – 39 quilômetros


1º dia: JACUTINGA/MG à INCONFIDENTES/MG – 39 quilômetros



"Eu me lembro das preces da minha mãe e elas têm sempre me acompanhado. Elas se uniram a mim durante toda a minha vida." (Abraham Lincoln)



Altimetria dessa etapa.

A jornada desse dia seria de grande extensão, sendo que a meteorologia previa sol abrasador para depois das 12 horas.

Além disso, como não chovia há mais de um mês na região, a umidade na atmosfera caía abruptamente após as 10 horas.

Pensando nisso, resolvi sair o mais cedo possível e, às 4 horas, já estava em pé, professando minhas orações matinais e fazendo alongamentos.

Depois, “forrei” meu estômago com bananas e uma barra de chocolate.

Confesso que a etapa me preocupava, pois não tinha certeza de como seria meu comportamento na trilha, em face da grande distância a ser vencida, aliado ao calor reinante.

Tendo em conta que eu carregaria a mochila, pesando ao redor de 7 quilos, e, para minha segurança, levava também um litro de água.

Na verdade, eu estava apreensivo com meu retorno às longas caminhadas depois de 30 dias de recesso, desde minha volta do Caminho da Paz/BA.

Assim, ruminava temores de distensões e contraturas por esforço súbito e excessivo.

Dessa forma, meu sono foi um tanto inquieto, posto que acordei várias vezes durante a noite, sempre com o pensamento fixo no trajeto do dia.

Havia conversado com a gerente do hotel, dona Salete, verificando a possibilidade de me servirem o café da manhã às 5 h 15 m.

E ela, muito simpaticamente, me garantiu que o desjejum estaria pronto nesse horário.

Como realmente sucedeu.

Fato que merece elogios, pois considero de real importância para nós peregrinos, a primeira refeição do dia.


Deixando o hotel e partindo para o Caminho.

Assim, depois de ingerir dois copos de café espesso, forte e cheiroso, às 5 h 30 min, animado, deixei o local de pernoite e dei início a minha peregrinação, sem que o dia tivesse clareado.

Então, girei à esquerda e segui, em leve ascenso, sequencialmente, pela rua Barão do Rio Branco e Avenida Brasil, até o local onde ela intersepta a Rua Marechal Deodoro, dois quarteirões à frente.

Ali, observando a sinalização, fleti à direita, ultrapassei a rodovia MG-290 (João Tavares Corrêa Beral), que liga Jacutinga a Ouro Fino e Inconfidentes, depois, prossegui, indefinidamente, pela Rua Vereador Noé Luís Ferreira, sob o conforto da iluminação urbana.

A manhã se apresentava fria, com temperatura ao redor de 14 graus, eu me encontrava bem agasalhado e aquecido, então, segui tranquilo pelas ruas vazias da cidade.

De quando em vez, um galo cantava, ou um cão ladrava, afora isso, tudo era silêncio que, só era quebrado, quando um automóvel ou motocicleta transitava por alguma rua próxima.

Dez minutos depois, vencidos aproximadamente 1.000 metros, ao transitar diante da tapeçaria do Polly, já o encontrei em pé na porta, máquina fotográfica em punho, aguardando minha passagem para se despedir.

Seu carinho e preocupação com meu estado físico e saúde me deixaram deveras emocionado.


Foto batida pelo carismático amigo Polly.

Depois de me convidar para tomar o café da manhã em sua residência, ao qual recusei, pois estava muito bem “fornido”, fizemos algumas fotos e, na sequência, após fraternais despedidas, dei prosseguimento ao meu périplo.

Seiscentos metros adiante, quando atingi o ápice da elevação, a 885 metros de altura, findaram-se as casas e, teve início uma larga avenida, localizada próxima de um novo loteamento existente no local.

Trezentos metros depois, findou-se o asfalto e acessei uma larga estrada de terra, agora já em franco descenso.

Então, com minha lanterna de mão acesa, segui adiante sem maiores dificuldades.

Observando o macio local onde caminhava constatei, preocupado, que o piso continha, no mínimo, um palmo de pó.

Certamente, a passagem de algum veículo motorizado movimentaria essa massa “líquida”, transformando-a em poeira, da qual eu seria a principal vítima.

Assim, estuguei meus passos, como forma de fugir dessa traiçoeira armadilha que, certamente, feriria meus pulmões e atazanaria minha respiração.


Lentamente, o dia começa a clarear.

O dia principiava lentamente a clarear e logo pude desligar e guardar minha fiel lanterna de “led”.

Nesse primeiro trecho, para minha surpresa, vi grandes culturas de cana-de-açúcar, pois desconhecia sobre seu cultivo no sul de Minas Gerais.

Porém, como nessa região o forte é o gado leiteiro, não sei se o produto resultante dessas plantações é utilizado para alimentar esses animais ou é vendido para usinas processadoras de álcool.


Mais um dia raiando..

Antes de espiar por cima do horizonte, o sol pintou de laranja as bordas das nuvens e o céu ficou ocre.

Por sorte, nesse primeiro tramo, não fui ultrapassado por nenhum automóvel ou motocicleta.


Ao fundo, a derradeira visão da cidade de Jacutinga/MG.

De forma que as distâncias foram sendo sobrepujadas sem intercorrências e, aproximadamente cinco quilômetros vencidos, a 876 metros de altitude, com o dia já claro, ao suplantar leve ascenso, observando à minha retaguarda, pude visualizar Jacutinga, ao longe.

Foi minha derradeira vista da cidade onde se inicia o Caminho da Prece.

Depois, seguiram breves e agradáveis ascensos e descensos que fui vencendo sem maiores preocupações.

Posso dizer que esse caminho se encontra estupendamente bem sinalizado, de maneira que, embora sozinho, segui tranquilo e poucas vezes tive preocupações sobre o rumo a tomar.

E, depois de percorrer 6.800 metros, transitei por um local nominado de Várzea da Forquilha.

O dia que raiara forte, subitamente nublou; um prenúncio da abençoada chuva tão aguardada?

Seria, sem dúvida, um bálsamo, fato que, infelizmente, não se concretizou nesse dia.

A estrada prosseguia fofa, muita terra solta sob solo, e eu sofria muito quando algum veículo motorizado me ultrapassava.


Trecho plano, ao lado de um agradável e fresco bosque de eucaliptos.

Numa bifurcação, mais acima, tomei à esquerda, e tudo ficou mais tranquilo, pois passei a transitar num local plano, ao lado de um extenso bosque de eucaliptos.

Então, relaxei, e segui pensando na morte de forma genérica, posto que perdera meu pai a pouco mais de dois meses.

E, minutos antes eu havia passado ao lado de um gambá que fora atropelado.

Sua cabeça estava rachada, a penugem tremia sob leve brisa, o sangue ainda fresco tingia de vermelho a terra dura.

Não fazia muito tempo ele ainda estava vivo.

E poderia ter sido eu em seu lugar, já que éramos os elos fracos da cadeia de seres na estrada.

A exposição era nossa fragilidade, mas também era nossa força, presente no sentido de alerta constante que nada mais é que um tipo de amor à vida.

Senti um misto de tristeza e de respeito por sua morte.

Bem, o entorno se mostrava maravilhoso, mas, embora o trajeto fosse lógico, pois inexistiam bifurcações, passei um bom tempo sem ver as benfazejas flechas amarelas, que se traduziu num certo desconforto interior, posto que não visualizei ninguém nesse trecho a quem pudesse abordar.

Finalmente, encontrei um casal de idosos vindo em sentido contrário que, ao saberem de minha intenção de ir na direção do bairro Peitudos, me indicaram entrar à esquerda, numa bifurcação próxima.


Nessa bifurcação, eu segui à esquerda.

Foi o que fiz, embora nesse local a sinalização do Caminho da Prece estivesse farta, seria impossível eu me perder.


Enormes estufas nesse trecho.

Mais acima, transitei diante de enormes estufas, todas abrigando canteiros com mudas em seu interior.

Contudo, malgrado minha curiosidade latente, não encontrei ninguém a quem pudesse indagar sobre o produto ali cultivado.

Então, enfrentei ríspido ascendo e, já no topo, a 900 metros, depois de vencidos 11 quilômetros no percurso, ultrapassei o ponto de maior altimetria dessa etapa.


Muita terra fofa no piso. Poeira na certa!

Fato que comemorei fazendo uma pausa para ingestão de uma banana e hidratação.

Enquanto descansava, observava o entorno, pleno de muito verde, infelizmente, prejudicado em sua coloração, em face da estiagem.


Área preparada para plantio.

Também observei extensas áreas aradas, com a terra revolvida, certamente, aguardando a chuva para ser feito um novo plantio.


À frente, enorme plantação de pés de café.

Prosseguindo, agora descendendo, transitei um bom tempo diante de uma fazenda, onde existe imensa plantação de pés de café, uma das maiores que vi de tal cultura nessa etapa.


Tudo cafezal, ao fundo.

Então, após vencidos 13 quilômetros, parei defronte ao primeiro cruzeiro do Caminho da Prece, cuja cruz está fincada num local especial, junto a uma frondosa árvore.


Primeiro cruzeiro do Caminho da Prece.


Momento para refletir e orar.

Ali, uma placa empoeirada convidava o peregrino a uma reflexão, dizendo: “Ore em todas as circunstâncias e em todo lugar.”


A frase diz tudo..

Impossível não fazer uma pausa para agradecimento pelo trajeto até ali suplantado, sem maiores preocupações ou sobressaltos.


Entorno verdejante...

Prosseguindo, seguiu-se mais um quilômetro em meio a exuberante natureza, e logo passei diante da igreja de São Francisco, que ostentava pintura nova.


Igrejinha de São Francisco.

Próximo dali, um cartaz anunciava a presença de um bar, porém ele se encontrava fechado.


Nesse local existe um bar, mas estava fechado.


Restam só 55 quilômetros.

No frontispício de uma lage de um sítio próximo, uma placa afixava numa coluna me avisava que restavam 55 quilômetros até a Basílica de Borda da Mata, sinal que eu já havia caminhado 14 quilômetros até aquele local.


Estrada com muita terra fofa no piso.

Seguiram-se, na sequência, fortes estirões de estradas retilíneas, com raros ascensos ou descensos.


Estrada retilínea nesse trecho.

Nesse entremeio, novamente abundava a terra fofa e, a qualquer passagem de veículos, eu me protegia, pois a poeira que tomava conta do entorno era intensa e eu sofria muito, pois minha respiração ficava comprometida.


Momentos solitários e arejados nesse trecho.

O forte nesse trecho eram as pastagens, com muito gado leiteiro no entorno.


O bairro de Peitudos à frente.

Finalmente, vencidos 18 quilômetros, enquanto descendia, avistei o bairro de Peitudos, cuja sede é, surpreendentemente para mim, a cidade de Ouro Fino.

Localizado no cume de pequena elevação, o roteiro do Caminho da Prece ladeia pelo lado esquerdo, e não adentra ao povoado.

Eu segui o trajeto proposto pelo caminho, mas entrei no Posto de Saúde Municipal onde, além de tomar água, pude conversar com o funcionário que ali atende.

Primeiramente, perguntei se a igreja de São Sebastião estaria aberta naquele horário, ao que ele me respondeu negativamente.

Depois, em tom hilário, indaguei-lhe se o nome do bairro de Peitudos adviria do fato dos homens dali cultivarem o hábito de implantar silicone nos seios.

Ele entrou na brincadeira, e sorrindo me respondeu que sua fama advinha de há mais de 80 anos, tempos de seu avô.

À época, o pessoal ali residente resolvia tudo à base da bala, peitava as autoridades, e homicídios aconteciam por motivos banais.

Tratava-se de um povo hostil e indócil, avesso a forasteiros, que recebia estranhos com violência, onde o revólver falava mais alto que a lei.

Porém, nos dias atuais, o povo desse enclave, como de todo o Estado de Minas Gerais, é honesto, tranquilo e trabalhador.

No entanto, pesquisando na internet, encontrei outras referências a essa denominação, conforme abaixo transcrevo:



Distante quase 23 quilômetros da cidade de Ouro Fino, o bairro de Peitudos recebeu esse nome devido à expressão “peito de morro”, bastante usada na década de 20.

O bairro surgiu no início do século XX, por volta de 1901, quando um fazendeiro fez uma promessa a Nossa Senhora do Carmo para curar-lhe a filha, prometendo erguer uma capela em sua homenagem, fato que se realizou com a construção de uma pequena igrejinha de madeira.

O terreno então foi doado à diocese de Pouso Alegre e várias construções começaram a ser erguidas no entorno do “pequeno santuário” que reunia os agricultores locais, que cultivavam arroz e viviam da pecuária de leite.

Por rodear-se de pequenas colinas o vilarejo começou a ser falado entre moradores da região como “na igreja dos peitos de morro” e depois apenas Peitudos.

Fonte: http://www.dmaaeof.com/


O BAIRRO PEITUDO NA MEMÓRIA E PERCEPÇÃO DE SEUS MORADORES



Ninguém sabe dizer ao certo de onde vem o nome do bairro.

Uns dizem que se deve a um personagem lendário, que viveu muito tempo atrás, e enfrentava todo mundo “no peito”.

Outros atribuem o nome a existência de uma montanha com o formato de um seio feminino.

O certo é que houve uma tentativa de mudar o nome para Itatiporã, mas “não pegou”, por estar a alcunha Peitudo já consolidada pelo uso, muito embora alguns moradores se envergonhem do nome.

O bairro é uma das mais antigas povoações do município de Ouro Fino, e os primeiros registros sobre sua fundação se encontram no Segundo Livro do Tombo, que pertence ao acervo do Centro Pastoral João Paulo II.

Nesse documento, consta que em 1891, os moradores Francisco Ignácio e Antônio Bueno, levantaram um cruzeiro num local que destinaram para ser o largo da futura capela de São Sebastião.

Em 1894 começou a construção da capela com a imagem do santo, que foi benta pelo vigário de Ouro Fino em 1901.

Hoje, transformada em Igreja, ela é o monumento central do pequeno bairro.

Por sua topografia mais plana, o bairro é o principal produtor de milho para o comércio local, e é também um dos que congregam as maiores propriedades do município.

A população do bairro gira em torno de 1.300 pessoas, concentradas nas 120 casas, no seu núcleo “urbano”, e espalhadas pelas propriedades rurais circunvizinhas.

Nesse núcleo urbanizado encontram-se ainda, três mercadinhos, um posto de saúde com enfermeira e atendimento médico e odontológico uma vez por semana, e uma escola para o ensino fundamental.

Os moradores comentam que existe um projeto na prefeitura de Ouro Fino de transformar o bairro em distrito, num futuro próximo.

Mas ninguém parece estar bem certo das vantagens que essa passagem pode representar, embora o bairro Peitudo seja um dos mais ricos do município de Ouro Fino, porquanto, com uma topografia pouco acidentada, é hoje um importante produtor de milho para o comércio local.

Fonte: http://www.sober.org.br/


A rua principal do bairro de Peitudos.

Despedi-me do bom homem e antes de reiniciar meu périplo, pude ver, mais acima, uma pequena mercearia com as portas abertas, onde eu poderia adquirir água ou víveres, se necessitasse.


Seguindo em frente...

Mas eu me encontrava bem hidratado, sem fome, de maneira que resolvi seguir em frente.


Restam 50 quilômetros..

Caminhei mais três quilômetros, por locais planos e arejados, até que fiz outra pausa para hidratação, sob uma grande árvore onde, uma placa nela afixada, me informava que restavam 50 quilômetros até meu aporte final.

Ou seja, até ali eu já havia vencido 21 quilômetros.

Prosseguindo, um quilômetro depois, passei a caminhar sobre bloquetes de cimento, em meio à vasta Fazenda Talismã, que também abriga o Haras Zel.



Um grande cartaz afixado num muro dizia: “Preservando a natureza, gerando empregos”

Para melhor clarificar essa propriedade, transcrevo o que está escrito em seu site:

Localizada em uma das mais belas regiões do Sul de Minas Gerais, no município de Ouro Fino, região rica em terras férteis, em nascentes, inclusive de água mineral, pastagens excelentes, enfim, local adequado para criação de equinos e bovinos, a Fazenda Talismã e Haras ZEL vem realizando um importante trabalho de seleção da raça PAMPA, capitaneado hoje pelo Comendador Laurinho Megale, como é mais conhecido José Lauro Afonso Megale, natural do Rio de Janeiro, casado e pai de três filhos.

A escolha das terras, pelas relevantes características mencionadas, partiu do pai, o saudoso José Lauro Megale, que, ao adquirir a Fazenda Talismã, iniciou seu criatório de equinos da raça PAMPA, MANGALARGA e MANGALARGA MARCHADOR, mas, principalmente, PAMPA, que é a cor do Haras ZEL.

Seus produtos vão desde garanhões, coberturas, matrizes, animais de pista, até inseminações e transferência de embriões.

(Fonte: http://www.haraszel.com.br/)


Fazenda Talismã e Haras Zel.

Prosseguindo, voltei a “comer poeira”, literalmente, pois encontrei o piso fofo nesse trecho, onde algumas máquinas de terraplenagem trabalhavam na manutenção da estrada.


Caminho em leve descenso.

Também, notei um expressivo aumento de tráfego de caminhões e motocicletas, sinal que eu estava próximo da rodovia.


Segundo cruzeiro do Caminho da Prece.

E, depois de caminhar 22.500 metros, encontrei o segundo cruzeiro do Caminho da Prece.


Momento de reflexão.

Uma placa afixada ao lado da cruz me convidava a refletir a respeito da seguinte frase: “Viver é saber conviver com a diferença do outro. Com Cristo, ame, perdoe.”


Quase chegando ao asfalto.

Fiz outra rápida pausa para orações, depois segui adiante.

Mais dois quilômetros vencidos em franco descenso, acabei por desaguar na rodovia MG-459, denominada Dr. Francisco Bueno Brandão, que liga Ouro Fino a Monte Sião.


A rodovia passa depois dos bancos vermelhos.

Então, obedecendo a sinalização, girei à esquerda, e segui caminhando pelo acostamento, no sentido contrário ao fluxo de veículos.

Sabia que enfrentaria mais dois quilômetros em piso duro, algo em torno de 30 minutos.

Então, me descontraí e passei a meditar sobre a busca espiritual de civilizações antigas, quando o homem tentava conectar seu espírito aos espíritos de outros seres, alguns até inanimados.

Animais, insetos, plantas, rochas, montanhas, rios, a lua e o sol – tudo era visto como detentor de sabedoria própria e digno de admiração.

Ainda não prevalecia a ditadura do ser humano sob os demais seres.

Nosso racionalismo artificial ainda não era lei.


Seguindo pelo acostamento da rodovia.

A intuição valia tanto quanto o conhecimento e Deus era uma noção abstrata e abrangente, um mistério; não uma figura humanizada, emotiva e funcional, capaz de ouvir e de intervir nas mesquinharias pessoais.

Ainda hoje sobrevivem antigos sistemas filosófico-religiosos que atestam que todas as criaturas vivem de forma interdependente, num estado intrínseco de sabedoria, amor e compaixão, em que o objetivo final é a harmonia de todos os seres vivos, e não apenas de uma determinada classe ou família.

Nesse contexto, o indivíduo importa menos que a vida presente em tudo e em todos.

Para essas doutrinas, a dinâmica da vida é a rotina infinita de oportunidades de conexão; e quem enxerga isolado, independente e autossuficiente, incapaz de ser refletido no mundo à sua volta e de perceber que carrega o mundo dentro de si, vive desconectado da realidade.


Entrada para o bairro Ponte Preta.

Bem, elucubrações à parte, emergi de meu estado reflexivo quando vi as flechas do caminho me remetendo para a direita, em direção a uma estrada de terra.

Eu me encontrava no bairro Ponte Preta, que também pertence a Ouro Fino.


Como os demais, esse bar também se encontrava fechado.

Ali existe um bar onde eu poderia carimbar minha credencial de peregrino, mas ele se encontrava fechado.

Até aquele local eu já havia vencido, exatos, 27 quilômetros, de forma que aproveitei a estrutura do lugar, e fiz outra pausa para hidratação e ingestão de uma barra de chocolate.

Restavam, aproximadamente 12 quilômetros até Inconfidentes, e o sol finalmente dera o ar da graça e crestava com vigor.

Aproveitei o momento para, também, renovar meu protetor solar, depois prossegui adiante.


Trecho muito belo no início desse tramo final.

Nesse primeiro trecho, encontrei inúmeras chácaras à beira do caminho, algumas com construções recentes.

Quase sempre, de visual belíssimo e extremo bom gosto.


Caminho sem sombras...

Depois retornaram os grandes estirões, planos e retilíneos.

Nesse tramo final, a altimetria se revelou, quase sempre, uniforme, sem alterações importantes.


Restam 40 quilômetros. Quase chegado!

Pena que, praticamente, não havia sombras nesse entremeio.

Um céu azul e sem nuvens, permitia que o astro-rei agredisse com vigor e, embora eu estivesse bem hidratado e com boné de legionário, sofri muito nesse tramo final.


Enfrentei muita poeira nesse trecho.

Esse trecho também é muito belo, pena que, como estava fatigado pela poeira aspirada, não tenha uma lembrança nítida da sequência do caminho.

Depois de vencidos 32 quilômetros, transitei pelo bairro de Pereiras.


Bar Beira-Rio. Bairro Ponte Branca.

E, na sequência, logo adiante, passei diante do bar Beira-rio, localizado no bairro Ponte Branca, outro parceiro do Caminho da Prece.

Contudo, como os demais, ele também se encontrava fechado.


Sol de rachar....

A partir daí, restando aproximadamente 7 quilômetros para a chegada, sob forte calor e baixa umidade no ar, eu me sentia no limite, em termos físicos.

Ademais, a poeira voltou a incomodar, e toda a vez que algum veículo passava pela estrada eu tossia compulsivamente.


Caminho plano no trecho final.

Lentamente, a exaustão foi tomando conta de meu corpo, e passei a caminhar buscando ânimo nas orações.

No derradeiro quilômetro, antes de adentrar em zona urbana, havia tanto pó na estrada e tráfego intenso, que segui meio que curvado, como forma de me proteger.


Faltam dois quilômetros para chegar em Inconfidentes/MG.

Sei que existe um cruzeiro, o terceiro do Caminho da Prece, fincado no 37º quilômetro, mas passei sem poder visualizá-lo, tamanha era meu desespero em termos respiratórios.


Muito sol e poeira nesse tramo final.

Efetivamente, não chovia na região há mais de 30 dias e, todos que caminham ou residem à beira da estrada, sabem que a inalação de pó, faz muito mal à saúde.

Adentrei em Inconfidentes e logo parei no bar do Maurão para carimbar minha credencial, um local onde os peregrinos se sentem em casa, tamanho o calor humano ali dispensado.

Mauro Bertachin, o proprietário do estabelecimento, é uma pessoa incrível e bonachona, com um profundo conhecimento sobre os “Caminhos” da região, pois já foi, por inúmeras vezes, como romeiro, caminhando até Aparecida.


Maurão na porta do seu bar em Inconfidentes/MG. Gente finíssima!

Eu não via o meu amigo desde 2005, ano de minha primeira peregrinação pelo Caminho da Fé e, após fotografá-lo, ganhei um caloroso abraço.

Nas outras quatro vezes que passei diante de seu estabelecimento, este se encontrava fechado, pois, como sempre pernoitava em Ouro Fino, transitava ali ao redor da 7 horas, horário em que seu bar ainda estava inoperante.

Enquanto ali permaneci me hidratando, chegaram 5 ciclistas residentes em Pederneiras, que haviam iniciado o Caminho da Fé em São João da Boa Vista.

Naquele dia partiram da Barra e, até ali, haviam percorrido 31 quilômetros.

Para meu gáudio, a pé, eu tinha vencido 38.000 metros, façanha que os impressionou.

Ao redor das 13 horas, me dirigi à Pousada Martinelli, onde havia feito reserva.

No entanto, para a minha surpresa, a atendente me comunicou que eu só poderia ter acesso ao quarto às 14 horas, conforme as normas da casa.

Oras, estávamos numa quarta-feira onde, convenhamos, não existe um incremento tão expressivo de hóspedes ou turistas.

Eu estava cansado, sedento, malcheiroso, face ao pó e ao suor acumulado em minha roupa, e necessitava de um banho com urgência.

E, como bem afirmou meu dileto amigo peregrino Oswaldo Francisco Bueno, peregrinos são almas de luz, seres angelicais, tudo de bom!

Desse forma, eu não poderia ficar aguardando por mais 60 minutos para me alojar nesse estabelecimento, posto que não era um turista motorizado.

Ao revés, uma pessoa que peregrinava, enfrentara todas as dificuldades inerentes aos caminhantes naquele dia e, por isso mesmo, deveria ser tratada com mais respeito e consideração.

Assim, prontamente cancelei minha reserva e, incontinenti, me dirigi ao Hotel Bororó onde, por R$50,00, pude dispor de um quarto individual, de razoável conforto.

Todavia, nesse valor não estava incluso o café da manhã.

Depois de me banhar e lavar roupas, retornei uns 200 metros, e fui almoçar no Restaurante Martinelli, de excelente qualidade, que trabalha no sistema “self-service”.

Ao término da saborosa refeição, retornei ao local de pernoite para descansar, pois o percurso fora exigente.


Avenida principal de Inconfidentes/MG

Localizado no Sul de Minas, distante 441 quilômetros de Belo Horizonte, o município se assenta numa área de 145 quilômetros quadrados.

O Rio Moji-Guaçu é o principal curso d'água, e a vida econômica tem por base a agropecuária, destacando-se a produção de alho, leite, café e feijão, mas desenvolve também atividades industriais de extração de felspato, quartzos, caulim e areia para vidros.

Tudo surgiu quando, em 1909, o Governo do Estado doou à União 810 hectares de terras, para criação de uma colônia agrícola para estrangeiros.

Os bandeirantes, estabelecidos às margens do rio Moji-Guaçu, atraídos pelo ouro das Gerais, foram os primeiros habitantes da região onde se situa Inconfidentes.

Foi a agricultura, entretanto, e não mais a mineração, a atividade que obteve os melhores resultados.

O cultivo do solo constituiu a base econômica do povoado de Mogi-Acima, antiga denominação de Inconfidentes.

As terras destinadas à atividade agrícola, desapropriadas pelo governo do Estado, foram doadas ao governo federal, para instalar naquele local uma colônia agrícola - Núcleo Colonial de Ouro Fino - onde colonos estrangeiros viriam a ser a grande maioria.


Igreja matriz de Inconfidentes/MG

O nome atual foi dado na primeira década do século XX, em homenagem aos heróis da Inconfidência Mineira, com destaque para Alvarenga Peixoto, antigo proprietário de uma fazenda na região.

Nesta mesma época, iniciou-se a construção da primeira capela do núcleo.

O distrito de Inconfidentes foi criado em 1953 e o município emancipou-se em 1962, desmembrando-se de Ouro Fino.

Hoje em dia, a principal fonte de renda do município gira entorno da produção e comercialização de crochê e malhas.

Com efeito, ele conta com dezenas de malharias e fábricas de fio para crochê, e a população colabora com a produção de crochê, que é feita manualmente.

Trata-se de uma cidade bonita e tranquila para se viver e visitar, sendo rodeada por belas montanhas e apresentando um clima muito agradável.

Suas ruas são bem arborizadas, sendo realizados constantes plantios de árvores através de um projeto em parceria entre o Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais, Campus Inconfidentes-MG, e Prefeitura Municipal de Inconfidentes-MG.

Além da exposição de crochê e malhas, que é realizada em junho, onde comparecem pessoas do Brasil todo, na cidade existem mais duas celebrações tradicionais: a Festa de São Geraldo Majela (Outubro), e o Arraiá Beneficente (Julho/Agosto), que sempre é sucesso de público.

População: 7 mil pessoas.

Fonte: Wikipédia


IFSULDEMINAS - Instituto Federal Sul de Minas Gerais - Campus Inconfidentes

Inconfidentes é terra de gente do bem, a começar pelo Maurão, dono do bar homônimo, um referencial para os peregrinos do Caminho da Fé.

Mas nessa cidade também trabalha o meu amigo Oswaldo Francisco Bueno, que eu conhecia apenas das redes sociais, e a quem eu queria abraçar pessoalmente.

O Maurão prontamente discou para ele, passou-me o telefone, e marcamos um encontro para as 16 h 30 min, visto que ele frequentava um curso naquele dia.

Tal evento ocorria no IFSULDEMINAS - Instituto Federal Sul de Minas Gerais - Campus Inconfidentes, onde meu amigo também é professor.

Atualmente ele é um dos coordenadores do INCETEC - Incubadora de Empresas de Base Tecnológica do Campus Inconfidentes.

No horário adredemente avençado, nos encontramos e pudemos matar saudades e curiosidades.

O “Pequeno Duende”, como carinhosamente é conhecido na cidade, mostrou ser uma pessoa culta, educada e dono de vastos conhecimentos técnicos, mormente naqueles voltados para a agricultura, já que é Técnico em Agropecuária.

Passamos bons momentos no bar do Maurão, onde ingerimos algumas cervejas e conversamos bastante sobre peregrinações, visto que meu xará também já percorreu o Caminho da Fé várias vezes.


Com o Maurão e o meu xará!

A última, agora mesmo, em julho de 2015.

A conversa estava boa e animada, porém, face ao adiantado do horário, o “Oswaldinho” precisava retornar a cidade de Ouro Fino, onde reside, e eu queria escrever meu diário e descansar, porque a jornada sequente também seria bastante exigente.

Assim, seguimos juntos pela Avenida Alvarenga Peixoto, até próximo do Hotel Bororó, onde ele adentrou em um coletivo e seguiu para casa.

Antes, contudo, nos despedimos como fazem os bêbados e os velhos companheiros de armas, e tenho certeza de que se não fosse por ele, meu Caminho da Prece não seria tão colorido e eu não teria aprendido lições importantes, que só professores de cátedra como ele podem ministrar.

Já no quarto, enquanto preparava um lanche para ingerir no dia seguinte, durante a caminhada, algo me fez pensar sobre receitas de felicidade.

Lembrei-me, então, de um texto escrito pelo Cicloculturista Guilherme Cavallari, em seu livro “TRANSPATAGÔNIA – PUMAS NÃO COMEM CICLISTAS”. (Editora Kalapalo)

Muita gente parece ter fórmulas, escreve livros, produz filmes, dá palestras e populariza conceitos. Para ser feliz é preciso ter saúde, dinheiro, família, amigos, trabalho, filhos, residência, prestígio, respeito, segurança, estabilidade, sonhos e um cão golden retriever correndo solto pela praia. É preciso ser magro, alegre, generoso, leve, bem-humorado, vegetariano, desapegado, verdadeiro, objetivo, produtivo, consciente, altruísta, jogador de futebol ou atriz de telenovela. Escolha apenas um item de cada lista ou todos, tanto faz. O que está nas entrelinhas é que felicidade custa caro. Ou é grátis, mas difícil de encontrar. Ou ainda, que está diante de nosso nariz e mesmo assim não se deixa enxergar. Mas certamente, é impossível manter. Um quebra-cabeça sem solução composto de frases prontas e de lugares-comuns. Para completar, algum gênio sentenciou que o segredo não é encontrar a felicidade, mas passar a vida buscando, como se isso fizesse qualquer sentido ou servisse de consolo. O resultado final é que, não importa para onde olharmos, e inclusive se olharmos no espelho, veremos pessoas atormentadas por não conseguirem encontrar ou sustentar a felicidade. Mas a verdade que ninguém admite é que felicidade causa estresse. Já que ninguém consegue definir o que é e onde está a felicidade, fica mais fácil definir o que é infelicidade: tudo aquilo que não temos e não somos. Uma lista quase infinita.”


O "Pequeno Duende" e este peregrino que vos fala.

De repente, meditando sobre as últimas 24 horas, depois que deixara minha residência, constatei que conhecera Jacutinga, abraçara os amigos Polly e Ely naquela cidade, vencera uma etapa de quase 39 quilômetros caminhando e, ainda, pudera rever, após 10 anos, meu amigo Maurão, bem como estreitar amizade com meu ilustre xará professor.

Durante esse interregno eu havia me esquecido da felicidade..

E, ironia do destino, nunca fora tão feliz.


Obs: Para ver essa trilha no GPS, bem como sua altimetria detalhada, acesse: http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=9928169


AVALIAÇÃO PESSOAL: Uma jornada de grande extensão, cujo grau de dificuldade se intensificou pela longa estiagem vivenciada na região. Ademais, a grossa camada de poeira que cobria praticamente toda a estrada, tornou-se um grande empecilho a ser suplantado. No entanto, o caminho é muito belo nessa etapa e, salvo por três pequenas elevações a serem vencidas, não apresenta maiores obstáculos em termos de altimetria. No global, um trajeto longo e desgastante, mas que superei à base de muita garra e orações.


 ‎VOLTAR    -    2º dia: INCONFIDENTES/MG à BORDA DA MATA/MG – 32 quilômetros