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2º dia: INCONFIDENTES/MG à BORDA DA MATA/MG – 32 quilômetros


2º dia: INCONFIDENTES/MG à BORDA DA MATA/MG – 32 quilômetros




"Em minhas preces de todo dia, sempre peço coragem e paciência. Coragem para continuar superando as dificuldades do caminho naqueles que não me compreendem. E paciência, para não me entregar ao desânimo diante das minhas fraquezas!" (Chico Xavier)


Altimetria dessa etapa

A jornada não seria tão extensa quanto a anterior, no entanto, seu perfil altimétrico me impressionara, porquanto, eu precisaria sobrelevar, no mínimo, 4 elevações.

E como não haveria chuva, ao revés, seria um dia de muito sol, resolvi sair bem cedo, como de praxe.

Assim, levantei às 4 h e, às 5 h 15 min, depois de ingerir frutas e uma barra de chocolate, dei início a minha peregrinação.

Então, deixei o local de pernoite e prossegui, em frente, pela Avenida Alvarenga Peixoto.

Alguns metros depois, eu transpus a rodovia MG-295, depois segui adiante indefinidamente, sob um piso de bloquetes.

Após percorrer 2.300 metros, a avenida prosseguiu à direita e eu, atento à sinalização, com a lanterna na mão, segui à esquerda, e logo teve início um forte aclive.

A manhã se apresentava fria, temperatura na casa dos 14 graus, propícia para caminhar, de maneira que eu segui animado e fui vencendo as distâncias, passo a passo.

E depois de percorrer 4.500 metros, atingi o topo da primeira elevação que necessitaria suplantar nesse dia.

Ali eu estava a 1.047 m de altitude e um vento frio fustigava o entorno.

O dia ainda não raiara, mas localizei o primeiro cruzeiro do dia, fincado nesse local, próximo a uma árvore.

Aproveitei o momento, e fiz uma pausa para reflexão e orações.

Na sequência, fotografei a cruz e a placa ali cravadas, porém, não sei se por falha da câmera ou incompetência do fotógrafo, ambos os retratos que bati saíram tremidos e escuros.

Impublicáveis, então.


Muita cerração no entorno.

Prosseguindo, iniciou-se agradável descenso que fui vencendo com muito cuidado, pois havia muita cerração no entorno.

O dia lentamente ia raiando e, observando o entorno, constatei que o forte naquele trecho era a criação de gado.


Frio e neblina nesse trecho.

Uma grande várzea, situada a minha esquerda, estava totalmente encoberta pela neblina.

Uma impenetrável massa de ar branco cobria toda a paisagem.


Caminho fresco e arejado.

Por conta disso, o clima afigurava-se úmido e fresco, favorecendo a introspecção.


Muito gado nesse primeiro trecho do Caminho.

Todavia, relembrei apropriado adágio popular que conheço desde a mocidade: “Se, cerração no raiar, ao meio-dia, sol de rachar!”

Assim, apressei minhas passadas.


Bar existente no bairro Boa Vista de Adelaide.

E, sem maiores problemas, 8.300 metros caminhados em bom ritmo, cheguei ao bairro de Boa Vista de Adelaide.

Ali existe um bar que dá apoio ao Caminho da Prece, contudo, face ao horário extemporâneo, ele se encontrava fechado.


Igrejinha existente no bairro Boa Vista de Adelaide.

Aproveitei para fotografar o singelo templo existente no local, que me pareceu estar em reformas.

Um senhor, bem agasalhado e com um picuá às costas, passava de bicicleta e trocamos algumas palavras.


A neblina continua.

Depois, ele seguiu em frente, enquanto eu, observando atentamente a sinalização, fleti à direita e prossegui em leve descenso.


Finalmente, o sol vai aparecendo.

O sol finalmente deu o ar da graça e lentamente a temperatura principiou a se elevar.

O roteiro seguiu em leve descenso, por caminhos largos e bem definidos onde, por sorte, encontrei um piso mais socado que no dia anterior.


Caminho plano, já com sol.

Sinal de que a manutenção nesse trecho fora feita já a algum tempo.

Vencidos 11.400 metros, com ótima disposição, passei diante da Venda da Ziza, outro local parceiro do Caminho da Prece.


Venda da Ziza.

Contudo, como os demais estabelecimentos do gênero que encontrei nessa etapa, ela também se encontrava fechada.

Ali eu girei à direita, e segui por locais repletos em pastagens verdejantes.


Entorno belíssimo e bucólico.

Por conta disso, eu tinha plena visão do horizonte, que se mostrava maravilhoso, referto de muito verde.


Restam só 20 quilômetros..

E logo passei diante de uma placa afixada numa árvore, que me informava restarem 20 quilômetros para a chegada.

Ou seja, até ali eu já havia caminhado 12.400 metros.

O entorno prosseguiu bucólico, arejado e, nesse trecho específico, cruzei com 3 motocicletas, no máximo.


Caminho silencioso e solitário.

Ou seja, eu estava sozinho no caminho e tinha tempo para apreciar o panorama e agradecer ao Criador pelo dom da vida, a saúde perfeita.


Muitas pastagens no entorno.

Morros me ladeavam por ambos os lados, mas o caminho, salvo raras exceções, seguiu praticamente plano nesse agradável entremeio.

Nesse tramo, avistei ainda vales profundos, ladeados por encostas íngremes e, em determinados locais, caminhei próximo a bosques fechados.

O cenário era confinado e ao mesmo tempo majestoso, o tipo de paisagem que obriga o peregrino a caminhar de cabeça erguida, para nada perder em termos de beleza, da excelsa natureza circundante.


Ao fundo, belas elevações por onde eu ainda iria transitar.

Em determinado local, encontrei um trabalhador que puxava um cavalo, em cujo dorso iam pendurados dois balaios e, dentro deles, grandes galões de leite, que seriam entregues à Cooperativa que faz a coleta diária desse produto na região.

Paramos alguns minutos para conversar e notei que seu lábio inferior estava aberto bem no meio por uma grande rachadura de frio, uma chaga seca e amarelada nas laterias e ainda vermelha e viva no centro.

Enquanto trocávamos informações sobre aquele enclave onde ele vivia e trabalhava, eu me esforçava para não olhar a ferida, mas era quase impossível.

Parti com pena do pobre homem, pois certamente o ferimento era produto do frio que grassa naquele local, mormente no inverno, pois está localizado acima de 1.000 metros de altitude.

E ele, para exercer seu ofício, deveria pular cedo da cama e enfrentar diariamente o ar gelado da madrugada.


Quinto cruzeiro do Caminho da Prece.

Finalmente, 14.500 metros vencidos, encontrei o segundo cruzeiro existente nessa etapa.


Momento de orar e agradecer a Deus.

Ele está localizado junto a uma árvore, e uma placa fincada ao seu lado, me convidava novamente a refletir, com a seguinte expressão: “Começamos a ser feliz a partir do momento que fazemos algo para a felicidade do outro.”


Visual fantástico.

Foi outro bom momento que utilizei para recuperar forças e externar orações, pois percebia em meu íntimo, que a cada passo que dava, mais sentia Deus próximo de mim.


Fazenda Jeruzalém.

Prosseguindo, enfrentei pequeno ascenso, e logo passei diante da Fazenda Jerusalém onde outra placa afixada numa cerca, também incentivava a reflexão, nos seguintes termos: “Que aproveitaria o homem ganhar todo o dinheiro do mundo e perder sua alma.” (Marcos 8-36)


Vista de "encher os olhos".

Seguindo adiante, pelo meu lado direito abriu-se extenso vale, onde avistei várias habitações e grandes culturas de café.


Muito verde, morros, rios, árvores, plantações...

Um grande morro o cercava pelo lado oposto e fiz uma pausa para fotos, porque o local é de maviosa beleza.


Um grande bambuzal ladeia o caminho nesse trecho.

Mais adiante, por uma estrada plana e retilínea, eu caminhei um bom tempo ao lado de frondoso bambuzal.

À frente, após emergir de outro fresco bosque, acabei passando pelo bairro de Paredes, que pertence ao município de Tocos do Moji.


Bairro Paredes.

Até aquele local eu já percorrera 17.400 metros e ainda me encontrava com bastante disposição, embora soubesse que as maiores dificuldades dessa etapa ainda estivessem por acontecer.

Por uma ponte, eu transpus o rio Mogi Guaçu e, já do outro lado, parei ao lado de outro bar, onde eu poderia carimbar minha credencial peregrina, se ele também não estivesse com as portas cerradas.

De qualquer forma, um cartaz ali colocado me avisava que eu estava distante 16 quilômetros de Borda da Mata.


Quase chegando! Restam 16 quilômetros!

Utilizando a estrutura existente no local, fiz outra pausa para hidratação e ingestão de uma banana.

Aproveitei a ocasião para, também, renovar o protetor solar, pois o sol já crestava com vigor.

Na sequência, lentamente o roteiro foi empinando e prossegui um bom trecho em ascensão.


Visual belíssimo do meu lado esquerdo.

Depois de 21 quilômetros percorridos, cheguei ao topo de outra elevação e ali, a 1.076 metros de altitude, fiz uma pausa para respirar e fotografar o entorno, que se mostrava espetacular.


Início de outro rude ascenso.

O trecho sequencial também se mostrou belíssimo, pleno de pequenos ascensos e descenso.

Em determinado local, passei diante da igrejinha dedicada a São Francisco, que vestia pintura nova.


Igreja de São Francisco.

Três pessoas aguardavam a passagem do caminhão que recolhe o leite, para entregar os seus produtos, então travei breve diálogo com elas.

Uma delas me perguntou se eu estava sozinho na trilha, ao que lhe respondi sorrindo, que seguíamos em três: eu, Deus e Nossa Senhora.

Ato contínuo, apontei para o broche com o retrato da Mãe Maria que estava afixado em minha camiseta.

Ela então emendou: Vá em paz, pois você está muito bem acompanhado!


Visual fantástico que ia ficando à minha retaguarda.

O caminho voltou novamente a ascender e a todo momento eu volvia os olhos para a retaguarda e podia visualizar a bela paisagem que ia ficando para trás.

Muito verde, morros, plantações de café, lagos, a natureza em flor, enfim, uma vista de “encher os olhos”.


Caminho sem sombras.

Em determinado local, uma placa afixada no tronco de um coqueiro me informava que restavam, exatos, 10 quilômetros para a chegada.


Restam 10 quilômetros.

Então, enfrentei outro ríspido ascenso e, no final deste, no topo do morro, a 1.100 metros de altitude, alcancei o local de maior altimetria do Caminho da Prece.


Chegando ao ponto de maior altimetria do Caminho.

Enquanto eu transpirava para vencer a encosta, dois carros passaram por mim e buzinaram como forma de incentivo.


Sexto cruzeiro do Caminho da Prece.

A estrada por onde eu seguia desaguou noutra maior e ali, junto a uma frondente árvore, encontrei fincado o sexto e derradeiro cruzeiro do Caminho.


Orar faz bem!

Ao seu lado, uma placa também me convidava a refletir, estampando a seguinte frase: “A oração nem sempre nos livra do sofrimento, mas sempre nos reveste de força para suportá-lo.”

Daquele local, eu detinha uma visão ampla de todo o entorno, quase todo ele composto por extensas pastagens.


Visão ampla, do meu lado direito.

Até ali eu já havia vencido 24.300 metros e restavam poucos quilômetros para o final do caminho.

Fiz, mais uma vez, outra pausa para hidratação e agradecimentos ao Criador por minha saúde e pela família que tenho.


Forte descenso.

Seguindo adiante, prossegui agora em desabalado descenso.

Que culminou, no final da longa descendência, no bairro Mogi, que também pertence ao município de Tocos do Moji.

Fiz uma foto da bela capelinha que ali existe, que também ostentava pintura recente.


Igrejinha do bairro Mogi.

Havia uma pequena venda aberta do lado esquerdo da estrada e para lá me dirigi, pensando em carimbar minha credencial, pois havia um cartaz do Caminho pregado em sua parede frontal.

Ocorre que não havia nenhuma atendente no estabelecimento, e como já fazia um calor infernal, preferi seguir adiante.


A derradeira elevação dessa etapa.

Ainda enfrentei mais 2 pequenas elevações, a primeira com 1.042 metros e, logo em seguida, outra de 1.050 metros.

Então, o caminho finalmente aplainou e, logo depois, voltou a descender suavemente.


Ao longe a cidade de Borda da Mata.

Num local onde o entorno se abriu, pude avistar do lado direito e, ao longe, os contornos da cidade de Borda da Mata, minha meta para aquele dia.

Infelizmente, encontrei bastante terra solta nesse tramo final, sendo que ainda engoli um pouco de pó, visto que o trânsito de veículos sofreu um acréscimo nos derradeiros quilômetros.

Após vencer cuidadosamente outro forte descenso, acabei por desaguar na rodovia MG-290, que provinha de Inconfidentes, num local conhecido como balança, e onde foi edificado o Portal da cidade de Borda da Mata.


Encontro com a rodovia que provém de Inconfidentes/MG.

Então, segui caminhando pelo acostamento, no sentido contrário ao trânsito de veículos, e 2.500 metros depois, aportei ao Hotel San Diego.


Hotel San Diego.

Para a minha surpresa, visto que pensei ser desnecessário fazer reservas para dias de semana, encontrei o estabelecimento com lotação esgotada, bem como os outros hotéis existentes na cidade, porque haveria um evento de Jipeiros na região e o pessoal chegaria naquele dia, porém, apenas à noite.

Assim, paguei meia diária e negociei minha saída do local para as 17 horas.

Então, depois de revigorante banho, desci para almoçar no restaurante Sal & Pimenta, que funciona no piso térreo do hotel, onde ingeri uma típica comida mineira.



Borda da Mata é uma típica cidade do Sul de Minas, com clima ameno, belas paisagens, povo hospitaleiro e boa culinária.

Em 2014, a população de Borda da Mata foi estimada, segundo o IBGE, em 18.481 habitantes.

Com área territorial de 301.108 km², Borda da Mata produz cerca de 900 toneladas de café em grão por ano em uma área de 750 hectares.

Além disso, o município tem participação expressiva no cultivo de milho, feijão, arroz, mandioca e batata.

Na pecuária, destaca-se a criação de gado de corte, em 2013, a produção foi de quase 28 mil cabeças.

A produção de galináceos também é expressiva, com total de quase 24 mil cabeças.


Praça principal de Borda da Mata/MG.

Integrante do Circuito Turístico das Malhas do Sul de Minas, a cidade se destaca pela produção de pijamas e tecelagens, as quais são conhecidas em todo o país, atraem turistas para compras, e movimentam o comércio local.

Nossa Senhora do Carmo é a padroeira do município, e em 2005, a igreja Matriz foi elevada a Basílica pelo Papa Bento XVI.

O título confere “uma qualidade moral que infunde respeito, elevação, nobreza e autoridade, tributada por merecimento.


Praça principal de Borda da Mata/MG.

A dignidade é o fundamento e a razão do título”, de acordo com o site oficial da Basílica do Carmo de Borda da Mata: basilicadocarmo.org.br.

A cidade também está inserida na rota do Caminho da Fé, no qual fiéis percorrem a pé quase 500 quilômetros de Águas da Prata/SP até Aparecida/SP, atravessando a Serra da Mantiqueira por estradas vicinais, trilhas, bosques e asfalto, e por mais de 15 cidades.

A emancipação política do município aconteceu em 16 de novembro de 1924, no entanto, a festa de aniversário da cidade é comemorada em 16 de julho, no mesmo dia da padroeira da cidade.


Igreja matriz de Borda da Mata/MG.

Mais tarde, após profícuo descanso, segui até a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, e ali pude novamente agradecer a Mãe Maria, por mais essa vitória.

Fora uma conquista difícil, marcada por duas jornadas ríspidas, onde despendi muito suor e aspirei poeira em profusão mas, como de outras vezes, sem qualquer outra intercorrência importante.

Findas as preces, me dirigi à Sacristia da igreja e ali, emocionado, recebi meu diploma peregrino do Caminho da Prece.


Meu diploma do Caminho da Prece

Galardão que, como os demais, guardarei com muito carinho.

Então, após os aprestos finais, tomei um ônibus e retornei ao meu lar.

E, na viagem de volta, quando houve uma parada técnica na rodoviária de Jacutinga, pude novamente rever o Polly, que fez questão de ir até lá me abraçar e entregar uma camiseta alusiva ao Caminho da Fé, roteiro para onde ele seguiria no dia seguinte.

E, graças ao carismático amigo, foi essa a derradeira emoção que senti nesse roteiro abençoado, nominado de Caminho da Prece.


Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós!

Obs: Para ver essa trilha no GPS, bem como sua altimetria detalhada, acesse: http://pt.wikiloc.com/wikiloc/view.do?id=9928007

IMPRESSÃO PESSOAL: Uma jornada de média extensão, mas bastante exigente em termos de altimetria, visto ser preciso sobrelevar 5 elevações no trajeto. Nada que se comparece em termos de dificuldades ao Caminho da Fé, por exemplo. De qualquer maneira, necessário um razoável preparo físico para caminhar confortável nessa etapa. Que, como o anterior, também sofria com a estiagem que se abatia sobre a região. No global, um percurso agradável aos nossos olhos, pleno de belezas naturais, e onde a natureza oferece paisagens encantadoras.


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